Filhos da “outra”!

(Joaquim Vassalo Abreu, 31/0872019)

O Estio é a estação do ano mais apreciada pelos admiradores da Dona Preguiça e eu, um inveterado seguidor de tão distinta figura, nela simplesmente não funciono e toda a minha carteira de compromissos, de todos qual o mais inadiável, é mandada para as calendas!

Pelo que nem das “travessuras” dos “memes” do costume eu sei e apesar de ir sabendo uma coisa aqui outra ali eu vou, é claro, observando os cartazes que vão sendo colocados nas rotundas e onde os mais criativos, eu diria mesmo da “Ordem do Fantástico” são, sem dúvida, os do CDS!

Que deve ter contratado a peso de ouro um verdadeiro mago (não é nabo não…) em publicidade e marketing pois quem, a seguir ao “ Portugal ponto a Europa é aqui”, aparece com um enigmático “A Preparar o Futuro” e conclui a trilogia com um “Trabalhar ponto Faz Sentido?”, só pode ser um mestre na arte!

A minha tola começou logo a tecer cenários, fios de pensamento e coisas complicadas mais que me surgiram para tentar dissecar tão difícil “teorema” mas, de imediato, apelando à tal inveterada preguiça, logo concluí: não vale a pena ó patrão, é só mais um que se quer armar em diferente…

De modo que até aqui não estive nem aí e quem queria mesmo ver-me só mesmo em Paredes de Coura e no seu ultra maravilhoso Festival onde estive a semana inteira, isto é, dez dias consumidinhos em tertúlias, cervejas e concertos, mas onde ia seguindo aquele autêntico seriado das TV’s querendo provar que havia o caos nos postos de gasolina quando eles, ainda por cima e porque as pessoas inteligentemente se organizaram, tinham até menos gente que o costume! Aquilo foi degradante mas eu estava em modo festivaleiro e no meu querido “COURAÍSO” e isso tinha já passado a pormenor! E, mesmo no fim, a PATTI SMITH ainda mais me veio apaziguar….

Mas, continuando no Estio e sabendo um pouco do que se vai passando e antevendo o que aí vem, eu pergunto: ó Costa, e tu nem 15 dias de férias tiras? Tens medo que um Riacho diga que te ausentaste e não cuidaste dessa corrente que destrói as margens de tão comprimidas estarem? Sim, esse Riacho que afirmou que tu estavas de férias quando o País estava a arder e tu mais o Presi em reuniões, velórios e coisas mais? Vai de férias mas é, ó meu…Esse “Riachozinho” perante os elogios que o Finantial Times te tece ainda tem o desplante de dizer que eles não conhecem este País, esses burros iletrados e dados à mania…Vai é morenar esse cabelo, pá!

É que eu há dias vi-te na TVI e aquele baixinho, magrinho e de cabelo lambidinho, mais o apresentador e demais, que não são flores que cheirar possamos, quiseram mesmo rasteirar-te, pá! E a coisa até nem foi tão grave, apesar da questão vergonhosa dos “twitters”, que eu por exemplo não possuo e muito pouca gente usa pois aquilo é uma séca, porque tu sabes sempre sair por cima mas, não digo o Partido, mas as tuas lanças dianteiras deviam denunciar o que se passou e o que a seguir, muito provavelmente, se passará.

É que o que se passou com aquela tresloucada Professora, não só pelas alarvidades que disse mas principalmente pela passividade, condescendência e cumplicidade do apresentador, perante as contínuas faltas de respeito e interrupções da dita, dá que pensar e merece séria reflexão.

Mas também pelas escolhas da TVI onde, a par de uma tresloucada e ressabiada Professora, apareceu também uma sorridente mas capciosa Enfermeira e um Fiscalista que teve o desplante de afirmar que um trabalhador que recebe limpos 2.750 Euros custa a uma Empresa 7.000 Euros quando o que supletivamente onera a Empresa são os 23,75 para a Segurança Social!

Eu só me admirei de não terem convidado também a Cavaca e o Pardal! Juntando a estes o Ventinhas, mas pensando bem este não porque a “dignidade” dos Magistrados do Ministério Público foi entretanto reposta, mais o Presidente da Ordem dos Médicos…o quadro dos “cavaleiros do apocalipse” estaria completo!

