Quer mesmo viver numa Uberlândia?

(Francisco Louçã, in Público, 11/10/2010)

louca

    Francisco Louçã

 

Os taxistas fizeram muito para se tornar impopulares. Fizeram-se às imagens vândalas da cabeça perdida, gritaram demasiado “segura-me se não eu bato-lhe”, falam por patrões que parecem fazer de figurante de telenovela, tudo lhes corre mal.

Não tinha que ser assim e não mereciam que o desvario lhes fizesse isto. A profissão mudou nos últimos anos com a afluxo de desempregados vindos de outros trabalhos, com mais mulheres e jovens, com a punição de abusos, com melhor qualidade de serviço. Ser taxista deixou de ser um esquema, passou a ser uma profissão.

Creio que é por isso que os liberalizadores se concentram em fixar uma imagem degradante contra os taxistas, com a ajuda inestimável de alguns dos tumultuosos porta-vozes da indústria. O “taxismo de aeroporto” é o argumento forte dos que candidamente nos dizem que a “destruição criativa”, pois o argumento liberalizador só tem por si a suspeita contra os que quer aniquilar.

É certo que o táxi que até agora conhecemos está a terminar. Não vamos ficar nos passeios à espera que passe um carro de cor característica com um sinalzinho luminoso. Dentro em pouco, todos estes serviços serão regidos por aplicações nos nossos smartphones, os pagamentos serão electrónicos e os recibos virão por mail. Verificaremos logo os impostos pagos. E isso é progresso e é melhor que os táxis percebam que não se volta atrás por uma ponte que já ardeu.

Então, a minha pergunta é esta: mas quer mesmo que o táxi seja substituído por uma empresa multinacional que cobra 25% aos fornecedores mas que não assume responsabilidade por eles? Ou, quer mesmo que o transporte público seja substituído por carros que não têm seguro adequado e com condutores sem a certificação que a lei definiu como condição para levar o passageiro ao seu destino?

A regressão seria termos um transporte público baseado em trabalhadores arregimentados com comissões esconsas, sem horas nem contratos, sem garantias para os utentes, sem regras iguais para todos os fornecedores, uns pagando alvará e outros não (e uns tendo benefícios fiscais e outros não). Essa Uberlândia seria um mau sítio para viver.

E é aqui que a atitude do governo se torna estranha. Tudo se baseia nessa convicção que garante que este transporte de passageiros não é serviço público e não tem portanto que obedecer às regras da protecção do cliente. Para o ministro, a lei não se aplica pois se trataria de um arranjo entre privados – mesmo metendo uma multinacional, comissões pagas à cabeça e o recrutamento em massa de operadores.

A partir daqui, tudo é possível, só que é errado. Estes táxis à civil não pagam os custos do acesso ao bem público que é a rua ou o exercício da profissão de transportador, porque são considerados assim como um passeio para um picnic. Portanto, todos podem entrar no mercado, o limite é o céu, onde se viu contingentar os passeios para um picnic? O leitor e a leitora já sabem onde quero chegar. É que não nos é indiferente termos qualquer número de táxis nas nossas cidades, pois não? Precisamos dos suficientes para nos movermos e não de demasiados para nos congestionar.

E é aqui mesmo que o ministério do ambiente comete o seu maior erro. As nossas cidades grandes precisam de menos carros e de mais transporte público: supletivamente, de táxis, mas essencialmente de Metro e de Carris ou STCP, que estão a ser sucateados miseravelmente. Se o governo quiser um dia um projecto fundamental para as cidades, então preparará o Metro e autocarros gratuitos, com carreiras regulares e qualidade, mesmo que pagando-os com portagens ou estacionamento mais caro. Se quiser pensar nas pessoas nos transportes públicos.

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9 pensamentos sobre “Quer mesmo viver numa Uberlândia?

  1. Não quero viver na “Uberlândia”, e ainda menos me interessaria viver na Louçalândia. É que o mundo, bem ou mal, “pula e avança” (é certo que nem sempre para onde mais nos agradaria), mas o esquerdismo auto-convencido e arrogante do Sr. Louçã, há muito que nos oferece a mesma receita. Mesmo que se esforce para nos convencer que evolui, que procura perceber, e que procura novos conceitos para uma realidade móvel, o Sr. Louçã & Cª, estão calmamente refastelados na sua verdade. Bom proveito!

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    • Não sei na verdade onde está onde está o “esquerdismo auto-convencido e arrogante do senhor Louça” que se possa retirar do texto que acabo de ler.
      Parece-me ao contrário, que existe sim muita arrogância, não no texto de Louçã, mas no seu comentário. Comentário que não refuta com uma argumentação capaz qualquer dos pontos abordados no texto mas que se limita a transmitir, parece ter sido essa a sua única motivação, o seu azedume por alguém que não comunga os mesmos ideais que os seus.

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  2. Haja alguém que tenta dar um pouco de luz ao problema. A confusão é propícia a certas manobras da qual os próprios taxistas não querem ou não veem mesmo.
    Boa Francisco

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  3. Estas plataformas Ubers, de momento a operar são apenas duas, a Uber e a Cabify e não possuem carros de transporte de passageiros, limitando-se a gerir o seu negócio por computador, numa pequena sala de hotel, que estabelecem em parceria com empresas e particulares que, esses sim, possuem carros e motoristas e correm pela cidade à procura de passageiros.
    São estes parceiros que constituem a “frota” que é completamente alheia a estas plataformas. O modo como tais parceiros agem com seus motoristas, quanto a contrato, salário, registo criminal, boletim de saúde ou segurança social nada tem a ver com as Ubers.
    O valor económico acrescentado destas plataformas resume-se assim a meia dúzia, se tanto, de funcionários a operar com computadores numa pequena sala. As Ubers são isto mesmo.

