A Universidade e a ilusão digital

(Manuel Loff, in Público, 04/06/2020)

Manuel Loff

No fim de janeiro, mês e meio antes do encerramento das universidades, um estudo de João Marôco (ISPA) fazia um diagnóstico terrível sobre a situação dos estudantes universitários em Portugal: “Elevada exaustão emocional, elevada descrença relativamente à utilidade dos estudos e elevada ineficácia académica.” (PÚBLICO, 31.1.2020) Nele se alertava para o risco de burnout ser mais elevado entre os estudantes deslocados (42% dos alunos do ensino superior público), a maioria dos quais (58% no caso de Lisboa) vivem em casas que não têm salas onde possam estudar.

Recordistas europeus do abandono escolar (cerca de 30%, segundo dados de 2018), uma parte substancial dos estudantes (dos portugueses mas sobretudo dos estrangeiros) que estão matriculados nas comparativamente caras universidades portuguesas acumulavam o estudo com trabalhos desqualificados e muito precários (hotelaria, turismo, call centers, supermercados) – uma das consequências do aumento constante das propinas em Portugal desde há 30 anos.

Hoje, estão quase todos desempregados. É o que acontece com a maioria dos estudantes estrangeiros, a quem a pandemia e o confinamento deixou numa situação muito angustiante, uns tendo permanecido em Portugal porque se sentiam mais seguros, muitos simplesmente retidos, sem voos de regresso. Em conjunto com os seus colegas portugueses, eles revelam (segundo inquéritos da Universidade do Porto e do Hospital Júlio de Matos) mais ansiedade que as faixas etárias mais velhas, percecionando à sua frente uma crise social muito pior que a última, sobrecarregados por uma enxurrada de tarefas que lhes prescreveram os seus professores, também eles desorientados e submetidos à pressão de instituições que quiseram fingir uma impossível continuidade pedagógica.

Tendo percebido o stress emocional e o beco sem saída económico de tantos dos seus estudantes, que fizeram as instituições de ensino superior (IES)? Impuseram o ensino à distância, em plataformas comerciais que desrespeitam toda a proteção de dados (agravada agora com exames online de câmara ligada!) e ignoraram olimpicamente se os estudantes tinham condições de o acompanhar; aproveitaram o estado de emergência para passarem por cima de todos os órgãos de representação, de normas constitucionais que asseguram a liberdade de ensino que custou séculos a conquistar, chegando a ameaçar (caso da UP) de processo disciplinar todos aqueles que não se submetessem a um determinado modelo de ensino à distância. Mas não quiseram retirar consequência alguma da mesma emergência que elas próprias precipitaram. No “Estamos todos juntos!”, isentou-se alguém do pagamento de propinas (de milhares de euros nas pós-graduações), do alojamento nas residências, de refeições a estudantes deslocados? Não, nada! Encostadas há décadas à parede da lógica neoliberal do subfinanciamento público e da transformação de muitas delas em fundações de direito privado, quem as gere há muito que optou por adotar, na sociedade mais desigual da Europa Ocidental, um modelo socialmente discriminatório sem paralelo na UE, feito de aumento sistemático das propinas, das taxas, dos emolumentos, de confisco do financiamento da investigação, precarizando como em nenhum outro setor público a contratação de novos docentes e de investigadores. Há muito que o ensino superior público deixou de cumprir em Portugal qualquer função democratizadora. E a responsabilidade é tanto dos gestores das IES como dos governos. Verificando que os filhos das classes trabalhadoras não entram na universidade, a solução que encontraram foi recrutar entre (o que imaginam ser) as classes favorecidas brasileiras, raramente de outras paragens, penalizando-os com propinas ainda mais altas. Agora, na era do confinamento, descobriram que os podem perder a todos de uma penada.

