LEVANTA-TE BRASIL!

(Joaquim Vassalo Abreu, 07/04/2018)

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Nota: Eu dedico este texto à minha Família Brasileira, dois Tios, Quatro Primas direitas e demais colaterais que, quer concordem ou não comigo, são uma real parte da minha preocupação e, como Brasileiros, fazem parte do meu imaginário desse enorme País!


Um País de Futuro” segundo a óptica de Stefan Zwieig que, ainda antes dos meados do século passado, assim o descreveu num livro que eu comprei e li, e penso estar algures pela minha biblioteca, a menos que o tenha doado ou ofertado ou, coisa não rara, esteja pendurado em qualquer prateleira de casa diversa mas para o qual, neste momento, não auguro bom futuro! …

E causa-me pena, muita dor e muito sofrimento íntimo tudo o que hoje se passa no Brasil e que eu não consigo, a bem da minha consciência, dissociar do que se passa na Europa e em todo o Mundo: uma imensa e impiedosa afronta de tudo quanto é poderoso contra tudo o que quer erguer a sua voz, reclamar dos seus direitos mais básicos, como o da cidadania e do direito a viver condignamente trabalhando e que se manifesta, noutro quadrante, na eliminação rasteira de todos os que politicamente a isso se oponham e manifestem, agindo, a sua discordância.

Desde já afirmo que eu não desculpo qualquer corrupção, seja ela de pequena ou grande dimensão, como não julgo a Justiça isenta e independente. Mas pergunto: neste “sistema” a que o mundo chegou e em que vivemos, alguém ocupando cargos de poder ou influência, pode levantar a mão e dizer: eu não? Ou, sendo eu poder, mesmo que local, municipal, fiscal, social etc….dizer: eu nunca pequei?

As pressões a alto nível são de tal forma violentas, ferozes e inultrapassáveis que, perante aquilo que desejamos legislar para bem comum, sendo confrontados por poderes imensos, plenos de ameaças e contraposições, organizados e corporativos, nada mais resta que negociar…e entrar no jogo! É quase impossível resistir, mesmo mantendo o essencial decoro. Todos sabemos, mesmo não aceitando como princípio…

Mas neste Brasil Brasileiro, este País imenso e pleno de contradições, houve sempre e sempre na sua quase curta história pessoas que, perante a sua deriva, sempre contra isso lutaram e muitos e muitos até a sua vida deram.

E agora os convoco! Para que se LEVANTEM! Para que voltem à luta! Por aqueles por quem sempre lutaram e que, agora, se sentem saudosos e prenhes da sua Luta e inconscientemente incapazes de resistir por não verem autênticos lideres:

LEVANTA-TE Luis Carlos Prestes, tu que deste o teu nome a tanta criançada a aos seus Pais grávidos de esperança e forma outra cavalgaria da Esperança! Retoma as rédeas do teu cavalo e vai, Brasil a dentro, levar a palavra da Esperança! LEVANTA-TE Marighela, LEVANTA-TE Marinella, tu que tão cedo te foste, LEVANTA-TE Zumbi dos Palmares!

LEVANTA-TE Chico Mendes e LEVANTEM-SE todos aqueles que pereceram pelo direito a ter um palmo de terra, naquela imensidão de terra em que um pequeno bocado era a única maneira de se ser LIVRE!

LEVANTA-TE João Cabral de Melo Neto e compõe outra “ Morte e Vida Severina! LEVANTA-TE Jorge Amado e convoca todos os teus heróis incógnitos e refaz os teus “Subterrâneos da Liberdade”.

E LEVANTA-TE Oscar Niemeyer e fala, diz, relata a tua vida e como, sendo-se rico, se pode estar sempre e sempre do lado do Pobre!

E recorda o que foi a perseguição e o massacre contínuo, nomeadamente aos grandes heróis da luta contra a ditadura, particularmente do PCB cujos alguns aqui recordo e que veementemente solicito que se LEVANTEM: Mariano Grabois, João Amazonas, Renato Rebelo, Chico Passeata, Mário Lago (que chegamos a ver em Novelas), Diógenes Arruda, Neide Alves Santos, Astrogildo Pascoal Viana. Milton Pinheiro, Severino Elias de Melo, José Pomar, Elson Costa, Nestor Veras ( do MST) e tantos e tantos outros que deram a vida por um Brasil melhor e mais igualitário…

LEVANTEM-SE e voltem à luta por que os tempos urgem e são perigosos. É preciso que de LEVANTEM  e voltem! E voltem para dar alento a esta sociedade manietada e sem vislumbre de futuro..

