A queda do Império americano

(Arnaud Bertrand, in X, 02/02/2025, Trad. Estátua)


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Está cada vez mais claro que estamos diante de uma mudança sísmica no relacionamento dos EUA com o mundo:

1) Os EUA desmantelam os seus aparelhos de interferência estrangeira (como a USAID – United States Agency for International Development  👇 ).

2) Marco Rubio afirma que estamos agora num mundo multipolar com “multi-grandes potências em diferentes partes do planeta” (ver aqui) e que “a ordem global do pós-guerra não está apenas obsoleta; é agora uma arma que está a ser usada contra nós” (ver aqui).

3) As tarifas sobre supostos “aliados” como o México, o Canadá ou a UE. Tal equivale ao facto de os EUA efetivamente estarem a dizer “A nossa tentativa de dominar o mundo acabou, cada um com o seu gosto, agora somos apenas mais uma grande potência, não a ‘nação indispensável'”.

Parece “idiota” – como o Wall Street Jounal acabou de escrever – para quem ainda estiver mentalmente no velho paradigma, mas é sempre um erro pensar que o que os EUA fazem – ou qualquer país -,  é idiota.

A hegemonia acabaria mais cedo ou mais tarde, e agora os EUA estão basicamente a escolher acabar com ela nos seus próprios termos. É a ordem mundial pós-americana – trazida até nós pela própria América.

Mesmo as tarifas sobre os aliados, vistas sob esse ângulo, fazem sentido, pois redefinem o conceito de “aliados”: eles não querem mais vassalos – ou talvez não possam continuar a pagar-lhes -, mas sim relacionamento que evoluem, com base nos seus interesses atuais.

Podemos ver isso como um declínio — porque, sem dúvida, parece ser o fim do Império americano — ou como uma forma de evitar um declínio maior: uma retirada controlada dos compromissos imperiais para concentrar recursos nos principais interesses nacionais, em vez de ser forçado a uma retirada ainda mais confusa num estágio posterior.

Em todo caso, é o fim de uma era e, embora o governo de Trump pareça um caos para muitos observadores, eles provavelmente estão muito mais sintonizados com as realidades mutáveis ​​do mundo e com a situação do seu próprio país do que os seus antecessores.

 Reconhecer a existência de um mundo multipolar e escolher operar dentro dele em vez de tentar manter uma hegemonia global, cada vez mais onerosa, é uma opção que não poderia ser adiada por muito mais tempo. Parece confuso, mas é melhor, provavelmente, do que manter a ficção da primazia americana até ela, eventualmente, entrar em colapso sob seu próprio peso.

Isso não quer dizer que os EUA não continuarão a causar estragos no mundo e, de facto, poderemos vê-los a tornarem-se ainda mais agressivos do que antes. Porque quando antes estavam – mal, e muito hipocritamente – a tentar manter alguma aparência da autoproclamada “ordem baseada em regras“, agora nem precisam de fingir que estão sob qualquer restrição, nem mesmo a restrição de se portarem bem com os aliados.

É o fim do Império dos EUA, mas definitivamente não é o fim dos EUA como uma grande força disruptiva nos assuntos mundiais. No geral, essa transformação pode marcar uma das mudanças mais significativas nas relações internacionais desde a queda da União Soviética.

E os menos preparados para isso, como já é dolorosamente óbvio, são os vassalos da América, apanhados completamente desprevenidos, percebendo agora que o patrono – em quem confiaram durante décadas – os trata apenas como mais um conjunto de países com quem negociar.

Fonte aqui

Estados Unidos: Um império de gangues e cúmplices

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 21/11/2024)


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O termo Império surge associado a poder, à conquista de um território, ao domínio de um conjunto de nações e povos sujeitos a um soberano, que assumia o título de imperador ou uma oligarquia. Desde a antiguidade até à Segunda Guerra Mundial todos os impérios se caracterizaram pelas vitórias dos seus exércitos sobre os exércitos inimigos e por imporem uma lei. Os Estados Unidos da América que emergiram como o império dominante no planeta na segunda metade do século XX, alteraram radicalmente o conceito de império.

