A melhor anedota do ano

(Por Estátua de Sal, 26/11/2018)

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2018 é o ano de todos os fenómenos na política portuguesa. Impera uma espécie fábula bizarra onde a realidade nada tem a ver com a avaliação da realidade, uma certa ladainha entoada à direita do espectro político que poderemos genericamente designar por “sim, mas o Governo é mau”.

O desemprego cai como nunca caiu, mas o Governo é mau porque não apoia as empresas. As contas públicas estão certas, mas o Governo é mau porque as contas estão demasiado certas. O país cresce acima da média da União Europeia, mas o Governo é mau porque há países que crescem mais que nós. O salário mínimo tem subido, e vai continuar a subir em 2019, mas o Governo é mau porque o salário mínimo noutros países europeus é bem mais alto. O IRS tem baixado de forma consistente para as famílias da classe média que pagam impostos, mas o Governo é mau porque não desceu o IRC para as empresas. Passaram a ser financiados os manuais escolares para os alunos do ensino público até ao 12º ano, mas o Governo é mau porque não financia os alunos do ensino privado. Foi anunciada a abertura de concursos para a construção de mais cinco novos hospitais, mas o Governo é mau porque há outros hospitais a precisar de obras.

Esta é a lengalenga da direita e dos seus comentadores no que toca à discussão da situação económica. Mas, o mais engraçado, é a argumentação de algumas eminentes vozes da direita que tem um pouco mais de vergonha na cara e por isso não alinham na crítica fácil aos bons números da economia que tem vindo a ser revelados. Dizem eles:

– Bem, os números, HOJE são bons e positivos, mas o Governo é mau, porque podem vir a ser maus AMANHÃ se vier uma crise… bla… bla… bla!

Esta argumentação é ridícula mas reiterada. Que interessa aos cidadãos que daqui a cinco ou dez anos o país esteja numa grande crise se as suas condições de vida, HOJE, não permitirem que lá cheguem com dignidade? Enfim, adiante. Como dizia Keynes, a longo prazo estaremos todos mortos.

Depois, há também uma outra lengalenga de serviço. É a ladaínha “o Estado falhou, demita-se o Ministro”. 

Vieram os fogos, fugiram as armas, veio a tempestade, há mortos todos os dias, roubos, assassinatos, assaltos a bancos, carteiristas à solta, atropelamentos, e agora caiu a estrada: a culpa é do Governo. o  Estado falhou, demita-se o Ministro. 

Na proliferação deste discurso o CDS tem-se destacado de todas as restantes forças políticas. A Dra. Cristas, quando arenga, concluí sempre lapidarmente que o Governo é mau, o Estado falhou, demita-se o Ministro. 

Assim sendo, estaremos nós, portugueses, condenados a fenecer na apagada e vil tristeza de que falava Camões, sem rumo e sem esperança de futuro, tão mal governados que estamos a ser por essa diabólica Geringonça?

Nada disso, caros concidadãos. Ficámos agora a saber que, num gesto largo e moscovita – agora invoco Pessoa porque só os poetas nos podem salvar… -, a Dra. Cristas se dispõe a governar-nos a todos, estando mesmo convicta de que “o CDS é a única alternativa governativa” (ver aqui). Extraordinário!

Se tudo isto não fosse um assunto sério, que tem a ver com a vida de todos nós, eu classificaria esta tirada como a melhor anedota do ano.

Eu já nem vou invocar os números das sondagens onde o CDS – na última conhecida, há uma semana -, não tem mais que 7,7% das intenções de voto, enquanto o PS – o tal do mau Governo -, se aproxima da maioria absoluta.

Ó Dra. Cristas, é certo que o sonho comanda a vida – mais um poeta chamado a capítulo. Mas quando o sonho é desmesurado deixa de ser sonho e passa a ser alucinação e desplante, e há mesmo muito boa gente que é internada por alucinar em demasia.

Sondagens à parte, acredite ó Dona Cristas, e veja se se enxerga. A maioria dos portugueses não vai votar em alguém que fez parte de um Governo que pôs o país a ferro e fogo, os pobres à míngua, as famílias às sopas, os jovens em fuga, enquanto que uma minoria vendia o país em saldos e decretava que o nosso destino como Nação era empobrecer.

