Chicão: a retórica “sexy” do “carro vassoura da mudança”

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 27/01/2020)

Daniel Oliveira

A melhor forma de saber quem é Francisco Rodrigues dos Santos é ouvir o que dizia antes de ser candidato à liderança do CDS. E não é preciso recuar muito. Apesar de ser evidente que já era essa a sua ambição, ainda há um ano garantia que não estava no seu horizonte próximo o que aconteceu este domingo. Dizia que não tinha pressa. Entrevistei-o para o meu podcast há cerca de um ano. Tenho de dizer que ia com boas referências e fiquei surpreendido. Encontrei um gerador automático de citações, que pode impressionar pessoas com poucas leituras mas não revelou um conservador sólido. O problema não é ser demasiado jovem. Paulo Portas também o era. É ser demasiado jovem e estar muitíssimo longe de ser Paulo Portas.

Francisco Rodrigues dos Santos é aquele tipo de políticos que é muito eficaz a falar para dentro da sua própria bolha. Sempre que vocifera contra a direita “apaixonada pela esquerda” anima a cultura tribal e gregária da militância, dando uma ilusão de força que dificilmente funciona para fora. Nem mesmo neste tempo em que cavar trincheiras parece ser a única forma que sobra de fazer política. A enorme vaia a António Pires de Lima, comum em partidos que se enfiam na sua autossuficiência, é o retrato daquilo de que se alimenta o jovem e impreparado Chicão. Cultura que ele alimenta, mesmo que por uns tempos vá fazer a rábula da união de um partido que se adapta sempre aos seus líderes.

Mas a grande acusação que Francisco Rodrigues dos Santos tem a fazer ao seu próprio campo político é a de se ter transformado no “carro vassoura da mudança”. Para lá da retórica e do permanente apelo ao sectarismo identitário, o que fará Chicão para que isso deixe de acontecer? Baseio-me na entrevista que lhe fiz e que, recordo, tem apenas um ano.
Na economia, apesar de ensaiar uma música contra o neoliberalismo, defende o que o CDS sempre defendeu. Com exceção da defesa do Salário Mínimo Nacional, no que diverge de uma posição pontual da Juventude Popular que nunca foi acompanhada pelo partido, é defensor de leis laborais mais flexíveis, da entrada do ensino privado na rede pública que garante o ensino gratuito e até vê com bons olhos uma taxa plana de IRS que baixe radicalmente os impostos para os mais ricos, o que nunca poderia deixar de ter um efeito no Estado Social. Nesta matéria, nada o distingue das posições políticas dos seus adversário internos e do resto da direita. É até mais liberal do que Assunção Cristas e não menos do que Adolfo Mesquita Nunes.

Quando se chega à Europa, Francisco Rodrigues dos Santos volta ao mesmo artifício. A sua retórica é crítica do federalismo, sempre carregada de cores fortes e muitos adjetivos barrocos. Mas quando se vai ao concreto, define-se como uma terceira via entre o federalismo de Lucas Pires e o euroceticismo de Manuel Monteiro. Bem espremido, a posição exata do CDS de há muito tempo.

Chegado à ética política, é forte a falar do clientelismo. Mas, quando confrontado com o cadastro do seu partido, defende-o. Nem o caso da nomeação de Celeste Cardona para a Caixa Geral de Depósitos, totalmente deslocada para o seu currículo, foi capaz de criticar. Os grandes é que pecaram e os militantes do CDS colocados em lugares do Estado distinguiram-se pelo mérito. Nada de novo, portanto. Clientelismo mau é o dos outros.

Mas o mais importante é mesmo aquilo a que chamamos costumes. Até porque Francisco Rodrigues dos Santos recusa que o que separa a esquerda e a direita se resuma à “balança que mede o peso do Estado na economia, a mais ou menos impostos ou meramente numa folha de excel”. Quando olhamos para o embrulho ficamos assustados. As expressões que usa são fortes. A começar na utilização do termo “ideologia de género”, popularizado pelos sectores ultraconservadores e de extrema-direita e que, na entrevista que lhe fiz, percebi que ele julgava ser uma autodefinição da própria esquerda.

