Frontalidade espanhola perturba o pensamento único

(José Goulão, in AbrilAbril, 03/08/2026)


O actual ataque a Espanha usando seres humanos pobres e sujeitos a terríveis sofrimentos como carne para canhão é mais um exemplo do indigno arsenal de combate desenvolvido pelo imperialismo, e o Ocidente em geral, para impôr os seus interesses autocráticos.


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Passa pela cabeça de alguém que através de um mágico clique, accionado algures no reino de Marrocos, quiçá em Telavive ou Washington, dezenas de milhares de marroquinos e outros africanos se tenham posto simultaneamente em movimento ao assalto da cidade autónoma espanhola de Ceuta, para daí tentarem espalhar-se por todo o território espanhol?

Onde estarão os congeminadores, os agitadores e os cúmplices desta operação? Não é possível, ou pelo menos seguro, apontá-los a dedo. Mas sabe-se como funcionam, percebem-se as suas estratégias, identificam-se os seus objectivos.

O objectivo, não tenho disso qualquer dúvida, é o de derrubar o governo de Pedro Sánchez em Madrid. Um executivo montado com base no Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e que, quando já ninguém esperava que tal coisa acontecesse, descarrilou do trajecto neoliberal e suicida adoptado pelos seus «irmãos» em todo o mundo.

Por esta razão, e devido às consequências que se vão desenvolvendo com uma coerência assustadora para as estruturas do poder globalista em Bruxelas e Washington, a autocracia que se esconde atrás da «democracia liberal» decidiu agir. Coleccionou motivos, pretextos e conspirações convergentes para pôr fim à vida do governo de Sánchez.

Nem nos piores pesadelos de Von der Leyens, Costas e Trumps poderá haver lugar para enfants terribles, soberanistas e pensamentos discordantes no interior da União Europeia e da NATO. Os polícias da «democracia liberal», dos nossos «valores compartilhados» e da «nossa civilização» não admitem opiniões dissonantes no interior de um pluralismo que se manifesta com voz única.

Governo de Sánchez é para abater

Não tenham dúvidas, nem ilusões: em Washington e Bruxelas já foi definido o futuro de Sánchez: chefe de governo a abater. O problema é que não lhes será fácil atingir esse objectivo golpista com um estalar de dedos: não menosprezem Espanha como um país corajoso, senhor de si e da sua diversidade. Espanha nunca foi, nem é, um reles «bom aluno»; conhece o seu poder, não se acobarda e, pelos caminhos que trilha, nunca aceitará dissolver-se e desaparecer num magma em que as nações e os cidadãos sejam reduzidos à ínfima espécie. Espanha, não tenham dúvidas, é um calhau nos sapatos das máfias de Bruxelas e Washington. Não será fácil removê-lo.

A carga contra Ceuta através do desumano aproveitamento de toda a espécie de carências e indignidades coloniais a que estão submetidos os marroquinos e outros povos do Norte de África é  a última versão dos instrumentos usados para desestabilizar Espanha. O senhor de Washington e os súbditos de Bruxelas acarinham essa ideia fixa desde que Pedro Sánchez provou, sem deixar dúvidas, de que não está em sintonia total com o regime de capitalismo selvagem cultivado pelos Estados Unidos e a União Europeia, com objectivos militares e globalistas.

Pedro Sánchez não é um revolucionário social, não questiona o sistema capitalista; porém, aparenta ser um social-democrata que mantém referências a uma social-democracia que já não se usa. Para ser hoje um autêntico ocidental é preciso venerar o fundamentalismo neoliberal. Sánchez não o faz, logo é um erro de casting, um bug no sistema. Basta alguém seguir uma linha em alguma medida desrespeitadora da receita política única para cair em desgraça nos bastidores sombrios, conspirativos e vingativos de Bruxelas e Washington. 

Ora, Sánchez não irá permitir que a juventude espanhola pague o preço dos delírios belicistas e expansionistas em que a União Europeia mergulha cada vez mais para tentar garantir a sobrevivência do nazismo banderista de Kiev. Delírios esses associados, por sua vez, ao mito das supostas ambições russas em toda a Europa – a tal falsificação que garante lucros brutais, de volumes inimagináveis, às mega corporações do armamento, da energia e dos media.

