O vento de Lisboa empurra Assunção para longe

.(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 16/09/2016)

Autor

                        Daniel Oliveira

Assunção Cristas anunciou a sua candidatura à Câmara de Lisboa. Todos esperavam essa decisão. A questão é se o PSD cometeria a enorme asneira de a apoiar. O historial de candidatos fortes do CDS e resultados pobres na capital é longo. Paulo Portas conseguiu, como líder do CDS, 7,6%, Maria José Nogueira Pinto teve 5,9%, e, um pouco mais baixo na hierarquia, Telmo Correia ficou-se pelos 3,7%. O estranho hábito de o CDS escolher Lisboa para medir a sua força eleitoral (sobretudo com o PSD) ignora a atual realidade sociopolítica da cidade.

Não me queixo do hábito de tratar Lisboa como trampolim. Apesar do “eu fico!” de Paulo Portas ter levado, como ele leva sempre, a encenação mais longe do que alguma vez se tinha tentado, os lisboetas estão habituados a este preço da capitalidade. Jorge Sampaio abandonou a Câmara para ir para Belém, António Costa e Pedro Santana Lopes para irem para São Bento. Paulo Portas e João Semedo usaram-na para afirmar lideranças, João Ferreira para lançar a sua pré-campanha às Europeias. E até se suspeita que Fernando Medina sonhe com outros voos. Lisboa é um modo de usar e as exceções resultaram em presidentes medíocres: João Soares e Kruz Abecassis. Talvez seja este o fado de Lisboa: só a trata bem quem se casa com ela por interesse.

António Costa foi um presidente popular. Deixou trabalho feito e, apesar do trágico vereador do urbanismo, Manuel Salgado, que espero que esteja de saída mas que ainda deixará um rasto com que Fernando Medina terá de lidar, fez um bom trabalho na cidade. Fernando Medina ainda não tem um registo próprio. Tenta deixar, como é costume em todos os autarcas, a sua marca antes de ir a votos. Através de obra. Demasiada obra em pouco tempo. Mas, no essencial, os lisboetas associam-no ao mandato de António Costa. E isso favorece-o. O seu próprio legado só existirá verdadeiramente quando e se for eleito.

Só se endoidecer é que Pedro Santana Lopes será candidato a Lisboa. Porque o mais provável é que perca. O buraco financeiro que ele e Carmona Rodrigues deixaram para a cidade contrasta de tal forma com a atual situação que seria quase impossível fazer campanha. Santana venceu graças ao amadorismo político de João Soares, que fez uma das piores campanhas políticas de que há memória, perdendo uma corrida que estava ganha à partida. Mas a memória que ficou de Santana na cidade é péssima. E os erros facilmente demonstráveis. Santana seria um candidato da oposição a ter de se defender em vez de poder atacar. E não acredito que, nesta fase da sua vida, queira correr o risco de perder uma eleição autárquica. E perdê-la com Fernando Medina, uma figura que ainda tem pouco peso político, seria a suprema das humilhações. Santana está apenas a fazer com que o namoro dure.

Restam ao PSD figuras secundárias e que concorrem para picar o ponto, servir o partido, subir uns degraus e perder as eleições. A situação financeira da cidade é boa, a explosão do turismo, apesar dos enormes problemas que está a causar, garante uma situação económica muito favorável para a cidade. Apesar do exagero, o centro de Lisboa está a ser renovado. Medina não aquece os eleitores mas também não tem grandes anticorpos. E com um candidato secundário no PSD, a campanha de Lisboa vai ser morna. A animá-la, veremos quem o Bloco escolhe como candidato ou candidata. E teremos Assunção Cristas a usar a capital para testar a sua liderança nacional.

Tudo o que Assunção Cristas tinha para dizer aos lisboetas, disse-o quando decidiu apresentar a sua candidatura à Câmara Municipal de Lisboa em… Oliveira do Bairro.

Nem à sua presença física, neste momento inaugural, tivemos direito. Mas tivemos direito a frases para souvenirs turísticos: “Eu diria que tenho o vento de Lisboa colado à minha pele e tenho as águas do Tejo no fundo da minha alma”. Deve ter sido o vento que a levou do distrito de Leiria, por onde concorreu como deputada, e para o distrito de Aveiro, onde anunciou ser candidata a presidente da Câmara de Lisboa.

Compreendo que a liderança de Assunção Cristas precise de se medir. Mas para além de ser o lugar errado para o fazer, como provaram os resultados dos dirigentes do CDS que o tentaram no passado, Cristas deveria ter disfarçado um pouco mais. É que os lisboetas, que vivem os problemas de Lisboa e não perderão o sono com as necessidades políticas da líder do CDS, talvez não apreciem o excesso de confiança na forma como os quer instrumentalizar. Não é primeira. Mas pelo menos os outros, que usaram Lisboa como trampolim, fingiram que a sua candidatura tinha alguma coisa a ver com a cidade.

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