Ser “aliado” dos EUA é assistir calado à sua própria destruição

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 07/05/2024)

Nos termos em que é definida a “segurança nacional” dos EUA, a sua protecção cresce ao ritmo da destruição da soberania, economia e liberdade dos seus “aliados”.


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O ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, disse uma vez que a fórmula usada pela União Europeia, para gerir as suas relações com a China, é “impraticável”, “é como conduzir um automóvel para um cruzamento e olhar para o semáforo e ver as luzes amarela, verde e vermelha acesas ao mesmo tempo”. Eu diria mais… Para além da confusão com as indicações fornecidas pelo semáforo, o condutor – apenas para os chineses – ainda tem de ter atenção aos pregos, óleo e buracos na estrada, que podem originar o despiste ou danos na viatura.

E quem provocaria tais perigos no percurso? Face ao desespero dos actores envolvidos e o caracter unidireccional das acções… Consequentemente, o tom exasperado e catastrofista que encontramos na imprensa ocidental, por oposição a um tom mais triunfalista que vigorava ainda há seis meses (nem tanto), diz-nos tudo o que necessitamos de saber. É incrível como as emoções ocidentais andam num alvoroço, passando de um extremo ao outro, em períodos muito curtos. Da vitória certa na Ucrânia contra a Rússia, passa-se para o pânico generalizado, em que Sullivan, Biden, Borrel ou Macron, que ainda em Setembro já se viam banhar-se nas boas águas da Crimeia, agora passaram à certeza de que as tropas russas não pararão no Dniepr e talvez nem no Danúbio, Reno ou Elba.

Durante 2023 todos assistimos à imparável sucessão de previsões de queda da economia chinesa – a russa já estava “em pedações”, lembremos -, para agora surgir o pânico com a inundação de produtos de grande qualidade e a baixos custos, com os quais o ocidente preguiçoso não consegue sequer sonhar competir. Está a acontecer nos automóveis, como nos semicondutores, máquinas agrícolas, descobrindo-se, aos poucos, pelo tom histérico de Janet Yellen e Blinken, que se algo está a cair, esse algo é a hegemonia americana, cujas estratégias de contenção, até agora, apenas resultaram em adversários ainda mais fortes e capazes. Afinal, é o trabalho duro que molda o carácter. A elite capitalista rentista do ocidente está demasiado habituada ao dinheiro fácil dos royalties, para conseguir competir com aqueles que nunca abandonaram a indústria, a agricultura e as actividades realmente produtivas.

O facto é que, no Washington Post, David Ignatius, investigador ligado ao maior Think Thank do Estados Unidos, partindo de um trabalho da própria Rand Corporation, diz que os analistas referem que os os EUA estão a entrar num declive do qual poucas potências recuperaram; é também a RAND que nos fornece um artigo intitulado “a rivalidade EUA e China numa nova idade média”, apontando para a necessidade de que os decisores têm de desenvolver uma mentalidade neomedieval, nomeadamente, tendo de fazer a guerra sabendo que o “público” não a quer; Borrel diz que os EUA já não são hegemónicos e que a China já se tornou uma superpotência, algo que Brezinsky prometera que nunca mais aconteceria; ou, ainda, os dados estatísticos da economia norte americana, dizem que cresceu apenas 1.6%, no primeiro trimestre de 2024, o que mostra um abrandamento em relação ao previsto. Um grande abrandamento, considerando os 2.7% que são previstos pelas cadeias de transmissão dos EUA, como o FMI.

Curiosamente é da própria RAND que vêm os conselhos mais avisados. No seu estudo “The Fates of Nations” (os destinos das nações), sugerem-se duas reflexões que, considerando o teor e a actualidade, não têm outro destino que não o poder político sedeado em Washington: 1. Quando as nações estão entre uma vitória na guerra ou o colapso nacional (entre a espada e a parede, digo eu), a imposição punitiva e coerciva das condições não constitui um caminho adequado para o sucesso nas rivalidades; 2. A excessiva ambição e abrangência estratégica sobredimensionada contribui para muitos tipos de falhanços.