Sánchez também usa a sua voz firme e confiante para defender a Palestina, o povo palestiniano e para confrontar – sem medo – o regime fascista sionista de Israel, as suas práticas genocidas e anexionistas e o desrespeito pelo direito internacional. Eis o insólito a que chegámos: o governo espanhol é o único do mundo ocidental, que tanto diz guiar-se pelo direito internacional, a respeitar, de facto, o direito internacional. E para os autocratas de Bruxelas isso é inadmissível.

Ter vontade e personalidade é fatal

O cerco a Pedro Sánchez iniciou-se ao nível mais elementar – o plano interno. E logo com um admirável peso de legitimidade: os franquistas do Vox e do Partido Popular, marchando em ordem unida com o poderoso aparelho patronal, rastejando todos eles no pântano da corrupção institucional, montaram uma campanha contra a suposta corrupção do governo de Sánchez. Apesar de uma boa parte da comunicação social ser muito dócil quando se trata das ordens dos sectores passadistas, a campanha ainda não atingiu os objectivos; mas não morreu, apenas parece patinar.

A seguir somaram-se à campanha de descrédito contra o governo as posições patrióticas assumidas por Sánchez perante as ordens da NATO e de Trump para aumentar os gastos militares de cada aliado até 5% do PIB. O não de Sánchez foi rotundo desde logo – colocando-o na mira de Trump, que o adoptou como inimigo de estimação.

O peso da cada vez mais forte voz do governo espanhol em defesa da Palestina e dos palestinianos reforça o desespero dos aliados da NATO e da União Europeia. Sánchez foi o único chefe de governo destas alianças a passar das palavras aos actos, dando o exemplo de medidas que podem, de facto, embaraçar o totalitarismo sionista. Além disso, a firmeza do governo espanhol ultrapassou as fronteiras do país, encorajou populações de nações europeias e dos Estados Unidos a não temerem colocar-se ao lado dos palestinianos e ostentarem simbologia e bandeiras que fizeram crescer a visibilidade da questão palestiniana no mundo.

Para infelicidade de muitos, sobretudo os que tudo fizeram, a começar por Trump, para que a indomável Espanha não vencesse o campeonato do mundo de futebol, o tiro saiu-lhes pela culatra. Apesar das manobras de viciação da competição, uma executadas, outras preparadas, a verdade desportiva acabou por prevalecer dentro das quatro linhas.

O exemplo espanhol alastrou e observaram-se acções de solidariedade com a Palestina em quase todos os jogos da competição. As selecções do Egipto e do Irão tomaram também como suas as bandeiras palestinianas e por essa razão, ninguém duvide disso, foram vítimas de miseráveis e fatais erros de arbitragem.

A campanha de matriz espanhola, contudo, deu grande alento à causa palestiniana. A imagem do genial jovem jogador Lamine Yamal exibindo uma enorme bandeira da Palestina nos festejos da vitória espanhola, e solidarizando-se com o seu povo em muitas entrevistas, deixou uma marca que não irá apagar-se e, certamente, frutificará.

Não restam dúvidas, portanto, de que o ataque a Espanha conduzido por Marrocos e os seus protectores visíveis e invisíveis, sacrificando dezenas de milhares de pobres e marginalizados do Norte de África numa enorme vaga de desestabilização, é uma operação de grau superior contra o governo de Sánchez. Não é por acaso que surgiram dos quadrantes fascistas as primeiras sugestões para que a Espanha seja suspensa do Acordo de Schengen, por não saber lidar com os problemas da imigração. A inimitável Meloni, o reaccionaríssimo governo finlandês, os dirigentes xenófobos da Suécia e da Dinamarca e o imprescindível Ventura cavalgam na crista da onda para que o governo espanhol seja castigado.

Marrocos, por seu lado, ficou ainda com as costas mais quentes depois de Donald Trump, como dono do mundo, ter garantido a construção de uma auto-estrada de 120 quilómetros ligando o território marroquino ao território ocupado da República Saarauí Democrática, como via para a anexação da antiga colónia espanhola do Saara Ocidental. 

Circunstância que representa também um ataque directo contra os direitos internacionais espanhóis. Isto é, os Estados Unidos, a União Europeia e Marrocos, que durante décadas prorrogaram a organização de um referendo tutelado pela ONU para que o povo saarauí pudesse decidir o seu futuro, aceitam agora que uma autoestrada resolva o problema e Marrocos possa finalmente engolir o Saara Ocidental. Para gáudio do Ocidente e de Israel, de modo a que assim se cumpram, à sua maneira, os direitos humanos e o direito internacional.

