Durão na berlinda

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 15/09/2016)

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Comissão de retórica

(Daniel Oliveira, in Expresso, 18/06/2016)

Autor

                    Daniel Oliveira

Entre 1998 e 2008, quando rebentou a crise financeira internacional, o Estado recebeu, além dos impostos de todos os bancos, 2,7 mil milhões de euros em dividendos da Caixa e zero do BPN, Banif ou BES. Quando a Caixa correu bem o Estado ficou com o lucro, quando correu mal ficou com o prejuízo. Quando os privados correram bem os acionistas ficaram com o lucro, quando correram mal o Estado pagou o prejuízo. É por isso que a comparação entre o que o Estado põe na CGD e o que enfiou na resolução de outros bancos é absurda. O Estado é acionista e, como qualquer acionista, recapitaliza o que é seu. Dito isto, a fatura é impensável e vem de longe. Uma parte explica-se com a crise financeira e económica. Mas todos sabemos que há mais e vem de há mais tempo do que isso. E basta olhar a lista dos principais devedores em risco para perceber, sem grande dificuldade, onde está o problema. Além de uns espanhóis, estão os do costume: Espírito Santo, através do grupo e do Vale do Lobo; o grupo Mello, através do grupo Efacec e da Brisa; o grupo Lena; o angolano António Mosquito, com as suas ligações a Manuel Fino, acionista da Soares da Costa e da Cimpor; e Américo Amorim, através da Finpro. Alguns destes créditos são compreensíveis, outros são discutíveis, outros pior do que isso.

A meio de uma negociação com a Europa para a recapitalização, o PSD quer saber tudo o que se passou na Caixa e se esqueceu de perguntar e resolver quando tinha a sua tutela. Mas PSD, CDS e PS não precisam de uma comissão de inquérito para saber a verdade. Basta perguntarem aos seus militantes e ex-governantes que foram administradores da CDG.

O PS pergunta a António Vitorino, o Zé dos Plásticos das empresas nacionais, que juntou cargos na Caixa, na Brisa e na Finpro, só para me ficar pelos principais devedores. A António Castro Guerra, que passou pela Cimpor e pela Brisa. A Armando Vara, de que sabemos o suficiente para não precisarmos de dizer muito mais. O PSD pergunta a António de Sousa, que também foi administrador da Brisa. A Faria de Oliveira, responsável por muitos dos negócios que agora apoquentam o país. A Mira Amaral, que conseguiu que lhe oferecessem um BPN limpinho. A Pedro Dias Alves, que saltitou entre o Ministério da Saúde, o grupo Mello e os hospitais da CGD. E podem todos perguntar a Daniel Proença de Carvalho, que esteve na Caixa, no Espírito Santo e na Cimpor, tendo ido trabalhar com António Mosquito, mais uma vez ficando apenas nos devedores.

Não precisam de uma comissão de inquérito para descobrir o estão carecas de conhecer. No PSD, assim como PS e no CDS, todos sabem que o problema não é a Caixa. Essa vive os dramas de toda a banca. É quem se passeia entre a banca privada e pública, governos e empresas, e faz carreira a garantir que a mão de um lado lava a mão do outro. Podiam parar agora de fazer asneiras. É que não é por acaso que não se costumam fazer comissões de inquérito sobre bancos em funcionamento. Se alguma coisa realmente nova e chocante fosse revelada sem violar o sigilo bancário, funcionaria como uma espécie de rodapé da TVI sobre o Banif. Só que todos os dias, durante meses. E assistiríamos na Caixa ao que assistimos nos bancos privados quando se instalou a dúvida sobre a sua credibilidade. E desta vez teria sido o poder político a pôr em perigo o maior e mais seguro banco nacional. No fim, pagava o contribuinte.

