Com presidente eleita e candidato mais popular afastados, está consumado o golpe 

 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 23/01/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Já há uns meses ESCREVI sobre o processo judicial contra Lula da Silva e a sua inacreditável fragilidade. Nada, a não ser a convicção de denunciadores premiados cuja a liberdade depende da incriminação de Lula, permite corroborar que o triplex de Guarujá, em São Paulo, lhe pertencia formal ou informalmente. O facto deste mesmo apartamento ter sido aceite pela justiça brasileira como bem penhorado para que a construtora pagasse as suas dívidas é a prova final de que nem os juízes acreditam que o apartamento era do ex-Presidente. Tudo se resume, no fim, à visita do casal ao apartamento e a obras que terão sido por eles pedidas. Da real propriedade ou usufruto de qualquer espécie do imóvel não só não há provas como as que existem (a penhora) o desmentem. A maior prova da corrupção é Lula não ter pago nem discutido o preço a pagar por um apartamento que não comprou. Mudar a história do Brasil apenas com base numa visita a um apartamento revela a má-fé dos julgadores.

Como se pode impedir um cidadão de concorrer a umas eleições por ter recebido um pagamento que não só nenhuma prova diz existir como a própria justiça brasileira garante não ser seu? Quando nem sequer existe qualquer suspeita de que esse apartamento tivesse servido para pagar favores? Palavras do juiz Sérgio Mouro: “Este juízo jamais afirmou na sentença ou em lugar algum que os valores obtidos pela construtora OAS nos contratos com a Petrobrás foram usados para o pagamento de vantagem indevida para o ex-Presidente”. O pagamento que não foi recebido foi feito em troca de nada. Sobra nada. De resto, todo o processo vive de suposições em relação ao que Lula saberia do que acontecia na Petrobrás. Mas não há qualquer prova ou indício de que Lula tenha participado ou influenciado qualquer decisão da Petrobras para beneficiar a construtora OAS. Como escrevi antes, Lula é condenado por ter favorecido uma empresa que nenhuma prova ou indício forte permite dizer que favoreceu em troca de um apartamento que comprovadamente não lhe pertence nem legal, nem informalmente. Um julgamento assim dificilmente deixaria qualquer político brasileiro, do mais sério ao mais bandido, fora da prisão. E por isso tem recebido fortes críticas de muitos juristas brasileiros. Mas com o Brasil fortemente polarizado, a culpa ou inocência de Lula parece ser a última coisa que interessa a alguém.

Para que não haja, como tende a haver por cá, confusões com o que se passa com José Sócrates, este julgamento kafkiano, enquadrado num processo judicial carregado de irregularidades e atropelos à lei, tem de ser visto em perspetiva. Antes de mais, em conjunto com o afastamento da presidente Dilma Rousseff, com base na invenção de um crime de responsabilidade (a famosa “pedalada fiscal”), risível perante o mar de lama e corrupção da política brasileira. A motivação constitucional e ética dos deputados não precisava de outra contraprova que não fosse a própria sessão de votação do “impeachment”, um momento grotesco que fica como registo mais esclarecedor da natureza antidemocrática do golpe.

Os dois acontecimentos – afastamento inconstitucional da presidente eleita e processo contra o candidato mais popular de forma a impedi-lo de ir a votos – são peças fundamental deste golpe constitucional. E as motivações ficam evidentes na atuação posterior de Michel Temer, um homem que, apesar de todas as suspeitas e acusações de corrupção, foi mantido no lugar sem qualquer receio de incoerência. E que, depois de garantir que ele próprio não enfrentava a justiça, veio dizer, em Davos, que este julgamento serena os mercados porque mostra que as instituições brasileiras funcionam.