E LEVANTEM-SE MULHERES do Brasil! E olhem nos exemplos de DANDARA, a esposa de Zumbi dos Palmares, de Leila Diniz, de Anita Garibaldi, sim Garibaldi, de Nísia Floresta, de Leolinda Dantron e tantas e tantas outras e na vítima de tudo isto, como Mulher: DILMA ROUSSEFF, velha guerrilheira pela democracia e igualdade a quem isso não perdoaram…

Mas também em outras presentes, e estas LEVANTAM-SE sim, mas precisam de mais bocas, de mais ombros e de mais braços, como Jandira Feghali ou Luciana Santos

E LEVANTEM-SE os Nordestinos sem destinos, os Favelados sem ensinos, os Descamisados sem caminhos, os Vagabundos sem tino, os Seringueiros abandonados, as Crianças de rua estrupadas, as Mulheres de rua resignadas, os Pedintes sem eira nem beira, as Mulheres cansadas de tanta canseira, os Bêbados cachaceiros de tanta asneira, os da borracha sem borracha, os Sem Terra vendo tanta, o Boiadeiro perdido na manada, o Cangaceiro escondido na tocaia, tanto Menino perdido, tanto e tanto para nada…

LEVANTA-TE Brasil e vem ver este teu Brasil desesperançado, metralhado, judicializado, possuído e ostracizado. Quem? Tu, tu Brasil, as tuas gentes, todas essas que eu falei! Abandonadas à sua sorte e ao mando dos poderosos, que exercem a malvadez de dizerem que, vos dando emprego, são coisa sua!

As terras infinitas, as águas benditas, as florestas tão ricas, todo aquele gado marcado sob o ferro do seu dono, os imensos cafetais, de quem são? Deles, uns quantos, donos de tudo e também de vocês!

LEVANTEM-SE e venham ver o vosso Brasil violento, mas sedento do amanhã! Aquele que esbraceja e não esmorece e que se levanta sem dormir..

LEVANTA-TE e vem ver! E acusa todos esse esbirros, sanguessugas e assassinos, enlaçados e engravatados, muito bem penteados, te ternos bem azulados, mas enlameados…

LEVANTA-TE BRASIL!

Brasil, uma justiça totalitária

(Manuel Carvalho, in Público, 06/04/2018)

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A pressa do juiz Sérgio Moro em prender Lula é gratuita e perigosa. Num país com fracturas sociais e políticas cada vez mais expostas, a Justiça devia servir de catalisador de consensos.

Lula ainda é o rosto de um partido poderoso, mas a sua condenação por corrupção em segunda instância acabou irremediavelmente com a possibilidade de se candidatar à presidência e, acto contínuo, acabou com a sua carreira política. Tarde ou cedo, à luz da lei Lula acabará na prisão. Acelerar o processo só serve para legitimar as suspeitas sobre um pérfido instinto punitivo e persecutório de Moro, não para mostrar a celeridade ou a imparcialidade da Justiça.

Sendo um activo político com mero valor facial, Lula não deixa de ser um ícone, nem perdeu o estatuto de ex-Presidente. Qualquer juiz de qualquer tribunal deveria ter estes factos em consideração e o próprio Sérgio Moro não se eximiu a essa realidade, impedindo que seja algemado, reservando-lhe uma sala, concedendo-lhe a possibilidade de se apresentar na polícia pelo seu próprio pé.

Então, por que é que Sérgio Moro decide apanhar à pressa a boleia de uma decisão polémica do Supremo Tribunal Federal que, ao recusar o habeas corpus a Lula, se baseou numa jurisprudência duvidosa e recusou analisar o espírito do preceito constitucional que, lá como cá, garante a todos os cidadãos o direito à presunção de inocência até que a sentença transite em julgado? Porque é que não deu tempo a que a defesa esgotasse todos os seus recursos no tribunal de segunda instância, que poderiam ficar decididos já na próxima semana? Por que é que optou por uma atitude drástica em relação a prazos, sabendo que com essa atitude vai afrontar uma parte significativa da população brasileira?