Durante muito tempo vai deixar de haver notícias

 (José Pacheco Pereira, in Sábado, 17/06/2016)

 

Autor

Pacheco Pereira

 

Que fique bem claro que penso que o Campeonato Europeu de Futebol, ainda por cima com a participação de Portugal, é notícia e matéria de relevo noticioso. Não ponho nada disso em causa. Admito mesmo uma situação de cobertura noticiosa especial, com meios e tempo acima do normal. Mas não é isso que se passa. O que se passa é uma profunda anomalia e deriva dos media para se tornarem apenas puro entretenimento e deixarem de ter fronteiras entre géneros, com a canibalização de todas as emissões – a televisão é o melhor exemplo do que digo – pelo futebol. A lógica jornalística implicava que as principais notícias fossem dadas nos noticiários (e refiro-me a notícias e não ao penoso espectáculo de adeptos, jornalistas, políticos, etc., a dizer coisa nenhuma, a não ser a portugalidade descoberta pela via da bola). E depois os programas desportivos, em canais especializados, falassem o que quisessem e quanto quisessem. É assim nos países civilizados. Dito mesmo assim: nos países civilizados ninguém imagina este excesso português, talvez latino-americano, de parar tudo porque daqui a uma semana há um jogo da Selecção. Até lá é a logomaquia futebolística para encher o ar.

 O que se passa é uma pura invenção contínua de imagens do “nada”, sem conteúdo noticioso que não são mais do que paisagem, na qual não acontece nada. Os jornalistas estão lá à espera seja lá do que for. Se uma menina com chupa-chupa aparecer vagamente vestida de futebolês, lá vão eles atrás. Os jogos em si mesmos são uma pequena parte deste espectáculo, é a partida, é a chegada, é o pequeno-almoço, o almoço, o jantar, o treino, o passeio, seja lá o que for serve.

Deixou de haver especialização que permita separar a emissão normal, já afectada pelos directos que se justificam, insisto que se justificam, do permanente fluxo de palavras e imagens a pretexto do futebol, sem qualquer conteúdo informativo, só entretenimento e entretenimento pobre, muito pobre.

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No cabo era suposto haver canais noticiosos e canais de desporto e, embora em momentos excepcionais, como é, e não tenho dúvidas, o actual campeonato, seja normal tocarem-se uns aos outros. Mas não é isso que acontece – o zelo futebolístico dos ex-canais noticiosos é tal que ultrapassa o dos canais especializados, até porque podem deslocar meios e recursos e as audiências do prime time para o futebol. O ónus vai para os canais de cabo, mais do que para os canais com sinal aberto. Aí são os noticiários que perdem a cabeça, mas as telenovelas essas mantêm-se. O público feminino fica a ver a novela, o masculino é atirado para o cabo. Esta perda de autonomia do cabo é particularmente perigosa para os canais noticiosos, que perdem identidade e função, tornando-se durante muito tempo canais de desporto.

O efeito é semelhante à dopagem. Televisões dopam as pessoas que precisam de doses cada vez maiores de futebol, duas horas de jogo e 200 de “nada”, para se sentarem diante do ecrã sem mais nada dentro da cabeça do que a pílula da bola, ou o químico do jogo. Se não for isso que está lá no ecrã, seja na RTP, na SIC ou na TVI – e está de manhã à noite -, mudam de canal para a “concorrência” e as audiências afundam. Ninguém consegue manter a sanidade, limpar a cabeça e o corpo. Depois há a ressaca, e parece que falta alguma coisa. Até à próxima.


 Portas e o seu valor no mercado

 

Foi o próprio Portas que, falando de si, disse que “estava no mercado”. Sobre a sua atitude disse tudo o que queria dizer na discussão que tive na Quadratura do Círculo [SIC Notícias], excepto uma coisa: por que razão um homem que é esperto e sabe as consequências reputacionais daquilo que faz correu tão rapidamente para um emprego de lobista de uma empresa? A resposta deu-a o próprio Portas: o seu “valor” no “mercado”. Ora o “valor” de Portas no “mercado” do lóbi degrada-se rapidamente à medida que o tempo passa e os contactos e relações que estabeleceu enquanto esteve no governo, onde ocupou os mais altos cargos de “estado”, vão-se desvanecendo. Aliás, uma retórica balofa que uma certa direita do CDS tem do “estado” está bem traduzida neste episódio, em que um antigo vice-primeiro-ministro, ministro dos Negócios Estrangeiros e ministro da Defesa passa a lobista exactamente usando o “valor” que vem dessa alta experiência. E o “valor” são os segredos de Estado, os conhecimentos, os contactos, e o currículo de cargos governamentais no cartão-de-visita. É por isso que Portas tem pressa e assim pode comprar os talheres de prata mais cedo, ou fazer o upgrade para os de ouro.