Entre a mentira e o logro

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 14/11/2024)


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Nós, a multidão, passámos estes últimos anos a ser bombardeados com um novo léxico político: “desinformação”, “fakenews”, “nova normalidade”, “intrusão”.

A relação dos seres gregários funda-se na confiança. É assim num formigueiro, numa colmeia, numa alcateia, numa tribo, numa formação militar, num gangue. Na constituição de equipas para operações especiais uma das perguntas aos candidatos era: quem escolhias para te acompanhar na travessia de um rio perigoso? Isto é, em quem confias.

A organização social e a organização política que dela decorre assenta na relação entre autoridade e fiabilidade. As notas de banco são credibilizadas pela assinatura do governador, os decretos reais continham um selo de chumbo e lacre com as armas do soberano. As mobilizações para uma guerra são assinadas pelo comandante-chefe. As grandes campanhas, as fatwa, as cruzadas, as descobertas dos europeus foram decretadas com base numa verdade que as tornava imperiosas. Acreditámos no segredo profissional de médicos e advogados. Na reserva da nossa correspondência. Acreditámos nos editais e nos calendários. Eram a verdade. Hoje a verdade é uma ratoeira. É um som transmitido por um karaoke, é uma mercadoria. As nossas doenças, as nossas confissões, as nossas escolhas são vendidas, na melhor das hipóteses. Na pior, matam, como os pagers que uma empresa de telecomunicações vendeu a Israel para assassinar eventuais inimigos.

Na Bíblia, Cristo, a figura de referência civilizacional do Ocidente, proclamou: Eu sou a verdade! Maquiavel, com os pés na terra e rodeado de semelhantes, adaptou um estado ideal que de facto nunca existiu e preferiu escrever sobre a realidade concreta, estabelecendo o conceito de verdade efetiva das coisas (veritá effetuale), fundamental para compreendermos o interesse pela realidade como ela é e não como uma projeção idealizada. A verdade efetiva serviu de padrão para aferir a correspondência entre o “discurso público” dos políticos e dos dirigentes e a necessidade de obter a adesão a uma realidade. Mas a palavra continha sempre uma intenção de verdade. Os membros da sociedade continuavam a jurar. A honra continuava a ser um valor e a desonra uma nódoa infamante.

A justificação da existência de armas de destruição em massa por parte do governo de Saddam Hussein para George Bush Jr decretar a invasão do Iraque terá sido o exemplo mais próximo e mais marcante da passagem da “verdade efetiva” para a pós-verdade. Pós verdade é um eufemismo para um tipo de mentira, que pode percorrer vários patamares, da pura invenção, por mais inverosímil que seja, à manipulação de factos que podem ser plausíveis e às promessas irrealizáveis de salvação. A pós verdade é o sinónimo do logro declinado nos vários significados, de burla, de engano com dolo, de fraude, de intrujice, ludíbrio, de trampolinice, de trapaça. Vivemos no reino do logro. Do tipo das barras batizadas de “delícias do mar” e que não são nem peixe, nem marisco e que nem passaram pelo mar.

A invasão do Iraque marca uma nova era no Ocidente na relação entre governantes e governados: a vitória dos grandes aparelhos de manipulação sobre a realidade, a transformação dos cidadãos em espetadores de espetáculos de efeitos especiais, a purificação dos canalhas e a sua transmutação em exemplos, como é o caso de Paulo Portas ou Durão Barroso, os videntes que viram as provas da mistificação que justificou a invasão do Iraque e que são hoje criaturas tidas por decentes e respeitáveis. A política passou a replicar os jogos da Marvel e os políticos surgiram como “transformers” e vendedores de delícias do mar como se fossem lagosta.