As graves mudanças na lei laboral e na lei da previdência, reformas profundíssimas num Brasil a viver em crise social, e com um pendor neoliberal em tudo oposto à “chapa” pela qual Temer foi eleito vice, explicam porque foi tão importante afastar Dilma e impedir o regresso de Lula. Que seja um governo com popularidade de 3% e sem qualquer legitimidade política (o sistema brasileiro é presidencialista, não é semipresidencialista ou parlamentarista) a levar a cabo estas reformas mostra o grau de desespero e descaramento da elite económica brasileira. Com a queda do preço de petróleo e a crise económica brasileira, já não se está a discutir, como no tempo de Lula, a distribuição da prosperidade mas a distribuição dos sacrifícios. E, com essas coisas, a oligarquia brasileira, ainda plena dos seus tiques esclavagistas, não brinca.

É preocupante que a esquerda brasileira se tenha colocado numa situação de total dependência em relação a Lula da Silva. É extraordinário que, em 12 anos de poder num país da dimensão do Brasil e com um partido tão implantado como o PT, não tenha conseguido construir outras lideranças carismáticas. Isso fragilizou o próprio Lula, colocando-o na mira do ataque – os seus opositores sabiam que matar Lula era matar toda a esquerda brasileira. Mas mesmo que assim não tivesse acontecido talvez não houvesse fuga possível. Um dos nomes mais falados como alternativa a Lula da Silva era o antigo perfeito de São Paulo, Fernando Haddad. Mal a sua candidatura alternativa começou a ganhar maior credibilidade, sobretudo depois de ter sido escolhido como responsável do programa eleitoral de Lula, logo surgiu um indiciamento judicial, com mais nenhuma base que não seja tão vaguíssima que dá vontade de rir. Ou seja, cada nome que surja no campo do PT e que tenha, como tem Haddad, popularidade suficiente para ter alguma hipótese, passará a estar imediatamente na mira de um poder judicial que substituiu o processo pela convicção. Num país onde os magistrados tomam posições políticas públicas bastante claras e onde as carreiras política e judicial se cruzam bastantes vezes.

Este processo de total judicialização da política brasileira, que transforma os juízes em centro de disputa política, que pedem apoio popular, apelam a manifestações e têm como último critério da sua ação a própria lei, é um caso de estudo que merece ser olhado com toda a atenção por todos os que acreditam na democracia e no Estado de Direito. No Brasil, mas não só, ele depende de uma tríade perfeita: os grandes grupos de comunicação social, o poder económico e financeiro e juízes cada vez mais disponíveis para saltar para a ribalta mediática onde hoje se define o sucesso e relevância de cada profissional. Cavalgando a justíssima indignação popular com a corrupção e selecionando politicamente as vítimas a queimar na fogueira mediática, o poder desta tríade é avassalador. Um poder que tem a particularidade de não depender do voto. No Brasil, ele até já serve para proibir exposições “indecentes” com base em convicções religiosas de juízes (o poder dos evangélicos estende-se a todos os ramos do Estado). O populismo desbragado que move parte do poder judicial brasileiro é bem evidente na máxima mediatização de todas as demonstrações de força, de que a exibição da transferência de prisão do ex-governador Sérgio Cabral acorrentado nas mãos e nos pés é uma boa ilustração. Claro que o povo gostou da imagem. E o objetivo é esse mesmo, reforçando assim o poder simbólico dos juízes face ao poder político.

O processo que hoje teve o seu momento decisivo, cujo resultado exato foi preanunciado por várias televisões, e que teve uma gestão extraordinária de calendário para garantir que acontecia antes de Lula poder concorrer a eleições, torna a sua candidatura quase impossível. Com base numa acusação sem qualquer substância, prova ou sequer indício. Nestas circunstâncias, o afastamento do político mais popular do Brasil da corrida presidencial revela-nos que novos instrumentos podem ser usados para impedir qualquer esforço de justiça social em tempo de crise.

Houve um tempo que em que a elite brasileira usava o exército para aplacar a democracia. Agora não precisa de militares na rua. Basta ter todas as televisões do Brasil, juízes com fome de protagonismo e um exército de políticos corruptos disponíveis para queimar quem for preciso para salvar a sua própria pele.