Estas reflexões são o retrato actual dos EUA: querendo estender-se a todo o lado, começam a abrir fendas no centro, pois quanto maior a extensão da superfície, menor a espessura da cobertura; tomar posições de força em todas as situações – ameaçando todos os contendores com sanções – provoca a fuga e a aversão dos envolvidos e dos que possam vir a estar no alvo dessas acções. Se a isto somarmos o facto de, segundo diversas fontes, a equipa de assessores de Trump lhe ter proposto a aplicação de penalizações aos países que quiserem reduzir a dependência do dólar, já se vê que 2024 vai ser um ano terrível para a maior moeda de reserva mundial. Para já, o ouro nunca esteve tão alto e quase 1/3 do petróleo transaccionado em 2023 foi em outras moedas que não o dólar. Se eu fosse presidente de um qualquer país, tudo faria para reduzir a dependência até à tomada de posse de Trump, considerando que as perspectivas de reeleição de Biden não são as mais entusiásticas.

Perante esta realidade, o que faz Washington? Não conseguindo situar-se neste mundo multipolar em construção e não conseguindo adoptar uma abordagem cooperativa e respeitadora dos outros estados, preferindo focar-se “numa competição de grandes superpotências”, em sentido contrário ao que propõe, por exemplo, a Carnegie Endowment for Internacional Peace, no seu relatório “The United States Policy Challenge”, a administração chefiada por Biden opera como se ainda tivesse todo o poder do seu lado e, faltando-lhe a força com que normalmente contava, adopta a postura da sabotagem, da disrupção e da provocação de instabilidade no “ambiente de negócios” dos seus próprios “aliados”, nomeadamente quando estes se encontram entre a China e as necessidades de “segurança nacional” dos EUA.

Se, no México, terão sido veiculadas ameaças – ninguém as confirmou – contra o governo de López Obrador, caso este persista na intenção de permitir a instalação de fábricas da BYD, para que estas possam utilizar a isenção de taxas aduaneiras aplicável ao acordo de livre comércio USMCA. São os próprios EUA a desdizer, unilateralmente, que as regras acordadas entre três países, afinal deixam de valer para o México, sem que este, supostamente parte no acordo, tenha uma palavra a dizer. Se esta situação não é demonstrativa de quem manda, realmente, quando algum país assina um “acordo” com os EUA…

Este processo de disrupção, que visa tornar impossível a instalação de empresas chinesas, é levado tão a sério, que até um país como Portugal pode ser apanhado na rede e ver a sua economia profundamente afectada com a intervenção e ingerência norte-americanas.

Vejamos o caso da petrolífera GALP, empresa privatizada e com 51% do capital detido por “investidores institucionais” estado-unidenses. Primeiro, assistimos às notícias de que o 8.º maior poço de petróleo do mundo, situado na áfrica oriental, mais concretamente na costa da Namíbia, tinha sido concessionado “a Portugal”. Concretamente, o poço de petróleo havia sido concessionado, não “a Portugal”, mas à GALP, teria sido “a Portugal”, se a empresa ainda fosse pública (apenas 8% o são). A empresa é gerida por uma família oligarca portuguesa, cuja Holding “Amorim Energia”, que detém 35,8 % do capital, está sedeada nos Países Baixos.

Convém dizer que mais correcto seria dizer que, 80% da exploração, do 8.º maior poço de petróleo do mundo, foi concessionada, não “a Portugal”, mas “aos Países Baixos”. E, embora a família Amorim tenha a gestão da empresa, o capital é detido por uma esmagadora maioria de capital Norte-Americano, Inglês e Canadiano (75,2% ao todo). Já se viu quem realmente manda.

Esta mesma GALP, cujo programa de transição para as energias e sectores sustentáveis, previa um afastamento progressivo dos combustíveis fósseis, veio agora comunicar que abandonou a proposta de instalação de uma refinaria de lítio, no sul de Portugal. A GALP, uma empresa privada que prossegue o lucro, prescinde de um negócio de refinação e lítio, em grande parte financiado por fundos europeus e portugueses e com mercado garantido?

