A Crise

( HEINER FLASSBECK, in Expresso Diário, 08/08/2016)

BCE

Excelente texto para se perceber os problemas atuais que a União Europeia defronta e para se perceber também a razão porque a Alemanha continua a querer obrigar os restantes países a prosseguirem as políticas austeritárias. Na verdade, só ela ganha mantendo esse cenário à tona de água. (Estátua de Sal).


Pedimos a um especialista alemão que escrevesse sobre o futuro do Deutsche Bank a propósito da sombra que também sobre ele agora cai nesta Europa da crise monetária. Heiner Flassbeck, economista, ex-secretário de Estado das Finanças e ex-conselheiro de Oskar Lafontaine sobre a reforma do Sistema Monetário Europeu, respondeu-nos que o Deutsche Bank é um pormenor num contexto alargado. E contrapropôs este texto longo, técnico, duro e obrigatório que analisa em profundidade a origem da crise do euro e consequentemente da Europa. Flassbeck coloca a Alemanha no coração da origem da crise da moeda única, revela o segredo do crescimento alemão nos últimos 15 anos (“o país tem operado uma política de ‘pedinchar ao vizinho’, mas só de pois de ter ‘pedinchado ao seu próprio povo’ essencialmente através do congelamento dos salários – este é o segredo do sucesso alemão dos últimos 15 anos”) e diz que sem um ajustamento da maior economia europeia o fim da União ganha contornos de possibilidade real. A perspetiva de desintegração e o decorrente colapso da união já não podem ser ignorados, defende Flassbeck.


Os últimos sete anos têm sido um período tumultuoso para a Europa e o desassossego está longe de ter acabado. A crise global que começou em 2007 conduziu a um choque financeiro agudo em 2008-9, o qual inaugurou uma recessão em todo o mundo. A Europa – incluindo a Alemanha – foi atingida em pleno quando o crédito contraiu e o comércio mundial retraiu. A verdadeira crise na Europa, no entanto, começou em 2009-10 quando a recessão induziu o agravamento das finanças públicas, desencadeando uma crise gigantesca na zona euro.

Crise sem fim à vista

Havia poucas dúvidas no início de 2015 de que a crise da União Económica e Monetária Europeia (UEM) não tinha desaparecido. Medidas pouco ortodoxas tomadas pelo Banco Central Europeu (BCE), em particular a sua promessa de fazer “o que fosse necessário” para estabilizar o sistema monetário em 2012, acalmaram os mercados financeiros e forneceram espaço para que a política económica agisse de forma estabilizadora.

Apesar disso, ao nível das instituições europeias parece estar a crescer a consciência de que são necessárias mudanças radicais para tornar o sistema mais resistente. E até além da obsessão tradicional com os défices fiscais e dívidas dos governos, a adoção de um mecanismo de aviso precoce para lidar com o núcleo do problema foi acionado com bastante rapidez. A introdução de um Procedimento por Desequilíbrios Macroeconómicos, destinado a lidar com os saldos de conta corrente existentes e futuros e orientar os Estados-membros no sentido de um comércio mais equilibrado, significou algum progresso na compreensão de que uma união monetária requer, acima de tudo, coordenação da evolução dos preços e dos salários.

Os princípios monetários nucleares da UEM

Uma união monetária é antes e acima de tudo uma união de países que querem abdicar das suas moedas nacionais com o objetivo de criar uma moeda comum. Abdicar de uma moeda nacional implica renunciar ao direito de as autoridades nacionais imprimirem moedas e notas e, deste modo, implantar dinheiro nacional (dinheiro fiat). Entrar numa união monetária também implica abdicar dos objetivos de inflação nacionais e concordar com uma meta de inflação comum de uma união.

