Porque respeitamos o luto de Vera Ellen e não o da brasileira de Pedrógão

(Jorge Rocha, in Blog Ventos Semeados, 18/12/2017)

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Às vezes podemo-nos questionar se este país tem algum conserto, sobretudo se nos ativermos ao que a comunicação social vai emitindo. Distanciarmo-nos dela por umas horas acaba por ser atitude judiciosa para a sanidade dos neurónios e sobrepõe-se como prioridade mobilizá-los para outros estímulos, que não os de uma Cristas a reivindicar para o desgoverno em que participou parte substancial do mérito da saída da notação de lixo pelas agências de rating,  ou a mal educada brasileira de Pedrógão a demonstrar, para quem dúvidas tivesse, que o seu propósito nada tem a ver com a tragédia, mas com a sua evidente ambição política.

Em dias assim a alternativa pode ser «Natal Branco», o musical de Michael Curtiz de 1954, que o meu amigo Henrique Nabais programou para uma sessão dominical na Associação Gandaia da Costa da Caparica e nos permitiu rever um universo de valores solidários cada vez mais ausente dos tempos atuais.  E então se olharmos para as nossas direitas, só as movem padrões opostos explicitados no permanente esforço de colorirem a realidade com a cinzentude medíocre das respetivas deformidades morais.

No filme temos protagonistas empenhados em convocar o melhor de si e dos que conseguem motivar para salvaguardarem o futuro de quem o parece não ter. Quem é que nas direitas de hoje pode reivindicar esse intento? Marcelo Rebelo de Sousa? Deixem-me rir: por muito que os seus defensores teimem em não querer ver, ele continua a ser quem sempre foi e a idade acrescentou-lhe defeitos não lhe trazendo nenhumas qualidades complementares.

Para além da conhecidíssima canção, que ouviremos repetidamente nos próximos dias, «White Christmas» também tem a espantosa Vera Ellen, por muitos considerada como a melhor bailarina a ter alguma vez pisado os palcos da Broadway, superando em muito Ginger Rogers, Cyd Charisse e outras que tais. Ora, durante a rodagem do filme ela engravidou da única filha, que faleceria aos três meses com o síndrome da morte súbita. O que lhe aconteceu depois? Apesar da brilhante carreira, que estava a ter logo a abandonou e pouco mais se deixou ver nas telas de cinema ou nos palcos. O desgosto por tal perda tolheu-lhe a vontade para cantar e dançar como até ali.

Um luto desse tipo justifica o nosso respeito. Não o da tal brasileira, que nos vai assombrando naqueles curtos instantes em que o zapping resolve a indesejada intromissão no nosso quotidiano. Irrita ouvi-la perorar como se fosse dona da razão, algo de que muito desconfiamos.

Porque a perda do filho – que estava confiado ao pai de quem ela se separara! – não merece que nos questionemos quanto á sua responsabilidade? Teria ele falecido na estrada da morte se ela o tivesse consigo? Daí que repugnem as suas palavras sobre o primeiro-ministro, que achou desmerecedor de ser convidado para partilhar com ela, e com quem ela manipula, as filhoses e as fatias douradas da festa de Natal.

Alguém duvida que ela não sabe quem anda a mobilizar fundos para a reconstrução das casas e das vidas de quem sobreviveu? Terá ouvido o bombeiro, que agora regressou a casa após longa hospitalização, a dizer quanto teria sido impossível vencer o monstro de fogo, que se abateu naquele dia sobre aquela região? E haverá quem não desconfie da intenção de atiçar confrontos institucionais entre Belém e São Bento?

Marcelo denuncia neste, e em muitos outros casos, a sua ambiguidade ética, e isto para lhe ser simpático na qualificação. Porque acaso não fosse viperino o sorriso aberto com que posa para as selfies dos estarolas, aceitaria ser figurante principal de uma farsa, que pretende empolá-lo para melhor denegrir António Costa? Também ele sabe que nem uma única casa de Pedrógão é reconstruída por sua implicação direta nas decisões, que cabem apenas ao executivo. No entanto ele é aquele que surge neste filme como o pretenso progenitor de filhos que não são seus…


Fonte aqui

Jaime Marta Soares, chefe da big corporação dos Bombeiros, PSD e amigo do Bruno de Carvalho é a nova Ana Rita Cavaco da política portuguesa?

