​Cenas do fim do império unipolar (1)

(Daniel Vaz de Carvalho, in Resistir, 11/08/2025)



“O governo do império era como um teatro cheio de atores desempenhando papeis de toda a espécie, repetindo a linguagem ou imitando as paixões dos seus modelos”.


Edward Gibbon, Declínio e queda do império romano

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1 – Cena da loucura

Na mitologia dizia-se que os deuses enlouqueciam os que queriam levar à perdição. Agora os semideuses ultramilionários levam com seus mitos à loucura    os que os seguem, uma loucura que os conduz à perdição sem compreenderem a razão dos seus objetivos serem frustrados. Entraram num processo de negação da realidade, incapazes de avaliar as consequências dos seus atos, um estado realmente psicótico, característico dos impérios moribundos, diz o prof. Richard Wolff.

O delírio cognitivo é outra característica, fazem alarde de um complexo de superioridade, material, mas também moral, supondo-se capazes de ditar ao mundo o que todos têm de fazer e seguir, julgam os sistemas políticos dos países, ditam a sua condenação, aplicam sanções, desenvolvem ingerências e conspirações, chegam à bombardear países com os quais estão em negociações, caso do Irão.

A loucura leva a tresloucadas tentativas de desestabilização, instabilidade generalizada e mesmo o caos em países e regiões, como no Médio Oriente ou do que tentam no Cáucaso, porém em delírio psicótico são incapazes de antecipar as consequências económicas, financeiras, militares do que se propõem.

O prof. Geminello Preterossi, filósofo italiano, ligado às teses de Gramsci, descrevia a psicopatologia política da UE, como a negação da realidade e impulsos auto-destrutivos típicos da psicose que se traduz numa deriva fanática e irracional sacrificando os interesses dos povos em nome de um falso europeísmo. Políticos e burocratas do sistema, padecem de uma síndrome paranoica, obcecados com a ideia de que a Europa vai ser invadida pela Rússia, hipótese desprovida de qualquer base política ou prático-militar.

A falta de discernimento é típica do psicótico. O resultado tem sido uma série de reveses, do fracasso total na Ucrânia ao apoio ao massacre do povo palestino, mas também ao recurso à austeridade, para que os semideuses sejam servidos. Assim foi na gestão da crise financeira provocada pelos produtos financeiros derivados e hipotecas nos EUA, que resultaram em dívidas de bancos e “imparidades” na UE, tratadas como dívidas públicas.

O que os erros do império revelam, afirma Alastair Crooke, é um divórcio das realidades geopolíticas e uma fraqueza mascarada com arrogância e fanfarronice [1]. As consequências dos seus erros são apontadas como causados pelos “inimigos”, hostilizados por não quererem tornar-se seus vassalos.

Na ilusão de um poder com direitos sobre todas as nações, o império trata como inimigos todos os que potencialmente o ameaçam, mesmo que apenas na competição económica global, dentro dos critérios que o próprio império impôs. Mas isto só evidencia as suas fragilidades e deriva psicótica.

Um país que aspire à neutralidade geoestratégica fica na mira dos serviços secretos e de ONG especializadas no recrutamento e financiamento de ativistas treinados e assessorados por agentes estrangeiros. Dirigentes políticos e influenciadores nos media frequentaram cursos nos EUA, RU, etc, de forma a serem capazes de desenvolver ou apoiar os processos das “revoluções coloridas”.

O império dispõe de centrais que produzem propaganda e desinformação depois repetida através dos media. Por exemplo, o Institute for the Study of War fundado por Victoria Nuland (principal organizadora do golpe Maidan) e o marido Robert Kagan, é financiado pelo sector militar-industrial, especializando-se na defesa do clã de Kiev e continuação da guerra até à “vitória da Ucrânia”. Outros especializam-se em relação à China, difundindo o “terror” exercido sobre os uigures.

Décadas de despolitização, de pregação contra as funções Estado e a soberania resultaram na adesão a uma mistura grotesca de belicismo, impotência e marginalização geopolítica: apenas a tentativa desesperada de uma elite medíocre se manter na liderança.