Quais são as maiores determinantes da inflação? A prova mais importante é a correlação alta e estável entre a taxa de crescimento do custo das unidades de trabalho (CUT) e a taxa de inflação. Os custos da unidade de trabalho parecem ser a determinante crucial dos movimentos gerais de preço nas economias nacionais, bem como em grupos de economias. Se a forte correlação entre o CUT e a inflação fosse reconhecida e colocada no coração da análise macroeconómica, tornar-se-ia claro que o principal requisito para unidade monetária de sucesso não seria o controlo sobre os assuntos monetários, mas a gestão das receitas e dos salários nominais. Para ser específico, o objetivo de inflação comum para a UEM foi definido pelo BCE a uma taxa próxima de 2%. Isto implicava que a regra de ouro para o crescimento salarial em cada economia seria a soma do crescimento de produtividade nacional mais 2%. Por esta medida, não ocorreriam as grandes discrepâncias de inflação que levam às discrepâncias de competitividade entre os Estados-membros.

A Alemanha como fonte da crise da zona euro

As preparações para a UEM foram profundamente falhadas porque em vez de se discutirem em detalhe as implicações de uma união monetária e em vez de se criarem as instituições necessárias para gerir com sucesso uma tal união, o debate político e as decisões tomadas nos anos até 1997 – altura em que os critérios para a entrada tinham de estar cumpridos – na realidade focaram-se na política fiscal. Enfatizou-se em particular a limitação dos défices do sector público a 3% do PIB, enquanto a necessidade de evitar os diferenciais de inflação e garantir a capacidade de os Estados-membros cumprirem ao longo do tempo os objetivos comuns de inflação foram olhados como questões muito menos importantes para o suave funcionamento da UEM.

“Ninguém melhor que um alemão”

Entrevistámos o economista norueguês Erik Reinert (ler AQUI) a propósito de um curso que deu na universidade de verão do ISEG. A dada altura, explicando a essência da crise financeira europeia, largou a frase que escolheríamos para título: “Só a Alemanha lucra com o euro”. E disse que os media alemães não escrevem sobre o tema. “Aliás”, sublinhou, “só há um alemão que o assume, o economista Heiner Flassbeck”. Fomos procurá-lo para que escrevesse um artigo para o Expresso. Quando contámos a Reinert que Flassbeck tinha aceitado o nosso pedido, ele confessou: “Ainda bem que o apanharam, ninguém melhor que um alemão para o dizer”

A Alemanha, com a sua intolerância absoluta a que a inflação excedesse os 2% e a sua tradição monetarista dogmática, silenciou qualquer outro ponto de vista sobre a inflação. No entanto, a Alemanha, o maior país da União Europeia e o bastião da estabilidade de várias décadas, decidiu experimentar um novo modo de combater o seu alto nível de desemprego. Em conjunto com os empregadores, o Governo pressionou os sindicatos para tentar restringir o crescimento nominal e real dos salários.

Diferenças sensíveis

A nova abordagem alemã ao mercado de trabalho coincidiu com a introdução formal da união monetária, o que levou consequentemente a enormes divergências nos custos nominais de unidades de trabalho entre os membros da UEM. A principal causa destas divergências foi o simples facto de os custos nominais das unidades de trabalho, a mais importante determinante de preços e competitividade, se terem mantido essencialmente sem oscilações desde o início da UEM. Em contraste, a maioria dos países da Europa da Sul tinha um crescimento nominal dos salários que excedia o crescimento da produtividade nacional mais o objetivo de inflação acordado em comum de 2% por uma margem baixa, mas bastante estável. França foi o único país que cumpriu exatamente o objetivo de crescimento nominal dos salários. Os salários franceses subiram em paralelo com a performance da produtividade mais o objetivo de inflação do BCE a uma taxa perto de 2%.

Embora a divergência anual entre os aumentos nos custos de unidades de trabalho fosse relativamente pequena, a dinâmica dessa “pequena” divergência anual é capaz de, com o tempo, produzir diferenças enormes. No final da primeira década de UEM, o custo e diferença de preço entre a Alemanha e a Europa do Sul chegava aos 25% e entre a Alemanha e França chegava aos 15%. Por outras palavras, a taxa de câmbio real da Alemanha tinha baixado muito significativamente, embora as moedas nacionais já não existissem na UEM. A divergência no crescimento dos custos das unidades de trabalho já não existiam no seio da UEM. A divergência no crescimento dos custos das unidades era naturalmente refletida nas divergências de preço equivalentes. Assim, a UEM como um todo alcançou quase na perfeição o objetivo de inflação de 2%, mas as diferenças de inflação nacionais no seio da união foram muito sensíveis.