Vou aguardar pacientemente as cenas dos próximos capítulos desses guardiões da Democracia que são as TV’s, nomeadamente as generalistas e deixando de lado os patéticos outdoors do PPD, que mais não fazem do que apregoar a herança que deixaram, vou-me debruçar, salvo seja, sobre este novel e futurista cartaz do CDS que já aqui referi: “PORTUGAL ponto TRABALHAR FAZ SENTIDO?”.

Eu não vou falar sequer em ousadia ou criatividade: eu falo em desfaçatez! Em ignomínia, em reaccionarice, em esperteza saloia e todos os adjectivos que Dicionário contenha. É que só isto nos faltava!

A tese pela Direita repetida à exaustão é que com este Governo se atingiu a maior carga fiscal de sempre ( a mesma que a deles!) e os Portugueses, coitados, estão a sofrer horrores e a serem de tal maneira espoliados, agredidos e massacrados que, em vez de irem em filhinha votar Costa, deviam era deixar de trabalhar! Não recebiam salário, e para quê o salário se depois, cheios de fome, terão um rico que os protege, mas o Estado também não arrecadava Impostos…

E estiveram eles tanto tempo a meditar, em sagrado retiro, um retiro regenerador do futuro do passado! “Trabalhar é Preciso”? Para quê se terão sempre, sem impostos é claro, trabalhadores a soldo, um soldo que até uma tigela de sopa poderá ser…?

E progredimos nós tanto! E progrediu a Ciência, as Novas Tecnologias e o Saber tanto e estes vermes ainda a reivindicarem velhos direitos. Direitos de classe, dirão…

Classe de “Filhos da “outra”, como bem escreveu Alberto Pimenta.

Advertisements

O CDS e a (des)educação

(Marisa Matias, in Diário de Notícias, 03/08/2019)

Não é preciso ler livros como Pedagogia do OprimidoPedagogia da Autonomia ou Educação: Prática da Liberdade, do enorme Paulo Freire, para perceber o papel fundamental da educação. As sociedades diferem, os contextos também, mas é inevitável não pôr em causa, em nenhuma sociedade ou contexto, a educação. Lembrei-me muito destes ensinamentos de Paulo Freire a propósito da inenarrável proposta apresentada pelo CDS na última semana.

Entrar a “preços de mercado” em universidades públicas para quem não tiver notas suficientemente altas é a proposta.Não se trata de notícia falsa, mas parece. Ou isso ou falta de vergonha na cara. Equiparar a escola pública e a universidade pública à lógica do privado é uma ideia totalmente fora do quadro constitucional e um ataque direto a uma democracia que se queira inclusiva, e é seguramente uma aberração sob qualquer ponto de vista.

O CDS, que sempre defendeu que devia ser a meritocracia a vingar em todos os setores da sociedade, parece sofrer de amnésia seletiva. O que esta proposta demonstra é que o CDS entrou no “vale tudo”, antes fosse efeito da silly season.

Sabemos que a verdadeira intenção do CDS é ir contaminando todo o setor público até que dele pouco reste. Tem-no tentado fazer na saúde, na segurança social e, claro está, na educação. Mas a diferença na educação é que, até agora, as propostas passavam por esvaziar a escola pública por via do subfinanciamento ou pela desconsideração dos profissionais da educação, ao mesmo tempo que propunham desviar os dinheiros públicos para o setor privado. Esta proposta agora apresentada vai uns passos mais à frente. Mantém-se a sempre inalterável intenção de subverter a escola pública à lógica dos privados, mas a incoerência com o que o próprio partido vem defendido é de tal ordem que roça o insulto.

Uma das dimensões das desigualdades sociais em qualquer sociedade é que existem fatores de opressão que prevalecem nas vidas quotidianas. Os que têm mais recursos acabam por ter vantagem sobre as classes populares. Quem viveu a realidade da pobreza ou de poucos recursos sabe bem o que isso é, da mesma forma como sabe que a escola pública ou a saúde pública a funcionarem no seu sentido pleno são dos melhores antídotos a essa opressão. A escola pública no seu verdadeiro sentido promove princípios como a autonomia e a liberdade. É na escola pública que podem encontrar-se as ferramentas necessárias para o desenvolvimento da consciência social. É na escola pública que reside um dos maiores garantes para a igualdade. Deturpar estes princípios pela via da introdução de corredores abertos para quem tem mais recursos, pela simples razão de ter mais recursos, é a anulação da própria democracia. O CDS provou, mais uma vez, com esta proposta que anda longe de encontrar-se. Insistir na divisão de um país é um caminho perigoso e não serve a ninguém.