Um resort de luxo em Gaza e uma auto-estrada turística, que também possibilitará a rapina de outras importantes riquezas do Saara Ocidental, consumarão as limpezas étnicas na Palestina e neste país do Norte de África. Assim sendo, engordarão ainda mais os bolsos de quem de direito e, no fim da linha, instalará paraísos turísticos sobre os restos mortais de milhões de seres humanos supliciados. Desta maneira humanista, o Ocidente tenta dar-nos a ilusão de que implantou as bandeiras da paz e da civilização em territórios há muito amaldiçoados por impuros, bárbaros, hereges. Mais uma cruzada bem sucedida.

No entanto, do fundo das catacumbas de conspiração onde se cozinham as receitas dos novos e falsos pacifismos emergiu a Espanha, com o seu quê de inesperado, sabendo nós como o totalitarismo é absorvente e alérgico aos desvios de linha. Apesar do cerco e de tantas manobras multifacetadas, o governo de Pedro Sánchez renova-se em coragem e não se deixa abalar pelas ameaças.

O ataque a Ceuta é grave, e uma aposta forte dos inimigos da Espanha. Aqueles que o conduzem não têm qualquer respeito pelos seres humanos que sacrificam, quanto mais não seja porque os fins justificam os meios. E montaram a operação, como é próprio de mentes perversas e doentes, de maneira a coincidir com a tragédia dos pavorosos incêndios que assolam o território espanhol e mobilizam a maior parte dos seus efectivos de segurança e protecção civil.

Entretanto, muitas das vítimas da gigantesca arruaça reconheceram o engodo, o logro, e estão a regressar a Marrocos, evitando, in extremis, a armadilha que lhes foi montada por quem não os considera gente.

Os cidadãos dos países da União Europeia e da NATO têm muito a agradecer a Espanha e devem pôr os olhos no seu exemplo. Afinal, e ainda que não seja fácil, é possível pôr em xeque o totalitarismo do chamado «mundo ocidental» e desmascarar essa fraude ardilosa conhecida como «democracia liberal».

Fonte aqui

Os andrajosos e a segurança da Europa

(Por José Goulão, in SCF, 29/08/2025, Revisão da Estátua)


O facto de os invasores virem depauperados nada tinha de tranquilizador em matéria de segurança europeia.


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Ventura mandou celebrar um Te Deum, Montenegro virou-se para o Tribunal Constitucional e desafiou, batendo com um punho na palma da outra mão, “bem feita, bem feita, para não estarem com esquisitices”. Rangel enviou um mail para Netanyahu garantindo que sabemos muito bem honrar os seus exemplos, Costa remeteu um emoji com aplausos e até Van der Leyen telefonou ao chefe do governo insuflando-lhe coragem para continuar a combater uma descabelada Constituição da República.

Para sossego de todos nós, alegremo-nos por isso, a peste dos agonizantes arribados em jangada desconjuntada às rentáveis areias dos Algarves vai voltar para donde veio e de onde nunca deveria ter saído. A nossa raça privilegiada não aceita mais ser conspurcada e não tem culpa de que os náufragos famintos, fiados nos mitos da nossa hospitalidade tradicional e do reconhecido humanismo dos nossos egrégios avós, tenham nascido na hora e no lugar errados e, ainda por cima, com uma cor de pele demasiado tisnada.

Se fossem como nós, com a vantagem suplementar de terem cabelos aloirados e olhos azuis e tivessem chegado em automóveis topo de gama de terras da Galícia e da Volínia agregadas à Ucrânia, então tudo bem, haveria sempre lugar para mais um, para muitos mais.

Mas atreverem-se a vir do Norte de África em redescobertos tempos de purificação da raça é uma rematada inconsciência, uma desafiadora provocação.

As autoridades e os juízes de serviço olharam para as leis com os olhos assépticos e tecnocráticos que lhes competiam e fizeram o que tinham a fazer: mandá-los embora.

As entidades de socorro armaram umas tendas e, para isso, até tiveram a boa vontade de cancelar uns quantos eventos desportivos; deram sopinha e umas sandes reforçadas aos intrusos, reservaram umas camas de hospital aos mais débeis até que conseguissem pôr-se de pé e agora ala que se faz tarde. Cumprimos a nossa missão evangélica e, a partir daí, que vão morrer para outro lado porque isso é assunto que já nos diz respeito.