É inegável que a depreciação real que aconteceu na Alemanha teve um enorme impacto nos fluxos de comércio. Com os custos de unidades de trabalho na Alemanha mais baixos relativamente aos dos outros países por uma margem crescente, as exportações alemãs floresceram enquanto as importações abrandaram. Os países na Europa do Sul e também França e Itália começaram a registar défices comerciais e de conta corrente crescentes e sofreram enormes perdas nas suas quotas dos mercados internacionais. A Alemanha, ao contrário, conseguiu preservar a sua quota apesar da competição global crescente com a China e com outros mercados emergentes. Num casulo, a Alemanha tem operado uma política de “pedinchar ao vizinho”, mas só de pois de ter “pedinchado ao seu próprio povo” essencialmente através do congelamento dos salários. Este é o segredo do sucesso alemão dos últimos 15 anos.

O comércio dentro da Europa tinha sido bastante equilibrado até ao início da união monetária e ao longo de muitos anos antes disso. A UEM marcou o início de um período de desequilíbrios rapidamente crescentes. Até após o choque da crise financeira e dos seus devastadores efeitos no comércio mundial, que são claramente visíveis no equilíbrio alemão, a tendência de fundo manteve-se sem mudar. A conta-corrente alemã continuou a aumentar depois de 2010 e até alcançou um novo recorde em 2015, da ordem dos 250 mil milhões de euros, um valor próximo de 9% do PIB.

A Alemanha tem de se ajustar

Num mundo de taxas cambiais flutuantes ou ajustáveis, nenhum país pode ganhar uma vantagem permanente relativamente a outro país se este último tivesse a opção de ajustar as suas taxas cambiais de acordo com os diferenciais da inflação. Isto significa que seriam inúteis todas as tentativas para melhorar a competitividade por via de corte ou moderação de salários na UEM como um todo. E, no entanto, esta foi precisamente a abordagem escolhida pela Europa como saída para a crise. Foi também uma má opção porque o corte salarial na maioria dos países devedores conduziu a quebras severas na procura doméstica, que é mais importante do que a procura externa. A restrição dos salários foi contraproducente em economias com uma taxa de exportação do PIB muito inferior a 50%.

Numa união monetária, um país com uma taxa de exportação baixa que enfrente problemas de défice de conta-corrente muito alto devido a uma moeda implicitamente sobrevalorizada fica sem saída. O ajuste dos salários para baixo, por vezes erroneamente chamados “desvalorização interna”, não só não é solução como também destrói tanto a procura interna como a produção antes que venha a trazer algum alívio através de aumento das exportações.

É por isto que o processo de ajustamento no seio da UEM tem de ser pelo menos simétrico. Significa que o país que tenha implicitamente desvalorizado a sua taxa cambial – a Alemanha – teria de fazer um forte esforço de ajuste crescente, isto é, aumento de salários, enquanto outros países teriam de ajustar lentamente para baixo.

O incentivo mais fiável para o sucesso dos esforços de ajustamento em ambos os casos seria de novo o objetivo de inflação. Se o objetivo de inflação comum não fosse questionado, para restaurar a competitividade internacional dos défices dos países seria necessário aumentar os custos das unidades de trabalho e inflação no país com excedente ao ponto de se conseguir alcançar o balanço externo em ambos os lados da união monetária (incluindo os primeiros dez anos).

UEM dirige-se para o desastre

Em meados de 2016, o desemprego na UE continuava nos 10%. Em Espanha e na Grécia, o desemprego estava acima dos 20% e o desemprego jovem era superior a uns extraordinários 50%. Mais do que qualquer outra coisa, estes números mostram o insucesso da UE na luta contra este problema que emergiu como a “crise da zona euro”. Enquanto a queda significativa de crescimento e emprego foi inicialmente provocada pela crise global de 2007-9, após 2010 as nações devedoras da UEM ficaram privadas de meios para combater a recessão e foram forçadas a adotar políticas pró-cíclicas numa escala que não se via desde os anos 30.