A Segunda Guerra Mundial terminou com uma vitória partilhada entre os Estados Unidos e a União Soviética, e esta partilha originou conflitos militares entre os dois vencedores, em que os Estados Unidos foram sistematicamente derrotados, mas em que conseguem impor o seu domínio imperial por outros meios. Como o conseguiram e como o estão a perder?

O primeiro grande confronto ocorreu na Coreia e terminou com uma situação humilhante para os Estados Unidos, que não conseguiram vencer a União Soviética, desgastada pela guerra, nem a China, a viver uma revolução e dispondo de baixíssimas capacidades tecnológicas. A tentativa de invadir Cuba pela Baía dos Porcos, com mercenários por conta da CIA, saldou-se num desastre vergonhoso. A segunda guerra dos Estados Unidos, travou-se na Indochina, esta aliada da União Soviética e da China, e terminou com a derrota humilhante da retirada de Saigão pelo telhado da embaixada. No Médio Oriente, a intervenção dos Estados Unidos na guerra Irão-Iraque saldou-se num desastre que provocou a implantação do regime dos ayatollas em Teerão, a invasão do Iraque, com a instalação do caos e a selvática cena da decapitação de Saddam Hussein, a intervenção na Síria e o saque à mão armada do petróleo pelas companhias americanas protegidas pelo Exército americano, que ainda se mantém.

Após os resultados desastrosos das intervenções militares do império no Médio Oriente, Washington decidiu invadir e ocupar o Afeganistão, de onde se retirou em fuga desordenada, à semelhança do que fizera no Vietname. As armas do Afeganistão eram necessárias para atiçar o novo regime pró-americano da Ucrânia contra a Rússia. Trocaram-se afegãos por ucranianos no mercado dos interesses.

No final de 2024, os Estados Unidos, a cabeça do império do Ocidente, acumulam derrotas militares cujo rol está prestes a incluir a Ucrânia, mas apresentam como troféus de vitória, os massacres do Camboja, na Indonésia, na sequência do apoio a Suharto, e uma sucessão impressionante de golpes que organizaram com agentes locais, militares, e que deram origem às ditaduras do Chile, da Argentina, do Brasil, da Bolívia, da Guatemala, do Paraguai, das Filipinas e até implantação de regimes favoráveis, mas menos violentos, como foi o caso do 25 de Novembro de 1975 em Portugal.

Os analistas ocidentais, formatados na análise histórica da tradicional formação dos Estados na Europa a partir de uma elite guerreira, que assume um poder divino e impõe uma lei, tomaram e tomam a criação do império americano como integrado nesta norma, porque são descendentes de europeus (embora dos mais desqualificados socialmente). Ora, a formação da “América” foi feita por esses imigrantes ignorando essas regras e até em frontal conflito com elas.

O grupo dirigente dos Estados Unidos, os fundadores e os que se sucederam são chefes de gangues emigrados da Europa e todo o poder é baseado na fidelidade pessoal e não em princípios. O poder e o sucesso são definidos pelo direito de obter a maior parcela possível de bens e de riqueza, e do domínio do maior número de subordinados e fiéis. É um poder típico das matilhas. As instituições servem os poderosos e os poderosos pagam aos agentes do Estado para estes os servirem.

A relação entre Trump e Elon Musk é a normalidade e não uma excentricidade. É do mesmo tipo da que existiu entre Kissinger e Nixon, os fundadores do código de conduta do império. No livro publicado em abril de 1963 «A América continua a prestar as maiores honras a um dos piores assassinos em massa: Henry Kissinger» o seu autor, Fred Branfman, relata uma conversa de Kissinger com o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Tailândia em 26 de novembro de 1975, enquanto os Khmer Vermelho levavam a cabo o genocídio no Camboja que levaria os seus autores (Pol Pot) a serem julgados criminosos da humanidade. Kissinger perguntou ao ministro tailandês “quantas pessoas o ministro Ieng Sary matou? Dezenas de milhares… eu sei, mas você deveria dizer aos cambojanos que seremos amigos deles. Eles são bandidos assassinos, mas não deixaremos que isso atrapalhe as nossas relações. Estamos preparados para melhorar as relações com eles. Diga-lhe a última parte, mas não diga o que eu disse antes.”