Não se entusiasmem, no entanto, os ultraconservadores. Mais uma vez, Chicão compra o verbo, não o ato. É contra o aborto mas não tem qualquer intenção de mudar a lei que o despenalizou. Porque é um conservador e as coisas estão bem como estão. É contra a instituição legal do casamento entre pessoas do mesmo sexo mas não pretende alterar uma vírgula na lei vigente. E até defende a descriminalização do consumo de droga, a que o CDS se opôs.

Tirando esta exceção, Francisco Rodrigues dos Santos é muito firme na condenação do que se fez mas totalmente demissionário na possibilidade de o desfazer. Sobretudo nas questões de costumes, que aparentemente o diferenciariam das correntes mais liberais do partido (na economia são totalmente confluentes). Discorda de Adolfo Mesquita Nunes em muitas coisas mas, aparentemente, isso não terá qualquer consequência prática, porque não vale a pena tocar no que já mudou. Está resolvido, disse. O que quer dizer que a expressão “carro vassoura da mudança” lhe assenta como uma luva. Mais a ele do que a outros: pelo menos os liberais do CDS concordam com aquilo que não querem mudar e querem mudar aquilo de que discordam.

“Não seremos políticos que aparentam uma grande firmeza nas suas palavras e revelam uma imensa fraqueza quando têm de enfrentar as consequências dessas mesmas palavras”, disse o novo líder do CDS no seu discurso de Aveiro. Foi isso mesmo que encontrei na entrevista que lhe fiz. Da crítica à moleza dos seus opositores internos, tudo se lhe aplica. Sobra a retórica que os congressistas terão achado “sexy”. E até o discurso conservador meteu na gaveta quando sentiu que isso lhe poderia retirar votos no congresso.

E porque é assim o novo líder do CDS? Porque Chicão é daqueles políticos que prefere apanhar o ar que se respira em cada tempo em vez de ser ele a definir esse tempo. E o ar do tempo, na direita, faz-se de uma retórica cada vez mais forçadamente radicalizada para travar uma extrema-direita que assim se vê legitimada. Mas o novo líder do CDS, apesar dos tons contrastantes do seu discurso, não tem um rumo estratégico para o CDS. Apenas aproveitou uma profunda crise do partido, repetiu as frases da moda no seu campo político e nem sabe ao certo como ser consequente com elas. O discurso conservador de Chicão é como o discurso revolucionário do PCP: não vale nada para além da estética. Como se percebeu no seu discurso inaugural, o vazio de novidades programáticas para o país é preenchido por chavões e decibéis que simulem uma mudança gritada.

O extremismo retórico de Chicão tem, no entanto, consequências. A facilidade com que abre a porta à proximidade a fenómenos como Bolsonaro, tratando-o como “desbocado” mas “desempoeirado” (ouvir mesma entrevista), e a dificuldade que tem de se distanciar de figuras como Salvini, denuncia até onde pode ir o seu oportunismo político. O objetivo é óbvio: vir a combater o crescimento político do Chega. Chicão partilha com Ventura algum radicalismo discursivo, com diferenças que não desprezo. Mas, acima de tudo, partilha uma enorme facilidade em radicalizar o discurso muito para além das suas convicções profundas, como fica evidente quando se tenta espremer qualquer consequência das suas posições. Só que tem, sobre o seu novo concorrente, uma enorme dificuldade: carrega um partido com contradições e uma história que o impedem de ser consequente. É verdade que o CDS é plástico. Tende a moldar-se às novas lideranças e isso explica a forma como é ciclicamente abandonado por camadas de pessoal político. Mas, ainda assim, há uma tradição que dá ao CDS um peso que não lhe permitirá ser um Chega soft.

Mal sai do discurso sem contraditório para animar uma sala de indefetíveis, Chicão é uma imitação frágil do que já existe, cheia de adversativas confusas e posições de princípio inconsequentes, que não servirão para travar nada. Quanto muito, servem para segurar o pouquíssimo que resta ao CDS e que esteve neste congresso, totalmente alheado do resto do país. Serve para o CDS se acantonar numa identidade que nunca foi a sua. De resto, sobra a personalidade de um líder sem currículo, sem consistência e sem palco no Parlamento. E com uma direção que junta o refugo não utilizado por Portas, o regresso dos mortos vivos de Monteiro e as viúvas de Ribeiro e Castro. Tudo em versão estagiária.