    Quem verdadeiramente está em concorrência com os táxis são portanto os parceiros das Ubers, com a sua frota de carros. (A concorrência da Uber está nas outras plataformas, até aqui, apenas a Cabify).

    Sem contingentação ou qualquer outra regulamentação. E, não se compreende que a serviços iguais, no caso o serviço de transporte de passageiros, não tenha regulamentação igual. O projecto de lei das plataformas que o governo pretende impor vem regulamentar de modo diferente aquilo que é igual. É uma aberração jurídica.

    As Ubers pertencem aquele sector de empresas a que se chamou empresas abutre. Com um mínimo de esforço e um mínimo de investimento, recolhem como intermediários altíssimos rendimentos. Até aqui, são os países menos desenvolvidos os mais vulneráveis à sua penetração.

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  4. A questão da precariedade não será tão diferente entre as várias abordagens do transporte, visto que com a concentração de táxis nas mãos de meia duzia (incluindo os responsáveis e representantes dos táxis) que têm pessoal precário a trabalhar nos seus táxis, pois é impossivel conduzir 2 táxis ao mesmos tempo, quanto mais 14 ou 15.
    A diabolização dos carros não vai ser a solução de nada, visto que os carros existem e não desaparecem por magia ou porque as câmaras retiram faixas a torto e a direito.
    Os Uber e companhiam não têm as mesmas responsabilidades nem os mesmos direitos dos taxis, se é para nivelar, nivelem tudo igual para todos.
    Enquanto tivermos metro e carris a funcionar mal, sem parques na periferia, não se vai resolver problema nenhum.
    E se pensarmos que há uns anos se pensou nas motas como uma solução para retirar carros da cidade e melhorar a mobilidade e de uma vez a CML vai fazer desaparecer 50 lugares de estacionamento de motas só no Saldanha, para passar a ciclovia, não ajuda!

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  5. “Não sei na verdade onde está onde está o “esquerdismo auto-convencido e arrogante do senhor Louça” que se possa retirar do texto que acabo de ler.”
    Senhor Carlos,
    Do texto, este, pode não se poder retirar qualquer “esquerdismo auto-convencido do senhor Louçã” mas dá-se o caso que o senhor Louçã é um velho político de currículo e pensamento perfeitamente conhecido, definido, implantado, e bem percepcionado por parte da população publica atenta. E daí o senhor manuel ter uma opinião desconfiada e pouco credível de tudo que diga e venha do senhor Louçã. Eu também partilho desse cepticismo militante de tudo que saia da cabeça, embora ilustrada, desse senhor. Tal como de PP, VPV, MST, JMT, Fedorentos, e tantos outros iguais ilustrados que opinam sobre tudo e erram sobre quase tudo ou dos engraçadistas do canal Q que opinam, finoriamente contra o governo, contra a oposição tendo como pano de fundo que os políticos são todos corruptos, porcos, feios e maus e, claro, eles e os amigos são, por exclusão de partes, os bons e impolutos.
    Quanto “à questão” confesso que também ainda não entendi bem as diferenças mas mantenho um cepticismo imenso a respeito do que são verdadeiramente essas “plataformas” e muito especialmente no que poderão vir a ser no futuro. Poderá uma grande empresa actual transformar-se um dia em “plataforma” e deixa de haver patrões e empregados passando estes a ser como que “contratados à jorna” sob a subtil forma de “empresários à jorna”? comandados, não por patrões, mas por mandantes electrónicos fantasmas?
    A actual adesão cega e entusiástica do público às “Plataformas” sem apurar a fundo o que são e ao que vêem e podem vir a ser como actividade e exemplo para outras velhas actividades seculares fazem-me pensar cepticamente acerca da bondade de tais “plataformas”.
    O que é, imediatamente mal surge, de grande bondade para o povo o povo deve desconfiar porque pode, a médio-longo prazo, estar a cavar a sepultura do taxi e colocar, mais uma vez, este meio de negócio individual nas mãos de meia dúzia fazendo crescer a plutocracia.
    A globalização, que parecia ir levar mais bem estar aos esfomeados do mundo, quase não tem feito outra coisa
    senão aumentar as desigualdades na mesma medida que aumenta o poder dos plutocracia.

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  6. O Dr. Louçã que me desculpe, mas não deve viver neste mundo.Não faço juízes de valor, mas o sr. fala assim porque é uma pessoa conhecida e consigo têm de certeza sempre um comportamento correcto. Eu não posso dizer o mesmo. Também pensava que o sr era anti-monopolista e anti-corporativista mas afinal enganei-me . Tenho que rever o sentido do meu voto. A concorrência talvez venha a obrigar a que os taxistas frequentem aulas de civilidade,tanto no falar como no vestir e na limpeza do carro. E aulas de moral, ensinando que a desonestidade é uma falta grave. E fico-me por aqui.

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