É verdade que essas três dezenas de potenciais terroristas e criminosos eram oriundos de um país muito nosso amigo e que representa a “nossa civilização” no Norte de África, sob o comando firme e democrático do rei Mohammed VI. Marrocos é como se fosse um nosso irmão na União Europeia, é pena que se tenha desenvolvido num continente de incivilizados e bárbaros, mas tivemos o cuidado de fazer acordos especiais com ele para que se sinta quase como um de nós.

Tem as suas bolsas de pobreza, é certo. Há muitos marroquinos como os portugueses, sem outro remédio que não seja o de procurarem sobreviver, com a dignidade possível, noutros países. É muito provável que naquela terra até haja barracas, mas isso é porque os seus responsáveis ainda não receberam formação em Loures e outros criativos municípios portugueses sobre os métodos para acabar com elas.

Marrocos, aliás, tem ainda a seu favor o facto se ser uma espécie de Israel aqui bem mais perto, merecendo assim as correspondentes atenções dos governos da União Europeia por tratarem o povo do Sahara Ocidental tal como o nosso aliado Netanyahu cuida dos palestinianos. Neste caso, porém, há ainda mais vantagens para o nosso lado: como paladino da democracia que é, o rei Abdallah VI pode gerir como quer as riquezas do Sahara Ocidental que não lhe pertencem, sobretudo os generosos recursos de pesca. E fá-lo até de maneira altruísta, permitindo aos irmãos da UE, entre eles nós, como seus dilectos vizinhos, partilhar à vontade dos grandes banquetes de rapina em águas territoriais do Sahara Ocidental, sob os olhos tornados democraticamente impotentes dos seus legítimos proprietários.

O rei Mohammed VI é um amigão, mas amigos, amigos, negócios à parte e não pode distrair-se com os indigentes que vivem contrariados no seu país e querem incomodar a segurança de outros com manobras clandestinas e a salto.

Os cuidados securitários

Sim, não se trata de exagero. Aquelas três dezenas de farrapos humanos que se arriscaram, atraídos pela miragem de uma vida melhor, nas águas do Atlântico e sob o abrasador sol estival, são uma ameaça à segurança da Europa. Assim o dizem os nossos governantes e não há que duvidar deles. Em verdade vos digo que este turismo da fome é muitas vezes pior que o turismo de pé descalço.

Como se não bastassem as ânsias expansionistas dos bárbaros russos, ainda temos de enfrentar a terrível ameaça dos esfomeados do Norte de África, invejosos do brilho das nossas vidas e, quiçá, industriados para sujar a pureza do nosso sangue lusitano.

O governo e os seus aliados do “não é não” querem acabar com essas ameaças e pôr fim à permissividade do convívio com os povos inferiores, mais uma mania das que ainda restam da catástrofe de 25 de Abril de 1974. Como muito bem diz o nosso bom amigo Netanyahu, a propósito do “muro de separação” que cuida da pureza sionista, “nós cá e eles lá”. É assim que deve ser, é assim que irá ser pelas mãos de Montenegro, Ventura e adjacências mais ou menos “liberais”. Racismo? Xenofobia? Segregacionismo? Isso são rótulos anacrónicos, incompatíveis com os novos tempos que estão no horizonte, tempos de redenção instaurados, assim se deseja, sob o estalar de periscópios e bengalins de almirantes e generais, há demasiado tempo afastados da condução da grei.

Bem basta a mistura que já vai por cá e que tanto tempo custará a corrigir. Devolver estas três dezenas de esfomeados ameaçadores à procedência é um exemplo dissuasor que ficará como advertência para outros eventuais atrevidos, e um sinal indelével de que agora a música é outra. Vinha uma criança de um ano entre os potenciais criminosos? Não interessa. O primeiro-ministro e também o presidente de Israel, Netanyahu e Herzog, nossos gurus, já tiveram o cuidado de prevenir, a propósito de Gaza, que essa gente, os bárbaros, já nascem terroristas. Nada de maciezas, corações moles ou contemplações. Naquele caso, a sua liquidação é indispensável para combater o Hamas. Aqui, há que cortar o mal pela raiz para que não tenhamos de sofrer reincidências.