A sua eleição revela um CDS impressionável com jogos pirotécnicos, abandonado por aqueles que lhe davam massa crítica e desesperadamente à procura de um buraco onde se sinta confortavelmente pequeno. Um buraco que, ainda por cima, já está ocupado.

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CDS – Uma OPA bem-sucedida

(Carlos Esperança, 26/01/2020)

O CDS que Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa fundaram já não existia, mas é a revolta dos herdeiros contra os fundadores que ora se confirma com a vitória da Oferta Pública de Aquisição (OPA) da Juventude Popular (JP), nada de centrismos, sobre o que resta do partido.

O Chega deixou de estar sozinho no espaço que se alarga na Europa e que em Portugal começou a dar os primeiros passos nas últimas eleições legislativas. O VOX espanhol passou a ter dois partidos homólogos portugueses, o Chega e o CDS, este a precisar de mudar de nome.

Francisco Rodrigues dos Santos é um jovem inteligente, ambicioso e reacionário, um brilhante exemplo dos líderes que têm aberto caminho ao retrocesso civilizacional, no regresso os anos Trinta do século passado e ao advento dos totalitarismos de direita.

Quando Pires de Lima falou em democracia e tolerância, foi vaiado. Os congressistas pareciam toiros enfurecidos nas ruas de Pamplona ou talibãs a verem Meca invadida por porcos. A partir daí deixou de haver dúvidas sobre os sentimentos do Congresso.

A meio caminho entre o Chega e a Iniciativa Liberal, 46% dos 1449 sócios presentes no 28.º Congresso do CDS, votaram favoravelmente a OPA de Francisco Rodrigues dos Santos e só não estavam ainda preparados para se fazerem explodir e arrastarem consigo Pires de Lima, perigoso comunista. O Movimento Zero do PP saiu vencedor no CDS.

O PP que aí vem, que integrará Manuel Monteiro, pode não ser a comissão liquidatária do CDS, mas o início de um ruído feroz de ultraconservadores no campo dos costumes, homofóbicos, nacionalistas e xenófobos, e fanáticos neoliberais em termos económicos.

Os ventos vão de feição.


A direita atrasada para o século XXI

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 11/10/2019)

Daniel Oliveira

Dê as voltas que der, Rui Rio não conseguiu mobilizar o eleitorado de direita. Nem depois de Tancos. Nem perante uma monumental derrota do CDS. PSD e CDS conseguem menos 230 mil votos, menos 2,4 pontos percentuais e quase menos dez deputados do que Pedro Passos Coelho e Paulo Portas. E Pedro Passos Coelho foi responsável por um pacote de austeridade de dimensões nunca vistas na nossa democracia. Rio também não contrariou o aprofundamento da decadência do PSD nos meios urbanos, sobretudo em Lisboa, Porto e Setúbal. Se isto ditará a morte política de Rio só as guerras de barões e baronetes laranjas ditarão. Já começaram.

Quanto ao CDS, só podemos comparar os seus resultados com 2011, quando concorreu sozinho. E a comparação é avassaladora. O CDS perde 440 mil votos (fica com um terço da votação), 7,5 pontos percentuais (também um terço) e 19 deputados (fica com um quinto). Em relação a 2015, perde 13 deputados. Fica próximo, em votos, dos resultados das eleições europeias. E isto acontece sem pressão do voto útil: a direita tinha estas eleições perdidas. A pressão era tão pequena à direita que até deu para eleger dois deputados de dois novos partidos. Quando se anda pelo mapa eleitoral a coisa torna-se ainda mais deprimente. O CDS fica atrás do BE em todos os círculos, incluindo em Vila Real, Bragança, Viseu, Aveiro, Leiria ou Açores. A exceção é só a Madeira. E fica atrás do PAN em Lisboa, Porto, Setúbal e Algarve. Desaparece de quase todos os distritos.

As razões para esta hecatombe parecem-me óbvias. Enquanto o PSD é um partido sem identidade, o CDS é um partido com demasiadas identidades. Já foi quase tudo o que se pode ser à direita. Quando se trata de partilhar poder e a liderança é forte, este é um problema menor. Quando o projeto é ficar na oposição tudo se complica. A sociologia do eleitorado de direita mudou e os dois partidos não conseguiram acompanhar essa mudança.

