A propósito do 25 de Novembro e do seu São Jorge

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 24/11/2024)


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Os Lusíadas constituem uma narrativa em que a maioria de nós se revê. Um dos episódios centrais da viagem épica da pequena esquadra que representava Portugal é o momento da passagem do Cabo das Tormentas, mais tarde da Boa Esperança, que representava a destruição da verdade oficial do fim do mundo e o diálogo com o Adamastor, o guarda do segredo de que o mundo não acabava com o Oceano. Mas, sendo Os Lusíadas uma obra de exaltação patriótica, de elevação de um povo, Camões salienta que existe atrás de Vasco da Gama “alguém” mais forte e mais poderoso. Atribui a Deus e aos anjos o desaparecimento do Adamastor: «[…]Súbito d’ante os olhos se apartou; Desfez-se a nuvem negra […], Eu, levantando as mãos ao santo coro
Dos Anjos, que tão longe nos guiou/A Deus pedi que removesse os duros
Casos, que Adamastor contou futuros
. »

Há sempre alguém atrás da narrativa oficial a mexer os cordelinhos. A Batalha de Aljubarrota e a subida ao poder de João de Avis são, na narrativa oficial portuguesa, a de Fernão Lopes, uma ação eminentemente nacional, dos comerciantes do Porto ao povo de Lisboa que aclama o Mestre nacional perante a ameaça de Castela. Na realidade, sabe-se que a oposição a Castela foi gerida pela Inglaterra, de acordo com os seus interesses estratégicos, que seriam prejudicados pela união peninsular. Foi a Inglaterra que forneceu uma força de arqueiros para combater e que organizou o casamento do rei português com Filipa de Lencastre, para esta ser a executora local da política inglesa. Existe uma narrativa portuguesa e uma outra inglesa para crise de 1385. Na narrativa portuguesa os ingleses não existem! Também existe uma narrativa portuguesa e outra inglesa para a restauração da independência de 1640, mas os ingleses desaparecem da narrativa portuguesa, apesar de terem sido eles a organizar o Exército Português aconselhando especialistas como o conde De Lippe e o duque Schomberg, por exemplo. Narrativas inglesas e portuguesas ocorrem nas invasões francesas, designadas pelos britânicos por Peninsular War e assim definida nos livros de história ingleses: The Peninsular War (1807–1814) was the military conflict fought in the Iberian Peninsula by Portugal, Spain and the United Kingdom against the invading and occupying forces of the First French Empire during the Napoleonic Wars.

Para as lutas liberais, para a participação na Conferência de Berlim, para a participação de Portugal na Grande Guerra, na Segunda Guerra, na guerra colonial existe sempre uma narrativa nacional e uma narrativa inglesa. No caso do 25 de Novembro de 1975, a narrativa inglesa é substituída pela americana.

A narrativa americana sobre o 25 de Novembro está resumida, entre outras fontes, no livro de Lindsey A. O’Rourke, Covert Regime Change: America’s Secret Cold War (Ithaca: Cornell University Press, 2018):

Os fatores relacionados com o alinhamento internacional são mais poderosos do que os relacionados com a política interna americana. Gerald Ford, difamado como um ingénuo, seguiu as mesmas linhas de Richard Nixon. […] No registo geral da ação dos EUA durante a Guerra Fria a intervenção em Portugal foi uma vitória notável. A decisão dos EUA de instruir a CIA a ajudar a financiar os socialistas e minar o PCP desempenhou um papel decisivo nos eventos. William McAffee, o diplomata que ajudou a examinar propostas de ação secreta, explicou sobre a ação em Portugal: Acreditava-se que o programa havia contribuído para o resultado favorável da eleição de Abril de 1975 e não havia publicidade sobre ele. Foi considerado um exemplo de quando e como uma operação secreta deveria ser executada.

Em 25 de Novembro de 1975, Portugal constituía uma pedra anómala no tabuleiro de um jogo muito mais vasto, jogado pelos grandes atores internacionais num período de contenção da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética, que se traduziu nos acordos de Helsínquia no verão de 1975, mas onde se jogava a fidelidade e a obediência do flanco sul da NATO.

A resistência dos gregos à ditadura dos coronéis ameaçava alterar o regime de submissão que vinha desde a Segunda Guerra, na Itália, o compromisso histórico entre a Democracia Cristã de Alfo Moro e o PCI de Berlinguer corria o risco da entrada de comunistas no governo de um grande país da NATO, o fim da fiel ditadura de Franco em Espanha também causava preocupações. Portugal era o elo mais fraco, o mau exemplo e aquele onde um golpe com o argumento de “salvar” a democracia do comunismo era mais fácil de executar e de credibilizar perante a opinião pública internacional.

