Mais uma vez a Venezuela recusa a “democracia”…

(Carlos Marques, in Estátua de Sal, 30/07/2024, revisão da Estátua)


(Este texto resulta de um comentário a um artigo que ontem publicámos de João-MC Gomes, ver aqui.

Pelo seu incisivo sentido opinativo e pelo seu carácter de quase manifesto contra todas as práticas de “revoluções coloridas” e outras aleivosias do Império, resolvi dar-lhe o destaque que, penso, merece.

Estátua de Sal, 30/07/2024)


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Maduro não é um bom Presidente. Mas, mais vale um mau ou assim-assim do lado do povo anti-imperialista, do que um excelente candidato das elites que faz a vénia ao império.

As eleições foram muito participadas, resultado da confiança das pessoas no sistema, um dos melhores do Mundo. Havia candidatos para todos os gostos. As campanhas foram livres e pacíficas. O resultado é legítimo.

Claro que o império genocida está preocupado (palavras do nazi-fascista e violador de Direitos Humanos, Anthony Blinken), claro que os vassalos já ladram em uníssono: UE e OAS, os braços geopolíticos do polvo imperial.

Desde o NeoLiberal Milei até ao woke Boric, passando pelos golpistas no Peru e pelos fascistas nas restantes colónias USAmericanas, já todos obedeceram ao tio Sam e disseram que não reconhecem o vencedor.

No golpe da CIA na Bolívia em 2019, a OAS e os presstitutos manipularam o povo com uma leitura falsa e precoce da contagem dos votos. Na Venezuela a tática do fascedo local e internacional costuma ser a manipulação de sondagens. Algumas davam até 2 terços dos votos ao campo fascista pró-imperialista da Venezuela e antecipavam um banho de sangue caso não se confirmasse a vitória do lado “certo”. Parecem as “notícias” da CNN/TVI, CMTV/FOX, SIC/Euronews, RTP/BBC, sobre a “intervenção de Israel contra os terroristas do Hamas”, ou sobre a “iminente vitória dos ativistas pró-democracia de Kiev contra o malvado Putin”.

Como diria Arnaldo Matos, isto é tudo um putedo. A diferença é que em países como a Venezuela, ainda há uma resistência maioritária contra tal putedo. É isso que incomoda realmente os Globalistas NeoCon NeoLib naZionistas do império genocida ocidental.

Só ficam descansados quando os países se ajoelham perante Washington e quando o putedo, por eles bem-mandado, é dono e senhor de tudo nas colónias: dos “governos” (aka vassalos), das principais “oposições” (aka vassalos alternativos), da comunicação social (aka presstitutos das FakeNews), e da economia (aka oligarcas amigos de Wall Street e fanáticos seguidores da Escola de Chicago).

A Alemanha está em recessão, e compra LNG aos EUA. O €uro perde estatuto de moeda de reserva concorrente do dólar dos EUA ao ser a primeira a roubar os Russos descaradamente (algo que até Britânicos e Suíços se recusaram). Toda a Europa se atropela nas encomendas de brinquedos de guerra sobrevalorizados ao Complexo Militar Industrial dos EUA. Os “verdes” Europeus abrem as pernas aos carros americanos enquanto esmagam de impostos e tarifas os ecológicos e baratos e bons fabricados na China.

Anda tudo de Iphone e Samsung com GoogleOS nas orelhas ou Windows noa dedos, conectados diretamente à NSA via Facebook, Instagram, Twitter, etc. Tudo come McDonald´s e bebe Coca-Cola. Tudo baba em estado vegetativo em frente a obras (propaganda) de Hollywood e da Netflix. Macron e companhia governam contra os povos, com 20% ou 15% de apoio eleitoral ou aprovação nas sondagens.

A UE é liderada por quem não é eleito e lá vão mais não sei quantos biliões em armas para Kiev, contra a vontade da esmagadora maioria dos Europeus. Privatiza-se mais isto, NeoLiberaliza-se mais aquilo, esmaga-se o poder de compra dos salários, mais Glovo/Uberização e menos sindicalismo, e a receita final sabe tão bem aos pançudos do regime.

Tudo isto sim, não preocupa o tio Sam. Isto sim é “liberdade e democracia”.

E como cereja no topo do bolo da hipocrisia e vassalagem, reconhece-se o “Estado” da Palestina mas não se aceita que os Palestinianos se defendam (pois isso é “terrorismo”), e reconhece-se o “independente” Kosovo mas não se reconhece igual direito à autodeterminação do Donbass e Crimeia. Taiwan é tratado como “país”, e os invasores da Síria e Iraque, e bombardeadores do Iémen, são todos “bem-intencionados”.

Perigo, perigo, é a Rússia querer garantir a sua defesa, a China ser a maior economia do Mundo, o Irão querer paz no Médio Oriente, a Venezuela fazer eleições livres e representativas, o Hamas em Gaza a resistir contra o colonialismo genocida dos naZionistas, os Cubanos resistirem ao imperialismo, etc. Isso é que é um “perigo”.