O mantra alemão que diz “a austeridade é a única solução” foi aplicado a todos os países, que foram forçados a pedir ajuda quando acabou o seu acesso aos mercados globais, ou quando ele lhes foi vedado de facto pelas altíssimas taxas de juro. A obsessão com os aparentes problemas fiscais dominou o debate e as condições que foram exigidas pela troika e pelo Eurogrupo para abrir os cofres das nações credoras concentrou-se na consolidação a qualquer preço e o mais rápido possível dos orçamentos públicos dos países do défice.

As divergências acumuladas durante os primeiros anos da UEM e a terrível natureza dos programas de ajustamento puseram em questão a própria sobrevivência da UE.

Com a persistência do domínio alemão dos mercados de exportação e dada a recusa alemã de ajustar o seu próprio modelo económico, o futuro da zona euro parece sombrio. A falta de instrumentos de política para atacar a recessão, o condicionamento dos programas de ajustamento impostos às economias em crise, o próprio ajustamento “estrutural” disfuncional e a perspetiva de deflação continuada aumentaram os custos de permanecer na UEM ao ponto de a subida política da direita ameaçarem a democracia e a União Europeia. O insucesso na descida das taxas de desemprego e a crescente pobreza abriu caminho aos partidos de direita populistas e antieuropeus, tanto nos países credores como nos devedores. Contra esse perigo, os benefícios de ser membro da UEM são pequenos e, mais importante ainda, estão a diminuir depressa.

Em resumo, as divergências acumuladas durante os primeiros anos da UEM e a terrível natureza dos programas de ajustamento puseram em questão a própria sobrevivência da UE. E, no entanto, os líderes europeus parecem alheios a isso. Parecem ainda menos disponíveis para empreenderem um esforço político para inverter a economia em geral e impedir as divergências crescentes no seio da UEM. A perspetiva de desintegração e o decorrente colapso da união já não podem ser ignorados.


O que aconteceria se Portugal saísse da União Europeia?

(João Madeira, in ionline, 15/07/2016)

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Se o divórcio fosse litigioso e implicasse abandono do euro, o impacto económico imediato seria violento. Mas a prazo há quem veja luz ao fundo do túnel.


Um país pobre, velho e isolado, com cada vez mais empresas e bancos em falência, desemprego e criminalidade a subir em flecha, a recorrer ao FMI para ultrapassar uma crise sem precedentes? Ou uma economia mais próspera sem o espartilho das penalizações orçamentais de Bruxelas, com um novo escudo mais competitivo que torna o país uma máquina de exportações e um paraíso de férias que os europeus adoram devido aos preços baratos? Os dois cenários são possíveis e ambos decorrem da mesma base de partida: uma hipotética saída de Portugal da União Europeia e, por arrasto, da moeda única. Tudo depende dos pormenores dessa desvinculação – algo que nunca aconteceu – e se esse divórcio é litigioso ou amigável. O cenário de saída da EU não está ao virar da esquina – a proposta de referendo do Bloco terá poucas pernas para andar – mas o que aconteceria se esse Portugal entrasse num percurso semelhante ao do Reino Unido? Se no Brexit qualquer exercício de “deve e haver” é complexo, no caso português é ainda mais, já que envolve também a moeda única. Mas vamos por partes.

Verbas comunitárias: O fim dos fundos

 Um reflexo financeiro imediato seria o fim dos fundos europeus. Portugal é um dos principais beneficiados pelas verbas que os países mais ricos canalizam para o orçamento comunitário. Segundo um estudo do economista Augusto Mateus para a Fundação Francisco Manuel dos Santos, os 96 mil milhões de euros disponibilizados a Portugal entre 1989 e 2013 permitiram um conjunto “muito diversificado de projetos de investimento”. Somando os fundos estruturais e de coesão, a contrapartida pública nacional e a contrapartida privada, o montante global de investimento estrutural programado para Portugal naquele período ascendeu a 178 mil milhões de euros. Sem esse apoio, construir, recuperar ou ampliar infraestruturas como estradas, pontes, caminhos de ferro ou metropolitanos seria mais difícil.