O 25 de Novembro resulta da decisão dos EUA atacarem o ponto fraco, que tinha a vantagem de estar a descolonizar Angola e estava dependente do auxílio americano para retirar os seus nacionais. Como é evidente nunca surge como razão para o 25 de Novembro a defesa da democracia, nem da liberdade, nem dos direitos do homem que amanhã serão invocados na Assembleia da República por coristas encoirados, sob o lema: Tudo pela Nação, nada contra a Nação! Serão proclamados, com voz embargada, valores e heróis. Ameaças e diabos. Milagres e mocadas em Rio Maior.

Em 1975, depois da Pérsia e da Jordânia corrigirem uma disputa fronteiriça, Kissinger encerrou o apoio dos EUA aos curdos numa ação que o Congresso classificou como de venda, justificando a decisão a um congressista: “Ação secreta não deve ser confundida com trabalho missionário.” 

Quanto ao golpe do Chile, em 1973, de acordo com uma transcrição desclassificada de uma reunião apenas duas semanas depois de Pinochet ter assumido o poder, Kissinger afirmou aos diplomatas americanos que não deveriam colocar a questão das violações dos direitos humanos pelos golpistas, acrescentando: “Acho que devemos entender a nossa política: por mais desagradável que eles sejam, o governo [Pinochet] é melhor para nós do que Allende foi”.

Kissinger foi o mestre que conduziu o processo político em Portugal que conduziu ao 25 de Novembro e que, na narrativa oficial, restaurou a democracia em Portugal contra a ditadura comunista. O 25 de Novembro tem esta personagem de democrata exemplar como patrono! Como o seu São Jorge. É um facto.

Estados Unidos: Um império de gangues e cúmplices

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 21/11/2024)


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O termo Império surge associado a poder, à conquista de um território, ao domínio de um conjunto de nações e povos sujeitos a um soberano, que assumia o título de imperador ou uma oligarquia. Desde a antiguidade até à Segunda Guerra Mundial todos os impérios se caracterizaram pelas vitórias dos seus exércitos sobre os exércitos inimigos e por imporem uma lei. Os Estados Unidos da América que emergiram como o império dominante no planeta na segunda metade do século XX, alteraram radicalmente o conceito de império.

A Segunda Guerra Mundial terminou com uma vitória partilhada entre os Estados Unidos e a União Soviética, e esta partilha originou conflitos militares entre os dois vencedores, em que os Estados Unidos foram sistematicamente derrotados, mas em que conseguem impor o seu domínio imperial por outros meios. Como o conseguiram e como o estão a perder?

O primeiro grande confronto ocorreu na Coreia e terminou com uma situação humilhante para os Estados Unidos, que não conseguiram vencer a União Soviética, desgastada pela guerra, nem a China, a viver uma revolução e dispondo de baixíssimas capacidades tecnológicas. A tentativa de invadir Cuba pela Baía dos Porcos, com mercenários por conta da CIA, saldou-se num desastre vergonhoso. A segunda guerra dos Estados Unidos, travou-se na Indochina, esta aliada da União Soviética e da China, e terminou com a derrota humilhante da retirada de Saigão pelo telhado da embaixada. No Médio Oriente, a intervenção dos Estados Unidos na guerra Irão-Iraque saldou-se num desastre que provocou a implantação do regime dos ayatollas em Teerão, a invasão do Iraque, com a instalação do caos e a selvática cena da decapitação de Saddam Hussein, a intervenção na Síria e o saque à mão armada do petróleo pelas companhias americanas protegidas pelo Exército americano, que ainda se mantém.

Após os resultados desastrosos das intervenções militares do império no Médio Oriente, Washington decidiu invadir e ocupar o Afeganistão, de onde se retirou em fuga desordenada, à semelhança do que fizera no Vietname. As armas do Afeganistão eram necessárias para atiçar o novo regime pró-americano da Ucrânia contra a Rússia. Trocaram-se afegãos por ucranianos no mercado dos interesses.

