Marcelo, Costa, Passos: pode alguém ser quem não é?

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 02/09/2016)

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Na recente abertura da Feira do Livro que durante quatro dias decorre em Belém, o Presidente da República revelou que perguntou ao primeiro-ministro se ele pensava que a iniciativa correria bem – ao que, segundo Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa lhe terá respondido (“o primeiro-ministro é sempre muito otimista”) que não tinha tempo para passar por lá mas seguramente que iria correr bem. Em contrapartida, Pedro Passos Coelho diz que não está tão confiante como Marcelo no cumprimento do défice orçamental para este ano. “Com os dados que tenho, não posso estar tão otimista como o Presidente da República”. Todos cumprem o seu papel. Mas também o cumprem de acordo com o que intrinsecamente são.

Marcelo Rebelo de Sousa é um otimista. A sua visão do mundo é positiva e a vida não é seguramente para ele um calvário. Acresce que, sendo cristão, não há de ter esquecido o perfil que Passos Coelho detalhou para o futuro candidato do PSD às presidenciais: alguém que não fosse um cata-vento político, mudando de posição com facilidade, dizendo hoje uma coisa e amanhã o seu contrário, um retrato que na altura foi interpretado como sendo dirigido a Marcelo e visando inviabilizar a sua candidatura a Belém.

Conhece-se o resto da história: Marcelo fez uma campanha “a solo”, dispensou apoios partidários no seu “staff”, percorreu o país no seu carro contando apenas com a sua popularidade televisiva e ganhou com uma perna às costas, de forma a poder dizer alto e bom som que não depende de ninguém nem está preso a nenhuns compromissos.

Assim, que chegou a Belém, encontrou a sua alma gémea no primeiro-ministro e um aliado de ocasião para aquilo que pretende: a substituição de Passos à frente do PSD. Costa é tão otimista como Marcelo ou mesmo mais. Mas é surpreendente como o Presidente, sendo de uma família política diferente, tem posto sucessivas vezes a mão por baixo do Governo, atravessando-se por ele em casos como as sanções, ou o andamento da economia, ou o cumprimento do défice.

Costa reconhece a importância desse apoio. Fala várias vezes por dia com o Presidente. Acerta estratégias, concerta posições a nível externo, fazem viagens conjuntas. Nunca se viu, em 40 anos de democracia, tal nível de cumplicidade entre um Presidente da República e um primeiro-ministro.

Passos, por seu turno, cumpre o papel de líder de oposição: critica a evolução económica, levanta dúvidas sobre o cumprimento do défice, diz (dizia) ser impossível recapitalizar a Caixa sem ser ao abrigo das ajudas de Estado, garante (garantia) que se o país fosse alvo de sanções a responsabilidade seria da política económica do Governo, assegurou que vinha aí o diabo.

O problema de Passos é que as melhores hipóteses que tem de regressar ao poder passam por um descalabro económico, que leve o país a pedir nova ajuda internacional. Ora não há nenhum português que queira regressar ao período duríssimo do ajustamento, que foi protagonizado, por atos mas também por palavras muito duras, por Passos (que chamou ao povo português “piegas” e que disse que “só saímos disto empobrecendo”).

Mesmo dentro do PSD há um incómodo crescente com o discurso azedo e catastrofista de Passos – que se reflete, aliás, nas sondagens, aparecendo o PS e o BE mais próximos de uma maioria absoluta e o PSD a não capitalizar o eventual descontentamento que possa existir com o Governo.

Voltamos, contudo, ao princípio. Alguma vez Marcelo ou Costa serão pessimistas? E alguém espera que Passos consiga mudar o registo do seu discurso e aparecer aos cidadãos anunciando um futuro de mais esperança? As respostas são todas negativas. Ninguém muda a sua essência. Ninguém pode ser quem não é. E é na mão deles que está o futuro do país.