Eurodeputada do BE


De como o Diabo tentou Cristas

(Mário João Fernandes, in Jornal i, 02/08/2019)

Cristo resistiu por três vezes à tentação do Diabo, aos políticos há quem exija que resistam três mil…


Satanás, sempre atento à modernidade e ao espírito do tempo, respeita o princípio da igualdade e procura tentar todos por igual, independentemente da raça, religião, origem política, género, dificuldades de orientação capilar ou instrução em matéria culinária. Nestes tempos estivais, o Maligno não dá descanso aos pecadores e lembrou-se hoje da líder do CDS-PP.
Diabo – São, São, andas esquecida de mim?
Cristas – Credo, vade retro!
D – Que é lá isso, não queres seguir o meu conselho?
C – Nanja eu, ó coisa ruim.
D – Andas esquecida. A inveja tolda o pensamento e a gula apaga a memória…
C – Invejosa, eu?
D – Sim, tu. Que outra coisa senão a inveja te faria seguir os passos de um dos meus mais fiéis discípulos? Porque cobiçaste tu os feitos de Mário Nogueira e confundiste o Largo do Caldas com a sede da Fenprof?
C – Não se tratava de apoiar Mário Nogueira, mas sim de fazer oposição ao Governo.
D – E era por esse caminho que te vias chegar a primeira-ministra?
C – Os caminhos do Senhor são misteriosos…
D – E os meus são auto-estradas sem portagem. Vê onde é que a gula te levou: não voltarás a ter um partido do táxi, mas não terás mais do que um partido da Hiace.
C – Isso é o que dizem as sondagens.
D – Inveja, gula e, agora, soberba. Continuas a pontuar. Estás a lutar pelo quinto lugar na lista dos partidos com assento parlamentar?
C – O diabo que carregue o PAN mailos amiguinhos dos animais! Eu sou pela festa brava!
D – E agora a ira. Lembra-te de não cobiçar o boi ou o jumento alheio. E tens alguma coisa a propor aos que não são animais?
C – É preciso ir buscar os votos onde eles estão, bater a todas as portas, não afastar ninguém.
D – Vê lá a que portas bates. Há coisas que se fazem e não se propagandeiam. Tens muitos correligionários que acham esse teu bater à porta alheia uma coisa demasiado “moderninha”.
C – Esses são os preguiçosos, os que nada fazem para crescermos em número de votos.
D – E os que vão votar nas novidades eleitorais, nos que não têm medo de chamar os bois pelos nomes.
C – Esses são os que já venderam a alma ao Diabo.
D – Ou os que se cansaram de esperar por um partido de direita. A preguiça é um dos pratos que não me canso de servir, tem sempre muita saída.
C – A avareza de espírito não ajuda ninguém. Temos as melhores ideias e passam a vida a roubar-nas.
D – Terás ideias, mas se são os outros que as propagandeiam cometes o pecado da luxúria, na modalidade do voyeurismo. Com que fitas atas essas ideias que dizes ter?
C – Já ninguém liga a rótulos: direita, liberal, progressista, nacionalista, popular… O que as pessoas querem é futuro, não podem viver agarradas à saudade.
D – São, São, não se pode servir a Deus e ao Diabo ao mesmo tempo… Eu sou pela fidelidade. Não gosto de modernices e de ménages à trois. Essas tuas ideias assustam-me. Olha à tua volta, aqui ao lado os saudosistas deram 10% dos votos ao Vox. A saudade envergonhada não gosta de pouca-vergonha.
C – Esses são os fachas! Em Portugal não temos disso.
D – Rapariga, tu estás possuída pelos esquerdalhos! Vou-te mandar para o Caldas meia dúzia de hóspedes que tenho no Inferno a ver se te recordam os bons ensinamentos. Começas com uma romagem a Santa Comba e vais recitando: “Não discutimos Deus e a virtude. Não discutimos a pátria e a sua história. Não discutimos a autoridade e o seu prestígio. Não discutimos a família e a sua moral. Não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.”

Escreve à sexta-feira, sem adopção das regras do acordo ortográfico de 1990