O segundo capítulo de uma tragicomédia de fim-de-semana

(Jorge Rocha, in Ventos Semeados, 18/02/2018)

Congresso

No texto anterior já víramos como o congresso laranja tinha todas as condições para se converter numa tragicomédia em que poderiam coexistir as evidências de uma direita incapaz de ter uma ideia, mesmo que ténue, para  melhorar a vida dos portugueses, e, ao mesmo tempo, as cenas risíveis de uma coisa tida por séria, de súbito transformada em involuntário (pelo menos para os proclamados vencedores) gag burlesco.

Do lado da tragédia não pontifica apenas esse vazio ideológico, apenas cingido à fértil intriga de quem anda na política para cuidar o melhor possível da vidinha pessoal. Acrescem, igualmente, afirmações a roçarem o grotesco de tão descabidas, como a de se viver em clima de PREC ou a de António Costa ser o último dos moicanos de um Partido Socialista rendido aos encantos da «extrema-esquerda».  Que quem disse tais alarvidades o tenha conseguido fazer sem se escangalhar a rir, denotando acreditar na probabilidade de ser levado a sério, revela bem o grau zero a que chegou o principal partido da oposição. Mas entrou-se no reino da comédia, quando Rio convenceu Santana a formarem listas conjuntas para os principais órgãos do Partido, querendo assim demonstrar uma grande unidade interna, e não conseguiu sequer alcançar a maioria dos votos, ficando-se por 1/3 para o Conselho Nacional e por menos de metade para o Conselho de Jurisdição.

Percebia-se nesse conjunto de resultados a razão porque as televisões decidiram subalternizar as notícias do flop laranja no alinhamento das notícias, dando a primazia à vitória retumbante do émulo de Kim Jong-un em Alvalade. Paulo Dentinho, Ricardo Costa e Sérgio Figueiredo terão percebido que os tempos próximos não serão pródigos para quem gostariam de ver afirmar-se como alternativa viável à maioria de esquerda. E o primeiro sinal surgiu, logo, na sessão de abertura, quando se compararam as palmas atribuídas a Passos Coelho na despedida com as do agora chegado Rui Rio. Por muito que este fizesse profissão de fé no realinhamento do partido ao centro, os ali presentes reafirmavam a adesão plena à extrema-direita seja lá o que isso signifique para cada um deles. Qualquer observador de fora via claramente que o futuro prenuncia o PS a ocupar plenamente o centro político e muito mais próximo dos extremos situados à sua esquerda do que dos assumidos muito, mas mesmo muito, para a sua direita.

Passos Coelho saiu consolado do Centro de Congressos, porque, mesmo despejado para o caixote do lixo da História, teve direito a um suplemento de alma, que poderá dar-lhe melhor inspiração para o prometido livro com que imitará Cavaco no mistificado balanço quanto ao que julga ter feito (destruindo mais umas pobres árvores, que não têm culpa nenhuma da vaidade do presumido escrevinhador) e para as aulas  a lecionar nas universidades de que supostamente já terá recebido convites para mostrar a sua, até agora, desconhecida sapiência. Curiosa a dualidade de critérios da comunicação social, que tanto se insurgiu contra o currículo académico de José Sócrates e agora anuncia, sem levantar dúvidas, que um cábula com uma licenciatura arrancada a ferros, e a más horas, se arme agora em doutor!

O Congresso acabou por só ter algum interesse pela marcação do terreno dos que se assumem como querendo ser os senhores que se seguirão. Nesse sentido as apostas de Relvas e Marques Mendes ( Miguel Pinto Luz) ou de Marcelo Rebelo de Sousa (Carlos Moedas) passaram despercebidos face à prosápia de Montenegro, que talvez se engane na ideia de ganhar notoriedade mediática no comentário político para assaltar o arruinado castelo de que decidiu desertar.

Será nessa vertente da história, que os próximos capítulos mais prometem ser palpitantes. Ou limitar-se-ão a ser igualmente entediantes?

Sentindo a fraqueza da nova liderança Nuno Morais Sarmento invocou a ajuda de Marcelo para que este a ajude com um comportamento mais impositivo face a António Costa. Há melhor confissão de impotência, que essa estratégia logo condicionada pelo facto de o narcísico recetor da mensagem estar bem mais preocupado consigo mesmo do que com o partido, que vê feito em cacos?