Risco de corte no investimento externo

 Nas trocas com o exterior também poderia haver incerteza. Mais de 70% das exportações de bens e de serviços do país são para a União Europeia e esse comércio poderia ser dificultado com a saída do bloco europeu, em caso de litígio e sem que Portugal estabelecesse acordos de livre comércio com a UE. No investimento, também poderia haver repercussões. Quem investe em Portugal não o faz apenas num país, mas num grande bloco económico que, em termos agregados, representa a segunda maior economia mundial, depois dos EUA. O Brexit está a fazer com que muitas multinacionais ponderem desinvestir no país. Se esse risco existe numa das maiores economias mundiais, tornar-se-ia ainda mais evidente numa pequena economia como a portuguesa. A fuga de capitais e a falta de investimento estrangeiro poderiam tornar o país ainda mais vulnerável, mas tudo depende dos pormenores da saída. Haveria ou não acordos de livre comércio com a UE? Haveria acordos para a circulação de pessoas entre Portugal e outros países? E implicaria a saída da moeda única?

Novo escudo? Traria inflação mas aumentaria exportações

 De facto, a principal incerteza seria o euro. Além de pertencer à UE, Portugal adotou a moeda única. Embora haja países fora da UE que adotaram o euro, sair da União e ficar no euro é duvidoso, já que os argumentos invocados pelos defensores são precisamente as restrições orçamentais aplicadas pela Europa aos países da Zona Euro. Com a retirada do euro, entraria em circulação um novo escudo. Mas, sendo uma moeda mais fraca do que o euro, as importações ficariam mais caras e haveria mais inflação. A subida de preços teria efeitos no poder de compra dos cidadãos. Como uma saída do euro nunca ocorreu, não há muitos estudos sobre o tema. A questão chegou a colocar-se há um ano, na Grécia, que começou a ficar sem financiamento do BCE quando entrou em confronto com as instituições europeias. Quando esse cenário se pôs na Grécia, o economista Filipe Garcia antevia problemas: “O mais provável seria uma escassez de bens essenciais, falências e paralisações de muitas empresas e consequente desemprego”. Cenários de racionamento de bens essenciais importados, como medicamentos e combustíveis, são postos em cima da mesa quando se fala em saídas desordenadas da moeda única. A face mais positiva desta desvalorização cambial seriam os ganhos de competitividade nas exportações. A produção interna portuguesa ficaria mais barata e comprar produtos e serviços portugueses seria mais vantajoso.

Controlo de capitais nos bancos

 Mas estar na moeda única não é apenas estar vinculado à utilização do euro. Os bancos da Zona Euro funcionam na dependência do BCE, que é o financiador de último recurso quando há emergências. Em caso de saída conflituosa do euro, se o banco central fechasse a torneira, as instituições bancárias ficariam sem acesso a financiamento. O controlo de capitais, com restrições aos levantamentos bancários, serial essencial, e Portugal poderia ter de tomar medidas radicais. Azad Zangana, da Schroders, antecipava na altura da Grécia que o Governo helénico poderia optar sair do euro exatamente para imprimir sua própria moeda e evitar o colapso dos bancos. Como explica Filipe Garcia, economista da consultora financeira IMF, o primeiro constrangimento de uma saída é “o acesso a moeda estrangeira” por parte um país que saísse do euro. Se não o conseguisse, as empresas teriam dificuldades em obter crédito e a economia paralisaria. Como o setor privado tem de recorrer a empréstimos para funcionar no dia-a-dia, “provavelmente grande parte entraria em incumprimento”. Por outro lado, o próprio Estado poderia entrar em incumprimento face ao exterior.