Nunca devemos esquecer, quando analisamos o que se passa no Brasil, a natureza profundamente classista e racista da elite nacional e a afronta que significou ter, à frente dos seus destinos, um operário sem curso superior. Mas o que está em causa agora, que chega o tempo das “vacas magras”, é muito mais do que isso. Como se percebe por tudo o que o governo Temer vai apressadamente aprovando.

Claro que Lula, Dilma e PT cometeram erros graves. Fizeram depender do petróleo todas as suas reformas sociais, que tiraram da pobreza milhões de brasileiros. Bastou que o seu preço caísse para tudo ir atrás. Como aconteceu com outros países que acreditaram que podiam fazer reformas sociais sem tocar numa economia de base extrativista. O Brasil passou então a depender do endividamento externo. E depender do endividamento externo é, como nós bem o sabemos, depender dos humores de mercados pouco interessados em reformas políticas e sociais emancipadoras dos trabalhadores. O segundo pecado do PT foi, apesar das mudanças legislativas que promoveu e que tornaram todo o processo Lava-Jato possível, não ter combatido a corrupção. Pelo contrário, deixou que ela o minasse por dentro e foi fechando os olhos aos crimes cometidos por seus dirigentes e aliados. O terceiro, foi não saber refazer as suas alianças, achando que, por estar no poder, dispensava um movimento popular que pressionasse para reformas sociais e políticas mais profundas. Preferiu ficar nas mãos dos oportunistas do PMDB, mesmo quando era evidente que eles estavam, dentro do próprio governo, a preparar o golpe.

Está ainda a cometer erros, não preparando o dia seguinte a Lula, quando for evidente que o golpe antidemocrático foi, como não podia deixar de ser, bem sucedido. Continua, na resistência a este processo judicial, a pôr todas as suas fichas numa carta marcada e abatida pelas poderosíssimas forças que usaram uma justiça politizada e uma comunicação social sem grande vínculo à democracia (a Globo foi um instrumento fundamental da ditadura) para impedir que a gestão desta crise fosse feita por quem queira distribuir sacrifícios. Mas o que está a acontecer no Brasil deve ser um alerta para todos nós. A aliança entre o poder mediático e juízes populistas ávidos de notoriedade é o novo instrumento que a elite económica tem, perseguindo seletivamente ou mesmo injustamente políticos pouco cooperantes, para aplacar qualquer vontade de mudança. Um dia isto também nos vai acontecer.

A aberração que condenou Lula

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 14/07/2017)

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                       Daniel Oliveira

Lula da Silva foi condenado a nove anos de prisão e 19 de interdição de concorrer a cargos políticos, o que garante o maior objetivo dos que se lhe opõem: impedi-lo de concorrer às eleições presidenciais do próximo ano, para as quais é claro favorito. Segundo uma sondagem da Datafolha terá 30%, o candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro (que agrega os mais ativos apoiantes da conduta do juiz Sérgio Moro) 16% e Marina Silva 15%.

 

Tudo, neste processo, é absurdo. Pelo menos para nós. Desde ver quem investiga e acusa a julgar, até ao estranho comportamento do juiz. Em quantos países com um Estado de Direito a funcionar plenamente um juiz que tenha nas mãos um processo como o Lava-Jato grava um VÍDEO para agradecer aos fãs o apoio que lhe têm dado e assim celebrar um ano da página de Facebook criada pela MULHER para receber apoios e solidariedade? O que revela isto de um magistrado?

O vídeo foi, aliás, reproduzido esta semana pela popular página “JUIZ SÉRGIO MORO O BRASIL ESTÁ COM VOCÊ”, que vale a pena visitar. Com mais de um milhão de seguidores, o que dá bem o retrato dos mais ferozes apoiantes do magistrado, por lá se defende a ilegalização dos sindicatos, a exigência de que só pessoas com formação superior possam ser eleitas para o Congresso e a pena de morte para corruptos. A página não é do juiz mas dá um bom retrato do movimento antidemocrático que rodeia todo este processo.