Como Marx escreveu sobre a queda tendencial da taxa de lucro, o sistema em nome da eficiência aumenta a exploração (dita austeridade) sobre a classe trabalhadora cada vez mais empobrecida e endividada, com o Estado incapaz de satisfazer as necessidades sociais.

A loucura imperialista acentua-se no seu declínio. Como o marxismo sempre salientou, o belicismo é reforçado, os fabricantes de armas aumentam a riqueza, difundindo uma ideologia, ou antes, psicose de guerra. Uma loucura que conduziu ao grotesco político do neofascismo e ao apoio aos criminosos psicopatas de Israel.

Diz o Major-General Carlos Branco os manipuladores precisam dos títeres para fazerem o trabalho sujo, pessoas desprezíveis que se prestam a tal. Negam todas as evidências. (…) A negação sem incómodo do que está a ocorrer em Gaza indica que não são seres saudáveis. As narrativas mirabolantes que constroem e inventam para sustentar as suas teses, assumem contornos de uma grave psicopatia.

Vivemos assim tempos perigosos, através de uma provocação ou “falsa notícia”    uma guerra global pode ser imposta. A isto nos conduziu a loucura de “elites” arrastando os povos para políticas belicistas.

2 – Cena do belicismo

Andrea Komlosy, da Universidade de Viena, alertou para que a Europa resista à paranoia de um ataque russo. O programa de armamento militar da Europa não passa de uma “ilusão com gastos que levarão a uma dívida insustentável. É absolutamente equivocado gastar somas tão enormes em necessidades militares quando faltam fundos para tudo o resto”. Roger Köppel, editor-chefe do suíço Die Weltwoche, alerta também para a Europa caindo numa “espécie de histeria armamentista”, com o “pânico russo” causado por erros de cálculo ocidentais. “Precisamos de realismo e acabar com este conflito (na Ucrânia) por meio da diplomacia com a Rússia, não contra ela. A verdadeira segurança requer cooperação”.

Estas, como outras palavras de bom senso, são totalmente escamoteadas do público. Julian Assange, lembra-nos que “quase todas as guerras que começaram nos últimos 50 anos foram resultado de mentiras dos media. Poderiam ter parado essas guerras “se tivessem investigado profundamente” e “não republicassem propaganda.” “Os media são tão terríveis e distorcidos em relação a como o mundo realmente é que temos que questionar se o mundo não estaria melhor sem eles. O resultado é vermos guerras e governos corruptos prosseguirem.”

Prevalece a paranoia belicista, preparando uma guerra em grande escala na Europa. O Chanceler alemão Merz, diz que os meios diplomáticos para resolver o conflito ucraniano foram esgotados. Os russos “estão a espiar-nos, temos atos de sabotagem, incêndios criminosos, olhem para os quartéis. Todos os vestígios levam à Rússia. A Rússia está a atacar-nos. Precisamos de nos defender disto.”

Um ex-Chefe do Estado-Maior britânico, general Patrick Sanders, em entrevista a The Telegraph diz que o RU precisa de estar pronto para um confronto militar com a Rússia nos próximos cinco anos:   “o risco de um ataque de Moscovo aos países da NATO após o fim das hostilidades na Ucrânia é real.”

A França vai duplicar o orçamento militar até 2027, como se a sua situação financeira e social não fosse desastrosa. A Polónia também se prepara para a guerra, visto que “a Rússia ameaça a segurança internacional” e apoia a previsão do Comandante Supremo Aliado da NATO na Europa, General Grinkevich, sobre um provável grande conflito envolvendo Rússia e China dentro dos próximos 1,5 a 2 anos. A Europa e os EUA devem mobilizar recursos com urgência e prepararem-se para “os tempos mais perigosos desde a Segunda Guerra Mundial.”