Mas nós na Europa, nós não somos perigo nenhum para os EUA. Nós matamo-nos a nós próprios se for preciso para levar em diante os planos do tio Sam, e ainda lhes pagamos para tal. Isso sim, é “liberdade e democracia”…

Notas sobre a Guerra não-tão-Fria

  • O número de mortos vai em 58 mil para a Rússia, com as baixas a caírem quase para zero nos últimos meses, e em 300 mil mortos para os UcraNazis, cujas baixas irrecuperáveis (mortos e feridos graves) andam entre os +400 mil (estimativa de economista Ucraniano com base no orçamento, por exemplo: pagamentos do exército às famílias dos mortos) e os 650 mil (estimativa do Rybar há 1 ou 2 meses atrás);
  • O próprio Sirsky admite que a Rússia começou tudo em cima dos joelhos só com 100 mil homens (mais uma evidência que reforça história real do início da intervenção Russa: uma resposta à agressão UcraNazi no Donbass um dias antes de 24-Fev-2022 e não uma invasão planeada nem em longo termo nem em larga escala), e que neste momento está a chegar aos 600 mil. Do lado UcraNazi já restam poucos homens para raptar nas ruas e são precisos 30 mil por mês, mal treinados, só para repor as baixas;
  •  A Rússia tem uma qualidade de armamento e equipamento pelo menos comparável ao melhor da NATO, mas tem-no em muito mais quantidade. E isto não é um pormenor: enquanto a NATO toda exaustou a sua capacidade, a Rússia ainda nem sequer pediu ajuda aos seus aliados;
  • Todos os dias há avanços territoriais da Rússia em todas as linhas da frente (Orekhov, Ugledar-Mariinka, Avdeyevka, Toretsk, Chasov-Yar, Soledar-Seversk, Kremima, Kupiansk), abertura de novos eixos de ataque, e cada vez mais rápida ultrapassagem das defesas UcraNazis. E isto também não é um pormenor: o Ministério da Defesa Russo ainda chama a isto a fase de atrição, e não uma nova ofensiva!
  •  Mais de 85% do povo Russo apoia as decisões dos seus representantes, enquanto nem sequer metade dos Europeus apoia os seus carrascos e em muitos casos os (des) governantes fazem o oposto do que o povo quer em relação ao conflito (por exemplo: envio de +armas em vez de negociar a paz).

Como é que os “génios” Globalistas/EUrofascistas e seus fanáticos seguidores acham que isto vai acabar?

Se calhar, olhar para a abertura dos Jogos da Hipocrisia Olímpica dá-nos uma ajuda: travestis com barba a fazer danças de cabaret, uma gorda no lugar de Cristo numa última ceia LGBT+, braços abertos para receber genocidas naZionistas, e o povo atrás das grades em Paris. Tal como alguém comentou na internet, também eu não sei bem se era a abertura dos Jogos, ou o encerramento da “civilização” Ocidental.

Antidote du jour (como se faz no Naked Capitalism): vejam o vídeo dos Little Big (banda Russa que canta em inglês) sobre os Jogos em Paris. Fala sobre o racismo anti-imigração, do turismo sexual/prostituição em Paris, da poluição do rio Seine, do doping dos atletas ocidentais, do cancelamento dos atletas eslavos, dos homens trans a competir ao lado de mulheres, e tem até um AI Deep Fake do Macron a “dançar” atrás da Hidalgo. É um fartote. Não o encontram no Youtube, pois este mero videoclip musical cómico está censurado pelos defensores da “verdade” e da “liberdade”. É considerado um “perigo” para o pensamento único do lado de cá.


Sair da História em barcos fluviais

(Por Régis de Castelnau in Reseau International, 28/07/2024, Trad. Estátua de Sal)


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Não assisti à “cerimónia” de abertura da feira olímpica. Ainda assim, não convém passar ao lado.

Assistir a um espetáculo caro, concebido por Patrick Boucheron e Thomas Jolly, para permitir ao psicopata do Eliseu encenar-se, desculpem, há limites para o masoquismo. Sabíamos perfeitamente que lá íamos encontrar uma cultura extraordinariamente “baixa, vulgar, vistosa como um vidro de explorador” que um Ocidente globalizado, depois de ter arrancado as suas raízes, tenta impor ao mundo.

É evidente que não falhámos o prognóstico. Boucheron e Jolly deram-nos, previsivelmente, a quantidade certa de modernidade conformista e vendedora, com algumas provocações woke dirigidas ao público americano, como a dizer-lhe: “concordando com JD Vance, somos ‘clientes subservientes’, mas vejam, somos capazes de ser tão estúpidos como vocês”. Até à passagem da barcaça dos Estados Unidos, saudada com incríveis espasmos de adoração submissa, pelos comentadores televisivos.

