HÁ MAIS PORTUGAL PARA ALÉM DE PEDRÓGÃO

(In Blog O Jumento, 18/12/2017)
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Todos sabemos que as comoções trazem mais simpatias; quando alguém da alta sociedade abraça uma pobre velhinha quem fica com os louros da fotografia é o senhor, o pobre funciona como figurante, só está ali para que a comunicação mostre como o senhor é bondoso. Passados minutos o senhor continuará a pavonear-se nas televisões, dele dirão ser um grande coração, cheio de amor para dar. A pobre velhinha cuja fotografia correu mundo será ignorada, minutos depois ninguém a reconhecerá, a sua tragédia será esquecida, as suas dores ignoradas, cumpriu o seu papel de engrandecimento dos que já eram grandes.
Compreende-se que numa sociedade os likes sejam tão importantes para quem tem o poder. São ainda mais importantes para quem não só tem o poder que resulta dos votos, como quer transformar esse poder numa arma de destruição política, combinando-o com uma popularidade alcançada a qualquer custo. Compreende-se que não se queira evidenciar os sucessos, pior ainda, recorre-se ao jogo sujo de palavras manhosas para envergonhar os que tiveram sucesso, mesmo sabendo-se que graças a esse sucesso é mais fácil acorrer às vítimas das tragédias.
Alguém honesto diria que ainda bem que apesar das calamidades temos sucesso na economia, que os juros da dívida são mais baixos, que não estejamos à beira de um segundo resgate. Graças a esse sucesso o país pode libertar mais recursos para acorrer às vítimas, pode ajudar uns sem que isso sirva de justificação para tirar o escalpe a outros, sem que isso sirva de argumento para inventar mais um “desvio colossal”. Quem tanto gosta de acorrer às vítimas e cobrar isso sob a forma de popularidade nas sondagens do Expresso deveria estar grato.
Mas há mais uma dimensão que deveria levar algumas personalidades a pensar. As tragédias que assim são tratadas na comunicação social são necessariamente coletivas, mas na verdade cada tragédia é um somatório de tragédias individuais, não há mortes coletivas. Para a família de alguém que morreu num pequeno incêndio a tragédia é tão grande quanto para o familiar de uma vítima dos incêndios de Pedrógão ou dos que ocorreram em Outubro.  Isso é verdade para as vítimas dos incêndios, como o é para as vítimas dos acidentes de viação, dos acidentes no trabalho ou dos naufrágios. Em muitos deles o Estado também falhou, da mesma forma que falhou quando uma vítima de violência doméstica é assassinada apesar de ter feito sucessivas queixas na polícia.
Um país é feito de sucessos e de insucessos, de tragédias e de alegrias, de riqueza e de pobreza. Um presidente devia estar grato porque o país tem sucessos apesar dos momentos trágicos que atravessou, um presidente que quer que o país tenha mais capacidade para acorrer às vítimas dos incêndios ou para ajudar os mais pobres deveria estar grato porque esse mesmo país pode aceder a financiamento mais fácil e mais barato, por ter menos défice público podendo libertar recursos para situações imprevisíveis, para continuar a crescer apesar de tudo o que de mau aconteceu em 2017.
É lamentável que o Presidente desta República não pense assim e pareça estar mais interessado na desgraça e na instabilidade, não sei se por lhe dar gozo, por mera inveja ou porque assim se sente mais poderoso. Mas é pena, revela alguma pobreza de espírito.
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Porque respeitamos o luto de Vera Ellen e não o da brasileira de Pedrógão

(Jorge Rocha, in Blog Ventos Semeados, 18/12/2017)

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Às vezes podemo-nos questionar se este país tem algum conserto, sobretudo se nos ativermos ao que a comunicação social vai emitindo. Distanciarmo-nos dela por umas horas acaba por ser atitude judiciosa para a sanidade dos neurónios e sobrepõe-se como prioridade mobilizá-los para outros estímulos, que não os de uma Cristas a reivindicar para o desgoverno em que participou parte substancial do mérito da saída da notação de lixo pelas agências de rating,  ou a mal educada brasileira de Pedrógão a demonstrar, para quem dúvidas tivesse, que o seu propósito nada tem a ver com a tragédia, mas com a sua evidente ambição política.

Em dias assim a alternativa pode ser «Natal Branco», o musical de Michael Curtiz de 1954, que o meu amigo Henrique Nabais programou para uma sessão dominical na Associação Gandaia da Costa da Caparica e nos permitiu rever um universo de valores solidários cada vez mais ausente dos tempos atuais.  E então se olharmos para as nossas direitas, só as movem padrões opostos explicitados no permanente esforço de colorirem a realidade com a cinzentude medíocre das respetivas deformidades morais.

No filme temos protagonistas empenhados em convocar o melhor de si e dos que conseguem motivar para salvaguardarem o futuro de quem o parece não ter. Quem é que nas direitas de hoje pode reivindicar esse intento? Marcelo Rebelo de Sousa? Deixem-me rir: por muito que os seus defensores teimem em não querer ver, ele continua a ser quem sempre foi e a idade acrescentou-lhe defeitos não lhe trazendo nenhumas qualidades complementares.

Para além da conhecidíssima canção, que ouviremos repetidamente nos próximos dias, «White Christmas» também tem a espantosa Vera Ellen, por muitos considerada como a melhor bailarina a ter alguma vez pisado os palcos da Broadway, superando em muito Ginger Rogers, Cyd Charisse e outras que tais. Ora, durante a rodagem do filme ela engravidou da única filha, que faleceria aos três meses com o síndrome da morte súbita. O que lhe aconteceu depois? Apesar da brilhante carreira, que estava a ter logo a abandonou e pouco mais se deixou ver nas telas de cinema ou nos palcos. O desgosto por tal perda tolheu-lhe a vontade para cantar e dançar como até ali.