Fechadas antes de tudo o resto, as IES resistem hoje à retoma da atividade pedagógica presencial e parecem iludidas com uma transição digital que, se não for parada, desvirtuará definitivamente a função social e cultural da universidade pública, acentuará um velho processo de recentralização, hierarquização e empresarialização e dissolverá comunidades abertas de professores, estudantes e funcionários onde historicamente houve sempre vocação democrática. Fechadas, as IES mantêm-se fora do esforço de desconfinamento que o conjunto da sociedade está a assumir. Delas se espera um contributo decisivo de reconstrução da economia e da vida social. Que o seja no sentido da democracia e não de uma ilusão autista.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico


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No meio da tempestade

(José Pacheco Pereira, in Público, 28/03/2020)

Pacheco Pereira

A história é uma coisa muito complicada. Permite fazer comparações e permite enganarmo-nos com as comparações. Representa muitas vezes o único património de experiência para vermos como foi no passado e, ao mesmo tempo, seduz-nos com comparações que são enganosas, porque o passado não é o presente. Mas vale sempre a pena usarmos o único reservatório de experiência para defrontarmos uma situação nova. A história não substitui a ciência, a biologia, a medicina, a matemática. A ciência pode saber ainda pouco sobre a covid-19, mas sabe bastante sobre epidemias e pandemias, e esta, no seu desenvolvimento, não parece afastar-se dos padrões conhecidos. Já sabe menos sobre os comportamentos sociais que estão associados a esta pandemia do século XXI, e talvez aí a história saiba mais.

Comecemos por uma pergunta: como é que uma pandemia, com um vírus de uma família conhecida, altamente contagioso mas relativamente moderado nos seus efeitos, e com uma taxa de mortalidade baixa em geral, provoca este verdadeiro cataclismo social e económico, com o encerramento de quase todas as actividades produtivas, as cidades vazias, os transportes parados, milhões de pessoas confinadas em casa?

A pergunta não serve para contrariar os esforços actuais para travar o contágio do vírus e a importância do distanciamento social não só para impedir a propagação da doença, mas para proteger os grupos de risco conhecidos, em particular os mais velhos. A pergunta não questiona a atitude dura das autoridades sanitárias e dos Estados para tratar o maior número de pessoas, aliviar as que sofrem e impedir um grande número de mortes nos grupos de risco. Acima de tudo, não questiona a salvaguarda do efeito de sobrecarga dos sistemas de saúde, talvez o mais perigoso efeito da disseminação da infecção. Mas tem sentido, até porque é legítimo colocar a questão de saber se não estamos a ter uma overdose de resposta, cujos efeitos perversos podem ser maiores, sem razão. A pergunta não diz que estamos a ter excesso de resposta, diz que essa hipótese pode ser legitimamente colocada sem pôr em causa o que se está a passar, tanto mais que há muitos factores desconhecidos sobre a pandemia. Mas o principal factor conhecido nas respostas sociais, o medo, provavelmente nunca daria espaço a que se mudasse alguma coisa.

Se tivermos em conta a pergunta, devemos analisar muitas das diferenças entre a pandemia da covid-19 e a sua antepassada mais semelhante na dimensão, a gripe pneumónica de 1918-9, a “gripe espanhola”. O grau de destruição e morte da pandemia de 1918 foi enorme, na ordem de muitas dezenas de milhões de pessoas, mas as fábricas não pararam, a quarentena severa limitou-se, em grande parte, aos hospitais e às casernas, embora a proibição de concentrações, espectáculos e outros ajuntamentos, assim como o uso de máscaras, aproxime a gripe de 1918 da covid-19. Um caso grave de contágio colectivo foi uma parada em Filadélfia, com cerca de 200.000 espectadores. No dia seguinte, os hospitais estavam cheios.

Podíamos então fazer a contrapergunta: se tivessem sido tomadas em 1918-9 as medidas actuais, teria sido possível diminuir drasticamente o número de mortes? E, dada a elevada taxa de mortalidade, não teria então tido mais sentido essa quarentena rigorosa, tanto mais que os conhecimentos científicos da época já eram suficientes para perceber os mecanismos de propagação? A resposta é provavelmente sim, mas sem a militarização generalizada dos países, em particular as cidades, nada de parecido com o que se passa hoje teria sido possível. Estávamos num tempo de grande convulsão social, com revoltas e revoluções em vários países, violência social e política generalizada, que coincidiu com os efeitos devastadores da Primeira Guerra e, depois, da pandemia propriamente dita. Entre 1917 e 1921, a Europa estava a ferro e fogo: levantamentos, greves, motins, assaltos nas ruas, tudo fazia parte da vida colectiva. Mesmo em Portugal, que militarmente sofreu o seu maior abalo nas batalhas do final da guerra, com mortos, feridos, gaseados e prisioneiros, conheceu-se um período impar de convulsões sociais, desde a primeira tentativa de uma greve geral, em 1918, aos assaltos às mercearias e armazéns suspeitos de açambarcamento, aos assassinatos políticos e bombas.