Mas sentimos, quando muito, um cheiro agradável do tipo errado de alegria. Com a “blasfémia” da reprodução woke da Última Ceia cristã. Foi bastante nojento, mas é muito bem feito para os católicos. Que se opõem a todos estes excessos com um silêncio piedoso, complacente e cobarde. E que, mais uma vez, vão engolir a sua humilhação sem dizer uma palavra.

Também não vou entrar na questão desportiva, apesar de sempre ter adorado o desporto em geral e os Jogos Olímpicos em particular. Mas, parafraseando Philippe Bordas, diria que “o Olimpismo só durou um século. O que ainda se chama olimpismo e faz de si próprio um espetáculo não passa de uma farsa, um artefacto próprio de um mundo distorcido pelo dinheiro, pela genética e pelo bio-poder”.

A última vez que assisti a uma cerimónia de abertura foi nos Jogos de Pequim de 2008. A mensagem enviada ao mundo foi muito clara. Era a de Fernand Braudel na sua “História das Civilizações”:

“Imaginem uma civilização contínua no outro extremo do mundo, inalterada há milénios, governada por dinastias imperiais superiores às de Roma, ignorante da filosofia grega, do alfabeto, da democracia, do cristianismo, do individualismo, do feudalismo, do Renascimento ou do Iluminismo, cujo povo supera o nosso em inteligência e cujas instituições superam as nossas em eficácia. Imaginem-nos a prosperar hoje, ultrapassando-nos em todos os domínios de atividade”.

E enquanto isso, entre dois gaguejos de Biden – o nosso próprio Imperador -, reelegemos Macron e contemplamos com prazer o espetáculo da nossa saída acelerada da História.

Num desfile de barcos fluviais, não temos outra coisa para contar ao Mundo senão a nossa submissão.

Fonte aqui.


Os eunucos europeus

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 21/07/2024)


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El manuscrito carmesí. Há muitos anos li este romance impressionante de Antonio Gala, que ficciona o fim do império muçulmano na península Ibérica e a derrota de Boabdil, o último sultão de Granada, que se exilou no Norte de África, onde terá relatado o fim do seu reinado em papéis de cor carmesi, exclusivo da corte. Uma das cenas mais dolorosas e marcantes foi o tratamento dado aos eunucos que serviam nos palácios de Granada. Milhares, produzidos numa fábrica de eunucos em Almeria. Os eunucos de Boabdil foram deixados para trás, como coisas. Eles tinham servido como soldados, como navegadores, como artistas, como médicos, como funcionários. Mas foram abandonados. A União Europeia é hoje o corpo de eunucos do império que tem a sede em Washington.

Na política os atores comunicam por atos. Acting, em inglês, que é a língua do império. A visita do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, a Washington na próxima semana, depois da campanha de genocídio em Gaza, depois da sua condenação como criminoso de guerra e depois da condenação a semana passada da ocupação dos territórios palestinianos, feita pelo Tribunal Internacional de Justiça das Nações Unidas, tem leituras e revela evidências:

A primeira é a de expor que Israel é um agente dos Estados Unidos e todas as ações que executa na Palestina e no Médio Oriente são feitas em nome e em defesa dos interesses dos Estados Unidos. A segunda é que os Estados Unidos se colocam de fora das instituições que de algum modo resultaram do compromisso do pós-segunda guerra de estabelecer uma regulação mínima dos conflitos. O desprezo pelas instituições internacionais significa que a ordem internacional resultante da Segunda Guerra já não existe. Invocá-la é pura hipocrisia. A terceira conclusão é a de que, para o resto do mundo, dada a política de submissão da Europa aos interesses dos Estados Unidos, a Europa é entendida como uma parte destes e não como uma entidade com autonomia. Logo, um ator irrelevante.

O final da ordem resultante da Segunda Guerra criou uma nova situação de ocorrência de um “transiente”, na definição do cientista português do MIT Pedro Ferraz de Abreu, um estado de crise de um sistema à beira da rutura, que abre o caminho para um novo estado do sistema — como ocorreu na queda dos impérios, antes das grandes convulsões, desde as cruzadas às guerras mundiais.

Vivemos um transiente em que o grande império se desfaz diante dos nossos olhos em ambiente de jogo de luta livre americana, tendo por protagonistas dois lutadores senis, oligarquias em disputa, um império que não merece confiança, agressivo, sem lealdades nem princípios.

Em que a alternativa para as pequenas e médias potências é uma nova entidade fiável e estável ao longo da História, a China.

Para o resto do mundo, a visita de Netanyahu aos Estados Unidos a um presidente que acabou de atirar a toalha ao chão e que aproveitará a viagem para apresentar os seus préstimos ao próximo, tem o mesmo significado da prevista e inevitável visita do trio da União Europeia, as duas warmongers e António Costa de chevalier servant, e do novo mordomo inglês: são o mesmo mundo de uma época de domínio do Ocidente que durou cerca de 500 anos e que terminou.

Alguém quer saber dos eunucos dos impérios vencidos?