Do mesmo modo que a metralhadora alterou o modo de fazer a guerra na Grande Guerra, que a arma atómica alterou a a forma de as grandes potencias se relacionarem após a Segunda Guerra, a guerra da comunicação da era da informação proporcionada pelas novas tecnologias alterou de novo as táticas e acentuou a insídia na guerra. A pós-verdade são as imagens mais ou menos manipuladas que surgem nos ecrãs de televisão com paisagens e pontos assinalados por uma cruz-alvo, são atores-comentadores a arengar uma narrativa como antigamente os contadores de histórias faziam nas feiras, são um grande espetáculo de massas. Para os manipuladores da opinião, o genocídio de Gaza é um festival de efeitos especiais. A multidão mundial está tão anestesiada pela mentira que não reage. Estamos impermeabilizados. Os pilotos israelitas que bombardeiam Gaza marcam pontos no seu ecrã de videojogos. A pós verdade é a desumanização. Começa por ser a desumanização dos outros e acabará por ser a desumanização dos detentores das máquinas de jogos, sejam caças F35 ou drones.

Os europeus, com a velha arrogância, têm apresentado a nova arte de manipular as opiniões como uma especificidade americana, de que Trump é o mais exuberante talento. Pura mistificação. A utilização da mentira e do logro sob a designação de pós-verdade está tanto na ordem do dia na Torre Trump em Nova Iorque como no edifício Berlaymont em Bruxelas, sede da Comissão Europeia. Ursula Vaon Der Leyen e os seus comissários mentem, inventam e manipulam tanto quanto a nova administração Trump. E mentem sobre os mesmos grande temas, as guerras na Ucrânia e na Palestina, mentem quanto a promessas de uma nova era de leite e mel se continuarem a drenar fundos para essas guerras, mentem quanto aos objetivos de fazer a América Grande de Novo ou a Europa um continente de prosperidade, desde que derrotem os russos, os chineses, saqueiem África, dominem o Médio Oriente e determinem o preço do petróleo, rasguem os protocolos sobre as alterações climáticas, fechem as fronteiras aos imigrantes provocados pelas suas guerras.

Que diferenças, exceto de forma, existe entre o discurso pistoleiro de Úrsula Von Der Leyen, de Borrell e da sua sucessora Kallas como representante da política externa da U E, da neoliberal Albuquerque dos secretários da nova administração Trump? Que diferença existe entre os e as warmongers americanos e americanas dos e das warmongers da União Europeia? A diferença da relação entre a verdade e a realidade no discurso dos dirigentes americanos e dos dirigentes europeus é a mesma entre um carniceiro e um assassino de arma fina. Os painéis de pastores das TV portuguesas não diferem dos painéis dos pastores nos Estados Unidos. A norma é o televangelismo.

A percepção de que a Europa não é o folclore americano resulta da desinformação a que somos sujeitos através da “armamentização” da comunicação social. O filósofo Marshall McLuhan escreveu há anos que “o meio é a mensagem”. A diferença entre a mentira sob o eufemismo de pós-verdade americana e europeia é que nos Estados Unidos o meio é agora Elon Musk, o homem mais rico do mundo que comprou uma plataforma de comunicação global, o X, e é o chefe de estado sombra do que era a maior superpotência do mundo. Essa é a diferença. Uma diferença de armamento e de dimensão entre uma tromba de água e um regador. Os Estados Unidos com a sua rede de satélites e de empresas de dados e comunicações, da Starlink ao Google, podem fazer descarregar um dilúvio de mentiras, ou de pós-verdades sobre o mundo, uma “dana” como a de Valência à escala planetária e a Europa não consegue provocar mais que chuviscos, mesmo com as tentativas em curso de censura e domínio dos meios de comunicação que ainda restam no domínio público ou fora dos grandes conglomerados.

No essencial, a germinação e cultivo em estufa de dirigentes quer nos Estados Unidos quer na Europa obedece ao mesmo processo: um grande apoderado paga uma generosa bolsa de estudos para um seu pupilo vir a ocupar um lugar na administração do Estado que favoreça os seus negócios. Musk financiou Trump, mas Peter Thiel, o cofundador do PayPal, rastejando nas sombras, garantiu que o seu homem, JD Vance, entrasse no par presidencial como vice-presidente. Jeff Bezos, atrasado para a festa, entrou na onda falhando alguns dias, mas garantindo que o seu Washington Post não endossasse nenhum candidato. Aqui na Europa ninguém que coloque em causa as verdades únicas da guerra na Ucrânia e do aumento das despesas militares chegará a qualquer posto de relevo. Apenas têm lugar à manjedoura os que que puxam a carroça do dono.

