Se os EUA forem derrotados, a NATO desintegrar-se-á e a Europa será livre

(Entrevista a Emmanuel Todd, in Observatoriocrisis.com, 20/10/2024, Trad. Estátua)

Daniele Labanti, jornalista do Corriere della Sera, entrevista Emmanuel Todd, historiador e antropólogo autor do livro “A Derrota do Ocidente”.


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Professor Todd, escreveu-se em França que o senhor quer “fazer passar os seus sonhos por realidade” e que o que diz não tem base científica. O que é que responde?

A questão não é o que a imprensa francesa escreve sobre mim, mas sim conhecer os factos que a história actual revela. O facto é que os Estados Unidos não foram capazes de produzir o material militar de que os ucranianos necessitam, porque é um facto que o poder da sua indústria foi minado pela financeirização. 

É um facto que o exército ucraniano está em retirada e tem dificuldades em recrutar soldados. É um facto que as sanções económicas ocidentais causaram mais danos à economia europeia do que à russa e é também um facto que a estabilidade política da França está agora mais ameaçada do que a da Rússia.

A reestruturação da economia russa foi possível, graças ao facto de este país produzir mais engenheiros do que os EUA, e de países que não são aliados nem súbditos dos EUA terem continuado a negociar com a Rússia. 

Os comentários em grande parte da imprensa francesa sobre os meus sonhos – Le Monde, Libération, L’Expres, etc. – sugerem que são eles quem vive um sonho. O sucesso do meu livro em França sugere também o facto de esta imprensa “nem sempre ser levada a sério” pelos franceses.

No entanto, o livro baseia-se nas suas teorias sobre o niilismo e o declínio religioso na Europa. Pode nos apresentar o significado disso?

Desapareceram os últimos vestígios da estrutura social e moral de origem religiosa. O estado zero da religião foi alcançado. A ausência de crenças, normas e hábitos de caráter ou origem religiosa, porém, deixa a pessoa com a angústia de ser um homem, mortal, que não sabe o que faz na terra.

A reação mais banal a esse vazio é a divinização do vazio: o niilismo, que leva ao impulso de destruir as coisas, as pessoas e a realidade. Para mim, um sintoma central disto é a ideologia transgénero que leva a nossa classe média alta a querer acreditar que um homem pode tornar-se numa mulher e uma mulher pode tornar-se um homem. Essa é uma crença falsa. A biologia do código genético diz-nos que isso é impossível. Falo aqui como antropólogo, como estudioso, e não como moralista. Devemos proteger as pessoas que acreditam pertencer a um género diferente do seu. 

Quanto à parte LGB da ideologia LGBT (lesbianismo, homossexualidade masculina e bissexualidade), são preferências sexuais que têm a minha bênção. É também surpreendente mas significativo que, ao aceitar a inflexibilidade do código genético, a ciência e a Igreja estejam agora do mesmo lado. Contra a afirmação niilista daquela crença falsa.

Afirma que a Europa delegou a representação do Ocidente nos Estados Unidos e está agora a pagar as consequências. Como é que acha que essa tendência pode ser mudada?

No nosso estado atual não podemos fazer mais nada. Uma guerra começou. O resultado desta guerra decidirá o destino da Europa. Se a Rússia for derrotada na Ucrânia, a subjugação europeia aos americanos continuará durante um século. Se, como acredito, os Estados Unidos forem derrotados, a NATO desintegrar-se-á e a Europa será livre.

Ainda mais importante do que uma vitória russa será o facto de o exército russo se deter no Dnepr e a relutância do regime de Putin em atacar militarmente a Europa Ocidental. Com 144 milhões de habitantes, uma população em declínio e 17 milhões de quilómetros quadrados, o Estado russo já luta para ocupar o seu território. A Rússia não terá nem os meios nem o desejo de se expandir quando as fronteiras da Rússia pré-comunista forem reconstituídas. 

A histeria russofóbica ocidental, que fantasia sobre o desejo de expansão russa na Europa, é simplesmente ridícula para um historiador sério. O choque psicológico que aguarda os europeus será a constatação de que a NATO não existe para nos proteger, mas para nos controlar.

Acha que a Europa deu o último passo rumo a esta subordinação durante os conflitos dos Balcãs, e especialmente com a questão do Kosovo?

Não, tudo começou na Ucrânia. Durante a guerra do Iraque, depois do Kosovo, Putin, Schröder e Chirac realizaram conferências de imprensa conjuntas. Isso aterrorizou Washington. Parecia que os Estados Unidos poderiam ser expulsos do continente europeu. Portanto, a separação da Rússia da Alemanha tornou-se uma prioridade para os estrategas americanos. Piorar a situação na Ucrânia serviu para esse propósito. Forçar os russos à guerra para impedir a integração de facto da Ucrânia na NATO foi, inicialmente, um grande sucesso diplomático para Washington. 

O choque da guerra paralisou a Alemanha e permitiu aos americanos, no meio da confusão geral, explodir o gasoduto Nordstream, um símbolo de entendimento económico entre a Alemanha e a Rússia.  Obviamente, numa segunda fase, a da derrota americana, o controlo americano sobre a Europa será pulverizado. Alemanha e Rússia voltarão a encontrar-se. Este conflito é um tanto artificial. O que é natural, numa Europa com baixa fertilidade e uma população envelhecida, é a complementaridade entre a indústria alemã e os recursos energéticos e minerais russos.

Porque se posiciona a favor da Rússia na guerra na Ucrânia e vê este conflito como um exemplo do fim do Ocidente?

Sou um historiador objetivo. Quero compreender porque é que nós, no Ocidente, provocámos esta guerra e a perdemos, e com esta derrota perdemos também o nosso controlo sobre o mundo. Não sou pró-Rússia. Mas li os textos de Putin e Lavrov e penso que compreendo os seus objectivos e lógica. Se os nossos líderes tivessem levado investigadores como eu e alguns outros mais a sério, não nos teriam levado a tal desastre. 

Um putinófobo inteligente poderia usar o meu livro para combater a Rússia. Por outro lado, quando um jornal como o Le Monde esconde a recuperação económica e social da Rússia dos seus leitores – as elites francesas – como tem feito, ele “desinforma” os nossos líderes sobre a estabilidade e o poder da Rússia e serve Putin.

O senhor introduz os conceitos de “oligarquia liberal” para muitos Estados europeus e de “democracia autoritária” para a Rússia. Em qual sistema você preferiria viver?

A oligarquia liberal não é um problema prático para mim. Não esqueça que eu nasci na intelectualidade francesa. Meu avô Paul Nizan publicou na Gallimard antes da guerra e teve Raymond Aron como padrinho. Sua esposa, minha avó Henriette, era prima de Claude Lévi-Strauss. Meu pai, Olivier Todd, foi um grande jornalista do Nouvel Observateur.  Basicamente, não sou nada mais do que um membro dissidente da oligarquia intelectual. Além disso, amo apaixonadamente o meu país, a França, e viverei lá enquanto o regime não for fascista ou racista e não tiver de me tornar um refugiado político. 

Se eu me tornasse um refugiado político, não iria para os Estados Unidos, como era tradição na minha família, porque eles estão a descer para algo pior do que a oligarquia liberal, o niilismo. Não gosto da barbárie, sou muito conformista culturalmente, muito educado como dizem em francês. Acho que iria para a Itália porque lá tudo é lindo, ou para a Suíça porque parte do país fala francês. Que faria eu na Rússia?

Fonte aqui

A ONU ainda faz sentido?

(António Gil, in Substack.com, 29/09/2024)

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Para seus burocratas, apenas. O resto do mundo viveria melhor sem tal máfia. 

Em 2003, no auge do cio da invasão do Iraque e na falta de uma resolução de aprovação dessa terrível guerra de agressão, Donald-o-Rumsfeld quackou:
– A ONU tornou-se irrelevante. 

Bom, ele concluiu isso pelas razões erradas mas a verdade é que a ONU já era irrelevante há uns anos. É sempre difícil apontar uma data limite mas eu diria que pelo menos desde as guerras promovidas na ex Jugoslávia se tinha percebido que a agremiação era tão inútil como uma faca sem gume.

Se nos lembrarmos que essa ‘coisa’ aprovou a fundação do Estado de Israel, num país onde já vivia outro povo e contra o desejo de grande número de Estados membros do Médio Oriente, então essa data recua ainda mais. 

A ONU falhou quase sempre e em quase tudo? foi pior que isso: suas forças de manutenção de paz (capacetes azuis), suas organizações ditas humanitárias (UNESCO) e sua organização de saúde (OMS) ganharam a tenebrosa reputação de violar consistentemente os direitos humanos das nações onde actuaram.

Muitos de seus enviados tiraram partido de sua situação de poder e abusaram de crianças (dos dois sexos) desvalidas, chantagearam pais e mães em troca de coisas tão básicas como água e alimentos para satisfazerem seus apetites monstruosos.

E no caso da OMS, seus ‘programas de vacinas’ tiveram consequências terríveis sobretudo em África e no sul da Ásia, matando ou incapacitando meninas para a reprodução (a esterilização não consentida entre esse legado sombrio).

A ONU sempre foi uma máquina de crueldade praticada sob a mesa, devidamente disfarçada de filantropia. Uma perversão total, pela própria definição da palavra : praticante do Mal, invocando o bem.

Mas não quero ser injusto para com tantos de seus funcionários que realmente fizeram trabalho humanitário de mérito em vários países, incluindo com refugiados de guerra, correndo riscos enormes e tantas vezes pagando com a vida (o Brasileiro Sérgio Vieira de Melo entre eles, morto num atentado terrorista no Iraque em que a CIA deixou impressões digitais por todo o lado).


Não, o problema da ONU não está na maioria dos casos em quem nela trabalha. Ela nasceu torta, começando pela ‘arquitectura de segurança’ (os 5 Estados com poder nuclear podendo vetar qualquer resolução), criando assim ‘categorias’ de Nações, onde umas tinham mais direitos que outras.


A sua evolução posterior foi uma consequência lógica disso, daí que não seja de estranhar que se tenha tornado numa instituição pronta a limpar a porcaria que os poderosos do mundo decidiram fazer, um pouco por todo o mundo: uma grande empresa de lavagem de sangue e dinheiro, em suma.

Não concebo uma Ordem Mundial mais justa sem a extinção TOTAL da ONU. E já agora, o julgamento de muitos de seus mandantes. 

Fonte aqui.

Crónica de um homem só

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 23/03/2023)

(Ao ler este texto, confesso, emocionei-me. Perante os tempos negros e de esperanças mortas que estamos a viver, existirem ainda seres humanos que arriscam a vida para nos darem a verdade inconveniente e não a unanimidade consensual da turba assanhada, acendeu no meu espírito uma luzinha ténue de fé no futuro da Humanidade. Sim, talvez ainda consigamos sobreviver e evitar a barbárie. Continua, Bruno. E que todos os deuses, de todas as religiões e latitudes te protejam.

Estátua de Sal, 23/03/2023)


Acabo de chegar a Lisboa da minha viagem ao Donbass e outros territórios controlados pela Rússia. Desde 2018, foi a quarta vez que visitei as regiões de Donetsk e Lugansk. Quando a Rússia decidiu intervir na Ucrânia, já havia uma guerra civil a desenrolar-se desde 2014. Ninguém me contou. Eu estive lá. No último ano, estive ali cerca de oito meses para acompanhar a escalada da guerra com a entrada da Rússia no conflito.

De cada vez que cruzo a fronteira em Uspenka ou em Novoazovsk, há uma sensação que teima em não desaparecer. A falta de jornalistas ocidentais no Donbass que mostrem o que ali se passa gera um profundo desconforto. É o confronto com o vazio mediático e com o óbvio desinteresse de boa parte dos meios europeus, incluindo portugueses, e norte-americanos em querer perceber a tragédia que se abate sobre a população destas regiões desde 2014.

Na fotografia, estou sobre os carris de Mariupol, perto da estação ferroviária completamente destruída. Neste lugar, há quase um ano, caminhei sobre as traves que separam os carris para evitar pisar minas numa caminhada entre comboios bombardeados, cadáveres e explosões, ao longe, quando tentava chegar ao porto da cidade, recém tomado pelas forças russas.

Desta vez, conversei com refugiados de Soledar e Artyomovsk (Bakhmut), entrei num presídio com centenas de prisioneiros de guerra ucranianos, entrevistei, novamente, o líder da República Popular de Donetsk, visitei a maior central nuclear da Europa, em Energodar, estive em Vasylivka, muito perto da linha da frente, onde as forças ucranianas tentam abrir uma nova frente, e pude caminhar pelas ruas de Melitopol.

Trabalhos que seriam valorizados, mesmo com todas as limitações técnicas, se não fosse este pormenor de estar naquele que parece ser o lugar “errado” da guerra. Como se houvesse lugares errados para se fazer jornalismo, não lugares, ocultados por um cemitério de propaganda. Como se eu próprio estivesse num casamento sem ter sido convidado para embaraço dos presentes ou fosse passageiro de terceira classe e andasse pelo convés do Titanic sem autorização.

Em Donetsk, onde normalmente estabeleço a minha base de trabalho, o som da artilharia era constante. Pude ver como Kiev continua a bombardear de forma insistente zonas residenciais, mercados, hospitais, escolas e terminais de autocarros. Uma vez mais, ninguém me contou. Eu vi. Há de haver sempre alguém que diga que a Rússia faz a mesma coisa do outro lado. Pois bem, se assim é, o dever dos jornalistas que lá estão é mostrar isso mesmo. E, pelo que temos assistido, não falta cobertura ao que acontece do lado da Ucrânia. Se há meios que não querem mandar repórteres para o Donbass ou que procuram desvalorizar o trabalho de quem lá está, devem ser, naturalmente, escrutinados também pelos seus leitores, espectadores ou ouvintes.

A democracia faz-se com pluralidade, mesmo quando pluralidade é sinónimo de coragem. Recordo que houve momentos, novamente, em que fui o único repórter no Donbass a trabalhar para meios ocidentais. Felizmente, também coincidiu com a presença de outro jornalista português da Antena 1 naquele lado. Independentemente dos meios para que trabalho, na qualidade de jornalista freelancer o meu compromisso é com os factos. Faço o melhor que posso, na maioria das vezes com o ruído das críticas de quem me quer silenciar, com obstáculos que praticamente nenhum outro repórter teve de contornar nesta guerra. E não o digo para romantizar as dificuldades. Digo-o porque não quero que outros jornalistas passem por isto. Não me sinto herói. E não sou.

Aqueles que deixei para trás são verdadeiros heróis. Mulheres, homens e crianças que enfrentam uma tragédia ano após ano desde 2014. Sem perspetivas de futuro, envelhecem sem pensar no dia de amanhã, sem saber se no fim do dia estarão vivos. E esperemos que esta guerra que alastra e se intensifica termine, em vez de ultrapassar aquelas fronteiras. Porque se assim for, esse será também o nosso destino.

Uma vez mais, agradeço o apoio de todas e todos os que nunca deixaram cair o interesse por aquilo que se passa do outro lado da linha da frente e que nunca deixaram de estar ao meu lado apesar de todos os ataques.


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