< ![CDATA[
Excelente texto. Leitura obrigatória. A propaganda da Direita tenta ocultar que vai engolir um garfo e engasgar-se até aos gorgomilos. Mas já estamos habituados. São peritos em tornar derrotas em vitórias.]]>
< ![CDATA[
Excelente texto. Leitura obrigatória. A propaganda da Direita tenta ocultar que vai engolir um garfo e engasgar-se até aos gorgomilos. Mas já estamos habituados. São peritos em tornar derrotas em vitórias.]]>
(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 08/07/2015)
Toda a gente conhece o filme “Groundhog Day”, com a infeliz tradução para português de “O Feitiço do Tempo”. No filme, Phil Connors (Bill Murray), um jornalista que se dedica aos palpitantes assuntos da meteorologia, vai cobrir a tradição da pequena cidade de Punxsutawney, em que uma marmota informa, pelo seu comportamento, como será o inverno. Um qualquer feitiço faz com que Phil fique preso no tempo. Todos os dias, quando acorda, faça o que faça, são o mesmo dia. Um dia em que todas as personagens, tirando ele, se comportam da mesma forma. Nada tem consequências. Este filme presta-se sempre a ser uma excelente metáfora política. E não poderia haver melhor para descrever a insistência das instituições e Estados europeus mais fortes em repetir sempre as mesmas receitas na sua relação com a crise grega.
O referendo grego mostrou que não resulta de qualquer teimosia do Governo a recusa de continuar o caminho da austeridade sem que isso corresponda a garantir a sustentabilidade da dívida. Esse caminho levaria à continuação da destruição do país para conseguir financiamento para pagar e acumular mais dívida. Seria irresponsável insistir no erro. A recusa clara dos gregos tem de ter consequências políticas. Entre muitas causas, o resultado do referendo tem uma, que ou a Europa compreende ou não compreende nada da situação em que pôs um dos Estados membros: a Grécia não tem qualquer capacidade de fazer mais austeridade. Chegou ao seu limite. Qualquer medida que vá nesse sentido, que causará ainda mais vítimas, só poderá resultar da certeza de que se começa a resolver o problema da insustentabilidade da dívida, que ainda por cima todos reconhecem.
MANTER O CERCO À GRÉCIA E A DESTRUIÇÃO DO QUE RESTA DO SEU SISTEMA BANCÁRIO PARA CONSEGUIR CEDÊNCIAS, FAZER ULTIMATOS E AMEAÇAR COM A SAÍDA DO EURO É TEIMAR NO QUE LEVOU AS NEGOCIAÇÕES A UM BECO SEM SAÍDA.
Perante este novo cenário, os primeiros reflexos das instituições europeias e dos Governos que tomam decisões (o que exclui o nosso, que se limita ao vexatório papel de se bater por uma catástrofe na tentativa de reeleger o seu primeiro-ministro) foi repetir o guião dos últimos meses.
Primeiro, começa por acusar o representante grego de amadorismo e falta de propostas. Para desacreditar Tsakalotos já se começam a usar as mesmas táticas que foram usadas para desacreditar Varoufakis. O outro tinha uma folha pequena, este tem um manuscrito. Um e outro, com preparação técnica que faria corar grande parte dos ministros presentes no Eurogrupo (a começar pela professora da Lusíada do nosso primeiro-ministro), são impreparados. Nunca têm propostas nenhumas, até os seus documentos serem públicos e descobrirmos que as propostas afinal existiam. E toda esta intoxicação se faz usando “fontes da negociação” que sopram coisas para os sempre solícitos jornalistas em Bruxelas, “embedded” no mais acrítico deslumbramento pelos corredores da burocracia europeia.
Depois, prolonga o período em que o sistema bancário grego continua a ser rapidamente destruído, não garantindo o BCE, como é seu dever, a estabilidade financeira de toda a zona euro, o que inclui um Estado que, até ver, a ela continua a pertencer. A irresponsabilidade desta estratégia de chantagem, tentando que a Grécia negoceie em situação de extrema necessidade, além de já ter provado não resultar com os gregos, torna a resolução dos problemas na Grécia cada vez mais difícil e dispendiosa. Mantêm-se os ultimatos atrás de ultimatos, em vez de se tentar encontrar uma solução séria, sustentável e capaz de corresponder a um equilíbrio entre os vários interesses em causa.
Por fim, surge a novidade que não é novidade: a ameaça de expulsão do euro. Desta vez dita de forma clara por Junker, que garante que esta Europa sem comandante tem planeada ao milímetro a saída da Grécia do euro. Um planeamento que, a julgar pela catástrofe política que foi a Europa nos últimos cinco anos, não nos pode deixar descansados. Até porque nunca uma saída do euro aconteceu. As instituições europeias não determinam os comportamentos dos mercados ou as consequências políticas do “grexit”. Dizer que tudo está planeado é apenas a demonstração do grau de irresponsabilidade que domina Bruxelas. Mas esta ameaça também mostra que a Europa não conseguiu compreender a decisão dos gregos: eles não querem sair do euro mas não estão dispostos, para o evitar, a continuar o que foram os últimos cinco anos. Eles sabem, por experiência própria, que não resulta.