No final de 2024, os Estados Unidos, a cabeça do império do Ocidente, acumulam derrotas militares cujo rol está prestes a incluir a Ucrânia, mas apresentam como troféus de vitória, os massacres do Camboja, na Indonésia, na sequência do apoio a Suharto, e uma sucessão impressionante de golpes que organizaram com agentes locais, militares, e que deram origem às ditaduras do Chile, da Argentina, do Brasil, da Bolívia, da Guatemala, do Paraguai, das Filipinas e até implantação de regimes favoráveis, mas menos violentos, como foi o caso do 25 de Novembro de 1975 em Portugal.

Os analistas ocidentais, formatados na análise histórica da tradicional formação dos Estados na Europa a partir de uma elite guerreira, que assume um poder divino e impõe uma lei, tomaram e tomam a criação do império americano como integrado nesta norma, porque são descendentes de europeus (embora dos mais desqualificados socialmente). Ora, a formação da “América” foi feita por esses imigrantes ignorando essas regras e até em frontal conflito com elas.

O grupo dirigente dos Estados Unidos, os fundadores e os que se sucederam são chefes de gangues emigrados da Europa e todo o poder é baseado na fidelidade pessoal e não em princípios. O poder e o sucesso são definidos pelo direito de obter a maior parcela possível de bens e de riqueza, e do domínio do maior número de subordinados e fiéis. É um poder típico das matilhas. As instituições servem os poderosos e os poderosos pagam aos agentes do Estado para estes os servirem.

A relação entre Trump e Elon Musk é a normalidade e não uma excentricidade. É do mesmo tipo da que existiu entre Kissinger e Nixon, os fundadores do código de conduta do império. No livro publicado em abril de 1963 «A América continua a prestar as maiores honras a um dos piores assassinos em massa: Henry Kissinger» o seu autor, Fred Branfman, relata uma conversa de Kissinger com o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Tailândia em 26 de novembro de 1975, enquanto os Khmer Vermelho levavam a cabo o genocídio no Camboja que levaria os seus autores (Pol Pot) a serem julgados criminosos da humanidade. Kissinger perguntou ao ministro tailandês “quantas pessoas o ministro Ieng Sary matou? Dezenas de milhares… eu sei, mas você deveria dizer aos cambojanos que seremos amigos deles. Eles são bandidos assassinos, mas não deixaremos que isso atrapalhe as nossas relações. Estamos preparados para melhorar as relações com eles. Diga-lhe a última parte, mas não diga o que eu disse antes.”

Anteriormente, em 1973, Kissinger já tinha definido o tipo de princípios que presidiam ao império que ele e Nixon estavam a implantar ao referir-se ao golpe do Chile, patrocinado pelos Estados Unidos e executado pela CIA. De acordo com uma transcrição desclassificada de uma reunião em outubro de 1973, apenas duas semanas depois de Pinochet ter assumido o poder, Kissinger afirmou aos diplomatas americanos que não deveriam colocar a questão das violações dos direitos humanos pelos golpistas, acrescentando: “Acho que devemos entender a nossa política: por mais desagradável que eles sejam, o governo [Pinochet] é melhor para nós do que Allende foi”. Ao justificar a sua decisão, Kissinger disse a um membro da equipe do Comitê 40: “Ação secreta não deve ser confundida com trabalho missionário.”

A relação de Musk com Trump é a continuação de uma política de bando a agir segundo os seus apetites. A recente proposta de Musk de diminuir o poder do Estado Federal integra a lógica de deixar os gangues libertos para imporem o seu poder sem restrições. A nomeação de juízes da sua “cor” por parte do presidente é uma normalidade. Pagar eleições de presidentes, senadores, representantes, juízes, procuradores, governadores que sirvam os interesses de um dado gangue faz parte da essência do regime.

Este regime do Império rege-se interna e externamente pelas regras do gang através de agentes — state agents e non.state agents — que atuam à margem da lei e do qualquer controlo democrático sob a cobertura de instituições respeitáveis perante a comunidade internacional. Nenhum agente é julgado por qualquer crime, seja cometidos nos Estados Unidos, seja no estrangeiro. Neste regime, o Exército Americano serve de cobertura aos agentes da CIA que são quem, de facto, altera regimes, organiza revoluções, elimina adversários, cria dirigentes fantoches. Quem dirige as embaixadas americanas é o chefe da antena da CIA. O caso de Portugal em 1975 é paradigmático, o embaixador Carlucci acumulava com a chefia da antena da CIA. Também será, certamente homenageado no próximo dia 25 de Novembro. E bem merece. Convém não o esquecer.

