PSD: uma sabotagem muda, anónima e cobarde 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 26/02/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

“Há um problema não de natureza política mas ética”, disse sobre o PSD Fernando Negrão. O novo líder parlamentar do partido, escolhido por Rui Rio apesar de ter sido apoiante de Pedro Santana Lopes, teve apenas 35 votos favoráveis apesar da sua direção contar com 37 nomes. O que quer dizer que houve pessoas que aceitaram integrar a lista mas, no segredo da urna, votaram contra ela. Assim como quer dizer que, dos 53 que votaram branco e nulo (o que raio quer dizer um voto nulo de um deputado?), todos queriam outro líder parlamentar mas nenhum se chegou à frente.

Tenho lido muitas análises excessivamente otimistas em relação ao que está a acontecer. Recordam grupos como os das Opções Inadiáveis ou da Nova Esperança, quando se organizavam revoltas contra ou a favor de aproximações ao PS. À conversa sobre os entendimentos com os socialistas lá irei, noutro texto. Mas este, por tratar do processo de sabotagem a um líder acabado de ser eleito, não tem essa dignidade. Rui Rio não tomou ainda qualquer decisão, não deu qualquer passo que não tivesse sido anunciado em campanha. Esta revolta resulta de qualquer opção estratégica.

Sem qualquer rosto para liderar as tropas, os passistas apenas trabalham na derrota clamorosa do PSD nas próximas legislativas. Provavelmente para garantir a Costa uma maioria absoluta que provoque uma crise interna no partido

Aquilo a que estamos a assistir é ao estertor de um grupo parlamentar de qualidade bastante baixa – os maiores partidos da oposição costumam ter os melhores deputados, porque não os perdem para o Executivo –, onde Luís Montenegro consegue parecer um príncipe da política e Hugo Soares já é visto como alguém a ter em conta. A maioria destes deputados sabe que não terá lugar nas próximas listas e não tem, por isso, nada a perder. Não há qualquer motivação estratégica e programática no comportamento pouco ético dos deputados do PSD face ao líder eleito pelos militantes. Há apenas e só uma tentativa de sabotagem para impedir que Rui Rio consolide o seu lugar, obrigando-o a depender da vitória nas próximas eleições legislativas (muitíssimo improvável) para ficar no lugar.

Há uma diferença entre a forma como o PS e o PSD lidam com as suas contendas internas. O PS, depois de cada guerra, por vezes bem mais fratricida do que as do PSD, volta a integrar. José Sócrates foi o mestre nisso, mas Costa também o fez. Os seus grupos parlamentares são relativamente estáveis e, tirando um ou outro fogacho, os deputados obedecem aos novos líderes. Pelo contrário, a bancada do PSD é frequentemente varrida. O grupo de António José Seguro, que até tinha mais razões de queixa de António Costa do que os passistas têm de Rio e que foi muito mais violento na campanha do que os apoiantes de Santana Lopes, não foi purgado. Todos os que quiseram assumir novas responsabilidades assumiram. A história das guerras internas entre socialistas são épicas, desde o ex-secretariado a cisões formais, mas os processos de pacificação passam mais pela reintegração do que pelo afastamento. No PSD, cada novo grupo parlamentar tende a replicar as novas lideranças. Não é difícil perceber porquê: com todas as suas ambiguidades, o PS tem um corpo ideológico ou pelo menos de pertença a uma família ideológica que lhe dá identidade. Essa identidade permite uma unidade que, ao contrário do que acontece no PSD, não se faz exclusivamente em torno do líder.

A verdade é que esta revolta muda, anónima e cobarde, em vez do enfrentamento – os opositores de Rio até recorreram a uma barriga de aluguer para o enfrentar – socorre-se da sabotagem. Sem qualquer rosto para liderar as tropas, os passistas apenas trabalham para a derrota clamorosa do PSD nas próximas legislativas. Provavelmente para garantir a Costa uma maioria absoluta que provoque uma crise interna no partido. Não estamos perante um verdadeiro confronto entre visões diferentes do que deve ser o PSD, apesar dessas diferenças existirem. Estamos perante uma política de terra queimada para que, no meio dos escombros eleitorais do partido, o espírito do passismo renasça e, com um protagonista ainda não encontrado, reconquiste o PSD. Ou, pior do que isso, estamos apenas a assistir à birra de quem, sabendo-se vencido e sem futuro, não aceita partir sem provocar estragos.

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Passaram ainda além da Traquitana

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 23/02/2018)

quadros

Tudo leva a concluir que o PSD é um partido aos pedaços. (…) Se alcunharam o actual Governo de Geringonça, o mínimo é dar o nome de Traquitana a este PSD.