Desacreditar o novo ministro das Finanças grego como se desacreditou o anterior, manter o cerco à Grécia e a destruição do que resta do seu sistema bancário para conseguir cedências, fazer ultimatos e ameaçar com a saída do euro é teimar no que levou as negociações a um beco sem saída. É não saber reagir a novas situações e repetir apenas o que sempre se fez. É não saber reagir a novas situações e repetir apenas o que sempre se fez. É a diferença entre um burocrata e um político. Perante uma nova situação o burocrata repete o que fazia, o político cria uma nova realidade para ultrapassar o impasse em que estava.
(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 06/07/2015)
Deixar sair é deixar cair. É deixar a Grécia tombar para vala incomum da catástrofe humanitária. É deixar os bancos colapsarem e pagar parte do prejuízo – não veremos um chavo. Mas o “não” do referendo não criou esse risco, confrontou a Europa com ele. Os gregos já estavam feridos pela seta, no referendo escolheram o risco de empurrá-la pela barriga adentro para que saia pelas costas. Mas quem quis matar politicamente Alexis Tsipras revigorou-o. Queriam um sonâmbulo, saiu-lhes um funâmbulo, um político meio doido que faz o inesperado e, podendo estatelar-se, salta. Basta que o BCE deixe de apoiar e a ruína chega em poucas horas.
Os gregos sabem-no, o seu voto no “não” foi esclarecido, não foi desesperado. Os bancos estão literalmente sem dinheiro. Se o BCE retira o apoio, faltará o dinheiro e sem dinheiro há fome e com fome o risco de motins, de criminalidade, de violência, de caos social e político convoca os tanques para a rua. Não estamos a exagerar. Mas é também verdade que, nesse caso, o BCE e o FMI bem podem reclamar o seu dinheiro como credores preferenciais, a Grécia não pagará. O primeiro calote será sobre eles, isto é, sobre nós.
Os “cofres cheios” não são mais do que uma reação atempada ao medo do colapso grego.
É por isso que é uma falácia dizer que ao dizerem “não” os gregos estão a escolher não pagar. Os gregos já não iam pagar, não podiam, a dívida pública da Grécia é impossível de suportar e toda a gente sabe isso, mesmo o que não podem dizê-lo com os microfones ligados. Nisso, Varoufakis sempre foi transparente: só não pagando (tudo) poderemos pagar (parte), dizia. E foi também por isso que ele próprio sempre defendeu a reestruturação da dívida quando ela ainda era de bancos privados, quando agora é em grande parte de contribuintes europeus. E é ainda por isso que admitir um perdão é assumirmos nós próprios que os nossos impostos vão viajar para a Grécia. Não é coisa pouca. Num perdão de cem milhões de euros, os portugueses perderiam uns dois mil milhões, quase dois meses de IVA. Os alemães perderiam mais de 20 mil milhões. É esse o custo. E por mais revoltante que isso seja, é isso que está em cima da mesa. Porque se saem do euro, o dinheiro também está perdido.
É também por isso que a solução é difícil, porque os políticos europeus não querem ou não conseguem ter esta conversa com os seus eleitores, razão pela qual foram encontrando soluções de perdões camuflados. Austeridade sim, até porque a Grécia ficará sempre nas mãos dos credores, mas é preciso que tenham um plano para a dívida e para o crescimento. Caso contrário, não funciona. Não funcionou.
Estes são os riscos reais, o de cataclismo na Grécia e de distribuição de prejuízos pela Europa. Mas há mais: o risco de “refugiados económicos”; e o risco de desagregação política da União. Basta ver que, num continente dominado por duas famílias políticas de centro, a desejo de aniquilar o Syriza levou à imprudência. Para as instituições europeias, uma negociação terá sempre de parecer uma derrota do Syriza, para não alimentar os Podemos ou as Frentes Nacionais. E o Syriza já engoliu sapos, já aceitou o que jurara recusar. Mas as instituições europeias quiseram arrasar. Humilhar. Falharam. E agora a solução política é mais difícil.
Mas é possível. Estranhamente, os mercados financeiros tiveram uma segunda feira relativamente calma, o que pode querer dizer que pressentem que haverá negociações. Porque o cenário alternativo é mau de mais – para todos. Incluindo para Portugal.
Os “cofres cheios” não são mais do que uma reação atempada ao medo do colapso grego. A nossa dívida pública está controlada, mas a privada continua colossal e, se os juros sobem, mais empresas colapsam e a nossa recuperação económica voa como uma folha ao vento. Ainda não é tarde de mais. Já há perdas irreparáveis, mas ainda não está tudo perdido. Incluindo, esperemos, o juízo.