Mas hoje não me quero dedicar à leitura política deste caso. Prefiro ficar pela SENTENÇA que condenou Lula da Silva. Ela é penosa de ler. Dói de tão mal escrita, confusa e desorganizada. Uma boa parte é dedicada à sua própria defesa, o que é natural para um juiz que se envolveu mais num combate político do que na administração da justiça. Até se permite fazer elogios ao governo do PT, por este ter criado instrumentos para a perseguição da justiça, como se uma sentença fosse um artigo de opinião política. Ao ler esta sentença percebe-se que falta a alguns magistrados a maturidade e seriedade para os usar para os fins que existem. Lula é condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no âmbito de um processo em que estava acusado de ter beneficiado a OAS em contratos com a Petrobras, recebendo um apartamento triplex remodelado na praia do Guarujá, no estado de São Paulo.

Primeiro elemento a reter: o dito triplex não é formalmente de Lula ou da sua falecida mulher. Mas o juiz investigador, acusador e julgador Sérgio Moro acha que o é informalmente. Provas? Há provas que havia a pretensão de o comprar. Ou seja, Lula é condenado porque tinha a pretensão de comprar o triplex que, disso não há qualquer dúvida, não comprou. E como não comprou, não pagou. O que quer dizer que houve corrupção. Há provas que nunca discutiu o que pagaria pelo triplex que não comprou. E porque sabe Moro, autor da acusação, investigação e condenação de Lula, que o triplex que Lula não comprou é dele? Porque não foi vendido a outra pessoa (nem a ele). E fizeram uma remodelação, bastante dispendiosa, que tinha de ser para alguém. Entre as “provas”, surge uma reportagem da Globo onde se diz que o triplex é de Lula. Foi a própria Globo, orgulhosa, que o sublinhou nas reportagens desta semana. Nada, nas provas recolhidas, permite dizer que Lula e a mulher foram ou são proprietários diretos ou indiretos do triplex. Só há provas do seu interesse e a certeza de que o imóvel não é legalmente património seu, como ficou evidente depois da morte da mulher de Lula e das partilhas correspondentes. O triplex até já foi usado como garantia da OAS, que continua a ser a sua legitima proprietária. Aliás, é o próprio juiz que tem o cuidado, na sentença, de nunca falar em propriedade, mas em reserva ou concessão, num emaranhado de suspeitas que não respondem à questão central: se o triplex não é de Lula, se Lula não o tem no seu património, se nem sequer lá vive, que ganhou Lula com o suposto esquema? O sonho de um dia ser seu? A remodelação de um apartamento que não lhe pertence?

Há alguma prova de um ato específico de corrupção, que justifique dar a Lula o triplex que ele não tem? Há três contratos lesivos para a Petrobras, relativos à empreiteira da OAS, grande empresa proprietária do triplex (nunca deixou de o ser, lembram-se?). Lula participou ou influenciou alguma dessas decisões? Nenhuma prova ou indício o permite dizer. Mas como isto é uma pescadinha de rabo na boca, há o tal triplex que não adquiriu mas queria adquirir. E isso é capaz de ter alguma coisa a ver com uma empreitada que se quisesse influenciar influenciava. Se não há prova de que Lula recebeu alguma coisa e não há prova de que tenha participado em qualquer ato que beneficiasse a OAS em negócios com a Petrobras, escusado será dizer que não há qualquer prova de uma relação de causalidade entre o pagamento de suborno (que não está provado) e a ação de Lula para beneficiar a OAS (de que não há provas).

Quanto à lavagem de dinheiro, Lula da Silva é condenado porque não realizou qualquer negócio jurídico para transferir o triplex para o seu património. É isso mesmo: a lavagem de dinheiro é provada na medida em que não há registo do pagamento do triplex que o juiz supõe, sem provas, ser de Lula.

 

Em resumo: Lula foi condenado a nove anos e meio de prisão e 19 anos de impossibilidade de exercer cargos políticos por ter favorecido uma empresa que nenhuma prova ou indício forte permite dizer que favoreceu em troca de um apartamento que não é propriedade sua e que nada de minimamente sólido permite dizer que foi informalmente seu e lavou dinheiro que nenhuma prova permite dizer que existiu.