A gripe de 1918 tinha também um efeito traumático de matar mais jovens adultos, enquanto a covid-19 mata os velhos. Na verdade, esse efeito dobrava o da guerra, onde uma parte importante da população de jovens numa aldeia podia desaparecer numas horas nas trincheiras do Somme e depois vir, mais lentamente, a morrer de gripe quando regressava da tropa. Hoje, com a covid-19, verifica-se que muitos lares de idosos são verdadeiras incubadoras do vírus, mas uma sociedade que vive o mito da juventude na arte, na cultura, no desporto, na vida, permanece bastante indiferente à sorte desses alvos preferenciais do vírus.

As grandes diferenças entre 1918 e 2020 são duas: a globalização e o tecido comunicacional, no qual são embebidas todas as acções e decisões. E é esse tecido que muda quase tudo nesses cem anos de diferença. Por um lado, tem um enorme feito positivo de fornecer informação, pois hoje o homem comum nas cidades sabe muito mais sobre o que se está a passar e sobre o que deve ou não fazer, do que em 1918. Por outro lado, dá uma dimensão individual e colectiva ao medo, cria pela “massagem” da comunicação social, pelo monotematismo dos noticiários, pelas reportagens casuísticas e, nalguns casos, pelo alarmismo de jornalistas que não percebem os números, um efeito de favorecer uma pressão para os excessos da quarentena que não é a mesma coisa do que a distanciação social. 

Voltaremos ao assunto.


A lavandaria do Panamá

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 26/10/2019)

Clara Ferreira Alves

Trinta e nove corpos clandestinos num camião búlgaro. Ao mesmo tempo, o patrão de uma empresa denominada WeWork, e que encontrou sérias dificuldades na oferta pública sendo obrigada a retirá-la, receberia 200 milhões de dólares para se retirar e deixar um investidor, o Softbank, resgatá-la com a injeção de biliões. Como tantas outras, a startup e o ‘disruptor’ foram sobrevalorizados. Temos aqui um dos variados espelhos da desigualdade que o capitalismo sem freio nem escrutínio, sem regulação de políticos medrosos e desautorizados, promove e ambiciona. Um mundo unipolar desde a falência do modelo coletivista soviético, que se recusa a taxar o grande capital e que faz basear os regimes fiscais numa classe média e assalariada à qual foram pedidos, exigidos, os resgates dos bancos e do sistema financeiro. Todos sabemos que o dinheiro se multiplica sozinho, como sabemos que o dinheiro nunca se multiplica a partir de um salário, a não ser que esse salário seja de um administrador ou quadro superior que receba cerca de cem a duzentas vezes mais do que os trabalhadores da empresa. Todos sabemos que nunca houve no mundo tanto dinheiro e que esse dinheiro não está a ser distribuído ou taxado. Sabemos que muito dinheiro é sujo. Em que se distingue um oligarca russo que se apoderou dos recursos naturais do seu país dos corruptos ditador africano ou alto burocrata chinês, e todos de um chefão de um cartel mexicano ou colombiano da droga? No ramo de negócio.

Uma vila do Reino Unido descobriu que os habitantes pagavam mais imposto de renda do que o Facebook de Zuckerberg, e acionou os mecanismos de protesto e rebelião. Inutilmente, porque a opinião publica vê com maus olhos a taxação intensiva das tecnológicas às quais oferece os dados pessoais enriquecendo-as até ao infinito, e prefere culpar os rendimentos dos políticos ou os bancos malfeitores. As tecnológicas escapam com impunidade. Na Europa, o único continente onde a regulação e taxação têm merecido a atenção de Bruxelas e da formidável Margrethe Vestager, as tecnológicas têm offshores em países inteiros, como a Irlanda. Ou a Holanda. Ou o Luxemburgo. Ou Chipre, oásis dos multimilionários russos com obscuros proventos. De vez em quando, um escândalo rebenta e durante dias os media dão-lhe uma atenção exclusiva para logo o deixarem cair. Os media, também por ignorância dos mecanismos de esconderijo do dinheiro, preferem temas que entronquem no escândalo passional ou político, no sumo cor de rosa ou no triunfo desportivo que alimenta os espíritos dos pobres que não ganharão o reino dos céus.

