O festival de irresponsabilidade

(José Pacheco Pereira, in Público, 22/12/2018)

JPP

Pacheco Pereira

A manifestação “Vamos parar Portugal” é o primeiro sinal exterior de um populismo larvar que medra pelas redes sociais fora e que era só uma questão de tempo até querer sair delas para a rua. Saiu agora e mostrou a enorme diferença entre os apoios mais ou menos incendiários “dentro” e a escassez de apoios “fora”.

O que se passou com a manifestação dos chamados “coletes amarelos” portugueses é disso um verdadeiro exemplo. Deixemos a parte de leão que têm as malfeitorias dos deputados, dos governantes, dos políticos activos, desde o pequeno truque para ganhar mais uns tostões no fim do mês até à corrupção da pesada. É grave, mas o seu papel não é único, nem tão decisivo como parece.

Há também uma indústria da denúncia da corrupção, verdadeira ou falsa, exagerada quase sempre, que vai desde políticos propriamente ditos que fazem da “luta contra a corrupção” um instrumento de existência e de vantagem eleitoral, muitas vezes com enorme duplicidade entre os “nossos” que são desculpados e os “deles” que são atacados por sistema, até à imprensa e televisão tablóide que é hoje predominante. Os mecanismos de cobertura dos eventos são cada vez menos jornalísticos, “notícias” inverificadas, obsessão pela “culpa”, muitas vezes antes de se saber se ela existe, menosprezo pela descrição dos eventos a favor do comentário conspirativo, tudo isso acentua o discurso populista.

Voltemos ao “Vamos parar Portugal”. Esta manifestação teve excepcionais condições de propaganda para sair de fora do casulo das redes sociais. A ideia de que estas manifestações vivem essencialmente dos apelos nas redes sociais é, para não dizer mais, enganadora. E é claramente um dos mitos actuais, subsidiário do deslumbramento tecnológico, que se repete sem escrutínio desde a “Primavera árabe”, como atestam todos os estudos, mostrando que as redes sociais estão longe de ter o papel que se lhes atribui. Não adianta, é um mito urbano, logo tem pernas para andar.

Esse mito oculta que as manifestações com algum sucesso que nasceram nas redes sociais só ganham dimensão quando passam para as páginas dos jornais e os noticiários da televisão, ou seja, para os media convencionais. Esta é a segunda manifestação em Portugal que tudo deve ao modo como a comunicação social resolveu tratar este tipo de protestos. A primeira foi a manifestação do “Que se lixe a troika”, que beneficiou de uma grande simpatia dos jornalistas (correlativa da antipatia no tratamento das manifestações sindicais), e a segunda foi esta, que suscitou sentimentos contraditórios entre o desejo de que houvesse pancadaria, porque isso dá boa televisão, anima a política e “chateia o Costa”, até à exploração do medo.

Aliás, é interessante ver como foi evoluindo o contínuo media-redes sociais e alguns sectores políticos da direita que não disfarçavam a expectativa da contestação para contrariar a “ditadura” de Costa e da “geringonça”, até à extrema-direita (o PNR teve uma presença importante entre os manifestantes) e a fina alt-right do Observador, que passou do alarmismo para o “fiasco”.

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Mas faça-se justiça ao Observador, que não esteve sozinho: a cobertura mediática anterior à manifestação foi de muito má qualidade, exagerada, alarmista, desproporcionada e mostrando muito pouco conhecimento sobre o que se passava, sugerindo muitas vezes que da passividade sonâmbula e hipnótica da “geringonça” se iria passar para um país a ferro e fogo.

Esta atitude foi também a do Presidente da República e do Governo, ambos alimentando um alarmismo exagerado, com gestos que seriam completamente contraproducentes, caso existisse mesmo o perigo de as coisas descambarem. O que eles fizeram com passeios “apaziguadores” com camionistas, que pelos vistos não tiveram nenhuma presença destacada no “Vamos parar Portugal”, ou com avisos de que se estava num “alerta vermelho”, foi a melhor propaganda que se poderia fazer para um movimento que nunca deixou de ser débil. O “Vamos parar Portugal” não falhou por falta de propaganda, falhou por falta de pessoas.

O alarmismo irresponsável das autoridades mostra também que não há “inteligência” sobre estes grupos, ou que, se existe, é de muito má qualidade – ou seja, ou não sabiam de nada do que se ia passar, ou então resolveram fazer uma actuação exemplar com antecedência para dissuadir o que se possa vir a passar um dia futuro. Seja como for, é brincar com o fogo.