Aliás, o facto de não existir, por não haver qualquer prova de compra, é que prova que foi lavado. Toda a condenação é feita a partir de uma sucessão de suposições. A principal prova de cada crime é a suposição anterior: se adquiriu o triplex que nenhuma prova permite dizer que é ou alguma vez foi seu quer dizer que fez um favor a quem lhe vendeu não vendendo e isso prova a corrupção. Se comprou o apartamento que nada prova ter comprado e não pagou por ele quer dizer que há lavagem de dinheiro.

O juiz queria condenar Lula e isso é evidente. O Brasil está partido a meio e, na magistratura ou no jornalismo, não sobra ninguém para uma análise isenta e distanciada. É natural: é a própria democracia brasileira que está à beira do princípio. Perante uma crise económica e a pressão da elite social brasileira para reverter garantias sociais do tempo das vacas gordas, um processo judicial com um calendário sempre conveniente, conseguiu afastar Dilma, talvez a menos implicada política brasileira em casos de corrupção, e dar o primeiro passo para impedir a candidatura de Lula, o preferido dos brasileiros nas sondagens. Tudo isto pode ser coincidência. E Lula pode bem ser corrupto. Mas esta sentença, com a base probatória que tem, é o que é: uma aberração.


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GRANDE ENTREVISTA A LULA DA SILVA

(In Expresso Diário, 02/08/2016)

Lula

“Fiz exatamente o mesmo que os presidentes de França, Inglaterra e Portugal”

Lula está seguro “que a consolidação do golpe parlamentar no Brasil pode ser interessante para os grandes conglomerados internacionais que estão de olho nas nossas riquezas – sobretudo no petróleo”. Mantém que estará na corrida presidencial de 2018 se não aparecer mais niguém capaz de “melhorar a distribuição da riqueza no país e de dar condições de vida aos excluídos e aos mais pobres”. E quanto às acusações de tráfico de influências nos negócios além-fronteiras, sustenta que a internacionalização das empresas brasileiras – que “gera divisas, riquezas e empregos no meu país” – foi sempre um das suas prioridades e que fez “exatamente o mesmo que os presidentes dos Estados Unidos, de França, Inglaterra e Portugal”. “Um Presidente da República que não tem influência é melhor não ser presidente”, diz. Lula da Silva em entrevista concedida à revista “África21”, aqui publicada pelo Expresso em exclusivo para Portugal – e que aconteceu exatamente antes de o ex-presidente brasileiro ter sido constituído arguido no âmbito do Lava-Jato.


No fim deste mês de agosto, o Senado brasileiro julgará definitivamente o pedido de destituição da presidente Dilma Rousseff. Qual a sua opinião sobre este processo?

O que aconteceu no Brasil foi um golpe parlamentar que teve na origem um ato de vingança do então presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha. Ele abriu o processo contra a presidente Dilma Rousseff sem qualquer base jurídica no momento em que o Partido dos Trabalhadores (PT) deixou claro que não lhe daria apoio perante as numerosas acusações de corrupção que o atingiam.

A presidente Dilma não cometeu nenhum crime de responsabilidade nem desrespeitou a Constituição brasileira. Os seus acusadores justificaram juridicamente o seu afastamento temporário com o uso de um procedimento contábil para fechar as contas do Governo do ano. Todos os últimos governos utilizaram esse procedimento, bem como boa parte dos governos estaduais, e ele nunca foi considerado um crime passível de impeachment. Dilma está a ser vítima de um processo político apoiado pelos grandes grupos de comunicação, que agem no Brasil como se fossem um partido político.

Naturalmente, o senhor defende a continuidade da presidente no seu cargo. Acha que é possível?