Escreve o L’Antidiplomatico:   no Acordo de Kensington, Grã-Bretanha, França e Alemanha preparam-se para atacar a Rússia. Esses fantoches, apoiados por outros entendem como “segurança” a produção e uso de mísseis de longo alcance lançados do território ucraniano para a Rússia. Trata-se de uma troika militar contra a Rússia sob o programa “Escudo Europeu”, porém compreendem que “tal só será alcançável sem a ajuda dos nossos amigos americanos (!) em 10 a 15 anos.” Entretanto o “novo sistema” de Trump, acolhido ansiosamente pelos belicistas europeus, é simplesmente sobre enviar armas do complexo militar-industrial dos EUA para Kiev, pagos pela UE.

Claro que apesar das suas insuficiências e fragilidades, são perigosos, dada a possibilidade de criarem provocações, através da Moldávia ou no Cáucaso – a serem transformados em bases avançadas contra a Rússia – ou no Báltico – praticamente já em curso – ou contra Kaliningrado, contra o qual “já desenvolvemos um plano de ação,” afirmou o comandante das Forças Terrestres da NATO, General Donahue numa conferência em Wiesbaden.

Enquanto elucubram com a guerra que levaria a Rússia a uma derrota estratégica, não ponderam sobre se têm condições para o conflito que preparam, dado não disporem de recursos energéticos, encarecidos pelas sanções, e com logística dificilmente mantida. Não ponderam sobre os resultados obtidos com o dinheiro desperdiçado na Ucrânia, como não ponderam sobre as consequências de um ataque de Oreshnik – agora a serem produzidos em série – sobre os principais portos, paralisando a economia, a força militar a própria vida social, dependente da generalidade das matérias primas e componentes.

O envolvimento dos EUA nos conflitos na Ucrânia e Médio Oriente, levaram a uma escassez principalmente de mísseis como os Patriot em grande parte consumidos para a defesa de Israel face aos mísseis iranianos. O vice-secretário da Defesa dos EUA, alertou que as encomendas de armas da Ucrânia poderiam esgotar os stocks americanos, mostrando preocupações quanto à capacidade dos EUA terem recursos para manter três frentes de guerra: na Europa, Médio Oriente e China.

Na guerra entre Israel e Irão, em 11 dias os EUA usaram 15-20% do seu estoque global de intercetores THAAD. O custo de cada lançamento de THAAD é estimado em 12-15 milhões de dólares pelo que as operações de defesa aérea em Israel custaram cerca de 1,2 mil milhões de dólares. Note-se que os Estados Unidos produzem de 36 a 48 mísseis THAAD anualmente, tendo usado um volume equivalente a dois anos de produção desses mísseis. (Military Watch Magazine)

Os sistemas de defesa (Patriot, THAAD, Aegis) demonstraram a sua fragilidade na Ucrânia e em Israel e a frota de caças dos EUA necessita de urgente e muito dispendiosa modernização para aviões de 5ª geração, atrasados em relação à Rússia e China.

A China militarizou sete ilhas no mar do Sul da China sem ser desafiada – porque a Marinha dos EUA sabia que não poderia vencer (apesar de antes terem empurrado as Filipinas para um confronto). Tal como foram incapazes de impedir que os Houtis paralisassem o movimento marítimo para Israel e destruíssem o seu principal porto no Mar Vermelho, Eilat, que cessou as operações.

A NATO, incluindo os EUA, não dispõem de mísseis hipersónicos nem defesas adequadas. A produção de armas europeia é fraca e lenta, não dispõe de matérias primas e quanto a componentes a China controla grande parte. Contudo, apesar das insuficiências, falhas dos seus equipamentos e fragilidade logística, os belicistas europeus são os mais excitados.

Se na NATO, não existe nada comparável nem defensável perante misseis como os Oreshnik, Sarmat, Poseidon, Kinzal, Avangard, entre outros, ou    drones Geran como responderão à pergunta de Tucker Carlson:   Qual é exatamente o  interesse da Europa  estar em guerra com a Rússia? Que entendimento têm das teses russas quanto a uma agressão à Rússia ou seus aliados reservando-se o direito de usar armas nucleares no caso de uma ameaça crítica à soberania e integridade territorial a Rússia?