Eu ouvi um dos “organizadores” dizer que iriam para a rua um milhão de pessoas, o que nos dá a medida da ilusão. Mas seria uma ilusão ainda maior ignorar que há muita gente zangada, há cada vez mais gente que já não pensa em termos democráticos, mas em termos de “nós” (o povo) e “eles” (os políticos) – a essência do populismo, para simplificar –​ e que o combustível para a zanga e para as ideias que nascem da zanga é cada vez mais abundante.

Como é igualmente abundante a completa irresponsabilidade com que se alimenta essa fogueira escondida, como se viu a pretexto destes protestos que nunca pararam Portugal, mas parecem ter parado a cabeça a muita gente.

 

O drama da direita portuguesa – Dos coletes amarelos aos sorrisos amarelos

(Rodrigo Sousa Castro, 22/12/2018)

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A Direita portuguesa, orgânica e inorgânica jogou todas as cartas numa espectacular movimentação de rua para demonstrar que a actual solução politica tinha caducada e era hora de preparar a mudança.

PSD e CDS, tais como pequenos grupos emergentes como o partido Aliança, o Chega do Ventura ou a Iniciativa Liberal, mobilizaram todas as suas esperanças, os primeiros através de subliminares e acanhados discursos de apoio públicos (não fosse o Diabo tecê-las, isto é não comparecer) mas contaram sobretudo com a indefectível propaganda dos grandes MIDIA, jornais e TV’s, numa exuberante demonstração de que através dos grupos económicos predadores dominam toda a comunicação social.

A poderosa e massiva campanha de lançamento desta operação não comoveu os portugueses e a rua ficou deserta, para desespero envergonhado de todos os incumbentes de Rui Rio a Cristas, de Santana a Ventura e Pinto Coelho.

A comunicação social, sobretudo as TV’s, confrontadas com o fracasso inesperado, puxaram pelos retardatários, exibiram sistemáticos planos fechados, multiplicaram os escassos manifestantes, lançaram títulos alarmistas, transformaram uma pisadela de calos em roubo de igreja e morte de homem, mergulhando assim ainda mais no lodo para o qual os seus profissionais, e alguns devem ser honestos, se deixaram arrastar ou foram empurrados.

A razão do fracasso parece ser simples e a Direita se quiser sobreviver tem que a entender: a solução politica actual, por escassa e mínima que seja é melhor que a anterior e, mais importante, é melhor e mais consistente do que promete o discurso vazio e de ideias gerais de Rui Rio ou que o discurso confrangedoramente demagógico de Assunção Cristas.

Ninguém de boa fé, trocará Centeno por um qualquer Gaspar ou Maria Luisa Albuquerque, nem Costa por uma qualquer Cristas. 

Desta operação fraudulenta fica o lamento patético do Rangel eurodeputado, que sem pudor culpou o governo e as forças de segurança pelo fracasso.

Que tenham todos um Bom Natal.

A mobilização dos “coletes amarelos” – nova etapa das lutas em França

(Rémy Herrera, in Resistir, 22/11/2018)

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É uma mobilização de massa profundamente nova a que surgiu nestas últimas semanas em França: a dos “coletes amarelos”. O vestuário de alta visibilidade (todo automobilista deve ter um a bordo do veículo, por segurança) é usado como sinal unificador. Centenas de milhares de franceses manifestam assim a sua desaprovação em relação à actuação do presidente Emmanuel Macron.

Trata-se de uma mobilização nova pela sua origem, sua amplitude e suas formas de rebelião popular. Tudo começou em pequena escala no fim de Outubro através de uma simples petição cívica, sem etiqueta partidária nem sindical, sem líderes nem organizações, difundida nas redes sociais. Ela reclamava a anulação do aumento do imposto sobre o combustível decidido recentemente pelo governo. Alguns dias mais tarde, cerca de um milhão de pessoas o haviam assinado e palavras-de-ordem começavam a apelar ao “bloqueio do país”. O movimento de protesto, que se referia inicialmente ao preço da gasolina e o peso dos impostos, estendeu-se muito rapidamente “à vida cara”, ao “fraco poder de compra”, às “grandes lojas a boicotar”, para se concentrar finalmente numa palavra-de-ordem clara: “Macron démission!”. O ponto comum destas contestações, fundindo todos os azimutes, era exprimir um mal estar generalizado, uma “vaga de fundo” da população, uma recusa das desigualdades sociais causadas pela aplicação do projecto neoliberal.