Eu defendo a legitimidade das eleições de 2014, que garantiram mais de 54 milhões de votos na Presidente Dilma. O que está em curso é um atentado à jovem democracia brasileira, mas eu acho que é possível reverter essa situação. O afastamento da presidente até aqui é temporário. Ela tem até ao final de agosto para se defender e convencer apenas mais seis senadores a tomarem posição contra o impeachment. São senadores que numa primeira votação apoiaram a chamada admissibilidade da discussão sobre seu afastamento e que agora terão de se posicionar sobre o mérito da denúncia. O nosso Senado tem 81 senadores. Na primeira votação, 55 foram a favor da abertura do processo e 22 votaram contra. Eles conseguiram assim mais de dois terços dos votos. Eu acredito que uma parte deles terá a honradez de votar contra o mérito da denúncia na segunda votação, há uma pressão real de uma parte importante da sociedade neste sentido.A argumentação jurídica de acusação que levou ao afastamento temporário da Presidente não fala em corrupção. O que eles estão a fazer é o seu linchamento político

O processo de destituição da Presidente Dilma coincidiu com uma ampla movimentação social no Brasil contra a corrupção. A primeira impressão dos leitores internacionais é que ela estará a ser julgada por causa disso. Essa impressão é correta?

Não é correta. As movimentações sociais que acontecem no Brasil com intensidade a partir de 2013 foram muito mais motivadas pela defesa de melhores condições de vida, tais como transportes públicos e mobilidade urbana, só depois surgiu o tema da corrupção. Hoje em dia há um grande debate sobre esse tema no Brasil e muitos empresários e políticos têm sido investigados e julgados pelas suas condutas. Isso só foi possível porque nos 13 anos dos governos liderados pelo PT nós criámos uma série de mecanismos que fortaleceram os órgãos responsáveis pelas denúncias e pelas investigações. Ninguém fez mais que o PT no combate à corrupção. Entre outras medidas, nós equipámos e aumentamos o número de efetivos da Polícia Federal, transformámos a Controladoria Geral da União em ministério, criámos o “Portal da Transferência” na Internet, que abre à consulta todos os atos do governo. Graças aos nossos governos e à garantia da plena vigência de todas as liberdades democráticas, diversas suspeitas, que durante a ditadura militar e os governos conservadores que a seguiram eram arquivadas ou esquecidas, começaram a vir à tona e a ser investigadas. Essas investigações estão em curso há mais de dois anos e jamais chegaram a incriminar a presidente Dilma Rousseff. A argumentação jurídica de acusação que levou ao afastamento temporário da presidente não fala em corrupção. O que eles estão a fazer é o seu linchamento político.

Do “Mensalão” ao “Lava-Jato”, quem leia a imprensa brasileira pode ser levado a pensar que apenas figuras ligadas ao PT estão envolvidas em casos de corrupção. Essa perceção corresponde à realidade?

Isso não corresponde à verdade. A corrupção é crónica no Brasil desde o início da colonização portuguesa e continuou depois da nossa independência e dos governos republicanos, não é novidade dos últimos anos. Recentemente, houve dezenas de denúncias contra políticos de quase todos os partidos, envolvendo as lideranças do PMDB, do PSDB, do DEM e de vários outros. A percepção de que o PT é o único atingido decorre de uma série de ações seletivas contra o partido que vêm sendo tomadas por uma parte do Ministério Público e que são potencializadas pelos grandes órgãos de comunicação. No Brasil passou a ser regra passar para a imprensa as informações sigilosas que deveriam estar sob o controle da Polícia Federal e da justiça. Da mesma forma também se tornou regra aquilo a que chamamos «espetacularização» das ações judiciais: são todas realizadas de forma a terem grande impacto mediático e destaque na televisão. Também se tornou regra o uso indiscriminado do que chamamos «delação premiada»: as pessoas investigadas são presas preventivamente – antes de serem julgadas – e pressionadas a incriminar o PT. Caso o façam, devolvem parte do dinheiro que levaram ilicitamente e veem as suas penas comutadas ou substancialmente reduzidas. Caso contrário, apodrecem nas prisões. Esses artifícios têm sido usados de maneira seletiva, atingindo principalmente o PT.

O facto de o PT ter defendido um discurso ético enquanto esteve na oposição e, uma vez no poder, se ter deixado enredar nas malhas da corrupção, não explicará essa perceção?

