Quem precisa de Marx em 2025?

(Yanis Varoufakis in Guardian., 12-07-2025, Trad. Estátua)

Imagem gerada por IA

Para nos libertarmos dos nossos senhores tecno feudais, precisamos pensar como Karl Marx. As corporações despojam-nos de ativos, mas podemos retomar o controlo.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui

Para nos libertarmos dos nossos senhores tecno feudais, precisamos pensar como Karl Marx. As corporações nos despojam de ativos, mas podemos retomar o controlo.

Uma jovem que conheci recentemente comentou que não era tanto a maldade pura que a deixava furiosa, mas sim pessoas, ou instituições, com a capacidade de fazer o bem, que, em vez disso, prejudicavam a humanidade. A sua reflexão fez-me lembrar de Karl Marx, cuja discordância com o capitalismo era precisamente essa: não tanto por ser explorador, mas por nos desumanizar e alienar, apesar de ser uma força tão progressista.

Os sistemas sociais anteriores podem ter sido mais opressivos ou exploradores que o capitalismo. No entanto, somente sob o capitalismo os humanos foram completamente alienados dos produtos e do meio ambiente, tão divorciados do trabalho, tão privados de até mesmo um mínimo de controlo sobre o que pensamos e fazemos. O capitalismo, especialmente após a sua transição para a sua fase tecno feudal, transformou-nos a todos em alguma versão de Calibã ou Shylock – mónadas num arquipélago de seres isolados cuja qualidade de vida é inversamente proporcional à abundância de engenhocas que as nossas máquinas modernas produzem.

Os jovens sentem isso. Mas a reação contra os migrantes, as políticas de identidade, sem mencionar a distorção algorítmica das suas vozes, paralisam-nos. Mas aqui Marx retorna com conselhos sobre como superar essa paralisia – bons conselhos que jazem enterrados sob as areias do tempo.

Considere o argumento de que as minorias que vivem no Ocidente devem ser assimiladas para que não acabemos numa “sociedade de estrangeiros“. Quando Marx tinha 25 anos, leu um livro de Bruno Bauer, um pensador que respeitava, que defendia que, para se qualificarem para a cidadania, os judeus alemães deveriam renunciar ao judaísmo. O argumento de Bauer era que os alemães não tinham liberdade. Então, ele perguntou: “Ó judeus, como é que vos vamos libertar?” Como alemães, continuou ele, os judeus tinham o dever de ajudar a emancipar os alemães, a humanidade em geral – e não de lutar pelos seus direitos enquanto judeus. Marx ficou furioso.

Embora o jovem Marx não tivesse tempo para o judaísmo, ou melhor, para qualquer religião, a sua apaixonada demolição do argumento de Bauer é um colírio para os olhos:

“Façamos a pergunta inversa: o ponto de vista da  emancipação política  dá o direito de exigir do judeu a abolição do judaísmo e ao homem a abolição da religião?… Assim como o Estado  evangeliza quando … adota uma atitude cristã em relação aos judeus, o judeu  age politicamente  quando, embora judeu, exige direitos cívicos.”

O truque que Marx nos ensina aqui é como combinar o compromisso com a liberdade religiosa, seja a de judeus, muçulmanos, cristãos etc., com a rejeição total da presunção de que, numa sociedade de classes, o Estado pode representar o interesse geral. Sim, judeus, muçulmanos e pessoas de crenças que talvez não compartilhemos, ou que não se assemelham a nós, devem ser emancipadas imediatamente.

Sim, mulheres, negros e pessoas LGBT+ devem ter direitos iguais muito antes de qualquer revolução socialista surgir no horizonte. Mas a liberdade exigirá muito mais do que isso.

Mudando para os trabalhadores migrantes que suprimiam os salários dos trabalhadores locais, outro campo minado para os jovens de hoje, uma carta que Marx enviou em 1870 a dois camaradas na cidade de Nova York oferece pistas brilhantes sobre como lidar não apenas com os Nigel Farages do mundo, mas também com alguns esquerdistas que também morderam o isco da anti-imigração.