O dinamismo partidário da esquerda, marcado pelo nascimento do BE há quase 20 anos, acompanhou e continua a acompanhar uma sociedade cada vez mais segmentada. A direita ficou paralisada, sem que nada mudasse nela em quase meio século. A clivagem entre liberais e conservadores, moderados e autoritários, não teve repercussões partidárias. O pragmatismo do poder encobriu mudanças e divergências que são centrais para a representação política.

O que o PSD trata através do silêncio que a miragem da chegada ao Governo permite (mesmo não escondendo que o problema existe, como se vê pela resiliência dos passistas), o CDS resolve pela esquizofrenia. Paulo Portas disfarçava-o com a sua arte de transformismo político. Assunção Cristas não tem essa capacidade. O último ano foi uma autêntica montanha russa. Promoveu Adolfo Mesquita Nunes, dando sinais de liberalização do partido; autoproclamou-se líder da oposição depois das autárquicas, passando a ideia de que ocuparia o espaço do PSD e criando expectativas impossíveis de acompanhar; escolheu o ultraconservador e trauliteiro Nuno Melo como cabeça de lista a umas europeias coladas às legislativas; e depois julgou que podia fazer a síntese de tudo isto. Não pode. Num partido da dimensão do CDS não cabem Adolfo Mesquita Nunes e Francisco Rodrigues dos Santos (o quase bolsonarista “Chicão”, líder da JP) sem que um se imponha ao outro.

O CDS acabou ensanduichado pelo ultraliberalismo da Iniciativa Liberal e o racismo e autoritarismo do Chega! – na realidade, no que interessa a cada um, estão os dois à direita do CDS. Tem de escolher com qual deles quer competir. Ou se até prefere ser um partido conservador católico, com preocupações sociais. Não pode, com 4%, ser tudo isto ao mesmo tempo.

O CDS deixou de ser uma barreira à extrema-direita. Ela entrou no Parlamento e terá de ser combatida por forças mais poderosas. Se for inteligente, o CDS clarificará a sua estratégia, irá buscar alguém como Adolfo Mesquita Nunes e tentará representar os liberais de direita, sobretudo os mais jovens que não se reveem no PSD. Se o fizer, não precisa de acompanhar o delírio libertário de direita da Iniciativa Liberal, que cresceu menos pelo seu programa radical e mais pelo descontentamento com a oferta disponível. E só precisa de ser relativamente moderado nos costumes. Não sei quantos votos vale este caminho, estou seguro de que é o que tem mais futuro numa direita democrática que não esteja próxima do centro.

Claro que antes das grandes opções há o curto prazo. Os incentivos eleitorais vão empurrar o CDS para uma coligação com o PSD. O mapa de distribuição de deputados favorece essa opção, porque a direita coligada ganha eleições com resultados medíocres. Mas Rui Rio não tem grande apetência para estes entendimentos e o CDS seria obrigado a ir negociar lugares em péssima situação. Parece não haver caminhos fáceis a partir daqui e dois pequenos partidos estarão a morder as canelas do CDS. Com uma diferença: a IL crescerá às suas custas, o Chega! tenderá a crescer à custa de quase todos, incluindo o PCP.

Alguns comentadores de direita têm escrito que o nosso sistema partidário está a implodir. Olham para a realidade a partir dos seus umbigos políticos. O que implodiu nestas eleições foi o espaço da direita. O da esquerda está a adaptar-se há pelo menos 20 anos e a entrada de novos atores faz-se por folga de votos, não por falhas graves de representação.

Falta à direita fazer o que a esquerda fez e continua a fazer: adaptar-se às novas clivagens, representando-as com projetos diferentes que se podem entender em soluções de poder ou até em frentes eleitorais. É nesta reorganização que o CDS tem de decidir qual é o seu futuro, sabendo-se parceiro do PSD no poder. Se não clarificar, outros, que franquearam as portas do Parlamento tomarão o seu lugar. Quem tudo quer representar tudo acaba por perder.

Nota: deixo para a edição em papel do Expresso o fim das negociações para um acordo de legislatura entre o PS e o BE e o que isso quer dizer quanto à sobrevivência de qualquer coisa que se assemelhe com a “geringonça”