Anteriormente, em 1973, Kissinger já tinha definido o tipo de princípios que presidiam ao império que ele e Nixon estavam a implantar ao referir-se ao golpe do Chile, patrocinado pelos Estados Unidos e executado pela CIA. De acordo com uma transcrição desclassificada de uma reunião em outubro de 1973, apenas duas semanas depois de Pinochet ter assumido o poder, Kissinger afirmou aos diplomatas americanos que não deveriam colocar a questão das violações dos direitos humanos pelos golpistas, acrescentando: “Acho que devemos entender a nossa política: por mais desagradável que eles sejam, o governo [Pinochet] é melhor para nós do que Allende foi”. Ao justificar a sua decisão, Kissinger disse a um membro da equipe do Comitê 40: “Ação secreta não deve ser confundida com trabalho missionário.”

A relação de Musk com Trump é a continuação de uma política de bando a agir segundo os seus apetites. A recente proposta de Musk de diminuir o poder do Estado Federal integra a lógica de deixar os gangues libertos para imporem o seu poder sem restrições. A nomeação de juízes da sua “cor” por parte do presidente é uma normalidade. Pagar eleições de presidentes, senadores, representantes, juízes, procuradores, governadores que sirvam os interesses de um dado gangue faz parte da essência do regime.

Este regime do Império rege-se interna e externamente pelas regras do gang através de agentes — state agents e non.state agents — que atuam à margem da lei e do qualquer controlo democrático sob a cobertura de instituições respeitáveis perante a comunidade internacional. Nenhum agente é julgado por qualquer crime, seja cometidos nos Estados Unidos, seja no estrangeiro. Neste regime, o Exército Americano serve de cobertura aos agentes da CIA que são quem, de facto, altera regimes, organiza revoluções, elimina adversários, cria dirigentes fantoches. Quem dirige as embaixadas americanas é o chefe da antena da CIA. O caso de Portugal em 1975 é paradigmático, o embaixador Carlucci acumulava com a chefia da antena da CIA. Também será, certamente homenageado no próximo dia 25 de Novembro. E bem merece. Convém não o esquecer.

Desde os anos 70 e da administração Nixon-Kissinger, o mundo viu-se confrontado com um novo tipo de entidade política em que os serviços secretos, gangs fora de qualquer controlo democrático e fora da alçada da lei, recrutam e utilizam bandos locais para executarem as ações políticas convenientes à oligarquia financeira dos Estados Unidos.

O império dos Estados Unidos, em vez de forças nacionais, enquadradas, sujeitas à lei, tem como forças de imposição do seu poder estruturas tribais, religiosas, traficantes de drogas e seres humanos, assassinos sob contrato. O império dos Estados Unidos assenta na força de um exército fora da lei e do controlo de qualquer entidade democrática de que são conhecidas a Alqaeda (os combatentes da liberdade de Reagan), o Isis, os talibans, os paramilitares sulamericanos, os cartéis da droga. o ELP, o MDLP em Portugal, os GAL em Espanha, a rede Gládio na NATO, a Aginter Press entre a imensa tropa alugada para as diversa missões.

As administrações de Nixon, Gerald Ford, de Bush, pai e filho, Clinton, Obama, Trump e Biden geriram os mesmos gangues que provocaram o golpe de Pinochet no Chile, o dos generais na Argentina e no Brasil, as ditaduras das repúblicas das bananas, mas também a guerra na Ucrânia, o rebentamento do gasoduto Stream2, ou o genocídio em GAZA.