Na carta, Marx reconhece plenamente que os empregadores americanos e ingleses exploravam propositalmente a mão-de-obra barata de imigrantes irlandeses, colocando-os contra os trabalhadores nativos e enfraquecendo a solidariedade dos trabalhadores. Mas, para Marx, era contraproducente os sindicatos voltarem-se contra os imigrantes irlandeses e adotarem narrativas anti-imigração. Não, a solução nunca foi banir os trabalhadores imigrantes, mas sim organizá-los. E se o problema é a fragilidade dos sindicatos ou a austeridade fiscal, então a solução jamais poderá ser usar os trabalhadores migrantes como bodes expiatórios.

Falando em sindicatos, Marx também tem conselhos esplêndidos para eles. Sim, é crucial aumentar os salários para reduzir a exploração dos trabalhadores. Mas não nos deixemos levar pela fantasia de salários justos.

A única maneira de tornar o local de trabalho justo é acabar com um sistema irracional baseado na separação estrita entre aqueles que trabalham, mas não possuem, e a pequena minoria que possui, mas não trabalha.

Assim, segundo Marx:

“Os «sindicatos» funcionam bem como centros de resistência contra as invasões do capital. [Mas] [e] geralmente falham ao se limitarem a uma guerra de guerrilha contra os efeitos do sistema existente, em vez de também tentarem mudá-lo.”

Mudá-lo para o tansformar em quê? Numa nova estrutura corporativa baseada no princípio de um funcionário, uma ação, um voto – o tipo de agenda que pode realmente inspirar os mais jovens que anseiam por se libertarem tanto do estatismo quanto de interesses corporativos, movidas pelos lucros de empresas de private equity, ou por um proprietário ausente que pode nem saber que é dono de parte da empresa para a qual trabalhamos.

Por fim, a atualidade e frescura de Marx transparecem quando tentamos dar sentido ao mundo tecno feudal em que as Big Tech, juntamente com as Big Finance e os nossos Estados, nos aprisionaram sub-repticiamente. Para entender a razão pela qual estamos numa era de tecno feudalismo, algo muito pior do que o capitalismo de vigilância, precisamos de presumir o que Marx pensaria dos nossos smartphones, tablets etc. Considerá-los-ia como uma mutação do capital, ou capital em nuvem, que modifica diretamente o nosso comportamento. Permitindo-nos, assim, a compreender como avanços científicos alucinantes, redes neurais fantásticas e programas de IA que desafiam a imaginação criaram um mundo onde, enquanto a privatização e o capital privado nos despojam de toda a riqueza física ao nosso redor, o capital em nuvem dedica-se à tarefa de despojar os nossos cérebros de ativos.

Somente através das lentes de Marx podemos realmente entender: que para possuirmos as nossas mentes individualmente, precisamos de possuir o capital da nuvem coletivamente.

Fonte aqui

O pós-capitalismo

(António Guerreiro, in Público, 03/02/2023)

Afinal Marx tinha razão?

Pode o capitalismo ser substituído por algo pior?


Na sua edição de 30 de Dezembro, a revista alemã Der Spiegel, um dos mais importantes semanários europeus, que sempre conviveu muito pacificamente e até em comunhão activa com o capitalismo liberal, apresentava na capa uma montagem – é a imagem acima -, de um retrato de Marx em que o mostra com um pin ao peito (onde se consegue ler “There is no Planet B”) e de mangas arregaçadas, exibindo os braços tatuados com desenhos de flores e o título da sua obra maior: Das Kapital. O título dessa capa do Der Spiegel, traduzido em português, é o seguinte : “Afinal Marx tinha razão?” E o subtítulo é: “Por que razão o capitalismo já não funciona”.

Este subtítulo é uma citação do depoimento do bilionário dos Estados Unidos, Ray Dalio, investidor e gerente de fundos, que o autor do artigo, em registo romanesco, imagina todas as manhãs na sua vivenda de 2000 metros quadrados a ler O Capital e não o Wall Street Journal.

Desde a capa ao artigo para que ela remete, o pressuposto é o de que o capitalismo clássico já não responde aos problemas emergentes no nosso tempo e, pelo contrário, até os agrava. Temos assim um artigo que se inscreve na longa lista de anúncios (sempre desmentidos) da superação ou fim do capitalismo. E sempre que há esse anúncio, como sabemos, as razões de Marx são convocadas e actualizadas.

Tantas vezes isto acontece que já percebemos muito bem que a chave marxiana utilizada nas declarações que antecipam o óbito do capitalismo significa pura e simplesmente o que Fredric Jameson afirmou sentenciosamente: “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. E aí temos, como resposta simétrica às sucessivas profecias da morte do capitalismo, a ideia de um capitalismo eterno e a-histórico. Em suma: um capitalismo teológico.