Moro age como age porque age como um político. Porque se sente investido do mesmo poder esclarecido que outrora investiu os déspotas. Porque não se preocupa em estar a acentuar as fracturas de um país que precisa de distensão, de calma e de paz institucional. Ao tratar Lula com este desprezo institucional através de uma interpretação processual monolítica e simpática à maioria (e ao radicalismo de direita), Moro expõe a visão plenipotenciária e redentora que tem da Justiça. As ditaduras e os totalitarismos do passado também começaram por aí.

A vingança da Casa-Grande 

(Daniel Oliveira, in Expresso, 27/01/2018)

 

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Daniel Oliveira

O PT tirou milhões da pobreza e mudou a face do Brasil. A “negrada” entrou na universidade pouco depois do metalúrgico iletrado chegar ao Planalto. E o arreigado racismo social da elite brasileira nunca se conformou. Claro que o PT também foi uma profunda deceção. Porque fez todas as reformas sociais dependerem do petróleo e quando ele deixou de dar passou a depender do endividamento. E porque se deixou minar pela corrupção. E Lula foi, como todos os políticos brasileiros, conivente. Talvez esse seja o triste preço a pagar para governar ali. Não sei. Sei que é impossível olhar para este julgamento sem andar uns meses para trás, quando uma das poucas políticas brasileiras que não é suspeita de corrupção foi afastada da Presidência por um Congresso pejado de corruptos por causa de uma “pedalada fiscal” que o próprio Congresso veio posteriormente a legalizar. Sem esse episódio nada se percebe.

O que veio depois deixou tudo ainda mais claro. Sem qualquer legitimidade política e com 3% de popularidade, Michel Temer, devidamente protegido de qualquer julgamento pelo Congresso, tratou de alterar radicalmente as leis laboral e de previdência. Chegou a crise e já não se distribui prosperidade, mas sacrifícios. Por isso, há que fazer as “reformas” que não foram a votos. Só havia um pormenor: as próximas eleições. A única forma segura de derrotar o candidato preferido dos brasileiros é impedi-lo de concorrer. E mal o PT deu sinais de ter como candidato alternativo o popular ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, logo este também foi indiciado. Um após outro, todos vão sendo abatidos. Cavalgando a justa indignação popular com a corrupção, vão-se queimando na fogueira mediática de televisões politicamente empenhadas e em processos judiciais seletivos todos os que possam ser menos cooperantes com o novo tempo brasileiro. Dantes a elite aplacava a democracia pondo o exército na rua. Agora não precisa de tanto.

Com um país polarizado, a culpa e as provas são irrelevantes para quase todos os brasileiros. Trágico é também o serem para os juízes. Lula é condenado por ter favorecido uma construtora que nenhuma prova ou indício forte permite dizer que favoreceu em troca de um apartamento que legalmente não lhe pertence, onde nunca viveu, ficou ou alugou e cuja única relação provada é tê-lo visitado. De resto, as únicas “provas” contra Lula baseiam-se no testemunho de um executivo da construtora que foi condenado e que teve a pena reduzida em troca desta acusação. Como se escreveu no “New York Times”, “muito abaixo dos padrões necessários para ser levado a sério, por exemplo, no sistema judicial dos EUA”. Só que tudo depende de juízes embriagados pela fama que deixaram de acreditar que, na Justiça, o processo é tudo. Há escutas a advogados. Há magistrados envolvidos no processo que apelam a manifestações de apoio. Há um tribunal que faz o processo de Lula passar à frente de todos os restantes do “Lava-Jato” para ter a certeza que a sentença o impede de ir a votos. Há um juiz que se declara publicamente maravilhado com uma sentença que sabe que irá reavaliar em recurso.

Quem acredite que é a corrupção que está a ser derrotada no Brasil deve olhar para os registos criminais dos deputados que afastaram Dilma, para Temer, para o que vai acontecer quando isto acabar. Isto não é um processo judicial, é um ajuste de contas. Para que o Brasil regresse à sua normalidade social. Citando Gilberto Freyre, uns na “Casa-Grande”, outros na “Senzala”.