Um empréstimo externo ajudaria Portugal

 Para colmatar estas dificuldades, uma saída negociada seria o cenário mais benéfico. No livro “A Solução Novo Escudo”, dos economistas Francisco Louçã e João Ferreira do Amaral, é sugerida a possibilidade de os governos da UE concederem um empréstimo a Portugal para “honrar a dívida do Estado e sustentar a balança de pagamentos durante o período de um ano, um ano e meio que a desvalorização da moeda demorará a ter efeitos positivos no reequilíbrio das contas externas”. Por outro lado, o BCE teria de comprometer-se a “renovar durante algum tempo a dívida dos bancos portugueses” e “abriria uma nova facilidade especial, temporária, de crédito aos bancos portugueses durante a fase de transição para a nova moeda”. Se imperasse o cenário de litígio, e sem acesso às ajudas da UE, os dois economistas propõem que o Banco de Portugal, já independente do BCE, financiasse o Estado. E que o Orçamento do Estado atenuasse as potenciais disrupções internas criadas pela desvalorização da moeda, como uma possível subsidiação dos transportes para não ficarem mais caros. Como uma desvalorização penaliza quem tem empréstimos em euros – a dívida cresce por motivos cambiais – o Estado poderia também assumir parte da dívida das famílias. Se estas e outras ferramentas avançadas pelos dois economistas não fossem suficientes para ultrapassar o período inicial de dificuldades, uma eventual rutura na balança de pagamentos do país poderia ser colmatada com o recurso a um empréstimo do FMI. Isso poderia implicar novas medidas de austeridade, mas um novo programa poderia ser bem sucedido do que aquele que foi conduzido entre 2011 e 2014, com a recuperação de margem de manobra orçamental, cambial e monetária. Os dois programas de resgate do FMI nos anos 70 e 80, ainda com o escudo e assentes na desvalorização da moeda para que as exportações ganhassem competitividade, foram bem sucedidos do ponto de vista do crescimento económico. Embora a face mais negativa fosse uma inflação que chegou a atingir quase 30%, um valor quase inimaginável para as novas gerações, o PIB cresceu.

Recuperação económica seria possível

Ninguém esconde que a saída do euro traria dificuldades imediatas. Na altura da Grécia, o prémio Nobel Paul Krugman era sensível às questões de curto prazo: “Seria seguramente feio para a Grécia, pelo menos de início”, escreveu no blogue do “New York Times”. A grande divergência dos economistas é sobretudo a longo prazo. Na Grécia, Krugman admitiu na altura, com algum humor, que o país poderia recuperar fora da moeda única, depois dos problemas iniciais. “Suponha que um novo dracma muito desvalorizado traz uma avalanche de britânicos bebedores de cerveja para o Mar Jónico, e que a Grécia recupera”, escreveu no blogue, concluindo: “O risco real para o euro não é que a Grécia falhe, mas que seja bem sucedida”.

Quem aposta na recuperação tende a apontar para a Islândia. Este país teve uma crise bancária em 2008. Nacionalizou a banca, repudiou parte da dívida que os bancos nacionalizados tinham contraído, desvalorizou a moeda e tomou medidas de controlo de capitais. Depois de uma recessão – menos pronunciada do que noutros países que foram intervencionados pela troika – voltou a crescer. Houve inflação, mas a moeda mais fraca ajudou uma economia movida pelo turismo e pelas exportações de peixe e de alumínio. O presidente da Islândia, Olafur Ragnar Grimsson, chegou a afirmar que o sucesso da recuperação do país se deveu ao facto de não ter seguido a receita de cortes orçamentais prescrita por Bruxelas.

Em Portugal, um escudo mais desvalorizado do que o euro permitiria que os produtos e serviços fossem mais competitivos do que aqueles que são produzidos no espaço europeu, pelo que poderia dar um novo impulso às exportações. Os turistas europeus ficariam ao lado de um país com praias e preços tão baixos que o turismo teria um peso ainda maior.

Dani Kodrik, conceituado economista de Harvard, antevê um desfecho positivo caso Portugal saísse da moeda única. Numa passagem pelo país foi questionado pelo Negócios sobre uma saída de Portugal do euro, e admitiu: “Se Portugal saísse da Zona Euro, os efeitos imediatos seriam muito duros, mas com hipóteses de uma recuperação num ou dois anos”.