Os pobres não ganharão coisa nenhuma. Os corpos búlgaros não têm importância para o oligarca que lucrou com o desmantelamento do império soviético. E os media tradicionais estão eles mesmos na falência, engrossando as suas legiões um bloco que podemos designar genericamente por remediados. Poderá o “Washington Post” escrever sobre a Amazon e Jeff Bezos? Não.

O escritor e jornalista francês Emmanuel Carrère tem no livro “Il est avantageux d’avoir où aller” uma reportagem brutal sobre o Fórum de Davos e a hipocrisia dos salvadores do mundo, embrulhando o capitalismo universal num manto de bondade e boas intenções, das que está o inferno cheio. É um texto cómico, porque a abordagem deste mundo autocontido terá de ser cómica por não poder ser trágica. A tragédia, exceto a tragédia pontual dos corpos achados num camião como notícia sentimental do dia em que a Inglaterra tenta livrar-se de búlgaros e afins, que os brexiters não desejam acolher, a tragédia, repete-se, não convence e afasta a audiência. A abordagem trágica tem o mesmo efeito prático que o novo tomo de Thomas Piketty a desenhar os gráficos da desigualdade. O mesmo que as consequências reais do escândalo dos ‘Panama Papers’. Ou seja, nenhum. Durante uns dias a coisa é discutida apaixonadamente, e logo esquecida e enterrada.

As offshores, que sugam o dinheiro dos impostos que os Estados deveriam cobrar, continuam desreguladas. Os paraísos fiscais? Ninguém ousa pôr-lhes cobro. A começar pelas esquerdas, que não só continuam a insistir em alargar o Estado e premiar os funcionários públicos como nunca se movimentaram para cobrar às tecnológicas e multinacionais ou censurar os paraísos fiscais de uma forma compenetrada e exclusiva.

A esquerda clássica quer retirar à classe média assalariada para dar à classe média assalariada, retirar às empresas privadas que pagam impostos para dar aos cidadãos pobres que pagam impostos. As esquerdas que temos, e isto é visível no Partido Trabalhista de Corbyn e McDonnell, não percebem que o mundo mudou. E não percebem de encriptação e segredo industrial. Não compreendem a civilização digital e a supremacia do algoritmo. Não percebem matemática e sofisticados sistemas de taxação, que Piketty percebe. Querem coletivizar e nacionalizar o que é possível, não perseguir o que é impossível. Com exceção de Elizabeth Warren, que nunca será Presidente da América.

Como Carrère, o novo filme da Netflix sobre a Mossack Fonseca, a dupla dos ‘Panama Papers’, escolheu a abordagem cómica (também usada em “The Big Short”, sobre a crise do subprime) que Steven Soderbergh trata com o talento dele. Um grupo de grandes atores, de Meryl Streep a Gary Oldman, de Sharon Stone a Antonio Banderas, serve um argumento bem escrito que desnuda os reis da lavagem do dinheiro. “The Laundromat” (“a lavandaria”) foi mal recebido nos Estados Unidos, paraíso do capitalismo liberal. Eu não vi os defeitos que os enfastiados críticos viram. Dada a obscuridade do tema, e as complexas ramificações, a abordagem cómica serve uma intriga que a abordagem dramática nunca conseguiria explicar com sucesso. Os senhores Mossack e Fonseca consideraram-se ofendidos, e só a reação dos cavalheiros vale o filme. Tencionam processar a Netflix. Good luck with that. Por uma vez, um gigante dos media é maior do que a honra do capital. Os depauperados jornais e cidadãos nada puderam contra a narrativa do Panamá e a criminosa ação dos paraísos fiscais. A Netflix faz o que não podemos fazer. Porque tem poder e tem dinheiro para isso. E o dinheiro é a única coisa que (im)pressiona o dinheiro.