Paradise Papers. Nova fuga de informação expõe rainha de Inglaterra

(In Expresso Diário, 05/11/2017)

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(Este artigo mostra que está tudo podre. Os negócios, e o capitalismo, precisam dos Estados para gerirem a ordem social e evitarem a organização e as manifestações de desconforto de quem trabalha. Mas quando se trata de pagar esses “serviços”, fogem a sete pés e os offshores são a sua predilecção. Ninguém sai incólume, da direita à esquerda, de norte a sul, de este a oeste. Curiosamente, a exemplo do que se passou com os Panamá Papers, de Portugal nem rasto de denúncias de “peixe graúdo”. Ou os nossos milionários são uns tesos, ou são muito competentes na fuga aos impostos, ou estão muito bem “protegidos” pelos jornalistas da lusa imprensa, das três uma. Eu, não sei porquê – ou talvez saiba -, aposto que a última hipótese é a mais provável.

Estátua de Sal, 05/11/2017)


São mais de 13 milhões de ficheiros, numa nova fuga de informação global sobre paraísos fiscais investigada pela organização que lançou os Panama Papers. Revelações incluem os negócios do secretário do Comércio de Donald Trump com o círculo próximo de Vladimir Putin e os tentáculos offshore do principal angariador de fundos do primeiro-ministro do Canadá….


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O programa secreto do capitalismo totalitário

(Por George Mobiot, in OutrasPalavras, 25/07/2017)

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Como Charles Koch e outros bilionários financiaram, nas sombras, um projeto político que implica devastar o serviço público e o bem comum, para estabelecer a “liberdade total” dos 1% mais ricos.


É o capítulo que faltava, uma chave para entender a política dos últimos cinquenta anos. Ler o novo livro de Nancy MacLean, Democracy in Chains: the deep history of the radical right’s stealth plan for America [“Democracia Aprisionada: a história profunda do plano oculto da direita para a América] é enxergar o que antes permanecia invisível.

170725-ChainsO trabalho da professora de História começou por acidente. Em 2013, ela deparou-se com uma casa de madeira abandonada no campus da Universidade George Mason, em Virgínia (EUA). O lugar estava repleto com os arquivos desorganizados de um homem que havia morrido naquele ano, e cujo nome é provavelmente pouco familiar a você: James McGill Buchanan. Ela conta que a primeira coisa que despertou sua atenção foi uma pilha de cartas confidenciais relativas a milhões de dólares transferidos para a universidade pelo bilionário Charles Koch1.

Suas descobertas naquela casa de horrores revelam como Buchanan desenvolveu, em colaboração com magnatas e os institutos fundados por eles, um programa oculto para suprimir a democracia em favor dos muito ricos. Tal programa está agora redefinindo a política, e não apenas nos Estados Unidos.

Buchanan foi fortemente influenciado pelo neoliberalismo de Friedrich Hayek e Ludwig von Mises e pelo supremacismo de proprietários de John C Carlhoun. Este último argumentava, na primeira metade do século XIX, que a liberdade consiste no direito absoluto de usar a propriedade – inclusive os escravos – segundo o desejo de cada um. Qualquer instituição que limitasse este direito era, para ele, um agente de opressão, que oprime homens proprietários em nome das massas desqualificadas.

James Buchanan reuniu estas influências para criar o que chamou de “teoria da escolha pública. Argumentou que uma sociedade não poderia ser considerada livre exceto se cada cidadão tivesse o direito de vetar suas decisões. Queria dizer que ninguém deveria ser tributado contra sua vontade. Mas os ricos, dizia ele, estavam sendo explorados por gente que usa o voto para reivindicar o dinheiro que outros ganharam, por meio de impostos involuntários usados para assegurar o gasto e o bem-estar social. Permitir que os trabalhadores formassem sindicatos e estabelecer tributos progressivos eram, sempre segundo sua teoria, formas de “legislação diferencial e discriminatória” sobre os proprietários do capital.

Qualquer conflito entre o que ele chamava de “liberdade” (permitir aos ricos fazer o que quiserem) e a democracia deveria ser resolvido em favor da “liberdade”. Em seu livro The Limits of Liberty [“Os limites da liberdade”], ele frisou que “o despotismo pode ser ser a única alternativa para a estrutura política que temos”. O despotismo em defesa da liberdade…

James Buchanan, colaborador de Pinochet e partidário do despotimo -- em nome da "liberdade"...