O vidente de Massamá

(In Blog, O Jumento, 29/08/2016)
DEtector Mentiras

( Cartoon In Blog 77 Colinas, 2/08/2016)

Não deve ser fácil ser líder da oposição sem ter um projecto ou propostas, apostando apenas numa calamidade pública, nas divergências dentro da geringonça ou esperando por uma zanga entre Costa e Marcelo. Passos perdeu quase um ano a digerir a derrota, começou com a pantomina do primeiro-ministro no exílio, a que se seguiu um quase desaparecimento e regressa agora armado em vidente.
Passos está tão convencido que sem si no poder só acontecerão desgraças que se transformou numa espécie de Vidente de Massamá. Passos chegou ao poder graças a uma crise financeira, exerceu esse poder sem limites contando com a chantagem externa e parece apostado em que se repitam essas circunstâncias. O presidente da Comissão Europeia mudou, o BCE mudou de política, o líder do PS mudou, a residência da República mudou, mas Passos recusa-se a mudar, lembrando a senhora que descobriu que o seu rebento era o único com o passo certo na parada do juramento de bandeiras.
Passos não tem qualquer programa e mesmo sabendo que Marcelo nunca lhe permitira governar à margem da Constituição e que um PS liderado por António Costa não alinharia nas suas políticas como sucedeu com Seguro, insiste nas suas soluções extremistas.
Passos parece estar a perder a noção da realidade e o seu discurso começa a assemelhar-.se ao de alguém que bateu com a cabeça nalgum lado. Num dia diz que os investidores só voltarão a Portugal com ele no poder, no outro arma-se em analista de execuções orçamentais e só vê desgraças e até já lhe deu ara fazer adivinhações com dois meses de antecedência.
Em vez de ideias Passos prefere mostrar o estado da sua cabeça e começa a ser óbvio que este ano que passou não lhe fez muito bem, começa a evidenciar sinais de loucura, a perder consciência da realidade. Esta nova versão de Passos, a do Vidente de Massamá não promete nada de bom e até parece que o líder do PSD adivinhou a sua própria desgraça.

Memória dos que não sobram

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 26/08/2016)

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Baptista Bastos

O movimento das coisas fez revolutear muitas consciências, e democratas instantâneos como o pudim flan surgiram do lodo para construir o seu pessoal destino.


Durão Barroso, Maria Luís Albuquerque, Paulo Portas, Vítor Gaspar, Carlos Moedas, outros mais, serviram quem entenderam dever servir, e foram à vida. Quero dizer: ajeitaram melhor o seu pessoal caminho. Maria Luís ainda aguarda. Aguarda a subida ao poder, depois de Pedro Passos Coelho ser abalroado. O cenário é perturbador. No Pontal, o dirigente máximo do PSD pareceu uma careta de si mesmo. Acentuaram-se-lhe, por moto próprio, os gestos, o sorriso bisonho, o discurso paralelo à ofensa dos outros, e aquele ar de triunfo obrigatório que parece ser um tique nervoso de quem comanda à Direita.

Todos estes acontecimentos são deploráveis pelo que revelam de ócio mentiroso. Quando do 25 de Abril, as pessoas, na generalidade cansadas do fascismo beato, irmanaram-se para proceder a uma alteração histórica nos destinos da pátria. Foi quando a revolução desceu à rua, e aqueles que a não assistiram perderam um dos momentos cruciais da história pátria. Houve democratas instantâneos como o pudim flan, e outros, atemorizados com o desenrolar as coisas, que fugiram para o Brasil, lá permaneceram até que a poeira deixou de estremecer as consciências e tudo voltou quase à mesma.

O movimento das coisas fez revolutear muitas consciências, e democratas instantâneos como o pudim flan surgiram do lodo para construir o seu pessoal destino. Durão Barroso é um desses triunfadores de algibeira. O destino social e político deste homem segue, paralelo, o destino da pátria, sempre sacudida por atenções momentâneas de pessoas sempre prontas a virar o casaco e a fazer melhor vida pessoal. Não me detenho muito nestes casos passionais, mais próprios do momento e da inexistência de carácter. Sei muito bem que os que ficam são tidos como marginais, gente antiga e fora do contexto. E, acaso, todas estas acusações sejam verdadeiras. Mas vejo essa população ainda imensa, que se sujeitou a acreditar nos sonhos, e sinto que ela tem a razão que alimenta a vida e constrói os ideais possíveis.

É lógico que as coisas mudaram, e mudam substancialmente cada dia que passa. E sei que, para muita gente, é difícil adaptar-se a estas normas novas, recuperadas de tradições antigas. Com certa emoção (confesso), sigo as travessias, os gritos e ainda as esperanças desses meus compatriotas. No contexto político mais alargado de todo o mundo, essa gente ainda é aquilo que resta, o que sobra do que ficou dos sonhos antigos. E todos nós sobrevivemos.