 

(In Blog Um Jeito Manso, 30/10/2017)

Ao virmos no carro, ouvimos aquele senhor a quem chamam dinossauro e que se entrega à defesa dos interesses dos Bombeiros (e digo-o agora em sentido literal e não pejorativo), Marta Soares de seu nome, a ameaçar fazer guerra ao Governo….

Continuar a ler aqui: Um jeito manso: Jaime Marta Soares, chefe da big corporação dos Bombeiros, PSD e amigo do Bruno de Carvalho é a nova Ana Rita Cavaco da política portuguesa? [E, já agora, uma palavrinha a Marcelo para ver se pára de se portar como o líder dos descamisados pois não é de uma Evita que precisamos nos dias de hoje]

Que nunca pareça um desejo

(Isabel Moreira, in Expresso Diário, 21/10/2017)

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Após a tragédia de Pedrógão, foi por consenso que se nomeou a comissão técnica independente (CTI) que elaborou um extenso relatório cujas conclusões devem ser transformadas num dever. A mesma unanimidade que esteve na base da criação da CTI seria esperada com especial intensidade no agora que conta a perda de mais de cem pessoas em pleno século XXI.

Hoje sabemos que somos um país propenso a incêndios, que estes nunca serão de número zero, mas sabemos das causas estruturais e conjunturais do que tem de ser evitável, do que não pode voltar a repetir-se.

A revolta, a dor e a angústia de quem perdeu tudo são direitos naturais e esperou-se – não podia ser de outra forma – por um discurso político integrador da dor imensa de tantos, empático, catalisador do drama, apostado num compromisso maior do que a devastação.

Quando morrem mais de cem pessoas, o Estado falha. Falhou. Todo o Estado. Falhou o compromisso constitucional de assegurar a vida e a segurança dos homens, mulheres e crianças que morreram ou que sobreviveram com a vida transformada para sempre. Pedir desculpa em nome do Estado não fragiliza quem o faz, antes o confirma, pelo que Marcelo fez bem em falar-nos como falou e António Costa fez bem em perceber que o seu conceito de responsabilidade (mesmo que bem-intencionado) não era agregador da tragédia. No dia 18 de outubro, no debate quinzenal, António Costa redimiu-se. E bem.

E nós?

Se o Estado falhou, se há memórias para honrar, não podemos falhar outra vez, deitando fora o consenso quanto ao relatório da CTI. É tempo de olhar para o que ali está diagnosticado, preto no branco, e passar à ação.

No que toca ao fenómeno florestal, há décadas que o conhecimento científico nacional e internacional é desprezado. Acabe-se com isso.

A desadequação entre as funções desempenhadas por cada um dos diversos agentes e as respetivas qualificações e competências é um dos graves problemas que impede a solução de muitos problemas existentes em torno dos incêndios florestais. Acabe-se com isso.

O quadro de governança das florestas é intolerável. Por exemplo, a autoridade florestal nacional mudou seis vezes de figurino institucional nos últimos vinte anos. A estabilidade é imperiosa. Esta instabilidade está detetada. Acabe-se com isso.

Se quem está no Governo tem de ser o rosto da responsabilidade moral do Estado, a Assembleia da República, os grupos parlamentares e os deputados não podem esquecer-se do seu papel no que tem de ser um desígnio nacional. Qualquer coisa de revolucionário, como dizia um amigo meu.

É por isso que honrar os mortos passa pelo discurso devido e pela ação obrigatória.

Infelizmente, temo que a politiquice, aqui e ali, matem a Política. Há quem não resista a tentar cavalgar o momento, ora apresentando moções de censura (no primeiro dia de luto nacional) sem demissão do governo realmente desejada, ora fazendo do debate parlamentar uma indignidade (Hugo Soares) que as vítimas dispensam.

Infelizmente, temo que o comportamento pornográfico de alguma comunicação social associado ao que referi seja uma forma de impedir o que tem de ser feito.

Tem de ficar claro que o Estado em sentido amplo (partidos incluídos) não se aproveita da tragédia.

Ou vai parecer que alguns a desejaram.