Um luto desse tipo justifica o nosso respeito. Não o da tal brasileira, que nos vai assombrando naqueles curtos instantes em que o zapping resolve a indesejada intromissão no nosso quotidiano. Irrita ouvi-la perorar como se fosse dona da razão, algo de que muito desconfiamos.

Porque a perda do filho – que estava confiado ao pai de quem ela se separara! – não merece que nos questionemos quanto á sua responsabilidade? Teria ele falecido na estrada da morte se ela o tivesse consigo? Daí que repugnem as suas palavras sobre o primeiro-ministro, que achou desmerecedor de ser convidado para partilhar com ela, e com quem ela manipula, as filhoses e as fatias douradas da festa de Natal.

Alguém duvida que ela não sabe quem anda a mobilizar fundos para a reconstrução das casas e das vidas de quem sobreviveu? Terá ouvido o bombeiro, que agora regressou a casa após longa hospitalização, a dizer quanto teria sido impossível vencer o monstro de fogo, que se abateu naquele dia sobre aquela região? E haverá quem não desconfie da intenção de atiçar confrontos institucionais entre Belém e São Bento?

Marcelo denuncia neste, e em muitos outros casos, a sua ambiguidade ética, e isto para lhe ser simpático na qualificação. Porque acaso não fosse viperino o sorriso aberto com que posa para as selfies dos estarolas, aceitaria ser figurante principal de uma farsa, que pretende empolá-lo para melhor denegrir António Costa? Também ele sabe que nem uma única casa de Pedrógão é reconstruída por sua implicação direta nas decisões, que cabem apenas ao executivo. No entanto ele é aquele que surge neste filme como o pretenso progenitor de filhos que não são seus…


Fonte aqui

Pedrógão Grande espera

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 08/09/2017)

 

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Já me pus a pensar e, se calhar, metade da massa de Pedrógão foi para o SIRESP. São os que mais precisam. Até estranho a malta do SIRESP não nos cravar leite e barras energéticas.


Quase três meses depois, o dinheiro doado para ajudar as vítimas de Pedrógão Grande ainda não chegou a todos os que precisam. Entre donativos de anónimos, famosos e várias contas solidárias abertas, o valor já chega aos quinze milhões de euros. Eu acho que esta notícia tem tudo que ver com outra que marcou esta semana. A confiança dos portugueses alcançou os 82 pontos, no segundo trimestre deste ano, o valor mais alto alguma vez registado em Portugal. É impossível não associar uma à outra. É o problema da confiança dos portugueses estar a níveis nunca vistos. Estamos demasiado confiantes. Entregamos o dinheiro a qualquer pessoa e confiamos que vai mesmo para Pedrógão.

Já me pus a pensar e, se calhar, metade da massa de Pedrógão foi para o SIRESP. São os que mais precisam. Até estranho a malta do SIRESP não nos cravar leite e barras energéticas. Ou: “Tragam um cozido à portuguesa, aqui à sede do SIRESP, que os nossos quadros superiores estão cheios de larica.”

Se eu fosse a Porto Editora, editava um labirinto, unissexo, com vinte páginas, onde tínhamos de ir dar com o dinheiro de Pedrógão Grande. Onde é que anda a massa? Eu começo logo a imaginar como estão as casas dos indivíduos que ficaram com a massa de Pedrógão. Aposto que têm piscina. As pessoas de Pedrógão, depois do que passaram, têm de andar atentas porque há uns focos de gatunagem? “Ai, estamos desconfiados que isto é gamanço posto.”

Entretanto, o Governo já admitiu que pode estar a ser feito um aproveitamento abusivo de subsídios. Apesar de afirmar que “o risco é muito limitado”, o ministro Vieira da Silva avisa que se algum problema for detectado, a justiça entrará “em campo”. E depois de uma investigação, a PSP vai concluir que foi um raio que atingiu o dinheiro de Pedrógão.

Segundo li, as Misericórdias gastaram, até agora, apenas perto de 12.000 euros do fundo de 1,6 milhões e, provavelmente, foi num jantar, numa marisqueira, para combinar quando entregam o dinheiro. Sempre são três meses a render juros. Tenho a teoria de que a Cáritas anda a criar excêntricos todas as semanas.

Custa assim tanto pôr o dinheiro onde é necessário?! As Misericórdias não podiam contratar o ex-motorista do Sócrates? Três meses?! Só se é porque agora é que eles estão a ver a dificuldade de viver no interior, e estão há três meses a tentar lá chegar com o dinheiro e não conseguiram transporte.

Somos um país que demora três meses a fazer chegar 15 milhões a Pedrógão Grande mas onde, num instantinho, se põem vários milhares de milhões nas ilhas Caimão. O dinheiro dos pobres rasteja, o dos ricos voa.


TOP-5

Onde está a massa

1. Madonna vive em suite de hotel com 400 metros quadrados – O filho da Madonna é o jogador do Benfica com melhor casa.

2. Um aeroporto em Coimbra – Está mesmo a pedir ideias para praxes.

3. Depois do furacão Harvey, três furacões, Irma, José e Katia, progridem em simultâneo no Atlântico – Se o Trump fosse esperto dava nomes muçulmanos aos furacões.

4. Já se pode tomar banho na praia de Carcavelos – Já não há ratazanas mortas, elas agora já nadam e estão muita fixes.

5. Uma empresa portuguesa misteriosa de nome Yupido está registada com um capital social de quase 29 mil milhões de euros, o maior de Portugal – Com isto da Yupido, a Madonna deixou de ser interessante e passou a ser de classe média.