Indiferente a esse apelo Marcelo continua a ser Marcelo: elogia Passos Coelho  – para quando a distinção com a Grã-Cruz da Ordem dos me(r)díocres com palma e duas orelhas (de burro)? – e preocupa-se, sobretudo, com a sua tão querida brasileira de Pedrógão, que vê dela fugir a sete pés os que conseguira iludir para a Associação pensada para a sua afirmação pessoal e não para os fins inicialmente proclamados. A exemplo do universo laranja também as pequeninas cortes marcelistas vão dando sinais de se estarem a deslaçar.


Fonte aqui

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Guião de uma direita infeliz 

(Francisco Louçã, in Expresso, 17/02/2018)

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A direita tem um problema que a condena, sabe-se derrotada. O conclave do PSD vem lembrá-lo urbi et orbi, discutindo o que fazer com a calamidade de 2019 e com o líder vencível nessa fatídica eleição. Havia de se chegar aqui: nas eleições internas de janeiro o que levantava ânimo era o fugaz Governo de 2005, então despedido por indecente e má figura pelo Presidente, enquanto a era da troika foi sorrateiramente evocada como um deserto antes do oásis, apesar de este ter sido maliciosamente capturado por corsários ocasionais. Para o PSD, a história resume-se assim a carreiras incomodadas, pouco cuidando de quem paga impostos, procura emprego e vê os filhos emigrar. Falta gente vivida nessa narrativa.

Mas, perdoe-me quem se fascinar por estes mentideros, o problema dos problemas é mesmo que a direita política não representa a direita económica e talvez nem sequer a direita social. E desconfio de que uns e outros sabem dessa síndrome Deolinda.

Rui Rio e o futuro melhor

A moção que Rio apresenta este fim de semana, que já foi o seu mote de campanha para a presidência do PSD, abunda naqueles condimentos de língua de pau que fazem estes documentos úteis ser irrelevantes. Ele há um Portugal que “se supera”, se tiver “um propósito” e o “rumo certo”. Já ouviu isto em algum lugar? A candura não ofende, mas ressoa também o tom celebratório do líder, que afinal reconhece que todos antes dele falharam, pois houve “quase duas décadas em que os partidos e os políticos não conseguiram conceber e transmitir uma visão inspiradora, coerente e convincente, capaz de mobilizar os portugueses para uma sociedade de futuro”. Já se sabe, com uma “visão inspiradora”, o tal “propósito”, o líder será “capaz de mobilizar os portugueses para uma sociedade de futuro”.

Temos futuro, portanto. Exatamente catorze futuros, alguns repetidos: a política de Rio vai “garantir o futuro”, que será “melhor para todos”, ou só “melhor”, com uma “visão de futuro”, para uma “sociedade de futuro”, “rumo ao futuro”, tudo “orientado para o futuro”, com “esperança num futuro melhor”.

Esta ideia de salvação é o melhor que Rio apresenta. Não por ser boa, é até arrogante, mas porque é a mais moderna: é assim que se faz a política populista nos dias de hoje. Líderes de discurso vazio, que se adaptam ao que for, de promessas várias, que se adaptam a quem for, e que procuram concentrar em si todo o poder, tais messias, esses são os émulos do sucesso Macron.

Rio tem dias nesse percurso salvífico, já teve êxito ao fazer frente a Pinto da Costa, o que nenhum presidente de Câmara tinha ousado, mas lançou depois Valentim Loureiro para a Junta Metropolitana do Porto, e apoiou e desapoiou Rui Moreira, por razões sempre misteriosas. A coerência, se porventura existe, está no que escreve agora: quer um líder com uma “visão” e um “propósito”, que é simplesmente ele próprio.

A desvantagem da vantagem

Só que, para triunfar, Rio tem uma desvantagem que esmorece tanta virtude: é que quem não o conhece já o conhece bem demais. É antigo para estes propósitos e falta-lhe o carisma da renovação, não surpreende nem as emoções nem as razões. Tudo o que disser é repetido e, pior, não suscita curiosidade. A vantagem, em contrapartida, é que diz coisas novas mesmo quando repisa o mantra tradicional: Rio quer um “Estado forte e organizado para libertar os cidadãos”, o que o distingue suavemente daquela direita estadófaga que tem como refrão “menos mas melhor Estado”. No caso do presidente do PSD, é o seu temor das ameaças, como a globalização, insegurança, alterações climáticas e decomposição dos regimes, que o move para um “Estado forte”, sempre prometendo que os cidadãos serão “libertados”. Ou seja, é um liberalismo temperado por medos, que exige que o Estado abra negócios, mas que precisa de proteção, mais do que no passado.

