Descer a Rodrigues dos Santos

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 17/06/2016)

Autor

                              Daniel Oliveira

A má literatura, escrita a metro e pobre em recursos estilísticos, não me incomoda. Não leio mais do que duas páginas e sei que, venda o que vender (e no caso de José Rodrigues dos Santos vende muito), terá o mesmo destino de quase tudo o que é mau: quando os seus autores se vão deste mundo a obra vai com eles. O mau gosto dos leitores costuma ser resolvido com a justiça do tempo, não carregando as costas das próximas gerações com o lixo do passado. Terão apenas de suportar a mediocridade contemporânea e viver na ilusão de que antes só se faziam as coisas aceitáveis que passaram a implacável peneira da História para lhes chegar às mãos.

Ainda assim, e sei que isto choca as almas mais democráticas e igualitárias, há mundos que não é suposto tocarem-se sem estarem protegidos pelo escudo da ironia. George Steiner não faz críticas a livros de Dan Brown porque George Steiner escreve, entre outras coisas, sobre literatura, e Dan Brown apenas escreve livros. Qualquer embate seria um ato de arrogância de um e de atrevimento de outro.

António Araújo é um historiador respeitado. Um intelectual de direita que foi assessor de Cavaco Silva e é assessor de Marcelo Rebelo de Sousa. Leio-o com frequência pelo simples prazer de apreciar a sua inteligência e erudição. Em suma, ele não é do campeonato de José Rodrigues dos Santos. Mas António Araújo tem um “guilty pleasure”: ler e comentar os romances de José Rodrigues dos Santos. Os seus sete textos sobre a obra deste autor, com o titulo genérico de “A sexualidade das onomatopeias” (ver AQUI http://malomil.blogspot.pt/2014/11/rodrigues-dos-santos-sexualidade-das.html), aproximam-se perigosamente do bullying intelectual. Descobri-os, com culpa e deleite, pouco antes da polémica sobre o marxismo rebentar, e não me arrependo do tempo que lhes dispensei. Araújo não se fica pela popular e já batida sopa de peixe com leite de mamas de sueca, da fase inicial e mais radical do romancista. Ao longo dos textos, que nos dispensam a leitura da extensa obra, podemos enternecer-nos com as obsessões estilísticas do autor-jornalista, que se repetem de obra para obra, com especial fixação em olhos cor de mel e seios de dimensões generosas, consistência gelatinosa e com mamilos arrebitados como chupetas – há obsessões bem piores, mas a repetição em várias obras e mulheres acaba por banalizar a coisa. Aconselho, para um serão bem passado, a leitura das hilariantes e bem documentadas recensões de Araújo, com quem, no estudo da obra de Rodrigues dos Santos e no talento para lhe encontrar os traços de continuidade e ruptura, nunca conseguiria competir.

Já num registo um pouco mais sério, António Araújo resume bem a lógica deste tipo de autores: “Por razões exclusivamente comerciais, estes livros, mesmo sem alma, têm de ganhar corpo; e se, noutros cultores do género, o corpo do livro flui naturalmente da mestria de quem o concebe, José Rodrigues dos Santos encontrou um expediente habilidoso e espertalhão para enchumaçar as suas historietas, carregando baldes e baldes de informação wikipédica para o interior dos romances, que se convertem em lições patéticas e intermináveis, reveladoras da total incompetência narrativa do autor e da imaturidade do seu intelecto criativo.” E para se defender, Rodrigues dos Santos carimba o que escreve com a credibilidade de especialistas, operacionais da Al-Qaeda, académicos, historiadores, todos “conceituados”.

Em todo o lado há escritores de obras de entretenimento e um dos géneros mais em voga é esta espécie de romances históricos, quase sempre repletos de revelações estapafúrdias e teorias da conspiração, em que autores sem instrumentos de investigação básicos dão abadas a historiadores experimentados. Sendo ficção, não é grave. Acontece que o sucesso deste género depende da sua verosimilhança. E é por isso que José Rodrigues dos Santos diz que “demonstra” coisas e que apresenta “provas” nos seus romances, equiparando-os, sem se perceber com que métodos, a obras de investigação.

Umberto Eco caracterizou assim o autor do “Código de Da Vinci”, o Papa deste género: “Dan Brown é mais uma personagem do meu romance ‘O Pêndulo de Foucault’ do que alguém com uma existência de verdade. Ele teve um sucesso extraordinário, quase cósmico, mesmo que o que conta seja evidentemente falso. Dan Brown comprou os mesmos livros que eu para as investigações de ‘O Pêndulo’, só que eu fiz uma representação grotesca enquanto ele convenceu os leitores de que tudo o que escreveu era verdadeiro.” Tirem-se os livros que Dan Brown leu e ponham-se no seu lugar buscas na Internet e temos um bom retrato de José Rodrigues dos Santos.