Quer nos Estados Unidos quer na Europa existe uma oligarquia no poder que funde os negócios do Estado e os negócios privados e constitui uma elite governante. Os negócios renderão biliões, milhões de pessoas morrerão e incontáveis crimes serão cometidos. Como li em algum lugar: “Estamos além do espelho. Estamos todos a viajar pelos esgotos da informação. Trump é um bacilo, mas o problema são os canos.” E pelos canos escorrem muitos outros dejetos.

O essencial são os valores. O valor da palavra dada. A democracia assenta no caráter dos cidadãos e em particular dos que têm maiores responsabilidades. Quando não há caráter há canalhas. Temos um regime de canalhas. Quando se abicam dos valores criamos um mundo de faquistas e de trafulhas.

Política americana para 2025 – o que não vai mudar…

(João Mc-Gomes, in VK, 13/11/2024)


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Na minha simplicidade cidadã e como um “não estudioso” da matéria politica mundial, mas considerando-me um relativo “atento” à gestão politica mundial que tem sido trazida pelos novos dirigismos, assentes nas novas politicas liberais que “enfermam” todas as grandes nações na procura das correções aos problemas maiores e menores, anteriormente conduzidos mais por questões ideológicas do que económicas e que – hoje – são mais económicas do que ideológicas, face ao facto de se ter permitido paulatinamente – pela via da corrupção politica – que o Mundo global fosse “absorvido” pelos grandes interesses do capital (que, não tendo ideologia, se espalhou praticamente em todos os paises desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, onde procura influenciar politicos e empresários), percebe-se que a “bolha americana” de desenvolvimento chegou ao seu ponto mais alto e que a sua “democracia formal” não consegue encontrar alternativas conducentes à aplicação de soluções que façam “reviver” as suas indústrias, o seu comércio e a sua economia.

Há muitos anos vivendo sob o “chapéu mundial” que lhe permite desenvolver as suas diversas atividades, os EUA começaram a enfrentar há cerca de 20 anos um desenvolvimento mais acelerado, mais prático e menos oneroso do que uma China muito mais bem organizada e que começou a mostrar capacidades insuspeitadas para passar da mera “cópia” de plástico de artigos ocidentais, para a alta tecnologia que a transportou para a ciência espacial e para a industria e o comércio em larga escala, trazendo com isso a “ocupação” dos mercados mundiais anteriormente detidos por outros.

Num pequeno exemplo prático: enquanto a China desenvolvia a colocação de milhões de lojas em todo o Mundo para exportar os seus produtos, os EUA continuaram na politica das joint ventures abrindo os seus negócios através de terceiros e perdendo o controlo da distribuição do seu comércio, ao mesmo tempo que fazia fabricar em paises terceiros – incluindo a China – alguns dos seus produtos próprios para diminuição dos custos de produção. Isso traduziu-se na paulatina perda de mercado e no enfraquecimento das suas industrias locais.

Ora, o ambiente social nos EUA iniciou a sua degradação não há 10 ou 20 anos, mas há 30 ou 40, quando se deu incio ao processo económico de transferência das suas industrias e comércio para o exterior e as grandes multinacionais se procuraram localizar “fora de portas” mas tendo que seguir os critérios fiscais, financeiros e estruturais exigidos por terceiros.

Observando isso, a recente vitória republicana nos EUA reflete divisões profundas e crescentes na sociedade americana, resultado de múltiplos fatores sociais, políticos e económicos. Essas divisões não são apenas ideológicas, mas também estruturais e geográficas, moldadas por crises económicas e culturais que polarizam a população.

A desigualdade económica crescente alimenta frustrações populares, especialmente em estados e regiões industriais que sofreram com a desindustrialização e com políticas de globalização. A percepção de que políticas democráticas focadas em justiça social e redistribuição não alcançaram essas populações gera apoio às promessas republicanas de políticas económicas mais duras e liberais, voltadas ao empresariado e à redução de regulação, vistas como meios de recuperar empregos e revitalizar a economia.