Kodrik justificou depois essa perceção: “Depois de um ano, se os países com moeda própria estiverem bem e o investimento estiver a recuperar, os mercados financeiros não vão levar a mal terem saído da Zona Euro e terem instituído controlos de capital. Os mercados adoram um país com boa performance, não querem saber como chegou lá”.

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Foi Dijsselbloem ou eu que caí do cavalo?

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 17/06/2016)

nicolau

Esta manhã, ainda ensonado, vi na televisão o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, a dizer que se devia aproveitar as historicamente baixas taxas de juro no Velho Continente para resolver a dívida excessiva dos países da zona euro. Como a declaração passou tão depressa e não encontrei ainda confirmação nos vários sites a que recorri, fiquei na dúvida se ouvi mal, se estava a sonhar ou se foi Dijsselbloem que caiu do cavalo. Já me explico.

Um dia, recebi um elogio viperino de um ex-ministro das Finanças deste país. “Você caiu do cavalo e bateu com a cabeça numa pedra? É que está a escrever muito melhor.” Pois a minha dúvida é se Dijsselbloem também não terá caído no cavalo e batido com a cabeça numa pedra para dizer o que disse – ou o que eu penso que o ouvi dizer.

É que se alguém tem uma cabeça muito dura e cheia de ideias erradas sobre a situação económica na zona euro é Dijsselbloem, que mesmo perante as ululantes evidências não muda de posição, tendo muito recentemente estado no pelotão da frente dos que querem que a Comissão Europeia aplique sanções a Portugal e Espanha por não terem cumprido o défice de 3% em 2015.

Ora para o homem chegar à conclusão que, sem um alívio da dívida que impende sobre os países periféricos, estes não conseguirão dar a volta à situação e crescerem a ritmos que lhes permitam pagar os seus compromissos, alguma coisa de extraordinário deve ter acontecido. Ou teve uma visão, ou o sr. Wolfgang Schauble lhe segredou qualquer coisa ao ouvido (coisa muito pouco improvável) ou bateu mesmo com a cabeça.

É que na verdade o brutal endividamento dos países periféricos – e não só da zona euro – é o que está a travar a possibilidade do lançamento de programas de investimento que reativem o crescimento anémico de que a União Europeia padece. E sem crescimento não só não se pagam dívidas como a Europa se aproxima cada vez mais do abismo da deflação, do desemprego estrutural muito elevado e de convulsões sociais, que podem colocar em causa de forma irreversível a moeda única.

Talvez tenha sido isto que Dijsselbloem finalmente percebeu. Provavelmente ainda não aceita que a responsabilidade da crise não tem como única explicação as derrapagens orçamentais dos países periféricos, mas que elas resultaram, em larga medida, de orientações da própria Comissão Europeia (presidida na altura por Durão Barroso) para que os Estados membros investissem a fundo nas suas economias para evitar a recessão, as falências e o desemprego; do disparo dos défices públicos que daí decorreu, com empresas e bancos privados a serem salvos por dinheiros públicos, mas os Estados a serem penalizados porque viram os seus défices e dívidas crescerem rapidamente; da lentíssima resposta de Bruxelas, por ordens de Berlim, à crise grega, que deu origem à crise das dívidas soberanas, que provocou um tsunami sobre as economias europeias; ou dos elevadíssimos juros que os países periféricos tiveram de pagar porque os mercados ficaram com os nervos em franja com a possibilidade da implosão do euro, taxas essas que não eram justificadas pelos fundamentos económicos desses países.

Mas já é um avanço que, depois de aceitar que é necessário aliviar a dívida grega (porque, como é óbvio, os helénicos não têm qualquer possibilidade de pagar o que já lhes emprestaram), venha agora generalizar o conceito e estendê-lo a outros países da zona euro que se encontram em situações semelhantes, embora menos desesperadas, como é o caso de Portugal.

Espero ter sido isto que eu ouvi o Jeroen dizer. E, se foi, peço a todos os santinhos que os amigos não o deixem andar a cavalo nos próximos tempos. É que se ele volta a cair do equídeo e a bater de novo com a cabeça na pedra, lá regressa ao que sempre andou a dizer até ontem. Oremos!