Mas há quem já tenha mostrado com argumentos fortes que o capital já morreu. Trata-se de uma australiana chamada McKenzie Wark (informação irrelevante: é uma mulher trans), cada vez mais lida e citada, sobretudo nos Estados Unidos e em Inglaterra, onde publicou, na importantíssima editora Verso, em 2019, Capital Is Dead. A quem este título promete um horizonte de felicidade, é preciso avisar que o subtítulo põe a hipótese de o capitalismo ter sido substituído por algo pior: Is This Someting Worse?

Essa “outra coisa” pior que Wark vê emergir para além do capitalismo (que existe ainda, ela não o nega) e acima dele (ou seja, realizando a anunciada “superação”, mas não sob a forma de promessa de um futuro radioso), tem como protagonista uma nova classe dominante que detém e controla a nova mercadoria produtora de valor: a informação.

Assine já

A esta classe chama McKenzie Wark a “classe vectorialista”, na medida em que possui os vectores extensivos da comunicação, que atravessam o espaço, e os vectores intensivos da computação, que aceleram o tempo. O que ela possui já não são os meios de produção (as maiores empresas multinacionais já não fabricam os produtos que vendem), como acontecia com a classe capitalista, mas os vectores de informação: ela possui os direitos de autor, as patentes, as marcas, os sistemas logísticos que geram e vigiam a disposição e os movimentos de todos os recursos, os instrumentos financeiros. E é daí, da informação como nova mercadoria, que se extraem quantidades astronómicas de valor.

Com a “classe vectorialista” já estamos “noutra coisa” qualitativamente diferente da produção capitalista, defende Wark. Sob a condição dessa “outra coisa”, as formas de valorização são muito mais abstractas. Agora, o poder sobre a cadeia de valor já não tem que ver com a propriedade e o controlo dos meios de produção.

McKenzie Wark reconhece que muitas das intuições analíticas de Marx continuam a ser importantes, mas ele não podia prever o que a informação fez ao capitalismo. Por isso, continuar a pensar sob o prisma de O Capital é insistir num capitalismo eterno e não perceber que ele já chegou ao seu fim e foi substituído por algo pior. A classe que na análise de Wark está em oposição à classe vectorialista é aquela a que ela chama a “classe dos hackers”. Em 2004, ela publicou A Hacker Manifesto, na Harvard University Press, que acaba de ser traduzido em Portugal por Francisco Nunes (que também assina um prefácio) e publicado por uma editora chamada DeStrauss.

Os hackers são, para Wark, aqueles que fazem a informação, que fazem a diferença, mas não têm os meios para extrair o valor daquilo que fazem. Capital Is Dead é uma revisão de Um Manifesto Hacker (assim se chama a tradução portuguesa). Quando escreveu o Manifesto, Wark não previu as mais sofisticadas técnicas de captura de valor impostas posteriormente à criação — uma captura que se desloca para um nível cada vez mais abstracto.



Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Como se faz um preço? Com lucros e salários

(Raquel Varela, in Facebook 15/09/2022)

Sem surpresa, quando disse aqui que os preços são exclusivamente fixados por lucros ou salários, muitos perguntaram “então e as matérias-primas, a energia, o mercado…a oferta e a procura?”. Alguns, com a ignorância atrevida dos tempos que correm, lembraram-se de dizer que eu não era economista (a certificação do “especialista”). Aqui fica a explicação de um economista Adriano Zilhão, na minha página, que publico por ser didática e impecável.

E deixo um conselho: eu não sou economista, podia ser e nada saber. Sou professora de história e historiadora e também professora de história económica e social. Estive um ano da minha vida dedicada a estudar a teoria do valor trabalho e as crises capitalistas porque, em 2008, e escrevi e lecionei muito sobre elas, compreendi que não podia deixar de o fazer. São as primeiras páginas, muito difíceis do Capital de Marx. Estudam-se, não se leem. Sem conhecer a teoria do valor marxista, hoje, arrisco dizer não se compreendem as sociedades, seja em que disciplina for. Mas, agora o que é relevante: eu podia ser economista e não perceber nada de economia, o que aliás se viu nos comentários onde tantos economistas perguntavam pela “lei da oferta e da procura”, algo que só fixa preços na imaginação deles. Também podia ser operária, física e cozinheira e conhecer bem a teoria do valor-trabalho. O que impressiona nos comentários, e que nos devia fazer refletir, é como tanta gente formada em economia, repete as mesmas vacuidades do governo a explicar que nada pode fazer face à inflação.