Sim, ó Dona Cristas, por muito que entoe as suas ladaínhas da desgraça, por muito que faça os seus exorcismos às esquerdas encostadas, o seu discurso não tem aderência à realidade, não tem futuro, pelo que já ninguém a leva a sério. Por muito que lhe custe, o futuro a curto prazo do país vai passar pelas esquerdas. Mais encostadas ou menos encostadas, elas saberão construir uma nova solução governativa.

Eu, se fosse a si, batia com a porta, ia-me embora, e dedicava-me a outras artes. Reveja-se no exemplo do Dr. Portas, seu paizinho  espiritual. É que, o homem até pode ter recebido vantagem indevida no negócio dos submarinos mas, até por isso -, não é burro de todo e já se foi embora  há muito tempo.

As remodelações

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 21/10/2018)

JPP

Pacheco Pereira

As remodelações são normais nos governos. Podem ser julgadas do ponto de vista formal e substancial. Do ponto de vista formal esta foi bem feita, sem fugas, rápida, e com amplitude suficiente para ser uma verdadeira remodelação. Do ponto de vista substancial, tem de se esperar para ver e não ir atrás dos julgamentos jornalísticos que são feitos muitas vezes por amizade ou inimizade, por conhecimento ou desconhecimento, sobre as pessoas e não sobre a sua capacidade como ministros nas suas pastas, coisa que só o tempo permite compreender.

Já vi pessoas apresentadas como ministros excelentes cometerem as maiores asneiras, e outros por quem ninguém dava nada serem capazes de ser bons ministros. Há no entanto um problema que é real desde o primeiro minuto que é saber se há incompatibilidades para o exercício de um determinado cargo e isso diz respeito ao ministro Pedro Siza Vieira.

Tancos
Continuo sem perceber nada, mas deve ser falha minha. Mas suspeito que há algo muito grave que continua escondido, ou, em alternativa, tudo é feito com uma completa irresponsabilidade e à “balda”. Seja como for há algo podre nos meios da “defesa” e isso é perigoso.

Uma boa descoberta… 
…a de António Borges Coelho para o nome do museu que cobre a história portuguesa nos séculos XV e XVI e que tanta discussão terminológica tem dado: “Museu da Expansão Portuguesa.” Quem sabe, sabe.

Absurdos orçamentais 
40 milhões para a CP, ou seja, nada.

Absurdos orçamentais (2)
O IVA dos toureiros a 6% como se fosse um espectáculo cultural. Bem sei que antes não pagavam nada, mas a protecção às touradas, esse espectáculo em que, como dizem os aficionados, se “ama o touro” espetando-lhe facas e matando-o para gáudio da nobreza cavalar e do povo, é um absurdo.

As tempestades 
Eu vivo numa zona do País que corria o risco de ser atingida duramente pela tempestade Leslie. Felizmente isso não aconteceu, mas infelizmente atingiu outro sítio. Acresce que é num sítio alto, tem um miradouro em baixo, e muitas janelas dão para o sentido do mar e do vento. É por isso um sobressalto passar aquelas horas e noite, mas dá para perceber, mesmo com ventos mitigados, o que pode fazer a natureza e como se é indefeso face a ela. A não ser que se viva num bunker e mesmo assim…

Fantasmas 
Uma antiga “primeira filha” da família Bush diz que a Casa Branca está “assombrada”, salientando logo a seguir que “não é por Trump”. Pobre “primeira filha”, esqueceu-se que na América há uma poderosa indústria de ghostbusters privados que vão “limpar” casas assombradas, e equivocou-se no convocador dos demónios. De facto, se for lá a equipa de “limpeza” vai engolir o ectoplasma trumpiano, enchendo um gigantesco saco, junto com os fantasmas mais antigos. Era uma boa ideia para os democratas começarem a abrir algumas empresas de caça-fantasmas, mas com cuidado para eles não apanharem alguns que eles também têm.