Não esqueçamos que o objectivo final seria, com dinheiro dos contribuintes, garantir à GALP a entrada em um sector estratégico do ponto de vista das indústrias “sustentáveis”, e com rentabilidade garantida, pois o lítio seria explorado também em Portugal, refinado em Portugal e instalado em baterias, em Portugal. Negócio extremamente lucrativo garantido e com desenvolvimento de importante know-how. Explica-se, assim, porque razão a GALP acedeu ao 8.º maior poço do mundo e porque razão veio agora dizer que, afinal, os objectivos de descarbonização vão ter de ser adiados. O que esta gente se preocupa com “as alterações climáticas”!

Para Portugal, este projecto era fundamental, pois fecharia o ciclo de produção e veículos eléctricos dentro de fronteiras. Da mineração do lítio à produção e carros eléctricos, tudo se faria em Portugal. Contudo, havia um senão, neste projecto ambicioso. Este projecto que se constitui como um dos mais importantes a financiar no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência da União Europeia para o país, assentava a produção de baterias através da instalação de uma fábrica da chinesa CALB, a qual já está aprovada pelo anterior governo, o qual sofreu, curiosamente, um golpe judicial de “lawfare”, após o qual foi eleito um outro governo, supostamente com ideias diferentes, nesta matéria. O futuro nos dirá se diferem, ou se o dinheiro acabará por falar mais alto.

Uma vez mais, teremos de voltar a ouvir o que disse o embaixador dos EUA, em Portugal, a respeito dos negócios relativamente aos quais, Washington, não veria com bons olhos a entrada da China. Não ver com bons olhos é um eufemismo, como se sabe. Lítio, dados pessoais, portos e 5G.

Foi assim que um pequeno país, como Portugal, foi apanhado no meio de uma tectónica disputa entre superpotências, em que a, ainda, potência hegemónica, desenvolve um processo de destruição do “ambiente de negócios” aplicável à concorrente. Como sabemos, a história não reza grande coisa sobre aqueles que estão sempre à defesa, e assim se foram fechando cada vez mais. Mas isso são outras contas.

Este exemplo integra em si toda a complexidade, falácia e agressividade da estratégia do “decoupling”, a qual quando traduzida por Ursula von der Leyen para a “língua da EU”, passou para “derisking”. Também demonstra como, na EU, quem manda são os EUA e como estar, hoje, ancorado à União Europeia, e a tudo o que ela representa, constitui, de facto, um grave travão ao desenvolvimento. Portugal, tal como o México, tal como a Alemanha, Espanha, França e toda a Europa, vêem encerrados, boicotados e destruídos projectos de investimento, que poderiam manter a Europa industrializada. Só porque são projectados com companhias chinesas.

Talvez, nem assim a chinesa CALB desista da sua fábrica em Portugal. Contudo, esta previsível ingerência estrangeira, não deixará de diminuir as expectativas de rentabilidade futura da empresa e, sobretudo, de criar um travão à sua competitividade por melhores preços. Sintomaticamente, esta continuada sabotagem da economia europeia e dos “países aliados”, assenta sobretudo em tecnologias que os EUA pretendem dominar. Neste quadro, saber que a Wolkswagen fez um acordo com a chinesa Xpeng, e que em Portugal também se situa uma fábrica da marca alemã. Não deixamos de sentir aqui um cheirinho à já tradicional perseguição, pelos EUA, à economia alemã, a qual sofreu um duro revés com a destruição e encerramento do Nord Stream e do que dele restou. Tudo se volta a interligar.

O que este caso comprova é que, hoje, no ocidente e em especial em territórios de alguma forma controlados pelos tentáculos do poder monopolista estado-unidense (o caso português comprova a importância do caracter público de empresas como a GALP), estão limitados aos negócios que estes não consigam ou não queira sabotar ou destruir.

Se são os próprios Think Thank e institutos de investigação a sugerirem à elite política norte-americana que a melhor abordagem seria a da cooperação, respeito pelas soberanias alheias e, sobretudo, não tentar chegar a todo o lado, não é por falta de conhecimento fundamentado que estas elites se comportam de forma selvática. O seu objectivo muito claro e que consiste em criar um ambiente de tal forma inseguro, imprevisível e errático para as empresas chinesas, que sejam estas a abandonar a pretensão de se instalarem e de comerciarem com a europa e américa latina, sem que possa dizer-se que foram os próprios EUA a sabotarem o desenvolvimento económico de países que dizem ser aliados.