Um mergulho nos currículos das escolas de economia, que varreram a ciência social e a transformaram em matemática técnica ou comunicação em business devia há muito ter alertado tanta gente sobre o que (não) aprendem de economia em alguns cursos de economia.

Aliás, há dias perguntei a um grupo de jovens de 18 anos, com média de 18 em economia no 12º ano, todos a caminho de escolas de economia se conheciam Marx e, tirando uma, os outros olharam com espanto, nunca ouviram tal nome. Suspeito que assim continuarão, a achar que a lei da oferta e da procura fixa preços. Podem fazer como eu, também ninguém me ensinou Marx, enfiei a cabeça no livro anos para não fazer a chamada “figura de urso” ou, como se diz em business, ou zeinalbavês, bear looking. Agora leiam e aprendam.

Dando a palavra a Adriano Zilhão:

Pode-se deduzir do comentário de J. P. Costa que a sua formação é, “de todo”, económica. E, como qualquer um que estudou a economia escolástica e/ou nela crê, J. P. C. acredita que o “mercado”, local em que se “formam” preços, opera por uma espécie de magia.

Mas olhe-se melhor para a magia. Olhe-se para o mercado do petróleo (ou do gás). O que aconteceu, recentemente? Perante a guerra, sobretudo perante as sanções, passou a ser provável que a quantidade de petróleo oferecida no mercado baixasse muito, pelo menos no curto prazo.

Consequentemente, os grandes compradores de petróleo precipitaram-se para comprar o máximo possível, para poderem revendê-lo durante o máximo de tempo possível (antevendo, por outro lado, que os preços continuariam a subir, e eles fariam lucros chorudos na revenda).

Deu-se, assim, aquilo que em economês, se chama um desequilíbrio entre oferta e procura: o preço subiu, em consequência.

Mas o mercado não “fez” subir coisa nenhuma. O que aconteceu foi que os grandes vendedores viram que, se passassem a vender mais caro, continuariam a escoar todo o produto. Ou seja, disseram aos compradores: querem comprar? A gente vende, mas agora só vendemos a quem der (ainda) mais. Podes, compras; não podes, ficas de mãos a abanar, que há mais quem compre.

O preço não “ficou” magicamente mais alto, os vendedores aumentaram-no. Ora, e os custos, salariais e outros, dos vendedores de petróleo? Ficaram na mesma.

À diferença entre preço e custo (salarial e outro) chama-se lucro. Portanto, a subida de preços provocou uma subida dos lucros dos vendedores.

A economia é uma coisa complexa? É. Empresas têm custos de todo o tipo: os salários que pagam diretamente e muitas outras coisas, matérias-primas, produtos intermédios, serviços de transporte, financeiros, amortizações e por aí fora (deixemos de lado os impostos, que incidem sobre salários e lucros a jusante). Mas as matérias-primas e tudo o mais foram extraídos ou produzidos por outras empresas, que para o fazer também usaram trabalho: portanto, pagaram salários. E assim sucessivamente.

Se se “descascar” a produção de bens e serviços ao longo de todas as cadeias de produção entrecruzadas, tudo se reduz a trabalho humano.

E reduz-se a duas categorias de trabalho humano: a parte do produto do trabalho dos trabalhadores que lhes é paga (os salários, que são o preço pago pelo patrão para alugar a força de trabalho pelo tempo convencionado); e o trabalho dos trabalhadores que não lhes é pago (o lucro, o valor restante, a diferença que, depois de vendidas as mercadorias/serviços, fica no bolso do patrão).

Por essa razão, mesmo nas escolas de economia, há uma equivalência entre produto e rendimento: a soma do valor de todo o produto é igual à soma do valor de todos os salários e lucros (e suas subdivisões).

Em conclusão: Raquel Varela tem razão. Todo o valor criado se reduz a salários e lucros, a soma dos preços todos é igual à soma de todos os salários e lucros. O “mercado” (incluindo o de trabalho) é o “local” em que se medem forças, onde se vê quem consegue torcer o braço de quem.

É menos mágico do que parece.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.