3 – Cenas do caos

O império, que Pepe Escobar designa do caos, vê-se obrigado a defender pela violência o que obteve pela fraude e traição dos perestroikos. Tem-se servido de arregimentados fanáticos imunes à razão, doutrinados em cursos e “cursilhos” de defesa do mundo unipolar. Mas o império pouco tem para oferecer além da propaganda. A ostentada democracia foi transfigurada em guerras e massacres de gente inocente. As economias são destruídas e é incapaz de criar estabilidade financeira e monetária.

Uma outra característica é que os líderes deste mundo dogmático promovem para dirigirem os Estados que controlam, gente subserviente e obviamente incompetente. Meros funcionários dos interesses da oligarquia, com a estrita obrigação de manter a democracia liberal, o povo em obediência e dissertar sobre os malefícios do socialismo.

Lembremos a pesporrência de comentadores sobre levar a democracia ao Médio Oriente (ainda andam por aí a perorar sem se retratarem…). Era uma espécie de cruzada dita humanitária e democrática, um disfarce da “ordem baseada em regras” para as nações para se submeterem à supremacia dos oligarcas ocidentais. A democracia que essas nações experimentaram foi o caos social, repressão e pilhagem de recursos. O que temos é instabilidade, sofrimento e guerras sem fim.

A “democratização” da Líbia através de bombardeamentos, então o país africano com maior nível de vida, levou-a ao caos, na prática à desintegração, com o Leste tornando-se aliado da Rússia. Na Ucrânia a população caiu de 52 milhões, quando soviética, para os 20 a 25 milhões que Kiev pode controlar – a ONU, sem reconhecer as zonas sob administração russa, apresenta 33 milhões de pessoas. Grande parte da população em idade ativa fugiu do país, está morta ou incapacitada. O regime de Kiev, criado pela “revolução colorida” de 2014, condenou a Ucrânia à extinção demográfica, dominada por extremistas neonazis e ultranacionalistas, financiada e armada pela NATO, na total dependência de empréstimos e subsídios externos. Para manter uma guerra perdida, novos recrutas são simplesmente sequestrados nas ruas, fugindo dos centros de treino ou desertando sempre que possível.

A reconstrução da Ucrânia está avaliada num milhão de milhões de dólares, em 14 anos. Com os custos associados a uma adesão à UE, aquele valor duplicaria, com fundos de coesão, subsídios agrícolas, apoios de emergência financeira, etc. Algo muito para além das capacidades da UE e do que os Estados poderiam suportar. Um ex-alto funcionário da administração de Zelensky diz que “Putin está destruindo a Ucrânia por fora, Zelensky está destruindo por dentro, suprimindo a vontade de lutar e a moral. Os direitos humanos são pisados, opositores políticos estão sob pressão, pessoas ricas e influentes que poderiam apoiar a oposição estão sendo expropriadas, os media de oposição silenciados.”

Diz o prof. Mearsheimer:   “A razão pela qual a Ucrânia é tão perigosa, é porque é uma derrota para o Ocidente, fomos humilhados e perdemos uma guerra com que nos comprometemos profundamente.

No Médio Oriente, a guerra dos 12 dias mostrou que o Irão só poderia ser vencido se a NATO pusesse no terreno não dezenas, mas centenas de milhares de efetivos. Como isto não é possível nem justificável, o caos prossegue, apoiando o expansionismo de Israel, sem pensar nas consequências.

A Síria é outro exemplo das vitórias do império, saudada pelos vassalos europeus, com o país entregue a organizações extremistas muçulmanas, antes qualificadas como terroristas pelo ocidente. Os media deixaram de se preocupar com a democracia na Síria de Assad que ultimamente procurava aproximar-se do ocidente distanciando-se da Rússia, pensava assim melhorar a sua soberania. É agora mais que evidente o que a Rússia evitava na região. Foi levada ao caos, com massacres étnicos e religiosos. Enquanto a atual liderança síria se mostrava ansiosa por normalizar relações com Israel (!) Netanyahu bombardeou Damasco, alargou a zona de ocupação, proibiu o exército sírio de se mover ao sul de Damasco e estabeleceu um corredor dos Montes Golã, expandindo as suas fronteiras do Nilo ao Eufrates, procurando isolar o Irão. A UE e NATO assistem e aplaudem o atual líder sírio.