Os meios usados vão desde a alteração unilateral de regras, das suas próprias regras, à promoção de agendas como o “decoupling” ou o “derisking”, ou, ainda, se necessário for, e como comprova o Nord Stream, proceder à destruição directa das infraestruturas de apoio, subversão das democracias através da organização de golpes judiciais e revoluções coloridas, ameaça com sanções e outras penalizações. Em último caso, até uma guerra se promove, comos e faz na Ucrânia e se tenta agora em Taiwan.

E é assim se desdiz tudo o que antes se havia dito, sobre os mercados abertos que se fecham quando em desvantagem ou se abrem quando existe a garantia de que apenas o poder hegemónico os ganha; as agendas climáticas que são prioritárias mas que são logo abandonadas quando os ciclos de acumulação definidos estão em causa; o respeito pelas soberanias dos outros países que são protegidas quando está em causa a aproximação aos rivais e são desprotegidas quando se trata de defender o domínio dos EUA.

Nos termos em que é definida a “segurança nacional” dos EUA, a sua protecção cresce ao ritmo da destruição da soberania, economia e liberdade dos seus “aliados”.

Ser “aliado” dos EUA não garante imunidade contra a ingerência, subversão e sabotagem económicas, muito pelo contrário. Garante que esta ingerência é feita mais facilmente, pois as defesas tradicionais que resultam da soberania nacional não existem. Ser amigo dos EUA é, hoje, assistir à sua própria destruição e ficar calado. Com amigos destes… Quem precisa de inimigos?

Fonte aqui.


Assim vai o mundo: As guerras

(Daniel Vaz de Carvalho, in Resistir, 14/04/2024)

O mundo hoje está confrontado com três guerras:  a da NATO na Ucrânia; a de Israel na Palestina; a guerra contra a China em acelerada preparação. A propaganda de guerra, o constante semear de pânico, ódios, irracionalidade contra ameaças da Rússia, China, Irão, RPDC, enfim contra tudo o que não se submeta ao poder imperial dos EUA, tornou-se o padrão da desinformação nos países do dito ocidente – uma lavagem ao cérebro da opinião pública para aceitarem os sacrifícios e perda de direitos que a oligarquia e o imperialismo necessitam para manter o seu poder em declínio e disfarçar as crises.

Ler artigo completo aqui.


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A Europa corre o perigo de adormecer em paz e acordar em guerra

(Hugo Dionísio in Strategic Culture Foundation, 06/03/2024)

Somos governados por uma aristocracia eleita por poderes supranacionais, que usa os estados como territórios expandidos, dos interesses centrais a quem responde.


Europeus, não se admirem se um dia acordarmos ao som de notícias como “a guerra começou”. Este prenúncio é tudo menos fantasioso e é para ser levado muito a sério. Na minha ignorância, julgo mesmo que, na história humana, após a segunda guerra mundial e considerando a experiência da guerra fria, estaremos, talvez, no momento em que o risco de confrontação militar é mais elevado. À falta de uma arquitectura mundial unificadora, de democracias sólidas e de canais de comunicação estáveis e credíveis… Tudo se torna possível.

No quadro de mais uma adaptação da já secular doutrina estratégica “da espada e do escudo”, enunciada, em 1917, pelo General Pershing, quando explicava às suas tropas que não estavam, na Europa, para defender os europeus, mas para defender os americanos, uma vez que os países europeus constituem um escudo e os EUA a espada, ao longo dos últimos 30 anos, a Casa Branca foi construindo uma elite administrativa aristocrática e aristocratizada, a qual responde, em primeiro lugar, aos interesses da “espada” americana.

Em qualquer grupo fechado, a sua coesão interna funda-se em sentimentos de pertença, os quais, neste caso, residem nos valores da exclusividade, individualidade (não é para quem quer) e inacessibilidade (é só para quem pode) ao comum dos mortais. O grande objectivo, e sucesso, da estratégia americana, reside na criação de um sentimento segundo o qual, cada um dos membros do grupo, faz parte de uma estrutura de eleição, à qual só aderem seres muito especiais. Este sentimento é trabalhado a partir de variadas estratégias de comunicação, sugestão e persuasão que visam criar uma identidade de grupo, mesmo quando os respectivos membros partem de países, realidades e áreas educacionais diversas.