James Buchanan, colaborador de Pinochet e partidário da ditadura — em nome da “liberdade”…

Ele prescrevia o que chamou de uma “revolução constitucional”: criar barreiras irrevogáveis para reduzir a escolha democrática. Patrocinado durante toda sua vida por fundações riquíssimas, bilionários e corporações, ele desenvolveu uma noção teórica sobre o que esta revolução constitucional seria e uma estratégia para implementá-la.

Ele descreveu como as tentativas de superar a segregação racial no sistema escolar do sul dos Estados Unidos poderiam ser frustradas com o estabelecimento de uma rede de escolas privadas, patrocinadas pelo Estado. Foi ele quem primeiro propôs a privatização das universidades e cobrança de mensalidades sem nenhum subsídio estatal: seu propósito original era esmagar o ativismo estudantil. Ele recomendou a privatização da Seguridade Social e de muitas outras ações do Estado. Queria romper os laços entre os cidadãos e o governo e demolir a confiança nas instituições públicas. Ele queria, em síntese, salvar o capitalismo da democracia.

Em 1980, pôde colocar este programa em prática. Foi chamado ao Chile, onde ajudou a ditadura Pinochet a escrever uma nova Constituição – a qual, em parte devido aos dispositivos que Buchanan propôs, tornou-se quase impossível de revogar. Em meio às torturas e assassinados, ele aconselhou o governo a ampliar seus programas de privatazação, austeridade, restrição monetária, desregulamentação e destruição dos sindicatos: um pacote que ajudou a produzir o colapso econômico de 1982.

Nada disso perturbou a Academia Sueca que, por meio de Assar Lindbeck, um devoto na Universidade de Estocolomo, conferiu a James Buchanan o Nobel de Economia de 1986. Foi uma das diversas decisões que tornaram duvidosa a honraria.

A historiadora Nancy Maclean: para ela, capitalismo é, cada vez mais, incompatível com democracia

A historiadora Nancy Maclean: para ela, capitalismo é, cada vez mais, incompatível com democracia

Mas seu poder realmente intensificou-se quando Charles Koch, hoje o sétimo homem mais rico nos EUA, dicidiu que Buchanan tinha a chave para a transformação que desejava. Para Koch, mesmo ideólogos neoliberais como Milton Friedman e Alan Greenspan eram vendidos, já que tentavam aperfeiçoar a eficiência dos governos, ao invés de destruí-los de uma vez. Buchanan era o realmente radical.

Nancy MacLean afirma que Charles Koch despejou milhões de dólares no trabalho de Buchanan na Universidade George Mason, cujos departamentos de Direito e Economia parecem muito mais thinktanks corporativos que instituições acadêmicas. Ele encarregou o economista de selecionar o “quadro” revolucionário que implementaria seu programa (Murray Rothbard, do Cato Institute, fundado por Koch, havia sugerido ao bilionário estudar as técnicas de Lenin e aplicá-las em favor da causa ultraliberal). Juntos, começaram a desenvolver um programa para mudar as regras.

Os documentos que Nancy Maclean descobriu mostram que Buchanan via o sigilo como crucial. Ele afirmava a seus colaboradores que “o sigilo conspirativo é essencial em todos os momentos”. Ao invés de revelar seu objetivo último, eles deveriam agir por meio de etapas sucessivas. Por exemplo, ao tentar destruir o sistema de Seguridade Social, sustentariam que estavam salvando-o e argumentariam que ele quebraria sem uma série de “reformas” radicais. Aos poucos, construiriam uma “contra-inteligência”, articulada como uma “vasta rede de poder político” para, ao final, constituir um novo establishment.

Por meio da rede de thinktanks financiada por Koch e outros bilionários; da transformação do Partido Republicano; de centenas de milhões de dólares que destinaram a disputas legislativas e judiciais; da colonização maciça do governo Trump por membros de sua rede e de campanhas muito efetivas contra tudo – da Saúde pública às ações para enfrentar a mudança climática, seria justo dizer que a visão de mundo de Buchanan está aflorando nos EUA.

Mas não apenas lá. Ler seu livro desvendou, para mim, muito da política britânica atual. O ataque às regulamentações evidenciado pelo incêndio da Torre Grenfell, a destruição dos serviços públicos por meio da “austeridade”, a regras de restrição do orçamento, as taxas universitárias e o controle das escolas: todas estas medidas seguem à risca o programa de Buchanan.