Desde os anos 70 e da administração Nixon-Kissinger, o mundo viu-se confrontado com um novo tipo de entidade política em que os serviços secretos, gangs fora de qualquer controlo democrático e fora da alçada da lei, recrutam e utilizam bandos locais para executarem as ações políticas convenientes à oligarquia financeira dos Estados Unidos.

O império dos Estados Unidos, em vez de forças nacionais, enquadradas, sujeitas à lei, tem como forças de imposição do seu poder estruturas tribais, religiosas, traficantes de drogas e seres humanos, assassinos sob contrato. O império dos Estados Unidos assenta na força de um exército fora da lei e do controlo de qualquer entidade democrática de que são conhecidas a Alqaeda (os combatentes da liberdade de Reagan), o Isis, os talibans, os paramilitares sulamericanos, os cartéis da droga. o ELP, o MDLP em Portugal, os GAL em Espanha, a rede Gládio na NATO, a Aginter Press entre a imensa tropa alugada para as diversa missões.

As administrações de Nixon, Gerald Ford, de Bush, pai e filho, Clinton, Obama, Trump e Biden geriram os mesmos gangues que provocaram o golpe de Pinochet no Chile, o dos generais na Argentina e no Brasil, as ditaduras das repúblicas das bananas, mas também a guerra na Ucrânia, o rebentamento do gasoduto Stream2, ou o genocídio em GAZA.

Os Estados Unidos da América são o primeiro e até agora o único império que apenas sofreu derrotas militares, mas impôs o seu poder totalitário em todos os continentes através de ações ínvias de traição e de corrupção. Trump e os elementos do seu atual bando do MAGA já anunciados não são uma excentricidade, são os representantes do sistema em que assenta o poder dos Estados Unidos. Um tipo de poder que podemos observar ao vivo em Israel. O poder em Israel é o da Mossad, como nos Estados Unidos é o da CIA. Tudo o resto que é apresentado como o “Estado” são executantes, fornecedores de serviços. Todas as leis são circunstanciais. A Casa Branca e o Capitólio são a Disneylandia de Washington onde os crentes acreditam residir o poder. O mesmo acontece, para os católicos com a basílica de São Pedro, em Roma, onde não reside o poder do Vaticano. O poder em Washington não reside nos militares representados por uns “jarrões” em uniforme de gala que fazem continências à entrada e saída do Presidente, o factótum do imperador reside no bandido que conseguir impor a sua lei e transformar-se em xerife.

A grande questão do nosso tempo, é que o modelo de domínio assente nas ações encobertas associadas a demonstrações de força convencional está a chegar ao fim. Os serviços secretos e de desestabilização americanos já não conseguem alterar regimes decisivos, como é visível no Irão e, por outro lado, as forças regulares dos Estados Unidos não conseguem vencer nem a Rússia, nem a China, nem sequer manter a Ucrânia! Os gangues que fizeram a glória do império desde a Segunda Guerra sofrem a forte concorrência dos gangues de outras potências e estão a ser derrotados. O reconhecimento destas debilidades inultrapassáveis levou Trump a investir no mercado interno, criando um bando eficaz e vencedor chefiado por Musk, pretende terminar com a guerra na Ucrânia e diminuir a tensão no médio Oriente onde a disputa é feroz e de resultados incertos. Um mau negócio.

Estamos a assistir aos últimos foguetes da estratégia americana gizada por uma agente da CIA, Vitória Nuland, a criadora da grande ilusão da Praça Maidan, de Kiev. A retirada americana vai ser paga pelo ucranianos e os palestinianos. A conta para os Europeus virá mais tarde e podemos agradecê-la a Von Der Leyen, a Olaf Scholz, a Macron.

Em Portugal, no dia 25 de Novembro, o Estado Português celebra uma vitória de Kissinger, representante de um império de gangues, com um sangrento currículo pelo mundo, que inclui, já agora a autorização da invasão de Timor pela Indonésia, mas canonizado em Portugal como pai da democracia. Uma cerimónia que devia envergonhar quem for de ter vergonha. Haverá na assistência quem serviu de peão de Kissinger em Lisboa e que deu a cara contra a invasão de Timor que ele patrocinou. São insondáveis os desígnios do Senhor, diria um oficiante católico. Pois são.

Entre a mentira e o logro

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 14/11/2024)


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Nós, a multidão, passámos estes últimos anos a ser bombardeados com um novo léxico político: “desinformação”, “fakenews”, “nova normalidade”, “intrusão”.