Vejamos alguns casos exemplificativos, mas também paradigmáticos. Emanuel Macron, passou pelo Institute d’Etudes Politiques de Paris – IEP, o qual constitui a chancela de confiança, a premissa, segundo a qual, o sistema neoliberal passa a ver, em Macron, alguém preparado para a administrar os seus interesses. Para além do caracter selecto com que esta instituição privada, exclusiva, se apresenta, as convenções que mantém com a Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e com a, sempre reputadíssima, London School of Economics, ou o curso de mestrado em inglês para jovens promessas mundiais, representam uma poderosa contribuição deste instituto para a causa monopolista neoliberal. É ali que se criam os fundamentos ideológicos e os ensinamentos propagandísticos que, mais tarde, são enraizados no discurso político.

Para quem tenha dúvidas desta descrição que faço, nomes como Alain Juppé, Lionel Jospin, Dominique de Villepin, Jacqes Chirac, François Hollande e François Miterrand, todos passaram pela escola Sciences Po. do IEP. Podemos mesmo dizer que, estudar no selectíssimo IEP é meio caminho andado para o estrelato mundial e, mais importante ainda, para os afazeres públicos de um dos motores da EU.

Contudo, esta exclusividade não é restrita aos mais elevados representantes da aristocracia ocidental. Mesmo os mais bárbaros e obscuros wannabes são obrigados a apresentar um qualquer tipo de conexão. Tal é o caso de Kaja Kallas, a primeira ministra da Estónia, que se candidata a tudo o que dê tacho e pertence a todos as direcções que a aceitem. Kallas passou pela necessária Estonian Business School, pois as escolas de Business têm aqui um papel fundamental no enquadramento ideológico do eleito, mas, entre muitas outras coisas, Kallas pertence também à organização Global Young Leaders, organização privada relacionada com Universidades como Stanford, da Ivy League, destinando-se essencialmente a formação STEM.

Profundamente ligada aos programas de formação para jovens, seleccionados através das estruturas americanas existentes dentro das universidades e escolas de todo o mundo, aos “sortudos” eleitos dos seus programas, é destinada toda uma panóplia de excepcionais insígnias como “Innovative”, “Business” ou “Leadership”. Em programas que vão desde as escolas do ensino básico à universidade, os “estudantes” aprendem a movimentar-se, desde muito novos, nos meios do poder, desenvolvendo competências ligadas à criação de ONG’s, empresas, partidos, como intervir junto de governos, da ONU e de outras estruturas.

Pense-se assim: numa escola pública que propositadamente não forma os alunos para a vida política, o que constitui um erro crasso em democracia, as mesmas elites que o negam à generalidade da população, preparam os seus rebentos para as sucederem de forma directa – qual monarquia hereditária escondida – nos afazeres dos adultos. Como se costuma dizer, em terra de cegos, quem tem olho é rei. E as elites oligárquicas sabem-no melhor do que ninguém.

Outro caso é o de Rishi Sunak, o Indiano que se sente mais americano que inglês. O que não admira. Em 2006, por exemplo, Sunak requentou um MBA da Universidade de Stanford (quase omnipresente), como bolsista da “Fullbright”. A “Fullbright” é mais um daqueles programas que desenvolve cursos para supostos jovens brilhantes. Lá está, a exploração do individualismo, do egocentrismo, do sentimento de exclusividade, como pilares da construção de um sentimento de pertença, através de reforço positivo enquanto ser excepcional. Todos se sentem excepcionais. Daí a sua arrogância, o seu distanciamento.

Não admira, portanto que a própria Ursula seja tão fervorosamente anti Russa e atlantista. Como não poderia deixar de ser, entre 1992 e 1996 viveu em Stanford (outra vez Stanford), na Califórnia, onde estudou economia. O próprio Donald Tusk, da Polónia, fez parte de uma Associação de Estudantes Independentes, criada em 1980, financiada pelos mesmos de sempre, que visava subverter, a partir da academia o regime – à data socialista – da Polónia. Mais tarde, foram os quadros desta “associação” deveras “independente” que apoiaram, no terreno, a organização da Revolução Laranja na Ucrânia. Ou seja, o que vemos na Ucrânia, hoje, é o resultado de um amplo projecto de separação e submissão da europa aos interesses neoliberais, hegemónicos e imperiais dos EUA.