O populismo de direita encontrou um terreno fértil, reforçado por uma comunicação divisiva e por uma retórica que explora o medo do declínio cultural e da “perda de identidade” americana. A promoção de políticas nacionalistas e mais autoritárias fortalece a base republicana, que busca uma liderança forte e menos focada em multiculturalismo e políticas identitárias.

A polarização nos valores culturais e sociais está cada vez mais acentuada. Questões sobre imigração, direitos LGBTQ+, aborto e controle de armas dividem profundamente a população. As políticas sociais democráticas, vistas por alguns como imposição de valores progressistas, criaram uma resposta adversa em estados conservadores, que apoiam uma abordagem republicana de “valores tradicionais”.

Esse cenário criou tensões democráticas sérias. A polarização extrema afeta a confiança nas instituições e mina a capacidade de compromissos bipartidários. A sociedade americana vê-se cada vez mais segmentada, o que levará a conflitos sociais graves, prejudicando ainda mais a coesão social e colocando em risco a estabilidade democrática, assim que Trump iniciar as suas politicas que vão endurecer, ainda mais, a divisão atual. Os EUA, em 2025, vão apresentar claramente um Estado ainda mais policial do que aquilo que tem sido e, se se espalham as injustiças sociais e as prisões ilegitimas, bem como as mortes pela “cor” é muito claro que esse cenário vai piorar na gestão republicana.

É de esperar um ciclo de retrocessos democráticos e desafios sociais profundos no futuro dos EUA e isso pode vir também a contribuir para o agravamento das tensões do Mundo nos locais onde os EUA assentam os seus interesses económicos, sendo o Médio Oriente um deles mas sem esquecer a questão oriental, onde Taiwan provavelmente sofrerá algum “congelamento” ao longo dos próximos anos e enquanto a questão económica entre os EUA e a China não estiver mais favorável e equilibrada para os EUA.

Porque é que a actual classe política europeia rejeita a realidade?

(GLENN DIESEN,, In Observatorio de la Crisis, 10-11-2024)

Terá a Europa a racionalidade, a imaginação política e a coragem para avaliar criticamente os seus próprios erros e o seu contributo para a crise atual, ou qualquer crítica continuará a ser denunciada como uma ameaça à democracia liberal?


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Proponho a seguinte experiência mental ao político, jornalista ou académico europeu: se fosse conselheiro do Kremlin, qual o seu conselho caso não houvesse negociações possíveis para resolver a guerra na Ucrânia? Certamente a maioria sentir-se-ia moralmente obrigada a dar respostas ridículas, como aconselhar o Kremlin a capitular e a retirar-se, apesar de a Rússia estar à beira da vitória. Qualquer impulso para aderir à razão e abordar as preocupações de segurança da Rússia seria provavelmente dissuadido pela ameaça de ser humilhado por “legitimar” a invasão russa.

O que é que explica o declínio do pensamento estratégico, do pragmatismo e da racionalidade na política europeia?

A realidade da Europa como construção social

A classe política que emergiu na Europa após a Guerra Fria tornou-se excessivamente ideológica e envolveu-se em narrativas para construir socialmente novas realidades. A aceitação europeia do pós-modernismo envolve questionar a existência de uma realidade objetiva, porque a nossa compreensão da realidade é determinada pela língua, pela cultura e por perspetivas históricas únicas. 

Portanto, os pós-modernistas muitas vezes procuram mudar as narrativas e a linguagem para ganhar poder político. Se a realidade é uma construção social, então as grandes narrativas podem ser mais importantes que os factos. Na verdade, as narrativas ideológicas devem ser protegidas de factos inconvenientes.

O projeto europeu tinha a intenção benevolente de criar uma identidade europeia comum, liberal e democrática, transcendendo as rivalidades nacionais, as divisões e as políticas de poder do passado. A relevância da realidade objetiva é questionada e as narrativas sobre a realidade refletem a crença de que as estruturas de poder podem ser desmanteladas e reorganizadas à vontade.