O PSD pós-congresso não é um saco de gatos, é um ninho de vespas aziadas. Dos apupos à ex-braço-direito de Marinho Pinto, agora vice-presidente do PSD, passando pela voz não tão grossa, mas grosseira, de Montenegro – que afirmou no congresso: “Não deixe que o PSD se transforme no grupo de amigos de Rui Rio ou na agremiação dos amigos de Rui Rio”, enquanto se preparava para formar um PSD de inimigos de Rui Rio – até à falta de Hugo Soares a uma reunião da Comissão Política, justificada por Rio e absolutamente injustificável segundo o ainda líder da bancada parlamentar, tudo leva a concluir que o PSD é um partido aos pedaços. Se a chamada Geringonça tivesse um dia assim, seria o fim. Se alcunharam o actual Governo de Geringonça, o mínimo é dar o nome de Traquitana a este PSD.

Enquanto Rui Rio se reúne duas horas e meia com António Costa para iniciar uma espécie de diálogo educado, a vice-presidente diz, em entrevista à SIC Notícias, que o actual Governo lhe “repugna por ser de esquerda”. Deduzimos que Rio terá ido para a reunião com Costa munido de um daqueles sacos para vomitar que há nos aviões. Sendo esta crónica sobre o Congresso do PSD, não poderia deixar de recordar Sá Carneiro. Esta frase da ex-bastonária da Ordem dos Advogados faria Sá Carneiro dar voltas no caixão; o que seria terrível porque poderia dar origem a mais uma comissão de inquérito ao caso Camarate. Penso que o próprio Passos não chegaria tão longe. Ou seja, Elina foi além do Passos, proeza difícil se relembrarmos que o primeiro foi além da troika.

Escrevo esta crónica na noite de quarta-feira, na verdade já é quinta e, para bem de Rui Rio, suponho que quando o estimado e esbelto leitor estiver a ler, já Fernando Mimoso Negrão será o novo líder parlamentar do PSD. Não quero fazer trocadilhos com o apelido do recém-eleito, mas sempre achei que dava um excelente nome para actor de filmes porno. Dá jeito porque vai ser esse o ambiente na bancada que vai gerir.

Acrescentando a tudo isto, que descrevi nas linhas anteriores, Santana Lopes, que no Congresso foi quem protegeu Rui Rio como se fosse o seu bebé, talvez por solidariedade ao que teve de passar enquanto ainda estava na incubadora, veio avisar, e cito, não vão pensar que sou eu que uso uma linguagem popular: “Se Rio disser que vai para um Governo do PS, temos o caldo entornado.” Santana, desta vez, não anda por aí, está aqui, em cima de Rio.

Entretanto, o denominado, com algum exagero, líder do PSD aparece sorridente na televisão, fazendo um sorriso às polémicas, e afirma: “Vai haver mais histórias. Cá estou para elas. É disso que eu gosto.” Espero que Rui Rio não seja daquelas pessoas piegas que gosta de histórias com um final feliz.


TOP 5

Partido aos pedaços

1. Carrilho paga €2.400 para evitar prisão devido a agressões a pedopsiquiatra – Freud explica.

2. O Parlamento discutiu na quarta-feira uma resolução do PCP que apela à desvinculação do acordo ortográfico – O Jerónimo escreve segundo o português antigo e pensa segundo um português ainda mais arcaico.

3. Segundo a ciência, o sol deixa-nos mais felizes – Até descobrires que tens um melanoma.

4. Rui Rangel recebeu 270 depósitos em notas – Este Jacinto Leite Capelo Rego é um gastador.

5. Censurada na ARCO obra sobre “presos políticos” em Espanha – Só o facto de “presos políticos” estar entre aspas já é uma forma de censura.

À espera de um Godot, que não lhes virá garantir a salvação

(Jorge Rocha, in Ventos Semeados, 23/02/2018)

GODOT

A votação para líder parlamentar do PSD, que correspondeu a uma verdadeira humilhação para o eleito e para o novo presidente do partido, vem ao encontro da tese relativa a uma expetável quebra nas legislativas de 2019, que tornem transitória a atual liderança. Mas a crise no PSD promete ser duradoura e prolongar-se pela próxima década adentro, se é que não implicará o seu fracionamento, já que Santana Lopes poderá sempre resgatar do sótão a velha ideia de um Partido dito Liberal apenas feito para satisfação do seu ego.

Compare-se a situação atual com a de há dez anos atrás, quando a crise financeira começava a dar sinais de vir a ocorrer , embora sem se julgar possível a dimensão verificada a partir de 15 de setembro desse ano, quando a Lehman Brothers abriu falência.