Os Estados Unidos da América são o primeiro e até agora o único império que apenas sofreu derrotas militares, mas impôs o seu poder totalitário em todos os continentes através de ações ínvias de traição e de corrupção. Trump e os elementos do seu atual bando do MAGA já anunciados não são uma excentricidade, são os representantes do sistema em que assenta o poder dos Estados Unidos. Um tipo de poder que podemos observar ao vivo em Israel. O poder em Israel é o da Mossad, como nos Estados Unidos é o da CIA. Tudo o resto que é apresentado como o “Estado” são executantes, fornecedores de serviços. Todas as leis são circunstanciais. A Casa Branca e o Capitólio são a Disneylandia de Washington onde os crentes acreditam residir o poder. O mesmo acontece, para os católicos com a basílica de São Pedro, em Roma, onde não reside o poder do Vaticano. O poder em Washington não reside nos militares representados por uns “jarrões” em uniforme de gala que fazem continências à entrada e saída do Presidente, o factótum do imperador reside no bandido que conseguir impor a sua lei e transformar-se em xerife.

A grande questão do nosso tempo, é que o modelo de domínio assente nas ações encobertas associadas a demonstrações de força convencional está a chegar ao fim. Os serviços secretos e de desestabilização americanos já não conseguem alterar regimes decisivos, como é visível no Irão e, por outro lado, as forças regulares dos Estados Unidos não conseguem vencer nem a Rússia, nem a China, nem sequer manter a Ucrânia! Os gangues que fizeram a glória do império desde a Segunda Guerra sofrem a forte concorrência dos gangues de outras potências e estão a ser derrotados. O reconhecimento destas debilidades inultrapassáveis levou Trump a investir no mercado interno, criando um bando eficaz e vencedor chefiado por Musk, pretende terminar com a guerra na Ucrânia e diminuir a tensão no médio Oriente onde a disputa é feroz e de resultados incertos. Um mau negócio.

Estamos a assistir aos últimos foguetes da estratégia americana gizada por uma agente da CIA, Vitória Nuland, a criadora da grande ilusão da Praça Maidan, de Kiev. A retirada americana vai ser paga pelo ucranianos e os palestinianos. A conta para os Europeus virá mais tarde e podemos agradecê-la a Von Der Leyen, a Olaf Scholz, a Macron.

Em Portugal, no dia 25 de Novembro, o Estado Português celebra uma vitória de Kissinger, representante de um império de gangues, com um sangrento currículo pelo mundo, que inclui, já agora a autorização da invasão de Timor pela Indonésia, mas canonizado em Portugal como pai da democracia. Uma cerimónia que devia envergonhar quem for de ter vergonha. Haverá na assistência quem serviu de peão de Kissinger em Lisboa e que deu a cara contra a invasão de Timor que ele patrocinou. São insondáveis os desígnios do Senhor, diria um oficiante católico. Pois são.

A desratização da Palestina

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 31/08/2024, Revisão Estátua de Sal)

Uma pintura do século 19, de Émil Signol intitulada “Tomada de Jerusalém pelos Cruzados, 15 de julho de 1099”

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Porque é a chacina dos palestinianos do “nosso” interesse? O pronome pessoal “nosso” representa o “ocidente global” de que, queiramos ou não, fazemos parte. Mesmo os que não frequentam as sessões espiritas das televisões.

A chacina dos palestinianos é uma desratização em larga escala. Nós, os do ocidente, apoiamos a desratização e não só apoiamos como pagamos. É o “ocidente global”, nós, que apoia politicamente e que paga a desratização dos palestinianos. Somos nós que tratamos os palestinianos como ratos que têm de ser eliminados! Não nos envergonhemos: para nós um palestiniano é um rato!

O orçamento de Israel, o nosso agente executor da desratização, é pago por nós através de emissão de dólares pelo Fundo de Reserva Americano, o FED. Moeda, o dólar, sem qualquer base material (Fractional reserve lending) fazendo-se dela, para sobreviver, e bem, um fator determinante do jogo da inflação, das taxas de juro variáveis consoante a necessidade, dos ciclos de crescimento e de depressão, e da manipulação dos preços através das dívidas soberanas.