Rui Rio e a sua moção são, portanto, a recapitulação daquela social-democracia mesclada de liberalismo no discurso e suficientemente negocista na governação que fez os melhores sucessos do PSD. E, no entanto, a direita económica não confia nele.

Os disponíveis

Como o congresso do PSD é o melhor festival nacional de conspirações, sem comparação na política indígena, poderia perguntar-se se não emergirá dos bastidores algum salvador que prometa resgatar o partido da sua derrota em 2019. Já aconteceu, com Cavaco Silva vencendo João Salgueiro ou Durão Barroso a 33 votos de Fernando Nogueira, mas também repare no que deram uns e outros.

Não faltam candidatos. Montenegro ajustará contas em 2019, já avisou. Pinto Luz, erigido pelo veterano Relvas ao estatuto singular de promessa juvenil, explica numa pardacenta entrevista desta semana que a dicotomia esquerda-direita é um enjoo e que “a nossa ideologia são as pessoas”, imagino que esta inspiração contagie. Moreira da Silva apresenta os seus modelos societais, o que prova que esperará sentado, e Carlos Moedas, ungido de Bruxelas, promove um cocktail que vai do rendimento básico para desmantelar a Segurança Social até uma linda revolução digital que nos fará felizes a todos. Só que o problema de todos os candidatos emergentes e latentes é que a direita económica prefere outra ambição, a maioria absoluta do PS.

Mas há sempre a síndrome Deolinda

O problema do PSD e da direita política não é Rio e, a bem dizer, o do CDS também não é Cristas. As dificuldades estão em que tudo o que define a direita política é o que a atormenta, o que a ergue é o que a derruba. Literalmente, o teu bem faz-me tão mal, como cantam os Deolinda. O PSD e o CDS não têm viabilidade em Portugal porque a política de direita está esvaziada.

Está esvaziada porque quer Europa, mas, por favor, não em demasia! Foi a União Europeia que disciplinou a elite, conjugou a ideologia, mobilizou os publicistas, definiu os padrões de governo. Um sucesso secular. Mas é o sucesso que destrói, porque esses governos, como o de Passos, nem governam com a Europa, que os trata ao safanão, nem na Europa, que os despreza. A Europa-bálsamo só paga se dirigir os bancos, controlar as contas e definir as leis laborais, e passou a ser o tal fantasma que não se convida para as eleições, pois assusta.

A política de direita está esvaziada também por querer um Estado forte, com muitos impostos que paguem a austeridade e as rendas, e fraco, com pensões reduzidas e o mercado a colonizar as necessidades vitais. Quer um Estado abundante que distribua parcerias, concessões e prebendas, mas que puna a pobreza e seja manhoso com os desempregados. O que a direita quer deixou de ser apresentável e por isso vive derrotada. Ora, a sua clientela social quer garantias de vitória.

Perdedor, este PSD está liquidado. Resta-lhe esperar por um populista mais engrossado do que Rio. Só então se levantará.


 

Antes, o futuro era tão bom

Há cerca de um ano tudo ia correr bem: Hillary Clinton ia salvar Washington, Juppé ia renovar a França, Cameron ia arrumar a oposição, Renzi ia neutralizar as resistências internas, e Schulz, o “Saint Martin” segundo o “Der Spiegel”, voava de Bruxelas para vencer Merkel. O futuro era tão bom, as reformas estruturais tão melodiosas e os políticos tão belos.

Agora, contamos os dias para saber se Berlusconi ou Grillo ganharão Itália, se Orbán disparará sobre refugiados, se a coligação alemã se faz ou desfaz depois de quatro meses de negociação, se o ‘Brexit’ sai caro a todos, se a cúpula do PP espanhol é condenada por corrupção, se Macron bombardeia a Síria, se os botões bélicos de Trump funcionam mesmo. Num ano, a política ronda o caos e poderíamos questionar se o que mudou foi a ingenuidade ou a realidade.