A Arábia Saudita… 
.…é um dos regimes mais violentos e cruéis do mundo. Patrocina o terrorismo, mantém todo o sistema de punições cruéis da sharia, as mulheres são oprimidas, dizer que viola os direitos humanos é um eufemismo do tamanho do Evereste, é uma ditadura familiar de centenas de príncipes multimilionários. A Arábia Saudita ensina-nos a não esquecer que a cultura e a educação nunca impediram a crueldade: muitos desses príncipes são educados nas melhores escolas do mundo, falam inglês com a mesma fluência do árabe ou talvez mais. Mas estão sentados em cima de muito petróleo, mesmo muito. E, por isso mesmo, todos os Presidentes americanos fazem gala das suas boas relações com a família real saudita, incluindo Obama. E agora Trump. Vão fechar os olhos a tudo.

Bolsonaro vai ganhar 
Tudo indica. Mas se o mal vem dantes, o pior vem depois. O Brasil vai conhecer uns anos de ferro e fogo, mas parece que a Bolsa vai bem e deseja a vitória do homem. Aliás nestes processos sabe-se como se entra, mas não se sabe como se sai. Por vias muito travessas, aqui o Lenine tinha razão.

As igrejas evangélicas… 
…são hoje um dos braços armados das religiões mais activos e com mais sucesso. Falamos muito do islamismo radical, mas nos EUA e no Brasil, guardadas as proporções, as igrejas evangélicas dão ao conservadorismo mais radical e à extrema-direita, de Trump e Bolsonaro, uma plataforma popular que penetra nas populações mais pobres a partir dos bispos mais ricos e dos ainda mais ricos televangelistas.

A GERINGONÇA DO RIO

(In Blog O Jumento, 26/02/2018)

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Rui Rio decidiu brincar aos governos e empossar-se como primeiro-ministro de faz de conta para se entreter até às próximas legislativas, vai dar posse ao seu governo sombra. Já só falta perceber se os encontros semanais que parece ter com o Presidente são já na categoria de primeiro-ministro ensombrado ou ainda na qualidade de líder da oposição desastrado. Em relação ao local da posse e para evitar conflitos institucionais não deverá ser em Belém, tendo em conta a decisão de descentralizar a sede do PSD, é bem possível que o Marcado do Bulhão seja temporariamente arvorado em Belém do Norte.

Uma coisa é certa, Rui Rio parece estar a imitar António Costa e decidiu ter a sua própria Geringonça, já que depois do chumbo do Negrão como líder parlamentar, é óbvio que o governo-sombra nem vai ter maioria parlamentar dentro do grupo de deputados do PSD. Digamos que se no tempo de Passos Coelho tínhamos um devoto do diabo, agora as coisas evoluíram e com Rui Rio temos um líder do PSD ensombrado.

É caso para dizer que a escolha do líder parlamentar foi feita com base no nome, agora está tudo no escuro e o líder parlamentar que apoia um governo sombra só podia ser um Negrão.

Já que vamos brincar aos parlamentos e às geringonças Rui Rio poderia ensaiar uma velha proposta que fez em tempos, substituindo os deputados que votaram em branco no Negrão por cadeiras vazias, ficando sentados apenas o que votaram no nulo do Negrão. Até poderia aplicar as suas velhas ideias sobre votos nulos e no lugar dos deputados que votaram nulo poderia colocar cadeiras partidas, distinguindo-as desta forma das cadeiras dos brancos.

Passaríamos a ter um parlamento sombra onde a geringonça do Rio seria apoiada pelos deputados negrões, uma minoria ensombrada por tantos ministros na oposição que até parece que o verdadeiro governo sombra não vai ser o por si empossado, mas pelos ex-ministros de Passos Coelho que estão no parlamento para ajeitar o ordenado ou até arranjarem melhor emprego.

Resta agora saber com quem se aliaria Rui Rio para viabilizar a sua própria geringonça. Para já parece estar a perder em relação a António Costa, o primeiro-ministro sentado no setor do sol desta tourada política conseguiu o que todos pensavam impossível, trazer o PCP para uma aliança de apoio parlamentar a um governo. Em contrapartida, Rui Rio saiu de um congresso com o partido unido e duas semanas depois não conseguiu unir sequer metade do seu próprio parlamento sombra. Aliás, Rui Rio uniu o partido juntando os seus aos do Santana que afinal não passavam de sobras de apoiantes de Passos.


Fonte aqui