Este “escudo” europeu, como podemos constatar, é construído por um grupo que funciona quase como uma sociedade secreta, dotado de profunda coesão interna, baseada no sentimento narcisista de eleição, exclusividade e de pertença a um grupo de elite, treinado para liderar, formado para administrar os interesses supranacionais do estado monopolista por excelência, os EUA.

Agora, imaginem-se numa estirpe de gente que, para além de muitos pertencerem às classes mais abastadas ou à aristocracia política, ainda lhes inculcam, através de inúmeros recursos institucionais ao dispor, a ideia de que fazem parte de um grupo restrito, colocado acima do comum dos mortais, destinado a decidir, por conta dos interesses monopolistas que os contratam. Pertencendo a uma elite deste tipo, o comum erro, que normalmente custa a careira, a honra e até a vida, para esta gente não passa de um percalço na ascensão ao topo. Imaginem-se colocados numa posição destas, como se comportariam? Com sentido de responsabilidade? Ou com total sensação de impunidade? Se soubessem que o vosso poder, estatuto e legitimidade emanavam de interesses supranacionais, a quem seria natural demonstrarem a vossa lealdade? Ao povo?

A forma como os EUA, e os interesses monopolistas que compõem o seu sistema de poder, subverteram qualquer ideia de autonomia estratégica à EU, atirando-nos a todos para a uma linha da frente que, não visa proteger os nossos interesses, mas os deles próprios, consistiu na entrega da alta política, não aos mais experientes estadistas, aos mais emergentes líderes de massas, ou aos mais capazes e competentes quadros públicos, mas, ao invés, a uma estirpe espartana socialmente isolada (apenas no modo de organização e não nos costumes), composta por carreiristas, incapazes de distinguir entre interesse público e privado, nacional ou internacional. Para tais seres, os interesses da coisa pública confundem-se com os seus, e os seus, com os dos seus patrocinadores. São uma e a mesma coisa, num ciclo vicioso em que quem ganha e quem perde está, à partida, determinado.

E, se a actuação deste grupo privilegiado, elitista, segregacionista e exclusivista, em matéria de economia europeia, tem os resultados à vista, também no que concerne à política externa, os seus actos demonstram por conta de que projecto as suas lealdades são expressas. Victoria Nuland veio à Europa exigir uma demonstração de apoio e recebeu-a sob a forma de um Macron que, convocando todos os líderes europeus para o Palácio do Eliseu, procurou discutir a possibilidade de enviar tropas europeias para a Ucrânia. Não fosse Robert Fico, que, pelos vistos, não se revê neste selecto grupo de yuppies, e não saberíamos que os líderes em quem é suposto os povos europeus confiarem, discutem, entre si, à porta fechada e nas costas da mesma democracia com que enchem a boca, algo como o rastilho que pode incendiar uma terceira guerra mundial. Ou seja, discutem, entre si, a utilização da Europa como escudo da espada americana, com total desprezo por quem dizem governar.

Coincidência ou não, é também após a visita da incendiária Nuland, que todos tomámos conhecimento de que três militares alemães de alta patente, desejavam preparar um ataque à ponte sob o estreito de Kerch, usando mísseis Taurus fornecidos pelo seu país. Entre todas as formas de manifestação de lealdade, a mais hilariante só poderia vir de Zelensky, quando este, qual Cristo ressuscitador de mortos, conseguiu transformar as centenas de milhares de soldados, que ele próprio enviou para a morte, em apenas 31 mil falecidos. Onde param então mais de 500 mil soldados?