A grande maioria do povo brasileiro fica feliz quando vê a corrupção ser combatida, em especial quando implica ricos e políticos que nunca foram para a cadeia. Eu fico triste quando meu partido é atingido, mas a quase totalidade de nossos militantes e dirigentes não é alvo de nenhuma acusação. Aqueles poucos petistas suspeitos devem ser alvo de investigações, mas elas só podem ser efetivas se forem isentas e respeitarem todos os preceitos democráticos. Eu mesmo tenho sido alvo de diferentes denúncias e acusações, todas amplificadas pelos grandes media e sem qualquer consistência jurídica. A defesa da ética faz parte da história do PT, nós precisamos de facto de modificar as relações das empresas com os partidos. O PT fez várias campanhas pelo fim do financiamento privado dos partidos políticos e das campanhas eleitorais e ficámos felizes quando o Supremo Tribunal Federal aprovou essa medida. Ela já estará em vigor para as campanhas eleitorais das eleições municipais de outubro deste ano.

O atual sistema político brasileiro tem uma multidão de partidos com representação parlamentar – nenhum deles com maioria absoluta. Isso não estimula a corrupção e a troca de favores?

O PT defende a aprovação de uma ampla reforma política no país, imprescindível para combater a corrupção e viabilizar os trabalhos do Executivo e do Legislativo. Temos hoje 35 partidos no Brasil e 27 deles representados no parlamento. Assim é quase impossível governar, já que nenhum partido chega sequer perto de ter maioria. A nossa Câmara Federal tem 513 deputados. Dessa forma, o Presidente da República é obrigado a reunir ministros de diversos partidos para poder governar. Nas votações na Câmara é sempre preciso fazer coligações e acordos muito amplos e diversificados para aprovar qualquer resolução. Partidos sem qualquer identidade política são obrigados a fazer acordos. A reforma política é imprescindível para modificar isso e outra série de anomalias do nosso sistema eleitoral.

Alguns observadores chamam a atenção para a viragem à direita na América Latina e atribuem-na à influência das forças dominantes da ordem neoliberal global. A tentativa de destituir a presidente e as mudanças políticas já introduzidas pelo governo interino do Brasil tem alguma “mão externa”?

Começámos o século XXI com um ciclo de governos democráticos e populares que trouxeram mais desenvolvimento económico e distribuição de riqueza em praticamente todo o continente latino-americano e em muitos países de África. Mas desde o agravamento da crise económica internacional que teve início em 2008 assistimos em todo o planeta a um fortalecimento do neoliberalismo económico, das políticas de austeridade e das forças reacionárias. Nos últimos anos, assistimos a uma ofensiva das forças de direita e conservadoras em todo o mundo. Cresceram os partidos de extrema-direita na Europa, fortaleceram-se os direitistas nos Estados Unidos, aumentaram as manifestações xenófobas e racistas e a onda migratória nos países europeus passou a ser um dos grandes problemas mundiais. Estou seguro que a consolidação do golpe parlamentar no Brasil pode ser interessante para os grandes conglomerados internacionais que estão de olho nas nossas riquezas – sobretudo no petróleo – e querem recuperar os espaços que foram conquistados pelas maiores empresas brasileiras no mercado nacional e internacional no início deste século.

Foi presidente durante oito anos. Sentiu nesse tempo por parte das grandes potências mundiais alguma pretensão de impedir o Brasil de se tornar igualmente uma potência? Ainda há quem pense que o Brasil tem de ser apenas um produtor agrícola e não pode fabricar aviões.

Durante o meu governo, o Brasil conquistou um maior espaço no exterior, assim como o fizeram outros países em desenvolvimento, a China, a Índia, a Argentina e vários países africanos. Estabelecemos relações fortes com os nossos vizinhos de África e da América Latina. Criámos os BRIC, a UNASUL, a CELAC, o IBAS, fortalecemos o MERCOSUL, estabelecemos uma política externa que privilegiou as relações Sul-Sul e encerrou uma história de submissão aos interesses da Europa e dos Estados Unidos. Pusemos em prática programas de cooperação no terreno social, para combater a fome e a miséria, mas a crise internacional agravou-se em vez de diminuir. Todos os países europeus desenvolvem hoje políticas de austeridade. No Brasil, conseguimos construir empresas que passaram a concorrer a contratos com diversas empresas multinacionais. O Brasil e vários países em desenvolvimento já mostraram que são capazes de produzir produtos e tecnologia de ponta. Também usamos muita tecnologia na nossa produção agrícola e pecuária.