Pagamos a desratização da Palestina porque Israel é o que resta enquanto arma decisiva para a estratégia de poder ocidental, isto é, de manutenção dos Estados Unidos como superpotência dominante no planeta. E a desratização é levada a cabo com a carnificina que choca não porque os executores não tenham a consciência do desgaste na opinião pública que causam as imagens de violência de casas e seres (pessoas?) a serem bombardeadas por artilharia pesada, aviação, cargas de explosivos de alta intensidade, bombas de fósforo, snipers — ninguém gosta de ver um rato a estrebuchar —, mas porque outros métodos de desratização poderiam causar risco aos desratizadores, como seria induzir uma epidemia de cólera em Gaza ou na Cisjordânia. A vida e a saúde dos israelitas tem de ser preservada. Um avião F35 pilotado por um terrorista é muito mais preciso que um vírus.

Não é por acaso que os dois candidatos a presidente dos Estados Unidos estão de acordo com a defesa de Israel a todo o custo e custe o que custar.

A estratégia de domínio que foi a doutrina dos Estados Unidos em vigor desde os anos 90 do século 20 aos anos 20 do atual — que substituiu a doutrina da Contenção e Détente da Guerra Fria — assentava em dois vetores: atacar a Rússia na barriga mole da Eurásia — que originou a guerra na Ucrânia —, e manter a tensão no Médio Oriente para controlo do petróleo e do tráfego entre o Pacífico e Atlântico, utilizando Israel como agente desestabilizador.

A guerra da Ucrânia está já em estado de vida aparente. Foi desencadeada com base num mau estudo da situação em que os desejos de alguns apparatchiks que serviram as administrações democratas e republicanas confundiram desejos com realidade. Cometeram o erro que a sabedoria dos índios traduziu no aforismo: não se deve cutucar a onça com uma vara curta. Hoje não há qualquer hipótese de implantação de uma base americana na Ucrânia e do que se trata é de encontrar uma saída sem humilhação — o episódio de Kursk é exemplar. Resta Israel como carta do “ocidente global” na fachada atlântica do seu teatro de operações com a China, quando o confronto passar para o Pacífico.

Contudo, para Israel ser o grupo Wagner dos Estados Unidos não pode estar envolvido em questiúnculas internas com palestinianos que são animais, como afirmou o seu ministro da defesa. Para a clique dirigente de Israel (e Netanyahu representa os interesses profundos dos israelitas, não é um extraterrestre), o que está em curso é uma operação de desratização da Palestina e nós, os do Ocidente, somos os financiadores dos desratizadores e os fornecedores dos venenos com o armamento e o financiamento que lhes entregamos.

Não passam de vaselina, para lubrificar o que se está a fazer, admitir as afirmações mais ou menos piedosas que justificam a desratização da Palestina com o “terrível” massacre (tem de se afirmar sempre que a sortida dos palestinianos contra os que os cercavam em Gaza é terrível, um terrível massacre), com o direito de Israel à existência, quando o que está em causa desde 1948 é o direito dos palestinianos à existência; ou a libertação de uma centena de reféns israelitas, quando existem dezenas de milhares de reféns palestinianos em Israel, restando ainda os líricos que referem a fantasiosa solução de dois estados — um vivo e armado e um morto e enterrado — quando o que há cinquenta anos o Ocidente global está a construir é um Estado-baluarte, que é até um estado nuclear clandestino, à margem de qualquer controlo internacional, mas que nós, os do Ocidente, fingimos ignorar e ainda invocamos em nossa defesa o Direito Internacional, que é mais ou menos uma pastilha elástica.

As duas esquadras americanas na região, com armamento nuclear, estão ali para garantir que a desratização é completa e tem de ser executada até às eleições americanas. Até Novembro a eliminação de palestinianos e das suas comunidades vai continuar de modo a que a próxima administração se possa apresentar de mãos lavadas e perguntar: Palestina? Mas o que é isso?

A tomada de Jerusalém pelos cruzados há mil anos não foi muito diferente do que está a acontecer hoje. O que significa que estamos — os do Ocidente — a cumprir a tradição e a agir de forma coerente com os nossos valores.