O império desenvolve esforços para levar o caos para o Cáucaso, através da Arménia e Azerbaijão com personagens desacreditados, em que vozes discordantes são marginalizadas e ameaçadas. Mas são países sem dinheiro, esperando benesses do ocidente com as elites dirigentes mirando as vantagens financeiras proporcionadas ao clã de Kiev por hostilizar a Rússia.

Com a habitual irresponsabilidade os belicistas europeus não esconderam a satisfação pela intenção de Trump aplicar sanções a países que façam comércio com a Rússia, nisto se incluindo cerca de 200 navios e a Gazprom Neft, braço petrolífero da gigante estatal Gazprom. Os efeitos que isto traria sobre o comércio mundial, rarefação de bens e seus preços, está fora das suas conjeturas.

Quando perguntado ao principal negociador da Rússia, o historiador Medinsky, se Moscovo teme novas sanções, respondeu: “Essa não é uma questão para nós, nem para o grupo de negociação. Posso dizer-lhe o seguinte. Após a revolução e a guerra civil em 1920, não tivemos apenas sanções, tivemos um bloqueio diplomático e económico absoluto da Rússia Soviética, de todos. De todo o mundo! Isso não nos impediu de vencer a Segunda Guerra Mundial (…) Nada impedirá a Rússia de vencer agora. A única questão é o preço da vitória e o tempo necessário para alcançá-la.”

[1] Termo condenado pelo atual presidente da AR, ao ser aplicado ao líder da extrema-direita, para o qual o discurso de ódio racista é considerado “liberdade de expressão” – embora anticonstitucional.

A seguir:
4 – Cenas do fim da ordem internacional baseada em regras
5 – O crepúsculo dos semideuses

Fonte aqui

A queda do Império americano

(Arnaud Bertrand, in X, 02/02/2025, Trad. Estátua)


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Está cada vez mais claro que estamos diante de uma mudança sísmica no relacionamento dos EUA com o mundo:

1) Os EUA desmantelam os seus aparelhos de interferência estrangeira (como a USAID – United States Agency for International Development  👇 ).

2) Marco Rubio afirma que estamos agora num mundo multipolar com “multi-grandes potências em diferentes partes do planeta” (ver aqui) e que “a ordem global do pós-guerra não está apenas obsoleta; é agora uma arma que está a ser usada contra nós” (ver aqui).

3) As tarifas sobre supostos “aliados” como o México, o Canadá ou a UE. Tal equivale ao facto de os EUA efetivamente estarem a dizer “A nossa tentativa de dominar o mundo acabou, cada um com o seu gosto, agora somos apenas mais uma grande potência, não a ‘nação indispensável'”.

Parece “idiota” – como o Wall Street Jounal acabou de escrever – para quem ainda estiver mentalmente no velho paradigma, mas é sempre um erro pensar que o que os EUA fazem – ou qualquer país -,  é idiota.

A hegemonia acabaria mais cedo ou mais tarde, e agora os EUA estão basicamente a escolher acabar com ela nos seus próprios termos. É a ordem mundial pós-americana – trazida até nós pela própria América.

Mesmo as tarifas sobre os aliados, vistas sob esse ângulo, fazem sentido, pois redefinem o conceito de “aliados”: eles não querem mais vassalos – ou talvez não possam continuar a pagar-lhes -, mas sim relacionamento que evoluem, com base nos seus interesses atuais.

Podemos ver isso como um declínio — porque, sem dúvida, parece ser o fim do Império americano — ou como uma forma de evitar um declínio maior: uma retirada controlada dos compromissos imperiais para concentrar recursos nos principais interesses nacionais, em vez de ser forçado a uma retirada ainda mais confusa num estágio posterior.

Em todo caso, é o fim de uma era e, embora o governo de Trump pareça um caos para muitos observadores, eles provavelmente estão muito mais sintonizados com as realidades mutáveis ​​do mundo e com a situação do seu próprio país do que os seus antecessores.