Dizem depois os incautos que, no Ocidente, faltam “estadistas”, o que repetem vezes sem conta sem se dar conta do paradoxo. Para existirem “estadistas” teriam de existir estados. Se, nesta nova construção geográfica que é o “ocidente colectivo”, já não existe a figura do estado-nação, mas, antes, territórios de interesse estratégico, então, no quadro deste modo de organização, o que podemos esperar daqui são missionários e enviados plenipotenciários que servem sobretudo os interesses monopolistas da hegemonia americana. Uma espécie de cônsules de um poder imperial supranacional. Actualmente, qualquer leitura que façamos sobre a realidade política vigente, tem de ter em conta que a Europa, Japão, Coreia do Sul ou Austrália não apenas constituem o “escudo” de defesa dos EUA, mas também o seu “espaço vital”. Um espaço vital que, agregado ao seu próprio, capacita os EUA para uma competição feroz com o eixo Rússia, China e Irão, mais populoso, produtivo e motivado. Já não se trata, apenas, de “manter a Europa dentro” ou a “Alemanha em baixo”, como era pretendido para a missão da NATO, trata-se, sobretudo, de fazer coincidir o território NATO com o território vital dos EUA, o que levanta profundas questões sobre o papel da União Europeia, num quadro deste tipo.

Assim, se a realidade que analisamos não é composta por estados-nação, mas por um espaço comum supranacional, liderado pelos EUA, esperar por “estadistas” não é minimamente realista, pois ao “estadista” preocupa o Estado, enquanto organização colectiva que constitui a cúpula de uma determinada existência sociopolítica. Interessa-lhe a Nação, o povo, a sua economia, as suas tradições e identidade. Será que são estes valores que movem um Emanuel Macron, uma Ursula Von Der Leyen ou um Donald Tusk? Nem a sua actuação e, muito menos, o seu currículo, o indiciam.

Assim, a coberto da impunidade que só um estatuto excepcional, mas sobretudo supranacional, pode trazer, assistimos a uma discussão sobre a oficialização da presença de forças europeias na Ucrânia, nomeadamente as que estão afectas aos “estados” que andam a celebrar, nas costas dos seus povos e sem discussão soberana, acordos bilaterais de segurança, que os podem obrigar a entrar numa guerra, tal como o  Reino Unido inaugurou, como mundial, a segunda guerra, por ter assinado um tratado bilateral de segurança com a Polónia. Se este não é um assunto para ser discutido, profundamente, em democracia, por um povo, então não sei o que será mais importante! Casas de banho mistas? Casamento entre pessoas do mesmo sexo? O retrocesso nas leis do aborto? Sem desprimor por essas questões, claro!

Bem sabemos que, tal discussão, neste preciso momento, resulta de mais uma manobra contingente, que visa impedir aquilo que prometeram, desde o início, nunca ser possível: a vitória russa! Nunca se retractando e provando que a impunidade que sentem tem correspondência no poder que os legitima, a designada “comunicação social” dominante, a tal que deveria informar, escrutinar, questionar, criticar, cala-se bem caladinha e passa a dizer, hoje, o que veementemente, ontem, negava. Como que a provar que, uns e outros, emanam de uma mesma fonte de poder.

O facto é que, por este caminho, amanhã, poderemos acordar com forças da NATO oficialmente estacionadas, ao longo da fronteira norte da Ucrânia com a Rússia e Bielorússia e, a sul, na região de Odessa, procurando salvar a ligação dos resquícios do país que antes existiu, ao Mar Negro. A partir desse dia, Vladimir Putin, o ministro Shoigu ou Medvedev, já não terão de fazer de conta de que não existem tropas da NATO às portas da Rússia! Elas estarão lá, para todos verem. Nesse dia, saberemos para que ainda servem as bandeiras nacionais dos estados-membros da UE e da NATO. Servem apenas para mascarar a presença da Aliança junto do seu eleito inimigo, ou para transmitir aos povos europeus, enganando-os, de que não será a NATO que lá estará, mas sim, os seus estados. Afirmar a presença da NATO, por um lado, e escondê-la, por outro.

Quando tal suceder, confirmaremos, na prática, tudo o que disse anteriormente: somos governados por uma aristocracia eleita por poderes supranacionais, que usa os estados como territórios expandidos, dos interesses centrais a quem responde, e os conceitos de estado-nação, apenas, para legitimar as acções que visam desenvolver, sob a sua capa.

E só assim será possível adormecermos, uma certa noite, em paz, e, no dia seguinte, acordarmos em guerra!

Fonte aqui.


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