Em um aspecto, ele estava certo: há um conflito inerente entre o que ele chamava de “liberdade econômica” e a liberdade política. Deixar os bilionários de mãos livres significa, para todos os demais, pobreza, insegurança, contaminação das águas e do ar, colapso dos serviços públicos. Como ninguém votará em favor deste programa, ele só pode ser imposto por meio de ilusão ou controle autoritário. A escolha é entre o capitalismo irrestrito e a democracia. Não se pode ter os dois.

O programa de Buchanan equivale à prescrição de capitalismo totalitário. E seus discípulos apenas começaram a implementá-lo. Mas ao menos, graças às descobertas de Nancy Maclean, agora podemos compreender a agenda. Uma das primeiras regras da política é conhecer seu inimigo. Estamos a caminho.


Nos últimos anos, reportagens e vídeos têm começado a jogar luz sobre a atividade política dos irmãos Charles e David Koch, e seus vínculos com a ultra-direita nos EUA e em outras parte do mundo. Vale assistir, por exemplo, a Koch Brothers exposeddocumentário de Robert Greenwald, ou ler  “Por dentro do império tóxico dos irmãos Koch”,  publicado pela revista Rolling Stones (em inglês)


Fonte aqui

O mundo dos paradoxos

(António Guerreiro, in Público, 25/07/2017)

Guerreiro

António Guerreiro

O modo de vida e os direitos promovidos pelo liberalismo são consubstanciais a uma formidável extensão dos procedimentos de controle e dos mecanismos de vigilância por parte do Estado.


— Um espaço público alargado, acessível a um número cada vez maior de cidadãos, baseado no pressuposto de uma virtual transparência do mundo e anexando zonas cada vez maiores da esfera privada, cria a ilusão de que não há nada para além dele e de que tudo o que é bom aparece e tudo o que aparece é bom. Hipertélico é este excesso de comunicação e de transparência que produz uma falsa consciência iluminada.

— Os mecanismos imunitários (de prevenção e precaução) postos em prática para proteger o bem-estar e a vida dos cidadãos (e é hoje evidente que a política entrou de pleno direito no paradigma imunitário ao assumir a vida, na sua realidade biológica, como o seu objecto e o seu objectivo: é a isto que se chama biopolítica) acabam por ter um efeito de destruição da comunidade. Quem tem hoje mais de 40 anos e olha para trás com os óculos dos tempos de agora, vê-se no passado a atravessar todos os perigos e a correr todos os riscos que na altura eram quase desconhecidos, não porque não existissem, mas porque não estavam categorizados: o perigo dos pedófilos, dos psicopatas, dos assaltantes, dos colegas da escola que praticavam bullying, da própria escola que não tinha portões fechados nem seguranças à porta; o risco de comer bolas de Berlim fora do prazo de validade e não fiscalizadas pela ASAE. Hipertélico é este reino seguro do controle absoluto e da imunidade total. Nele, como já alguém disse, a política da vida, a biopolítica, torna-se uma política da morte, uma tanatopolítica.

— O modo de vida e os direitos promovidos pelo liberalismo são consubstanciais a uma formidável extensão dos procedimentos de controle e dos mecanismos de vigilância por parte do Estado. De tal modo que, entre as inumeráveis mortes que foram sendo decretadas, a morte do liberalismo — enquanto forma de governo e não como doutrina económica — é talvez a mais paradoxal. A morte do liberalismo encontra alguma analogia com esse meio de transporte — o avião — que é hoje um exemplo absurdo de entropia: para uma viagem de duas ou três horas, precisamos — embarque e desembarque incluídos — quase de um dia inteiro desde que saímos do centro de uma cidade para chegar ao centro de outra cidade.

— O capitalismo e a globalização levaram tão longe o alargamento do mundo e a descoberta do exterior que acabaram por o abolir. Esta é, pelo menos, a tese de Peter Sloterdijk, quando introduziu a metáfora arquitectónica de “espaço interior do mundo” para mostrar que quanto mais o capitalismo se universaliza menos lhe interessa o exterior. E o exterior, que é cada vez maior, não é o que está para além: é o que está aqui mas é pobre e miserável.