A Grécia na véspera de ser tarde de mais

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 06/07/2015)

Pedro Santos Guerreiro

               Pedro Santos Guerreiro

Deixar sair é deixar cair. É deixar a Grécia tombar para vala incomum da catástrofe humanitária. É deixar os bancos colapsarem e pagar parte do prejuízo – não veremos um chavo. Mas o “não” do referendo não criou esse risco, confrontou a Europa com ele. Os gregos já estavam feridos pela seta, no referendo escolheram o risco de empurrá-la pela barriga adentro para que saia pelas costas. Mas quem quis matar politicamente Alexis Tsipras revigorou-o. Queriam um sonâmbulo, saiu-lhes um funâmbulo, um político meio doido que faz o inesperado e, podendo estatelar-se, salta. Basta que o BCE deixe de apoiar e a ruína chega em poucas horas.

Os gregos sabem-no, o seu voto no “não” foi esclarecido, não foi desesperado. Os bancos estão literalmente sem dinheiro. Se o BCE retira o apoio, faltará o dinheiro e sem dinheiro há fome e com fome o risco de motins, de criminalidade, de violência, de caos social e político convoca os tanques para a rua. Não estamos a exagerar. Mas é também verdade que, nesse caso, o BCE e o FMI bem podem reclamar o seu dinheiro como credores preferenciais, a Grécia não pagará. O primeiro calote será sobre eles, isto é, sobre nós.

Os “cofres cheios” não são mais do que uma reação atempada ao medo do colapso grego.

É por isso que é uma falácia dizer que ao dizerem “não” os gregos estão a escolher não pagar. Os gregos já não iam pagar, não podiam, a dívida pública da Grécia é impossível de suportar e toda a gente sabe isso, mesmo o que não podem dizê-lo com os microfones ligados. Nisso, Varoufakis sempre foi transparente: só não pagando (tudo) poderemos pagar (parte), dizia. E foi também por isso que ele próprio sempre defendeu a reestruturação da dívida quando ela ainda era de bancos privados, quando agora é em grande parte de contribuintes europeus. E é ainda por isso que admitir um perdão é assumirmos nós próprios que os nossos impostos vão viajar para a Grécia. Não é coisa pouca. Num perdão de cem milhões de euros, os portugueses perderiam uns dois mil milhões, quase dois meses de IVA. Os alemães perderiam mais de 20 mil milhões. É esse o custo. E por mais revoltante que isso seja, é isso que está em cima da mesa. Porque se saem do euro, o dinheiro também está perdido.

É também por isso que a solução é difícil, porque os políticos europeus não querem ou não conseguem ter esta conversa com os seus eleitores, razão pela qual foram encontrando soluções de perdões camuflados. Austeridade sim, até porque a Grécia ficará sempre nas mãos dos credores, mas é preciso que tenham um plano para a dívida e para o crescimento. Caso contrário, não funciona. Não funcionou.

Estes são os riscos reais, o de cataclismo na Grécia e de distribuição de prejuízos pela Europa. Mas há mais: o risco de “refugiados económicos”; e o risco de desagregação política da União. Basta ver que, num continente dominado por duas famílias políticas de centro, a desejo de aniquilar o Syriza levou à imprudência. Para as instituições europeias, uma negociação terá sempre de parecer uma derrota do Syriza, para não alimentar os Podemos ou as Frentes Nacionais. E o Syriza já engoliu sapos, já aceitou o que jurara recusar. Mas as instituições europeias quiseram arrasar. Humilhar. Falharam. E agora a solução política é mais difícil.

Mas é possível. Estranhamente, os mercados financeiros tiveram uma segunda feira relativamente calma, o que pode querer dizer que pressentem que haverá negociações. Porque o cenário alternativo é mau de mais – para todos. Incluindo para Portugal.

Os “cofres cheios” não são mais do que uma reação atempada ao medo do colapso grego. A nossa dívida pública está controlada, mas a privada continua colossal e, se os juros sobem, mais empresas colapsam e a nossa recuperação económica voa como uma folha ao vento. Ainda não é tarde de mais. Já há perdas irreparáveis, mas ainda não está tudo perdido. Incluindo, esperemos, o juízo.

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5 pensamentos sobre “A Grécia na véspera de ser tarde de mais

  1. Um dia ainda hei-de entender o que representou mudar de negociadores pelos gregos quase todos os meses.
    E a frase de precisamos de adultos para negociar a sério.;olhando a sua cronica o Syriza não foi incompetente.

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  2. “Os “cofres cheios” não são mais do que uma reação atempada ao medo do colapso grego.”
    Claro, como economista moderno (do exel, das contas certas, dos números alinhados, da matemática mais sábia e exacta como 19-1=18), mas também capaz de ver um palmo mais à frente, PSG acredita que marilu teve a inteligência para percepcionar e perceber o eventual giantismo do problema finamceiro e político que o caso grego pode despoletar.
    Não passa de um bem intencionado bom portugûes; não quer crer, não pode crer que um PM e uma ministra das finanças de Portugal não tenha esse mínimo de capacidades.
    Mas a realidade, segundo eu, é que a tontice e ignorância politico-histórica destes palermas é tanta que apenas dizem o que de repente lhes vem à mente como pensadores de tasca ou louras assistentes nos programas das manhãs das tv, para, precisamente, falarem para esses mesmos que são os únicos que os não percebem e, desse modo, ainda os podem levar a sério.

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  3. Qualquer indício de saída do euro iria despoletar corridas bancárias e uma crise financeira”. Paul Krugman salienta, contudo, que “nesta altura, essa crise financeira já aconteceu, pelo que os maiores custos da saída do euro já foram pagos”.
    “A menos que a Grécia usufrua efectivamente de um importante alívio da dívida, e, possivelmente, mesmo assim, deixar o euro oferece a única rota de fuga plausível do seu pesadelo económico sem fim”.
    Paul Krugman (The New York Times)

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