A relação dos seres gregários funda-se na confiança. É assim num formigueiro, numa colmeia, numa alcateia, numa tribo, numa formação militar, num gangue. Na constituição de equipas para operações especiais uma das perguntas aos candidatos era: quem escolhias para te acompanhar na travessia de um rio perigoso? Isto é, em quem confias.

A organização social e a organização política que dela decorre assenta na relação entre autoridade e fiabilidade. As notas de banco são credibilizadas pela assinatura do governador, os decretos reais continham um selo de chumbo e lacre com as armas do soberano. As mobilizações para uma guerra são assinadas pelo comandante-chefe. As grandes campanhas, as fatwa, as cruzadas, as descobertas dos europeus foram decretadas com base numa verdade que as tornava imperiosas. Acreditámos no segredo profissional de médicos e advogados. Na reserva da nossa correspondência. Acreditámos nos editais e nos calendários. Eram a verdade. Hoje a verdade é uma ratoeira. É um som transmitido por um karaoke, é uma mercadoria. As nossas doenças, as nossas confissões, as nossas escolhas são vendidas, na melhor das hipóteses. Na pior, matam, como os pagers que uma empresa de telecomunicações vendeu a Israel para assassinar eventuais inimigos.

Na Bíblia, Cristo, a figura de referência civilizacional do Ocidente, proclamou: Eu sou a verdade! Maquiavel, com os pés na terra e rodeado de semelhantes, adaptou um estado ideal que de facto nunca existiu e preferiu escrever sobre a realidade concreta, estabelecendo o conceito de verdade efetiva das coisas (veritá effetuale), fundamental para compreendermos o interesse pela realidade como ela é e não como uma projeção idealizada. A verdade efetiva serviu de padrão para aferir a correspondência entre o “discurso público” dos políticos e dos dirigentes e a necessidade de obter a adesão a uma realidade. Mas a palavra continha sempre uma intenção de verdade. Os membros da sociedade continuavam a jurar. A honra continuava a ser um valor e a desonra uma nódoa infamante.

A justificação da existência de armas de destruição em massa por parte do governo de Saddam Hussein para George Bush Jr decretar a invasão do Iraque terá sido o exemplo mais próximo e mais marcante da passagem da “verdade efetiva” para a pós-verdade. Pós verdade é um eufemismo para um tipo de mentira, que pode percorrer vários patamares, da pura invenção, por mais inverosímil que seja, à manipulação de factos que podem ser plausíveis e às promessas irrealizáveis de salvação. A pós verdade é o sinónimo do logro declinado nos vários significados, de burla, de engano com dolo, de fraude, de intrujice, ludíbrio, de trampolinice, de trapaça. Vivemos no reino do logro. Do tipo das barras batizadas de “delícias do mar” e que não são nem peixe, nem marisco e que nem passaram pelo mar.

A invasão do Iraque marca uma nova era no Ocidente na relação entre governantes e governados: a vitória dos grandes aparelhos de manipulação sobre a realidade, a transformação dos cidadãos em espetadores de espetáculos de efeitos especiais, a purificação dos canalhas e a sua transmutação em exemplos, como é o caso de Paulo Portas ou Durão Barroso, os videntes que viram as provas da mistificação que justificou a invasão do Iraque e que são hoje criaturas tidas por decentes e respeitáveis. A política passou a replicar os jogos da Marvel e os políticos surgiram como “transformers” e vendedores de delícias do mar como se fossem lagosta.

Do mesmo modo que a metralhadora alterou o modo de fazer a guerra na Grande Guerra, que a arma atómica alterou a a forma de as grandes potencias se relacionarem após a Segunda Guerra, a guerra da comunicação da era da informação proporcionada pelas novas tecnologias alterou de novo as táticas e acentuou a insídia na guerra. A pós-verdade são as imagens mais ou menos manipuladas que surgem nos ecrãs de televisão com paisagens e pontos assinalados por uma cruz-alvo, são atores-comentadores a arengar uma narrativa como antigamente os contadores de histórias faziam nas feiras, são um grande espetáculo de massas. Para os manipuladores da opinião, o genocídio de Gaza é um festival de efeitos especiais. A multidão mundial está tão anestesiada pela mentira que não reage. Estamos impermeabilizados. Os pilotos israelitas que bombardeiam Gaza marcam pontos no seu ecrã de videojogos. A pós verdade é a desumanização. Começa por ser a desumanização dos outros e acabará por ser a desumanização dos detentores das máquinas de jogos, sejam caças F35 ou drones.