Na altura os grandes empresários já se tinham desafeiçoado de José Sócrates, que haviam louvaminhado como sendo o governante ideal para o país, quando lhes parecera permeável às suas pretensões. Bastou que muitos deles vissem frustrados os seus projetos de avultados negócios (e ainda mais lautos lucros) para que o transformassem no inimigo de estimação pronto a abater, como ocorreu com Belmiro de Azevedo, frustrado na ambição de monopolizar as telecomunicações e desde logo com o «Público» a servir-lhe de veículo de denegrimento constante do então primeiro-ministro.

 Por essa altura essa classe social já estava a promover Passos Coelho como sua almejada marioneta. Sabiam-no cábula enquanto estudou, mas tinha boa figura (o que poderia adoçar o eleitorado feminino, que o rival socialista houvera seduzido!) e tinha umas megalómanas ideias, que eram como o melhoral, não faziam bem, nem mal. O frustrado barítono pretendia mudar a Constituição como se ela fosse problemática para as negociatas do universo BPN & Associados e manifestava uma admiração beatífica pela Singapura do ditador Lee Kuan Yew. Replicar o «sucesso» desse tigre asiático nesta cantinho à beira Atlântico plantado figurava nas intenções do títere, como se as circunstâncias fossem replicáveis.

A conquista do poder por essas direitas políticas e dos negócios também andava bastante bem lançada com a campanha de marketing trapaceiro, que visava meter no imaginário coletivo as ideias, que bem caras viriam as revelar-se aos tontos, que nelas acreditaram como se fossem dogmas papais: que a gestão privada é sempre melhor do que a pública, que desnacionalizando serviços eles ficariam bastante mais baratos e com uma qualidade irrepreensível. E, porque havia que dar cabeças-de-cartaz para a excelência dos gestores privados essa foi a época de ouro de Zeinal Bava, de Paulo Teixeira Pinto, de António Mexia e outros que tais, cujos obscenos salários faziam corar de vergonha os mais talentosos craques do nosso futebol.

Houve até o caso caricato de João Rendeiro, presidente da Administração do BPP que, na semana de lançamento do seu livro encomiástico em que se dava como possuidor de um toque de Midas, foi preso e dado como fraudulento com direito a prisão. Esse exemplo não bastou para que os inocentes abrissem os olhos e evitassem oferecer o pescoço à degola, prosseguindo nesse crescente fervor por Passos Coelho.

Quando chegou o seu momento de glória o mais que tudo dos restaurantes finos de Lisboa não encontrou problema em disfarçar o vazio ideológico, que lhe varria a mente, porque a troika trazia um programa político-económico pronto a aplicar. O entusiasmo foi tanto, que ao grito de mata, logo ele gritou esfola, condenando o pobre do contribuinte a enormes aumentos de impostos, a cortes em ordenados e pensões e ao desaparecimento súbito de milhares de empregos. Convencido de que os portugueses mereciam a punição por serem os madraços do sul da Europa, que os alemães e holandeses zurziam a bel-prazer, Passos Coelho sentiu-se na pele de um pregador a quem o Deus todo poderoso da finança internacional entregava a tarefa de convencer os que teimavam em não lhe serem devotos.

Vem toda esta evocação para lembrar que há dez anos as direitas políticas e dos negócios tinham tudo pelo seu lado: uma crise económico-financeira em que poderiam surfar para defenestrar os socialistas, um político visualmente jeitoso, que ficasse bem nos cartazes eleitorais e nas televisões e todo um programa assente em desregulamentações e privatizações devidamente almofadado numa série de ideias feitas, que se pretendiam irrefutáveis, mas se viriam a revelar trágicas no seu logro.

Dez anos depois o que lhes resta? Onde estão os grandes empresários capazes de causarem admiração aos tolos que os não viam na sua essência de se interessarem exclusivamente pelos seus lucros? Onde andam os gurus, que levavam as revistas do tipo «Exame» a dar-lhes capas e a proclamar-lhes a genialidade? Onde anda a Igreja Católica na época ainda capaz de arregimentar votos de acordo com as instruções dos padres curas? Onde andam os líderes políticos capazes de enunciar uma ideiazinha, mesmo que pequenina, para o melhoramento da vida dos portugueses?

Dirão os mais avisados, que as televisões e os jornais andam a pelar-se por que chegue o Godot, que tire essas direitas das angústias existenciais em que vai vegetando. Mas espera-os o vazio, esse terrível nada, que tanto horror suscita a quem o pressente…


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