ODE AO MEU PAÍS AMADO

(Ana Cristina Leonardo, in Expresso, 12/11/2016)

ANALEONARDO

                Ana Cristina Leonardo

Vivemos sufocados pelo presente. Diluídas as estações do ano que marcavam a lenta e redonda passagem do tempo, sobram aos urbanos as intermináveis bichas de verão para a praia, a febre primaveril dos fenos, o outonal fumo das castanhas e o pesadelo do Natal em pleno inverno. Mais solstício, menos equinócio. O presente, subtraído aos padrões climáticos regulares, transformou-se num continuum a que não falta porém excitação mundana. Não temos como nos aborrecer. Quando escrevo, as eleições americanas provocam entre nós uma secreção extraordinária de adrenalina e os locais opinam sobre o seu voto, embora infactível, com uma paixão que só recordo dos tempos em que Sócrates, o Carismático, segundo Ascenso Simões, era eleito o homem mais sexy do país ou, vá lá, recuando um pouco mais, ao sumiço de Maddie (houve mesmo um grupo de portugueses, João Galamba inclusive, que participou num vídeo de repúdio a Trump, repetindo para a câmara ‘I give a fuck’ sem que todavia houvesse queixas americanas de ingerência nos seus assuntos internos, talvez porque os EUA ‘don’t give a fuck’ para Galamba). Entretanto, com o caso Piloto de pousio e o próprio a monte, as atenções viram-se para a Web Summit, conferência europeia de empreendedorismo e tecnologia que traz a Lisboa cerca de 53 mil tecnocromos, com uma lista de participantes que inclui entre outros Barroso e Portas (sem dúvida dois exemplos de sucesso em qualquer área), mas onde não conseguimos descortinar o nome do embaixador do programa relvista “Impulso Jovem” (a parte boa para os não empreendedores é que os transportes públicos vão funcionar ***** durante os dias da conferência). Houve ainda o caso do turista que derrubou uma estátua tricentenária no Museu de Arte Antiga, o que levantou grande sururu sobre a segurança às Janelas Verdes, sem que ninguém todavia se tenha interrogado sobre quão idiota alguém pode ser para ir tirar selfies para um museu borrifando-se nas obras expostas. Obra de peso é o galo assinado por Joana Vasconcelos com o patrocínio de azeite homónimo: quatro toneladas. Li que canta. António Costa tentou que também se alumiasse, mas as pilhas do comando estavam gastas.

Vai depois para a China o galo, ficando aqui até ao final do mês, substituto do burro da Ferrari de que privaram recentemente os lisboetas, o que me recordou o “Fim” de Mário de Sá-Carneiro: “Que o meu caixão vá sobre um burro/ Ajaezado à andaluza/ A um morto nada se recusa/ E eu quero por força ir de burro!”. Como não gostar de Portugal?

O vento de Lisboa empurra Assunção para longe

.(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/09/2016)

Autor

                        Daniel Oliveira

Assunção Cristas anunciou a sua candidatura à Câmara de Lisboa. Todos esperavam essa decisão. A questão é se o PSD cometeria a enorme asneira de a apoiar. O historial de candidatos fortes do CDS e resultados pobres na capital é longo. Paulo Portas conseguiu, como líder do CDS, 7,6%, Maria José Nogueira Pinto teve 5,9%, e, um pouco mais baixo na hierarquia, Telmo Correia ficou-se pelos 3,7%. O estranho hábito de o CDS escolher Lisboa para medir a sua força eleitoral (sobretudo com o PSD) ignora a atual realidade sociopolítica da cidade.

Não me queixo do hábito de tratar Lisboa como trampolim. Apesar do “eu fico!” de Paulo Portas ter levado, como ele leva sempre, a encenação mais longe do que alguma vez se tinha tentado, os lisboetas estão habituados a este preço da capitalidade. Jorge Sampaio abandonou a Câmara para ir para Belém, António Costa e Pedro Santana Lopes para irem para São Bento. Paulo Portas e João Semedo usaram-na para afirmar lideranças, João Ferreira para lançar a sua pré-campanha às Europeias. E até se suspeita que Fernando Medina sonhe com outros voos. Lisboa é um modo de usar e as exceções resultaram em presidentes medíocres: João Soares e Kruz Abecassis. Talvez seja este o fado de Lisboa: só a trata bem quem se casa com ela por interesse.

António Costa foi um presidente popular. Deixou trabalho feito e, apesar do trágico vereador do urbanismo, Manuel Salgado, que espero que esteja de saída mas que ainda deixará um rasto com que Fernando Medina terá de lidar, fez um bom trabalho na cidade. Fernando Medina ainda não tem um registo próprio. Tenta deixar, como é costume em todos os autarcas, a sua marca antes de ir a votos. Através de obra. Demasiada obra em pouco tempo. Mas, no essencial, os lisboetas associam-no ao mandato de António Costa. E isso favorece-o. O seu próprio legado só existirá verdadeiramente quando e se for eleito.

Só se endoidecer é que Pedro Santana Lopes será candidato a Lisboa. Porque o mais provável é que perca. O buraco financeiro que ele e Carmona Rodrigues deixaram para a cidade contrasta de tal forma com a atual situação que seria quase impossível fazer campanha. Santana venceu graças ao amadorismo político de João Soares, que fez uma das piores campanhas políticas de que há memória, perdendo uma corrida que estava ganha à partida. Mas a memória que ficou de Santana na cidade é péssima. E os erros facilmente demonstráveis. Santana seria um candidato da oposição a ter de se defender em vez de poder atacar. E não acredito que, nesta fase da sua vida, queira correr o risco de perder uma eleição autárquica. E perdê-la com Fernando Medina, uma figura que ainda tem pouco peso político, seria a suprema das humilhações. Santana está apenas a fazer com que o namoro dure.