O paroxismo foi atingido sábado 17 de Novembro: cerca de 280 mil “coletes amarelos” (segundo os números da polícia), espalhados em mais de 2000 comícios no conjunto do território francês, bloqueavam o acesso a eixos rodoviários nevrálgicos, portagens rodoviárias ou supermercados. Inexperientes na maior parte, saídos espontaneamente à rua, eles muitas vezes estavam a participar na sua primeira acção – menos de 10% das manifestações foram declaradas às prefeituras. Em muitas aldeias das zonas rurais foi mesmo a primeiríssima vez que houve uma manifestação. O balanço da jornada salda-se por um morte (uma infeliz mulher “colete amarelo” atropelada por uma condutora que perdeu o controle do seu veículo), cerca de 500 feridos, dos quais uma dezena gravemente (e 93 polícias), mais de 280 interpelações por “actos de violência” (na maioria automobilistas que forçaram as barragens filtrantes)…

Em Paris, numa bagunça indescritível – e incontrolável pelas forças da ordem – uma multidão de várias dezenas de milhares de “coletes amarelos”, extremamente heterogénea e absolutamente inclassificável, reunindo adultos jovens (por vezes com os seus filhos), aposentados (inclusive avós exasperadas pela baixa das suas pensões), empregados de escritório, operários, artesãos, motociclistas, empregados de serviços de entrega, motoristas de táxi, funcionários, assistentes de cuidados de saúde, alunos do liceu, jovens empresários, mulheres de véu, jovens da periferia, rastafáris com penteados rasta, pessoas de todas as cores e religiões, de todas as camadas populares, desfilavam numa desordem incrível nos Campos Elíseos cantando A Marselhesa, “Paris, de pé, levanta-te” e, naturalmente… “Macron démission!”. 

Múltiplos pequenos grupos de “coletes amarelos”, improvisados, a chegarem de toda a parte, muito móveis, conseguiam forçar uma passagem e contornar – sem violência – as linhas de polícias e gendarmes, ultrapassados por toda a parte. Barricadas eram improvisadas em diversos lugares da capital, feitas de barreiras de segurança, paletes de madeira, bicicletas, de tudo aquilo que havia nos passeios. Latas de lixo eram incendiadas. As boutiques de luxo dos quarteirões elegantes preferiam fechar as suas portas – se bem que nenhuma vitrina houvesse sido partida, nem nenhum roubo assinalado. Aqui, lia-se numa etiqueta: “Aux armes!” (palavras do hino nacional); ali via-se a bandeirola: “Nem Macron nem fachos, Black Blocage Total” (Total é a multinacional petrolífera francesa que, parece, não teria pago aquilo que deve ao fisco). Acolá, uma guilhotina desenhada, sem comentário. Alhures, ouvia-se “Isto é como em Maio de 1968”, “Cólera”, “É a guerra”, ou ainda “Macron à fogueira!”. Apesar dos cordões da CRS, vários milhares de manifestantes pacíficos, mas resolvidos a fazerem-se ouvir, conseguiam enfiar-se na rua que leva ao Palácio do Eliseu, tendo de ser repelidos por escudos, bastões e gases lacrimogéneos das forças da ordem, acabando por se dispersar na calma. Todo o mundo estava pasmado – “coletes amarelos” e polícias inclusive. Nunca se viu algo como isso…

No dia seguinte, os protestos prosseguiam em toda a França e dois dias depois, segunda-feira 19 de Novembro, os acessos a uma vintena de refinarias de petróleo encontravam-se bloqueados. No dia 20, em Paris, as vias do caminho de ferro da estação do Norte eram invadias e os trajectos para o aeroporto Roissy Charles-de-Gaulle dificultados. Em quase todas as regiões da França, muitas acções do bloquei9os continuavam igualmente a ser efectuadas: em Toulouse, em torno de Lyon, em Bordéus, na Île-de-France, no Vaucluse, na Normadia, na Bretanha, no Norte, na Córsega e até em Departamentos do Ultramar… Na ilha da Reunião (a mais de 9300 km de Paris), onde as desigualdades sociais são gritantes, as manifestações transformaram-se em tumulto. O exército foi chamado como reforço e o cessar-fogo instaurado nas comunas mais agitadas. Nas redes sociais, os “coletes amarelos” já preveniram: próximo encontro no sábado, 24 de Novembro…

Actor sem par, sorriso escarninho e cheio de desprezo, o presidente Macron finge ignorar o levantamento de massa, tão inédito quanto heteróclito, mas motivado e determinado a prosseguir a luta. Quanto tempo poderá assim fazer quando as sondagens revelam que entre 75 e 85% dos franceses dizem apoiar os “coletes amarelos”?