Os europeus, com a velha arrogância, têm apresentado a nova arte de manipular as opiniões como uma especificidade americana, de que Trump é o mais exuberante talento. Pura mistificação. A utilização da mentira e do logro sob a designação de pós-verdade está tanto na ordem do dia na Torre Trump em Nova Iorque como no edifício Berlaymont em Bruxelas, sede da Comissão Europeia. Ursula Vaon Der Leyen e os seus comissários mentem, inventam e manipulam tanto quanto a nova administração Trump. E mentem sobre os mesmos grande temas, as guerras na Ucrânia e na Palestina, mentem quanto a promessas de uma nova era de leite e mel se continuarem a drenar fundos para essas guerras, mentem quanto aos objetivos de fazer a América Grande de Novo ou a Europa um continente de prosperidade, desde que derrotem os russos, os chineses, saqueiem África, dominem o Médio Oriente e determinem o preço do petróleo, rasguem os protocolos sobre as alterações climáticas, fechem as fronteiras aos imigrantes provocados pelas suas guerras.

Que diferenças, exceto de forma, existe entre o discurso pistoleiro de Úrsula Von Der Leyen, de Borrell e da sua sucessora Kallas como representante da política externa da U E, da neoliberal Albuquerque dos secretários da nova administração Trump? Que diferença existe entre os e as warmongers americanos e americanas dos e das warmongers da União Europeia? A diferença da relação entre a verdade e a realidade no discurso dos dirigentes americanos e dos dirigentes europeus é a mesma entre um carniceiro e um assassino de arma fina. Os painéis de pastores das TV portuguesas não diferem dos painéis dos pastores nos Estados Unidos. A norma é o televangelismo.

A percepção de que a Europa não é o folclore americano resulta da desinformação a que somos sujeitos através da “armamentização” da comunicação social. O filósofo Marshall McLuhan escreveu há anos que “o meio é a mensagem”. A diferença entre a mentira sob o eufemismo de pós-verdade americana e europeia é que nos Estados Unidos o meio é agora Elon Musk, o homem mais rico do mundo que comprou uma plataforma de comunicação global, o X, e é o chefe de estado sombra do que era a maior superpotência do mundo. Essa é a diferença. Uma diferença de armamento e de dimensão entre uma tromba de água e um regador. Os Estados Unidos com a sua rede de satélites e de empresas de dados e comunicações, da Starlink ao Google, podem fazer descarregar um dilúvio de mentiras, ou de pós-verdades sobre o mundo, uma “dana” como a de Valência à escala planetária e a Europa não consegue provocar mais que chuviscos, mesmo com as tentativas em curso de censura e domínio dos meios de comunicação que ainda restam no domínio público ou fora dos grandes conglomerados.

No essencial, a germinação e cultivo em estufa de dirigentes quer nos Estados Unidos quer na Europa obedece ao mesmo processo: um grande apoderado paga uma generosa bolsa de estudos para um seu pupilo vir a ocupar um lugar na administração do Estado que favoreça os seus negócios. Musk financiou Trump, mas Peter Thiel, o cofundador do PayPal, rastejando nas sombras, garantiu que o seu homem, JD Vance, entrasse no par presidencial como vice-presidente. Jeff Bezos, atrasado para a festa, entrou na onda falhando alguns dias, mas garantindo que o seu Washington Post não endossasse nenhum candidato. Aqui na Europa ninguém que coloque em causa as verdades únicas da guerra na Ucrânia e do aumento das despesas militares chegará a qualquer posto de relevo. Apenas têm lugar à manjedoura os que que puxam a carroça do dono.

Quer nos Estados Unidos quer na Europa existe uma oligarquia no poder que funde os negócios do Estado e os negócios privados e constitui uma elite governante. Os negócios renderão biliões, milhões de pessoas morrerão e incontáveis crimes serão cometidos. Como li em algum lugar: “Estamos além do espelho. Estamos todos a viajar pelos esgotos da informação. Trump é um bacilo, mas o problema são os canos.” E pelos canos escorrem muitos outros dejetos.

O essencial são os valores. O valor da palavra dada. A democracia assenta no caráter dos cidadãos e em particular dos que têm maiores responsabilidades. Quando não há caráter há canalhas. Temos um regime de canalhas. Quando se abicam dos valores criamos um mundo de faquistas e de trafulhas.