 Reconhecer a existência de um mundo multipolar e escolher operar dentro dele em vez de tentar manter uma hegemonia global, cada vez mais onerosa, é uma opção que não poderia ser adiada por muito mais tempo. Parece confuso, mas é melhor, provavelmente, do que manter a ficção da primazia americana até ela, eventualmente, entrar em colapso sob seu próprio peso.

Isso não quer dizer que os EUA não continuarão a causar estragos no mundo e, de facto, poderemos vê-los a tornarem-se ainda mais agressivos do que antes. Porque quando antes estavam – mal, e muito hipocritamente – a tentar manter alguma aparência da autoproclamada “ordem baseada em regras“, agora nem precisam de fingir que estão sob qualquer restrição, nem mesmo a restrição de se portarem bem com os aliados.

É o fim do Império dos EUA, mas definitivamente não é o fim dos EUA como uma grande força disruptiva nos assuntos mundiais. No geral, essa transformação pode marcar uma das mudanças mais significativas nas relações internacionais desde a queda da União Soviética.

E os menos preparados para isso, como já é dolorosamente óbvio, são os vassalos da América, apanhados completamente desprevenidos, percebendo agora que o patrono – em quem confiaram durante décadas – os trata apenas como mais um conjunto de países com quem negociar.

Fonte aqui

Estados Unidos: Um império de gangues e cúmplices

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 21/11/2024)


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O termo Império surge associado a poder, à conquista de um território, ao domínio de um conjunto de nações e povos sujeitos a um soberano, que assumia o título de imperador ou uma oligarquia. Desde a antiguidade até à Segunda Guerra Mundial todos os impérios se caracterizaram pelas vitórias dos seus exércitos sobre os exércitos inimigos e por imporem uma lei. Os Estados Unidos da América que emergiram como o império dominante no planeta na segunda metade do século XX, alteraram radicalmente o conceito de império.

A Segunda Guerra Mundial terminou com uma vitória partilhada entre os Estados Unidos e a União Soviética, e esta partilha originou conflitos militares entre os dois vencedores, em que os Estados Unidos foram sistematicamente derrotados, mas em que conseguem impor o seu domínio imperial por outros meios. Como o conseguiram e como o estão a perder?

O primeiro grande confronto ocorreu na Coreia e terminou com uma situação humilhante para os Estados Unidos, que não conseguiram vencer a União Soviética, desgastada pela guerra, nem a China, a viver uma revolução e dispondo de baixíssimas capacidades tecnológicas. A tentativa de invadir Cuba pela Baía dos Porcos, com mercenários por conta da CIA, saldou-se num desastre vergonhoso. A segunda guerra dos Estados Unidos, travou-se na Indochina, esta aliada da União Soviética e da China, e terminou com a derrota humilhante da retirada de Saigão pelo telhado da embaixada. No Médio Oriente, a intervenção dos Estados Unidos na guerra Irão-Iraque saldou-se num desastre que provocou a implantação do regime dos ayatollas em Teerão, a invasão do Iraque, com a instalação do caos e a selvática cena da decapitação de Saddam Hussein, a intervenção na Síria e o saque à mão armada do petróleo pelas companhias americanas protegidas pelo Exército americano, que ainda se mantém.

Após os resultados desastrosos das intervenções militares do império no Médio Oriente, Washington decidiu invadir e ocupar o Afeganistão, de onde se retirou em fuga desordenada, à semelhança do que fizera no Vietname. As armas do Afeganistão eram necessárias para atiçar o novo regime pró-americano da Ucrânia contra a Rússia. Trocaram-se afegãos por ucranianos no mercado dos interesses.

No final de 2024, os Estados Unidos, a cabeça do império do Ocidente, acumulam derrotas militares cujo rol está prestes a incluir a Ucrânia, mas apresentam como troféus de vitória, os massacres do Camboja, na Indonésia, na sequência do apoio a Suharto, e uma sucessão impressionante de golpes que organizaram com agentes locais, militares, e que deram origem às ditaduras do Chile, da Argentina, do Brasil, da Bolívia, da Guatemala, do Paraguai, das Filipinas e até implantação de regimes favoráveis, mas menos violentos, como foi o caso do 25 de Novembro de 1975 em Portugal.