As empresas que estão a ser alvo de investigação por prática de corrupção são as empresas brasileiras que atingiram um maior grau de internacionalização. Não é estranho?

Dá que pensar. As acusações têm de se concentrar nos executivos das empresas que praticam irregularidades, não podem prejudicar empresas que contratam dezenas de milhares de trabalhadores, empresas que atingiram índices altíssimos de competência técnica e profissional, empresas que se tornaram competitivas internacionalmente. Tenho chamado muito a atenção para esse problema – a nossa economia não pode ser prejudicada pelas investigações.

Como Presidente, uma das suas prioridades foi abrir portas em todo o mundo ao empresariado brasileiro, incluindo África. Todos os chefes de Estado da atualidade o fazem. Porque foi acusado de “tráfico de influências”?

A prioridade do meu Governo em relação a África foi estabelecer parcerias e acordos para o intercâmbio de políticas públicas e programas sociais de combate à fome e à miséria. Quanto à questão que você coloca, acredito que um Presidente da República que não tem influência é melhor não o ser. Essa acusação é outra manipulação organizada por sectores da imprensa brasileira. Estou convencido de que é tarefa do Presidente da República de qualquer país democrático apoiar o empresariado nos seus investimentos no exterior. A internacionalização das empresas brasileiras gera divisas, riquezas e empregos no meu país. Fiz exatamente o mesmo que fazem os presidentes dos Estados Unidos, de França, Inglaterra, Portugal.

O objetivo dos atuais processos judiciais no Brasil, em especial contra personalidades próximas do PT, é mesmo, como dizem os seus apoiantes, “pegar o Lula”? Temem que se candidate novamente à presidência em 2018?

Tenho dito e repetido que serei candidato em 2018 se sentir que estão ameaçados os projetos que nós construímos para melhorar a distribuição da riqueza no país e dar condições de vida aos excluídos e aos mais pobres. Se isso se concretizar e não surgir nenhuma outra pessoa com maiores condições de defender essas ideias nas eleições de 2018, então eu serei candidato. Para defender as nossas conquistas e apontar para o futuro, com propostas claras para melhorar ainda mais as condições de vida do nosso povo, porque ainda há muito a ser feito. Eu acredito que as forças conservadoras do Brasil não querem isso e fazem tudo para sujar artificialmente o meu nome e questionar o meu legado.

O presidente interino, Michel Temer, tem tomado uma série de medidas contrárias às políticas seguidas no país nos últimos 12 anos. Se Dilma Rousseff for destituída, o que poderá acontecer? Qual será a reação do PT?

O presidente Michel Temer é interino, ou seja, temporário. Desde o primeiro dia que ele age sem a legitimidade que só as urnas garantem. Ele e os seus ministros já anunciaram ou tomaram várias medidas que chocam com diversas políticas públicas e programas sociais que nós criámos para melhorar a vida da grande maioria da população. Eu e o PT acreditamos que a presidenta Dilma vai retomar o governo do país. Se isso não ocorrer, o PT vai lutar com todas as suas forças para impedir que qualquer política social seja anulada e iremos preparar-nos em conjunto com as demais forças progressistas para mobilizar a sociedade nesse sentido. Aí, seremos oposição, como já fomos no passado. Agindo com firmeza e responsabilidade.

A classe política brasileira está desacreditada. Por outro lado, a divisão do país é evidente. Caso a crise se aprofunde, há risco de uma intervenção militar?

Não acredito. Os militares sabem que a democracia é importante para o Brasil e que não há saída para o país fora da democracia. Qualquer tentativa de atingi-la sofrerá forte oposição de todas as forças progressistas da sociedade.