Foi Dijsselbloem ou eu que caí do cavalo?

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 17/06/2016)

nicolau

Esta manhã, ainda ensonado, vi na televisão o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, a dizer que se devia aproveitar as historicamente baixas taxas de juro no Velho Continente para resolver a dívida excessiva dos países da zona euro. Como a declaração passou tão depressa e não encontrei ainda confirmação nos vários sites a que recorri, fiquei na dúvida se ouvi mal, se estava a sonhar ou se foi Dijsselbloem que caiu do cavalo. Já me explico.

Um dia, recebi um elogio viperino de um ex-ministro das Finanças deste país. “Você caiu do cavalo e bateu com a cabeça numa pedra? É que está a escrever muito melhor.” Pois a minha dúvida é se Dijsselbloem também não terá caído no cavalo e batido com a cabeça numa pedra para dizer o que disse – ou o que eu penso que o ouvi dizer.

É que se alguém tem uma cabeça muito dura e cheia de ideias erradas sobre a situação económica na zona euro é Dijsselbloem, que mesmo perante as ululantes evidências não muda de posição, tendo muito recentemente estado no pelotão da frente dos que querem que a Comissão Europeia aplique sanções a Portugal e Espanha por não terem cumprido o défice de 3% em 2015.

Ora para o homem chegar à conclusão que, sem um alívio da dívida que impende sobre os países periféricos, estes não conseguirão dar a volta à situação e crescerem a ritmos que lhes permitam pagar os seus compromissos, alguma coisa de extraordinário deve ter acontecido. Ou teve uma visão, ou o sr. Wolfgang Schauble lhe segredou qualquer coisa ao ouvido (coisa muito pouco improvável) ou bateu mesmo com a cabeça.

É que na verdade o brutal endividamento dos países periféricos – e não só da zona euro – é o que está a travar a possibilidade do lançamento de programas de investimento que reativem o crescimento anémico de que a União Europeia padece. E sem crescimento não só não se pagam dívidas como a Europa se aproxima cada vez mais do abismo da deflação, do desemprego estrutural muito elevado e de convulsões sociais, que podem colocar em causa de forma irreversível a moeda única.

Talvez tenha sido isto que Dijsselbloem finalmente percebeu. Provavelmente ainda não aceita que a responsabilidade da crise não tem como única explicação as derrapagens orçamentais dos países periféricos, mas que elas resultaram, em larga medida, de orientações da própria Comissão Europeia (presidida na altura por Durão Barroso) para que os Estados membros investissem a fundo nas suas economias para evitar a recessão, as falências e o desemprego; do disparo dos défices públicos que daí decorreu, com empresas e bancos privados a serem salvos por dinheiros públicos, mas os Estados a serem penalizados porque viram os seus défices e dívidas crescerem rapidamente; da lentíssima resposta de Bruxelas, por ordens de Berlim, à crise grega, que deu origem à crise das dívidas soberanas, que provocou um tsunami sobre as economias europeias; ou dos elevadíssimos juros que os países periféricos tiveram de pagar porque os mercados ficaram com os nervos em franja com a possibilidade da implosão do euro, taxas essas que não eram justificadas pelos fundamentos económicos desses países.

Mas já é um avanço que, depois de aceitar que é necessário aliviar a dívida grega (porque, como é óbvio, os helénicos não têm qualquer possibilidade de pagar o que já lhes emprestaram), venha agora generalizar o conceito e estendê-lo a outros países da zona euro que se encontram em situações semelhantes, embora menos desesperadas, como é o caso de Portugal.

Espero ter sido isto que eu ouvi o Jeroen dizer. E, se foi, peço a todos os santinhos que os amigos não o deixem andar a cavalo nos próximos tempos. É que se ele volta a cair do equídeo e a bater de novo com a cabeça na pedra, lá regressa ao que sempre andou a dizer até ontem. Oremos!

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