Os analistas ocidentais, formatados na análise histórica da tradicional formação dos Estados na Europa a partir de uma elite guerreira, que assume um poder divino e impõe uma lei, tomaram e tomam a criação do império americano como integrado nesta norma, porque são descendentes de europeus (embora dos mais desqualificados socialmente). Ora, a formação da “América” foi feita por esses imigrantes ignorando essas regras e até em frontal conflito com elas.

O grupo dirigente dos Estados Unidos, os fundadores e os que se sucederam são chefes de gangues emigrados da Europa e todo o poder é baseado na fidelidade pessoal e não em princípios. O poder e o sucesso são definidos pelo direito de obter a maior parcela possível de bens e de riqueza, e do domínio do maior número de subordinados e fiéis. É um poder típico das matilhas. As instituições servem os poderosos e os poderosos pagam aos agentes do Estado para estes os servirem.

A relação entre Trump e Elon Musk é a normalidade e não uma excentricidade. É do mesmo tipo da que existiu entre Kissinger e Nixon, os fundadores do código de conduta do império. No livro publicado em abril de 1963 «A América continua a prestar as maiores honras a um dos piores assassinos em massa: Henry Kissinger» o seu autor, Fred Branfman, relata uma conversa de Kissinger com o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Tailândia em 26 de novembro de 1975, enquanto os Khmer Vermelho levavam a cabo o genocídio no Camboja que levaria os seus autores (Pol Pot) a serem julgados criminosos da humanidade. Kissinger perguntou ao ministro tailandês “quantas pessoas o ministro Ieng Sary matou? Dezenas de milhares… eu sei, mas você deveria dizer aos cambojanos que seremos amigos deles. Eles são bandidos assassinos, mas não deixaremos que isso atrapalhe as nossas relações. Estamos preparados para melhorar as relações com eles. Diga-lhe a última parte, mas não diga o que eu disse antes.”

Anteriormente, em 1973, Kissinger já tinha definido o tipo de princípios que presidiam ao império que ele e Nixon estavam a implantar ao referir-se ao golpe do Chile, patrocinado pelos Estados Unidos e executado pela CIA. De acordo com uma transcrição desclassificada de uma reunião em outubro de 1973, apenas duas semanas depois de Pinochet ter assumido o poder, Kissinger afirmou aos diplomatas americanos que não deveriam colocar a questão das violações dos direitos humanos pelos golpistas, acrescentando: “Acho que devemos entender a nossa política: por mais desagradável que eles sejam, o governo [Pinochet] é melhor para nós do que Allende foi”. Ao justificar a sua decisão, Kissinger disse a um membro da equipe do Comitê 40: “Ação secreta não deve ser confundida com trabalho missionário.”

A relação de Musk com Trump é a continuação de uma política de bando a agir segundo os seus apetites. A recente proposta de Musk de diminuir o poder do Estado Federal integra a lógica de deixar os gangues libertos para imporem o seu poder sem restrições. A nomeação de juízes da sua “cor” por parte do presidente é uma normalidade. Pagar eleições de presidentes, senadores, representantes, juízes, procuradores, governadores que sirvam os interesses de um dado gangue faz parte da essência do regime.

Este regime do Império rege-se interna e externamente pelas regras do gang através de agentes — state agents e non.state agents — que atuam à margem da lei e do qualquer controlo democrático sob a cobertura de instituições respeitáveis perante a comunidade internacional. Nenhum agente é julgado por qualquer crime, seja cometidos nos Estados Unidos, seja no estrangeiro. Neste regime, o Exército Americano serve de cobertura aos agentes da CIA que são quem, de facto, altera regimes, organiza revoluções, elimina adversários, cria dirigentes fantoches. Quem dirige as embaixadas americanas é o chefe da antena da CIA. O caso de Portugal em 1975 é paradigmático, o embaixador Carlucci acumulava com a chefia da antena da CIA. Também será, certamente homenageado no próximo dia 25 de Novembro. E bem merece. Convém não o esquecer.