Ora, nem se pergunta. O passado que nos atropela é simplesmente a mentira do futuro risonho: afinal, as Bolsas pagam a bolha, Trump é Trump e a União Europeia é castigada pelo esvaziamento das soberanias, entretendo-se com jogos resignados à impostura do centralismo e levando os países a arrastarem-se entre remendos e sustos.

António Costa, fino como sempre, pressente o risco, faz as contas e propõe uma subida da contribuição portuguesa para proteger o seu saldo, mais novos impostos europeus que saem de tinteiros antigos para prometer cooperação onde só há conformismo. Ele nem acredita nessa contabilidade nem no tal futuro tão doce, espera simplesmente esperar mais algum tempo.

Esse corpo estranho chamado PSD

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 17/02/2018)

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Miguel Sousa Tavares

Há muitos anos, José Pacheco Pereira explicou-me quais eram as virtualidades intrínsecas do PSD, que o distinguiriam dos demais partidos políticos portugueses: o PSD seria o mais português de todos os partidos, representava genuinamente o maior denominador comum entre os portugueses dos vários estratos sociais, das várias regiões, das várias profissões, dos vários níveis culturais. Achei que ele tinha razão, mas não achei que isso fosse necessariamente muito recomendável: um partido ajudado a fundar por Ruben A. e que ia até… Valentim Loureiro! Mas a verdade é que isso fazia do PSD o partido indispensável a Portugal: podia estar-se fora, até se podia, circunstancialmente, chutá-lo para fora do Governo, mas jamais afastá-lo realmente do poder — das autarquias, das regiões, das grandes empresas, públicas e privadas, das corporações encostadas ao Estado.

Durante os dez anos da governação de Cavaco Silva, o partido estabeleceu, de forma firme, maciça e sustentável, como agora se diz, as bases de um poder, construído em pirâmide, de baixo para cima, para durar até à eternidade. Da mais recôndita botica do país, da mais remota freguesia, passando por todas as concelhias e distritais do rectângulo, o PSD montou todo um exército de militantes, caciques, autarcas e jovens em estágio para o poder, que, passo a passo, estrutura pública por estrutura, acabou por significar uma sufocante teia de empregos, sinecuras e postos aparentemente adormecidos de influência.

Sim, calma! Eu sei que o PS fez o mesmo onde pôde e o PCP não fez diferente nos seus coutos eleitorais do sul. Mas nesses dez anos determinantes foi o PSD que inaugurou o estilo, semeou os seus por toda a parte e mais tarde colheu os frutos como nenhum outro. E, apesar de tudo, acontece que o PSD nunca teve para apresentar ao país homens de um nível cívico e político como Mário Soares, Salgado Zenha ou António Guterres. Ninguém saído da sede da Buenos Aires conseguiu ultrapassar a fronteira do Caia e ser conhecido e prestigiado lá fora como Soares e Guterres.

Nesses dez anos de mando de Cavaco, o PSD viveu tempos de uma paz interna como nunca antes nem depois: o chefe era incontestado e infalível, as vitórias eram robustas, o bolo chegava para todos. Unia-os o poder, o único cimento que podia unir um partido que, desde a sua fundação, nunca conheceu um verdadeiro debate ideológico, por mais que o mundo e os tempos fossem mudando. Mas assim que Cavaco se ergueu ao assento etéreo a que estava destinado em Belém, e logo que Durão Barroso se pirou, sem sequer olhar para trás, à primeira oportunidade caída do céu, o PSD regressou ao seu hobby preferido: a conspiração interna e eterna. Para quem vê de fora, é muito difícil seguir as guerras de nomes e as alianças que lá dentro se fazem e desfazem e, sobretudo, perceber o que lhes está subjacente, além da contagem de espingardas, cargos, nomeações, caciques eleitorais, negócios ou qualquer outra coisa. Raras, raríssimas vezes, política.