A prevalência do construtivismo e a ênfase nos “atos de fala” na UE levaram à crença de que mesmo quando são utilizadas análises realistas e são discutidos interesses nacionais concorrentes, é necessário legitimar a realpolitik e, portanto, acomodar socialmente uma realidade que pode ser perigosa. “Atos de fala” referem-se ao uso da linguagem como fonte de poder para construir realidades políticas e influenciar resultados. Ao reduzir a importância da competição em matéria de segurança no sistema internacional, a política de poder pode supostamente ser mitigada.

É possível construir socialmente uma nova realidade? Estaremos ignorando a competência em segurança ao não abordar a questão ou estaremos a negligenciar a gestão responsável da competência em segurança? Poderemos transcender as rivalidades nacionais concentrando-nos em valores comuns ou a negligência dos interesses nacionais levará ao declínio?

Construir socialmente uma nova Europa

O conceito de “armadilha retórica” explica como a UE chegou a um consenso para oferecer a adesão aos estados da Europa Central e Oriental quando isso não era do interesse de todos os estados membros da UE. A armadilha retórica foi armada fazendo primeiro com que os Estados-membros aceitassem a premissa ideológica de que a legitimidade do projeto europeu assentava na integração de Estados democráticos liberais.

Ao apelar para valores e normas como fundamento da UE, foi armada uma armadilha retórica e um sentido de obrigação moral foi utilizado para envergonhar os Estados-Membros da UE que vetavam o processo de alargamento. Portanto, o uso da linguagem e do enquadramento pode ter encorajado os Estados europeus a não agirem no seu próprio interesse, uma vez que foram humilhados para se conformarem.

Schimmelfennig, que introduziu o conceito de armadilha retórica, argumenta que “a política é uma luta pela legitimidade, e esta luta é travada com argumentos retóricos” (1). A armadilha retórica simplifica uma questão complexa e transforma-a numa escolha binária; apoiar o processo de alargamento ou trair os ideais democráticos liberais. Este quadro moral encerrou debates importantes sobre as potenciais desvantagens de aceitar novos membros e a melhor forma de enfrentar estes desafios.

A dissidência poderia ser esmagada porque enquadrar a questão como um imperativo moral significava que aqueles que questionavam este quadro moral poderiam ser acusados ​​de minar os valores sagrados que sustentam a legitimidade de todo o projeto europeu.

O conceito de “discurso europeu” envolve o uso de retórica emocional para legitimar uma compreensão da UE que deslegitima conceitos alternativos para a Europa. A centralização da tomada de decisões e a transferência de poder dos parlamentos eleitos para Bruxelas é geralmente chamada “integração europeia”, “mais Europa” ou “uma União cada vez mais próxima”. Os Estados não membros vizinhos que aderem à governação externa da UE fazem a “escolha europeia”, confirmando a sua “perspetiva europeia” e adotando “valores partilhados”. A dissidência pode ser deslegitimada como “populismo”, “nacionalismo”, “euro fobia” e “antieuropeísmo”, o que mina a “voz comum”, a “solidariedade” e o “sonho europeu”.

A linguagem também mudou em relação à forma como o Ocidente afirma o seu poder no mundo. A tortura tornou-se uma “técnica aprimorada de interrogatório”, a diplomacia da canhoneira é a “defesa da liberdade de navegação ”, a dominação é uma “negociação a partir de uma posição de força”, a subversão é uma “promoção da democracia”, um golpe de estado uma “revolução democrática”, invasão uma “intervenção humanitária”, secessão uma “autodeterminação”, propaganda uma “diplomacia pública”, censura uma “moderação de conteúdo”, e o desenvolvimento mais recente da vantagem competitiva da China descrito como “excesso de capacidade”. O conceito de Novilíngua de George Orwell implicava uma linguagem restritiva a ponto de ser impossível expressar desacordo.

NATO e UE: redistribuição da Europa ou “integração europeia

Os líderes ocidentais reconheceram inicialmente que o abandono de uma arquitetura de segurança pan-europeia inclusiva através da NATO e do alargamento da UE provavelmente desencadearia outra Guerra Fria. A consequência previsível da construção de uma nova Europa sem a Rússia seria redistribuir o continente e depois lutar para saber onde deveriam ser traçadas as novas linhas divisórias.