Desde os anos 70 e da administração Nixon-Kissinger, o mundo viu-se confrontado com um novo tipo de entidade política em que os serviços secretos, gangs fora de qualquer controlo democrático e fora da alçada da lei, recrutam e utilizam bandos locais para executarem as ações políticas convenientes à oligarquia financeira dos Estados Unidos.

O império dos Estados Unidos, em vez de forças nacionais, enquadradas, sujeitas à lei, tem como forças de imposição do seu poder estruturas tribais, religiosas, traficantes de drogas e seres humanos, assassinos sob contrato. O império dos Estados Unidos assenta na força de um exército fora da lei e do controlo de qualquer entidade democrática de que são conhecidas a Alqaeda (os combatentes da liberdade de Reagan), o Isis, os talibans, os paramilitares sulamericanos, os cartéis da droga. o ELP, o MDLP em Portugal, os GAL em Espanha, a rede Gládio na NATO, a Aginter Press entre a imensa tropa alugada para as diversa missões.

As administrações de Nixon, Gerald Ford, de Bush, pai e filho, Clinton, Obama, Trump e Biden geriram os mesmos gangues que provocaram o golpe de Pinochet no Chile, o dos generais na Argentina e no Brasil, as ditaduras das repúblicas das bananas, mas também a guerra na Ucrânia, o rebentamento do gasoduto Stream2, ou o genocídio em GAZA.

Os Estados Unidos da América são o primeiro e até agora o único império que apenas sofreu derrotas militares, mas impôs o seu poder totalitário em todos os continentes através de ações ínvias de traição e de corrupção. Trump e os elementos do seu atual bando do MAGA já anunciados não são uma excentricidade, são os representantes do sistema em que assenta o poder dos Estados Unidos. Um tipo de poder que podemos observar ao vivo em Israel. O poder em Israel é o da Mossad, como nos Estados Unidos é o da CIA. Tudo o resto que é apresentado como o “Estado” são executantes, fornecedores de serviços. Todas as leis são circunstanciais. A Casa Branca e o Capitólio são a Disneylandia de Washington onde os crentes acreditam residir o poder. O mesmo acontece, para os católicos com a basílica de São Pedro, em Roma, onde não reside o poder do Vaticano. O poder em Washington não reside nos militares representados por uns “jarrões” em uniforme de gala que fazem continências à entrada e saída do Presidente, o factótum do imperador reside no bandido que conseguir impor a sua lei e transformar-se em xerife.

A grande questão do nosso tempo, é que o modelo de domínio assente nas ações encobertas associadas a demonstrações de força convencional está a chegar ao fim. Os serviços secretos e de desestabilização americanos já não conseguem alterar regimes decisivos, como é visível no Irão e, por outro lado, as forças regulares dos Estados Unidos não conseguem vencer nem a Rússia, nem a China, nem sequer manter a Ucrânia! Os gangues que fizeram a glória do império desde a Segunda Guerra sofrem a forte concorrência dos gangues de outras potências e estão a ser derrotados. O reconhecimento destas debilidades inultrapassáveis levou Trump a investir no mercado interno, criando um bando eficaz e vencedor chefiado por Musk, pretende terminar com a guerra na Ucrânia e diminuir a tensão no médio Oriente onde a disputa é feroz e de resultados incertos. Um mau negócio.

Estamos a assistir aos últimos foguetes da estratégia americana gizada por uma agente da CIA, Vitória Nuland, a criadora da grande ilusão da Praça Maidan, de Kiev. A retirada americana vai ser paga pelo ucranianos e os palestinianos. A conta para os Europeus virá mais tarde e podemos agradecê-la a Von Der Leyen, a Olaf Scholz, a Macron.

Em Portugal, no dia 25 de Novembro, o Estado Português celebra uma vitória de Kissinger, representante de um império de gangues, com um sangrento currículo pelo mundo, que inclui, já agora a autorização da invasão de Timor pela Indonésia, mas canonizado em Portugal como pai da democracia. Uma cerimónia que devia envergonhar quem for de ter vergonha. Haverá na assistência quem serviu de peão de Kissinger em Lisboa e que deu a cara contra a invasão de Timor que ele patrocinou. São insondáveis os desígnios do Senhor, diria um oficiante católico. Pois são.