Aos poucos, as coisas foram até piorando, pois que, como sucedeu também no outro grande partido tradicional de governo, o PS, os melhores foram-se afastando. Por razões que têm que ver com o desgaste da actividade política exposta a alguma imprensa de sarjeta ao nível do esgoto das redes sociais, mas também do massacre do estilo de cacicagem constante a que obriga a ascensão interna dentro de um partido. António José Seguro exemplificou-o bem no PS: não era preciso ter nenhuma ideia ou projecto político a prazo mais longo do que quinze dias: era preciso, sim, saber de cor o nome de todos os presidentes das distritais e concelhias e, se possível, dos vice-presidentes, das mulheres e dos filhos. Isso fechou as portas a quem vinha de fora, a quem tinha outra vida lá fora ou a quem tinha mais que fazer. Tal como Seguro, no PS, também Passos Coelho veio assim lá de baixo, da juventude partidária do PSD, até ao topo: toda uma escola de militância, não de reflexão política. Quando se sentiu preparado, escreveu um livrinho com umas ideias básicas e mágicas de como governar Portugal (fruto de várias contribuições de gente simples com ideias básicas) e ficou à espera que o poder lhe caísse nos braços. Caiu-lhe, sim: caí-lhe o poder, a troika e Paulo Portas. Convenhamos que era demais para qualquer um, quanto mais para quem tudo o que tinha de experiência na vida era ter colado cartazes na JSD e ter concorrido a uns fundos europeus para fazer formação para um suposto pessoal de uns aeródromos-fantasmas com que o interior do país iria ser coberto, sabe-se lá para quê, para quem ou para que aviões. Exactamente o oposto do desperdício que ele depois nos venderia como o mal absoluto a abater — e com razão.

Já toda a gente disse de Passos que a sua principal característica, e até qualidade, era a teimosia. A teimosia é, de facto, uma qualidade, desde que se esteja certo: Churchill é o melhor exemplo histórico disso. Mas quando se está errado, a teimosia de um governante é apenas um sintoma de arrogância do próprio e um desastre para os governados. Pagámos muito cara a teimosa obstinação de Passos com a versão punitiva-austeritária que Bruxelas e Berlim nos impuseram e que hoje todos, menos Passos, reconhecem ter sido, na sua dimensão e na sua duração, um erro que nos custou sacrifícios inúteis e trágicos. Não sendo, seguramente, nem uma pessoa mal intencionada nem desonesta, não tendo, como tantos outros, usado a política para seu benefício pessoal, chega a ser impressionante como é que essa teimosia de Passos Coelho não lhe permitiu reconhecer contra a opinião revista de todos os seus parceiros de então — UE, BCE, FMI — e contra todos os factos e números — crescimento da economia e do emprego, aumento das exportações, diminuição acelerada do défice — que afinal podia haver outro caminho que não o do “empobrecimento criativo”. É ele contra dez milhões de portugueses. Quando este fim-de-semana fizer o seu discurso de despedida do PSD, certamente que será amargo e pessimista, como vem sendo sempre, desde que a impensável jogada florentina de António Costa lhe roubou uma vitória eleitoral que, dadas as circunstâncias, tinha sido até notável. Dirá que os bons números da economia escondem um ciclo de ilusão que mais tarde ou mais cedo se esfumará, assim que razões internas ou externas dissiparem o nevoeiro e ficar a nu que nada de essencial este Governo fez para evitar que nos encontremos desarmados perante nova crise como a de 2008. Terá razão nisso, apenas lhe faltará explicar como é que com tantos sacrifícios impostos pelo seu Governo, com um ambiente propício a limpar de vez tantos cancros instalados na administração do país, ele se limitou a ter coragem para fazer o mal gratuitamente.

Avança então esse notável desconhecido que é Rui Rio. Ainda mal abriu a boca e já um saco de gatos lhe saiu ao caminho, uns criticando-lhe o que não disse, outros exigindo-lhe que diga o que os vencidos das eleições internas disseram. Um tal de Pinto Luz, ainda mais desconhecido da gente, ou um “senador”, como Marques Mendes, querem que ele garanta já que votará contra o Orçamento de 2019, a apresentar daqui a nove meses — antes de fazer uma pequena ideia das suas linhas gerais e da conjuntura interna e externa de então. Outros exigem-lhe uma oposição “dura” e intransigente” a qualquer aproximação ou proposta do PS, de modo a empurrar Costa para os braços e as exigências da extrema-esquerda. Acham que esse extremar de posições do PS, fomentado pelo PSD, será o caminho para a derrota de Costa. E se não for, se Rio não aproveitar, será o caminho para o afastamento deste. Chama-se a isto no bridge deixar o adversário squezeed: se puxar a espadas, ele lixa-o nas copas; se puxar a copas, ele lixa-o nas espadas. E o país? Ah, isso agora não interessa nada! É o PSD em congresso.


(Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia)