A mentira repetida continua a ser mentira

(João Ferreira, in Facebook, 04/07/2026)


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Há uma pergunta que nunca vejo os líderes europeus responderem: se a narrativa oficial é tão sólida, porque fogem sistematicamente ao debate sobre as suas próprias contradições?

Há mais de três anos que somos bombardeados diariamente com a mesma mensagem: a Ucrânia está a vencer, a Rússia está desesperada, Putin está isolado, o exército russo está à beira do colapso e basta continuar a enviar dinheiro, armas e munições para que a vitória esteja ao virar da esquina. Mas quando se começa a olhar para factos concretos, a narrativa começa a desfazer-se.

Um dos exemplos mais gritantes é o das sucessivas trocas de corpos e de repatriações de militares mortos. Na minha perspetiva, os números divulgados em diversas ocasiões revelam proporções que chegam a rondar um corpo russo para vinte ou até quarenta corpos ucranianos. Se estes dados forem compatíveis com a realidade, então surge uma pergunta inevitável: como pode alguém afirmar, simultaneamente, que a Ucrânia está a conquistar terreno e que a Rússia é quem sofre perdas incomparavelmente superiores?

As duas afirmações não coexistem de forma lógica.

Responder que “os russos controlam o terreno e por isso recuperam mais corpos” também não resolve o problema. Se a explicação é essa, então está implicitamente admitido que são precisamente os russos quem controla o terreno onde se trava a guerra. Mas isso contradiz imediatamente a narrativa de que a Ucrânia está a reconquistar território de forma consistente. A lógica desaparece. Resta apenas a repetição.

Outro exemplo. Somos constantemente informados de que Vladimir Putin é um ditador imprevisível, quase irracional, pronto para invadir toda a Europa. No entanto, os mesmos dirigentes afirmam que podemos aumentar continuamente o envolvimento militar ocidental porque Putin é suficientemente racional para nunca responder diretamente contra a NATO. Então afinal em que ficamos? É um louco imprevisível ou é um estratega racional? Porque as duas coisas não podem ser verdade ao mesmo tempo.

A mesma incoerência surge relativamente à NATO. Dizem-nos que a Ucrânia tem obrigatoriamente de entrar na NATO porque só assim a Rússia nunca a atacaria. Mas, logo a seguir, afirmam que, quando terminar a guerra na Ucrânia, a Rússia atacará precisamente… a NATO. Se a NATO constitui um elemento de dissuasão absoluta, por que razão deixaria de o ser no dia seguinte? Mais uma vez, a narrativa contradiz-se a si própria.

Também ouvimos afirmar que foi a Rússia quem cortou o gás à Europa. No entanto, qualquer pessoa que acompanhe a cronologia dos acontecimentos sabe que a realidade é muito mais complexa, envolvendo sanções, decisões políticas europeias e uma escalada de ruptura promovida por ambos os lados. Simplificar tudo numa frase politicamente conveniente pode ser eficaz como propaganda, mas não é um exercício sério de informação.

E talvez a contradição maior de todas seja esta. Dizem-nos que é preciso continuar a guerra para obrigar Moscovo a negociar. Mas quem é que recusou durante anos abrir canais políticos sérios de diálogo? Quem é que declarou que não havia nada para negociar? Quem é que transformou qualquer tentativa de diplomacia numa suspeita de traição? Como se pode defender que a paz depende da negociação e, ao mesmo tempo, recusar negociar?

É precisamente aqui que entra uma comparação histórica que muitos preferem evitar. Não comparo a União Europeia ao Terceiro Reich. Seria intelectualmente desonesto fazê-lo. O que comparo é um método.

Joseph Goebbels compreendeu como poucos que a propaganda não precisa de convencer através da lógica. Precisa apenas de repetir incessantemente uma narrativa, eliminar o contraditório, ridicularizar quem faz perguntas e transformar qualquer dúvida numa heresia política. Quanto mais uma afirmação é repetida, mais pessoas deixam de a questionar. O mecanismo psicológico permanece exatamente o mesmo.

Hoje já não é necessário um Ministério da Propaganda. Basta uma comunicação política altamente coordenada, amplificada por grande parte dos meios de comunicação social, repetida diariamente por comentadores, especialistas e responsáveis políticos, até que qualquer opinião divergente passe automaticamente a ser rotulada como “propaganda russa”.

O objetivo deixou de ser apenas combater o Kremlin. Na minha perspetiva, procura-se igualmente demonizar Putin, demonizar a Rússia e, por arrastamento, demonizar tudo o que seja russo, criando um inimigo absoluto que dispense pensamento crítico e permita justificar praticamente qualquer decisão política, económica ou militar.

E o mais impressionante é que esta estratégia funciona. Não apenas junto de pessoas pouco informadas. Funciona também junto de cidadãos instruídos, licenciados, doutorados e profissionais altamente qualificados, que acabam por aceitar narrativas manifestamente contraditórias sem sequer se aperceberem dessas incoerências.

Quando a repetição substitui a análise, a inteligência deixa de ser uma garantia contra a propaganda. A História demonstra que nenhuma sociedade está imune à manipulação quando o medo, a emoção e a repetição ocupam o lugar da razão.

Talvez seja essa a maior lição que Goebbels nos deixou. Não a sua ideologia, que merece a mais absoluta condenação, mas a demonstração de que uma mentira repetida milhares de vezes pode adquirir aparência de verdade.

A democracia não morre apenas quando somos proibidos de falar. Começa também a definhar quando já ninguém sente necessidade de pensar.

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