O Presidente Bill Clinton advertiu em Janeiro de 1994 que a expansão da NATO corria o risco de “traçar uma nova linha entre o Oriente e o Ocidente que poderia criar uma profecia auto realizável de confronto futuro” (2). O Secretário da Defesa de Clinton, William Perry, chegou mesmo a considerar a demissão devido à sua oposição à expansão da NATO. Perry observou que a maioria dos membros da administração sabia que esta traição criaria um conflito com a Rússia, mas acreditavam que isso não importava porque a Rússia era fraca (3). George Kennan, Jack Matlock e vários líderes políticos americanos também enquadraram isso como uma traição contra a Rússia e alertaram para uma maior divisão da Europa. Estas preocupações foram também partilhadas por muitos líderes europeus.

O que aconteceu com estes discursos e advertências sobre a instigação de outra Guerra Fria? A narrativa da UE e da NATO como uma “força para o bem” que promove os valores democráticos liberais teve de ser defendida contra a narrativa “ultrapassada” da política de poder. As críticas russas ao renascimento da arquitetura de segurança de soma zero do bloco ocidental foram apresentadas como prova da “mentalidade de soma zero” da Rússia. 

O facto de a Rússia não ter reconhecido que a NATO e a UE eram atores positivos que transcendiam a política de poder teria revelado a sua incapacidade de superar a perigosa mentalidade realpolitik causada pelo seu autoritarismo persistente e pelas suas grandes ambições de grande potência. A UE estava apenas a construir um “círculo de amigos”, enquanto a Rússia exigia supostamente “esferas de influência”.

A Rússia enfrentou o dilema de aceitar o papel de aprendiz – com o objetivo de regressar ao mundo civilizado, aceitando o papel dominante da NATO como uma força para o bem -, ou de resistir ao expansionismo da NATO e às “missões fora da zona”, sendo entao tratada como uma força perigosa que deve ser contida. Em qualquer caso, a Rússia não teria lugar na mesa de negociações na Europa. Os tropos liberais democráticos justificavam a razão pela qual o maior Estado da Europa acabaria por ser o único Estado sem representação.

A expansão da NATO e da UE como blocos exclusivos também impõe um dilema “nós ou eles” às sociedades profundamente divididas da Ucrânia, Moldávia e Geórgia. Contudo, em vez de reconhecer a desestabilização previsível das sociedades divididas numa Europa dividida, isto é apresentado como uma “integração europeia” de soma positiva, apesar do desligamento implícito da Rússia. As sociedades que favorecem relações mais estreitas com a Rússia em detrimento da NATO e da UE são deslegitimadas por rejeitarem a democracia, enquanto os seus líderes são rejeitados como “putinistas” autoritários que privam o seu povo do seu sonho europeu.

O quadro moral global convenceu os líderes europeus a apoiar um golpe para atrair a Ucrânia para a órbita da NATO. Era bem sabido que apenas uma minoria de ucranianos queria ser membro da NATO e que isso provavelmente daria início a uma guerra, mas a retórica liberal-democrata sempre convenceu os líderes europeus a ignorar a realidade e a apoiar políticas desastrosas. O bom senso torna-se constrangedor.

Os líderes políticos, jornalistas e académicos ocidentais que procuram aliviar o problema abordando as legítimas preocupações de segurança da Rússia são também acusados ​​de alimentar o moinho de Putin, repetindo os pontos de discussão do Kremlin, “legitimando” as políticas russas e minando a democracia liberal. Com a estrutura moral binária do bem versus o mal, o pluralismo intelectual e a dissidência são punidos como imorais.

Além de ser atormentada por guerras, a Europa também está em declínio económico. Os europeus compram energia russa através da Índia porque são moralmente obrigados a seguir sanções falhadas. Esta suposta virtude contribui para tornar as indústrias europeias menos competitivas. 