Por enquanto, o presidente contentou-se em prevenir que se mostrará “intratável” face ao “caos”… da ilha Reunião. Habitualmente tão seguro de si, o primeiro-ministro Édouard Philippe apareceu na defensiva afirmando que “o governo não mudará de rumo” e “não tolerará a anarquia”. O ministro do Interior, Chritophe Castaner, procurou aparentar firmeza. Convocado em socorro, o ministro da Ecologia e da Energia, François de Rugy, declara, sem rir, que o impostos sobre os combustíveis deveria servir para financiar a “transição ecológica” – em quantos cêntimos de euro, se a França não tem política ambiental? A inquietação do poder é palpável.

Que a direita e a extrema-direita tentam “recuperar” a mobilização dos “coletes amarelos”, desprovida de líderes visíveis, é evidente. Que os grandes media insistam insidiosamente, para desacreditar o movimento e jogar óleo no fogo, sobre (raríssimas) propostas xenófobas ou homofóbicas efectuadas nestas acções por alguns manifestantes (aliás imediatamente travadas pelos seus próprios amigos no local), é igualmente evidente.

Na hora do capitalismo selvagem e de uma ideologia dominante que atiça os ódios e lança uns contra os outros para tentar salvar as elites, o povo que aguenta e que sofre é feito igualmente destas contradições, infelizmente. Mas é justamente o papel dos militantes progressistas e dos esclarecidos estar ao seu lado nas lutas para mostrar àquelas e àqueles que estão a afastar-se do caminho da solidariedade e da fraternidade. Será preciso que o rosto dos explorados seja sempre sorridente? Desejar-se-ia ainda por cima que os pobres que lutam pela sua sobrevivência e sua dignidade fossem fotogénicos?

Muito mais preocupante é o facto de que as direcções dos partidos e dos sindicatos de esquerda se mantenham – ainda por enquanto, e muito generalizadamente – a distância desta rebelião popular. Será que não compreendem que se abre, com a revolta dos “coletes amarelo”, a segunda etapa das lutas do povo francês contra a tirania neoliberal e pela justiça social? Será que não apreendem que se trata da continuação, de um modo inovador, combativo, vivo e numa escala extraordinariamente ampliada, do mesmo processo de generalização das mobilizações que lançou nas greves e manifestações milhares de camaradas sindicalizados na última Primavera? Será que não vêem que os “coletes amarelos”, a seu modo (não sem coragem, nem risco e perigo) estão decididos a ocupar o enorme vazio deixado pelo abandono da esquerda institucionalizada, desde há décadas, da defesa dos interesses de classe de todos os trabalhadores e do internacionalismo em relação aos povos do mundo? Será que não sabem que é a luta das classes que faz a história?

Felizmente, as coisas podem mudar. E aquilo que parece esquecido nas altas esferas, as baixas se encarregarão de o recordar. Terça-feira 20 de Novembro, um primeiro sindicato de transportadores anunciava seu apoio aos “coletes amarelos”. No dia 21 à noite, as acções dos electricitários e gasistas recomeçavam (se é que elas realmente cessaram desde Junho), intensificando-se: várias refinarias e reservatórios petrolíferos (em Gonfreville-L’Orcher e Oudalle na proximidade do Havre, Feyzin nos arrabaldes de Lyon, La Mède perto de Marselha, mas também em outros locais, nomeadamente os que alimentam os aeroportos de Blagnac [Toulouse] e Saint Exupéry [Lyon]…) declaravam-se em greve. Ao mesmo tempo, sabia-se que o “capitão da indústria” Carlos Ghosn, presidente-director-geral do grupo automobilista francês Renault e presidente do Conselho de Administração da Nissan, era preso e ouvido pela justiça japonesa por suspeita de fraude fiscal e desvio de fundos da empresa para fins pessoais. A revolta de um povo contra este mundo será tão difícil de entender?


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