Além disso, fizeram muito bem as nossas diligentes autoridades em investigar a pente fino caixão de madeira ou “o barco” – houve quem lhe chamasse isso – em que chegaram os invasores. Nunca se sabe quais são as manhas e artimanhas dos traficantes de droga, capazes até de se disfarçar de esfomeados para fazerem negócio. Ao largo da praia ao lado, entretanto, poderá ter ancorado um luxuoso iate transportando mais umas dezenas de quilos de coca, mas quem iria desconfiar de tão aperaltada encadernação?

Por cá, de vez em quando citam-se estudos de autoridades policiais e de investigadores nas áreas sociais e sociológicas segundo os quais a percentagem de imigrantes envolvidos na criminalidade é ínfima. Além disso, as comunidades de imigrantes integradas no tecido português contribuem com o seu trabalho e assinalável generosidade para a sobrevivência do sistema de Segurança Social. Comunidades essas que, em tantos casos, estão disponíveis para realizar trabalhos reles para os quais as elites portuguesas já não se se sentem vocacionadas. Há quem diga até que, no caso de haver uma expulsão em massa de imigrantes, a economia do país e a qualidade de vida dos portugueses cairiam a pique.

Isso não passa, garantem as nossas autoridades, de manipulações mal intencionadas por parte de quem se recusa a aceitar a mudança e, em última análise, é cúmplice de todo um processo de adulteração da pureza rácica original dos portugueses, destruindo grande parte da genuinidade lusitana que o salazarismo tão bem cultivara.

Está bem de ver que a expulsão dos refugiados (imigrantes seriam se cá ficassem) que chegaram de Marrocos não é mais do que a aplicação dos conselhos do clarividente Josep Borrel, quando era “ministro” dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, e que recomendava a defesa e a segurança deste nosso “jardim de civilização” cercado de bárbaros por todos os lados. O facto de os invasores virem depauperados nada tinha de tranquilizador em matéria de segurança europeia, porque não tardariam a ficar em pleno modo de ameaça a partir do momento em que lhes fossem concedidas cama, mesa e roupa lavada, como sempre tem acontecido até agora. Nada de ilusões.

Em suma, são muito bem expulsos, nem que seja para morrer, circunstância que, além disso, iria aliviar a pressão demográfica sobre este nossos superpovoado planeta, a necessitar da aplicação dos visionários programas de eugenia pelos quais, como bons seguidores do génio Kissinger, alguns frequentadores do Fórum de Davos são responsáveis.

Outros se seguirão, se deixarmos Ventura e Montenegro continuar com as mãos na massa dos assuntos governamentais. Tudo farão para garantir, à sua maneira, a segurança da Europa segundo o modelo de Van der Leyen, Macron, Kallas, Merz, Costa, Meloni, Tusk, Orban e outros sociopatas, sob a tutela do sempre fiável e lúcido Donald Trump, alumiados pelo farol da democracia que é a NATO.

Trinta e poucos esfomeados vindos de Marrocos tiveram a ousadia de desafiar as regras desta ordem estabelecida e vão receber um tratamento exemplar. A grande Europa unida e pura ultrapassou, com galhardia, mais esta cobarde provação.

Fonte aqui.

Somos contra imigrantes e pode-se bater nas mulheres

(Ana Sá Lopes, in newsletter do Público, 03/07/2025)


Cara leitora, caro leitor:

Não queremos cá imigrantes e não nos incomoda grande coisa que um homem, mesmo ocupando elevados cargos públicos, bata na mulher. É uma definição triste, mas é isto que somos, em Julho de 2025. Todos aqueles que atacam a imigração em nome de um suposto feminismo – em Portugal as mulheres são muito bem tratadas e a violência doméstica é condenada judicial e socialmente de forma exemplar – bem podem limpar as mãos à parede.

Dois casos (e meio):

1. O Governo avançou com as mudanças à lei da nacionalidade, mostrando que consegue ir não “além da troika”, como no passado, mas além do Chega, se preciso for. Claro que o Chega nunca ficará satisfeito com as mais desumanas leis inventadas por Montenegro. A radicalização anti-imigrante, com as consequências sociais que daí advêm, vai agravar-se.

A resposta do ministro Leitão Amaro à pretensão do PS de que as propostas e projectos lei sobre nacionalidade baixassem à comissão sem votação (uma forma de remeter uma discussão mais profunda para a sede de comissão parlamentar respectiva) é de antologia.