A desindustrialização da Europa também é causada pela destruição dos gasodutos Nord Stream, mas este acontecimento que destruiu décadas de desenvolvimento industrial caiu num buraco de memória porque os únicos dois suspeitos são os Estados Unidos e a Ucrânia. Além disso, os Estados Unidos oferecem subsídios às indústrias europeias que deixarão de ser competitivas se passarem para o outro lado do Atlântico. Na ausência de narrativas aceitáveis, os europeus simplesmente permanecem em silêncio e não defendem os seus interesses nacionais. A narrativa das democracias liberais unidas por valores e não divididas por interesses concorrentes deve ser defendida contra quaisquer factos inconvenientes.

Diplomacia, neutralidade e a virtude da guerra

A diplomacia não é consistente com o esforço de construção social de uma nova realidade. O ponto de partida da segurança internacional é a competição de segurança na qual os esforços para aumentar a segurança de um Estado podem diminuir a segurança de outro. A diplomacia envolve o reforço da compreensão mútua e a procura de compromissos para mitigar a concorrência em matéria de segurança.

Os construtivistas sociais consideram frequentemente a diplomacia problemática porque “legitima” a competição de segurança que reconhece que a NATO pode minar os legítimos interesses de segurança russos. Além disso, corre-se o risco de legitimar o adversário e de criar uma equivalência moral entre os Estados ocidentais e a Rússia. As elites europeias acreditam que estão a legitimar conceitos ultrapassados ​​e perigosos de política de poder, ao comprometerem-se com a compreensão mútua com a Rússia. A crença absurda de que a negociação é uma “concessão” tornou-se normalizada na Europa.

Portanto, a diplomacia foi repensada como uma relação entre um sujeito e um objeto, entre um professor e um aluno. Nesta relação, a NATO e a UE consideram que o seu papel é “socializar” outros Estados. Como professor civilizador, o Ocidente esclarecido utiliza a diplomacia como um instrumento de ensino no qual os Estados são “punidos” ou “recompensados” pela sua disponibilidade para aceitar concessões unilaterais. 

Embora a diplomacia tenha sempre sido imperativa em tempos de crise, as elites europeias acreditam que deveriam, em vez disso, punir o “mau comportamento” suspendendo a diplomacia assim que a crise eclodir. Encontrar-se com oponentes durante as crises corre o risco de legitimá-los.

Até recentemente, a neutralidade era vista como uma postura moral que mitiga a concorrência em matéria de segurança e permite ao Estado mediar, em vez de se enredar e escalar conflitos. Numa luta entre o bem e o mal, a neutralidade também é considerada imoral. O cinturão de estados neutros que existia entre a NATO e os países do Pacto de Varsóvia foi agora desmantelado e até a guerra se tornou uma defesa justa de princípios morais.

Como podemos restaurar a racionalidade e corrigir os erros do pós-Guerra Fria?

O fracasso em estabelecer um acordo pós-Guerra Fria mutuamente aceitável que eliminasse as divisões na Europa e reforçasse a segurança indivisível resultou numa catástrofe previsível. Contudo, corrigir o rumo exige nada menos do que reconsiderar as políticas dos últimos 30 anos e o conceito de Europa, numa altura em que a animosidade é endémica em ambos os lados. O projeto europeu foi visto como a personificação da tese de Fukuyama sobre o “fim da História” e toda uma classe política baseou a sua legitimidade na conformidade com a ideia de que desenvolver uma Europa sem a Rússia era uma receita para a paz e a estabilidade.

Terá a Europa a racionalidade, a imaginação política e a coragem para avaliar criticamente os seus próprios erros e o seu contributo para a crise atual, ou qualquer crítica continuará a ser denunciada como uma ameaça à democracia liberal?

Notas

J. Borger ‘” hostilidade russa” é parcialmente causada pelo Ocidente’, diz o ex-chefe da defesa dos EUA ,” The Guardian, 9 de março de 2016.

Schimmelfennig, François, 2003. A UE, a OTAN e a Integração Europeia: Regras e Retórica, Cambridge, Cambridge University Press, página 208.

B. Clinton, “ Remarks to the Multinational Audience of Europe’s Future Leaders ”, Missão Diplomática Americana na Alemanha, 9 de janeiro de 1994.

O autor é Professor na Universidade de Sudeste Noruega

Fonte aqui