Restam ao PSD figuras secundárias e que concorrem para picar o ponto, servir o partido, subir uns degraus e perder as eleições. A situação financeira da cidade é boa, a explosão do turismo, apesar dos enormes problemas que está a causar, garante uma situação económica muito favorável para a cidade. Apesar do exagero, o centro de Lisboa está a ser renovado. Medina não aquece os eleitores mas também não tem grandes anticorpos. E com um candidato secundário no PSD, a campanha de Lisboa vai ser morna. A animá-la, veremos quem o Bloco escolhe como candidato ou candidata. E teremos Assunção Cristas a usar a capital para testar a sua liderança nacional.

Tudo o que Assunção Cristas tinha para dizer aos lisboetas, disse-o quando decidiu apresentar a sua candidatura à Câmara Municipal de Lisboa em… Oliveira do Bairro.

Nem à sua presença física, neste momento inaugural, tivemos direito. Mas tivemos direito a frases para souvenirs turísticos: “Eu diria que tenho o vento de Lisboa colado à minha pele e tenho as águas do Tejo no fundo da minha alma”. Deve ter sido o vento que a levou do distrito de Leiria, por onde concorreu como deputada, e para o distrito de Aveiro, onde anunciou ser candidata a presidente da Câmara de Lisboa.

Compreendo que a liderança de Assunção Cristas precise de se medir. Mas para além de ser o lugar errado para o fazer, como provaram os resultados dos dirigentes do CDS que o tentaram no passado, Cristas deveria ter disfarçado um pouco mais. É que os lisboetas, que vivem os problemas de Lisboa e não perderão o sono com as necessidades políticas da líder do CDS, talvez não apreciem o excesso de confiança na forma como os quer instrumentalizar. Não é primeira. Mas pelo menos os outros, que usaram Lisboa como trampolim, fingiram que a sua candidatura tinha alguma coisa a ver com a cidade.

Pires de Lima, o politiqueiro das taxinhas

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 28/04/2015)

         Daniel Oliveira

                           Daniel Oliveira

Contra a opinião geral, defendi, com alguns acertos – que acabaram por acontecer – a taxa para entradas e dormidas de turistas, decidida pela Câmara Municipal de Lisboa. Como sabe qualquer morador em Lisboa, o aumento exponencial do turismo na capital tem um impacto brutal na cidade. Positivo, claro. É dinheiro que entra, são postos de trabalho, é comércio que não só sobrevive como prospera. E negativo. É a expulsão de gente da cidade, é um aumento de preços em algumas zonas, é a confusão em e é, em geral, um maior desgaste da cidade e uma exigência acrescida de recursos públicos. Esses recursos são, em grande parte, camarários. Enquanto grande parte dos impostos coletados à atividade turística vão para o poder central. A começar pelo exorbitante IVA.

Este tipo de taxas, que existem, e com valores muitíssimo mais altos, em imensas cidades com grande afluência de turistas, é não só aceitável como recomendável. A alternativa é pôr os munícipes de Lisboa a pagar, sem apoio das empresas que mais lucram com o turismo, os custos públicos desta atividade. A atividade turística, que beneficiou, entre outras coisas, da trágica crise portuguesa, que reduziu os custos dos serviços, aguenta perfeitamente uma taxa com efeitos marginais. Na realidade, a ANA aguentou e nem se queixou.

Com todas as discordâncias que tenho com Pires de Lima, achava, antes dele ser ministro, que era intelectualmente honesto. Este e outros episódios acabaram por revelar o pior dos politiqueiros

Perante esta proposta, o ministro Pires de Lima foi insistente no ataque ao que chamou, numa performance viral, de “taxas e taxinhas”. E voltou vezes sem conta ao tema. Sempre que lhe deram oportunidade para o fazer, na realidade. Segundo o ministro da Economia, estas taxas eram um ataque à nossa principal atividade exportadora em crescimento rápido: o turismo. O que não deixa de ser hilariante, quando é dito por um membro de um governo que atirou o IVA, incluindo o da restauração, para a estratosfera. A esta crítica, Pires de Lima responde que o seu ministério não criou taxas ou aumentou impostos. Como se o governo fosse uma manta de retalhos e não um único órgão político.

Recentemente, Rui Moreira não descartou a possibilidade do Porto seguir o exemplo de Lisboa. Explicou, numa entrevista ao “Jornal de Notícias”, que a coisa existe noutras cidades e tem como função cobrir o “impacto da pegada turística”, que representa uma enorme sobrecarga nas infraestruturas urbanas. O presidente da Câmara Municipal do Porto apenas quer ver como a coisa corre na capital.

Perante isto, foi, na altura, pedida uma reação a Pires de Lima, que fez da guerra às taxas para o turismo, em Lisboa, uma autêntica cruzada. E, extraordinariamente, a resposta foi lacónica: “não quero fazer comentários”. As taxas deixaram de o indignar. Como a política deve ser uma coisa séria, Pires de Lima tem de explicar a razão para ter passado da gritaria histérica para o silêncio absoluto. Ou passou a concordar com as taxas e taxinhas e devia dividir essa sua conversão com o povo; ou as taxas são más em Lisboa e indiferentes no Porto; ou elas eram importantes porque estavam a ser propostas pelo líder do principal partido da oposição e deixaram de ser importantes quando foram propostas por um autarca independente eleito com o apoio do partido do ministro da Economia. Com todas as discordâncias que tenho com Pires de Lima, achava, antes dele ser ministro, que era intelectualmente honesto. Este e outros episódios acabaram por revelar o pior dos politiqueiros.