O Chega não precisa de estar no Governo para estar no Governo: a adopção das políticas da direita populista radical nesta matéria por Montenegro e companhia mostram ou uma enorme ingenuidade – acha que é assim que mata o Chega – ou uma vontade de humilhar o PS que, na situação difícil em que se encontra, estava disponível para fazer vários acordos com o Governo.

As duas ideias (copiar o Chega achando que lhe rouba os votos e humilhar o PS, que está na mó de baixo) devem ter sido metidas na varinha mágica e saiu uma mistura digna de quem se esqueceu da velha social-democracia do PSD, que ainda tem aqui e ali uns defensores, embora agora já não tenha a ex-deputada Rubina Berardo, que se fartou das políticas de direita populista.

Então o que disse Leitão Amaro, seguindo o guião anti-imigrante da direita populista? A votação de sexta “vai testar cada partido e demonstrar onde está”. “Querem preservar o que ainda sobra de uma época de facilitação ou contribuir para uma mudança de política que vem a ser feita desde o ano passado?”, perguntou, provando que o interlocutor preferido não será o PS.

Resta dizer que o velho Montenegro, como aqui explica o Filipe Santa-Bárbara, defendia o reagrupamento familiar como uma forma de integração de imigrantes. O novo Montenegro já não. O Chega, no fundo, é que ganhou as eleições.

Gouveia e Melo, que andou a esforçar-se para mostrar o seu centrismo, também deu a sua contribuição para o discurso anti-imigrantes esta semana: “Claro que precisamos de gente por causa da nossa demografia. Mas não é qualquer gente. Devemos de alguma forma conseguir controlar os fluxos para defender também os interesses portugueses”. Não precisando Portugal de “qualquer gente”, segundo o candidato presidencial, era bom que ele fizesse a lista daqueles que não quer. Alemães? Louros de olhos azuis? Milionários com direitos a vistos gold? Era sumamente interessante.

O discurso contra o imigrante é hoje dominante no mainstream social e está associado não a políticas públicas – quem paga as reformas dos portugueses? – mas a um ódio visceral em grande parte racista, a roçar o slogan “A Europa será branca ou não será”. Sabem o que vai acontecer? Não será.

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2. O Governo marcou esta quinta-feira as eleições autárquicas para 12 de Outubro. Esta sexta-feira, o presidente da Câmara de Vizela, cujo processo de violência doméstica foi agora reaberto pelo Ministério Público – depois de um arquivamento surreal, tendo em conta as provas apuradas no hospital –, vai reapresentar a sua recandidatura, desta vez como independente. José Luís Carneiro seguiu o procedimento de Pedro Nuno Santos e manteve a retirada do apoio do PS à recandidatura.

Mas sabem o que fizeram os socialistas vizelenses? Vão todos apoiar Victor Hugo Salgado. Em massa. Estão nas listas. Aparentemente, negociaram com a direcção não virem a ser expulsos. São todos “Victor Hugo Salgado”, como dizem. A mulher do presidente da câmara ficou com o nariz partido? Não interessa. O PS vizelense não quer saber o que se passa na casa de cada um.

Quando lermos um acórdão de um juiz a desculpabilizar a violência doméstica – e têm sido vários – lembremo-nos do caso de Vizela. A justiça reflecte sempre a sociedade e a sociedade não se importa absolutamente nada com a violência doméstica. Estamos no tal país que não quer imigrantes porque respeita imenso as mulheres, não é?

P.S. Nas minhas férias, li que Pedro Adão e Silva apresentou um livro de um condenado num caso de violência doméstica, Manuel Maria Carrilho, na Feira do Livro de Lisboa. Além de condenado por violência doméstica, Carrilho foi condenado em vários processos de difamação contra a ex-mulher e a família da ex-mulher, quando foi para os jornais acusá-los de coisas de que me abstenho por manifesto pudor de reproduzir.

Espero agora que Pedro Adão e Silva apresente o próximo livro de José Sócrates – pelo menos esse ainda não foi condenado. Isto é o nosso país, a alegada elite e a alegada não elite. Acho que Alexandre O’Neill foi o melhor trovador da coisa: “País engravatado todo o ano/e a assoar-se na gravata por engano”.

Até para a semana.

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