A necessidade do autor enxertar na obra a ilusão de conhecimento permite a leitores menos preparados acreditar que não se estão apenas a divertir e a passar o tempo – o que não tem mal algum –, mas também se estão a cultivar, o que não é verdade. A única coisa que assusta é que Rodrigues dos Santos parece acreditar que está mesmo a revelar estrondosas descobertas à comunidade religiosa, científica, política ou académica, dependendo do tema. Ou então não acredita. Seja como for, temos um jornalista com enorme visibilidade que ou é mitómano ou é aldrabão, sendo qualquer uma destas características pouco recomendável para a profissão que desempenha quando não está a encher tijolos de palavras.

Uma das coisas que distingue um escritor de um vendedor de livros é que o escritor não tem, pelo menos na construção da sua obra, estratégias de marketing. Tem apenas a obra e o seu dever para com ela. Porque vender livros é uma possível consequência da escrita, não é o objetivo. Já José Rodrigues dos Santos procura, nos temas e nas tontas polémicas que promove, apenas vender. E era esse o objetivo da entrevista ao “Diário de Notícias” (que pode ler AQUI http://www.dn.pt/artes/interior/jose-rodrigues-dos-santos-o-fascismo-tem-origem-marxista-5189844.html ) e do artigo do “Público” (AQUI https://www.publico.pt/politica/noticia/o-fascismo-tem-origem-no-marxismo-1733362 ): a busca desesperada de uma reação que desse que falar e ajudasse a vender a sua sopa de peixe.

O facto de ter merecido resposta de intelectuais sérios em jornais sérios é demonstrativo do tal espírito aparentemente democrático do país, onde mundos que normalmente não se tocam – o do entretenimento comercial e o da academia exigente – se confrontam em pé de igualdade. Uma coisa é o olhar deliciosamente sobranceiro dos textos de Araújo publicados no seu blogue, obviamente dirigidos a quem nunca leu nem pretende ler José Rodrigues dos Santos, outra são textos sérios (ler AQUI https://www.publico.pt/politica/noticia/fascismo-e-quando-um-homem-quiser-1733440), procurando desconstruir as mal amanhadas teses de José Rodrigues dos Santos, alguém sem equipamento cultural para distinguir filiação política de evolução histórica, descendência ideológica de semelhanças que são fruto do caldo político, social e cultural do tempo.

Mas muito mais estranho do que isto é jornais de referência, como o Expresso ou o “Público”, darem a José Rodrigues dos Santos tanto espaço para ser protagonista numa polémica historiográfica em que lhe falta tudo para ser parte. A estratégia de autopromoção, procurando espalhar a polémica por todos os órgãos de comunicação social, é compreensível da parte de um vendedor de livros. É mais difícil de compreender do ponto de vista dos jornais. É mais ou menos o mesmo que dar a Margarida Rebelo Pinto uma página para perorar sobre “O Capital no Século XXI”, de Thomas Piketty. Os leitores têm direito a um verdadeiro debate intelectual acima dos delírios ligeiros da literatura de aeroporto.

Tenho uma formação marxista, dediquei uma parte considerável da minha vida a uma militância ideológica que, pelo menos no meu caso, implicou estudo e debate de vários autores marxistas e suspeito que li mais de e sobre Marx na minha juventude do que José Rodrigues dos Santos na sua vida toda. E, no entanto, não me sentiria preparado para um debate intelectual deste calibre. Só a megalomania do Rodrigues dos Santos lhe pode ter criado a ilusão de que, antes de sedimentar conhecimentos básicos sobre a história do marxismo, poderia atrever-se a anunciar revelações e envolver-se em controvérsias filosóficas, historiográficas e políticas desta dimensão.

A razão pela qual José Rodrigues dos Santos conseguiu, com tanta facilidade, ser admitido num debate historiográfico sobre o marxismo feito em jornais de referência, para o qual obviamente lhe falta o equipamento cultural e intelectual, não é a magnânima e descomplexada atitude dos nossos intelectuais. É vivermos num país quase sem elite cultural, onde os bons autores são lidos por pouquíssimos, as polémicas ideológicas vivem no circuito fechado da Academia e de alguns círculos políticos muito restritos e o “Correio da Manhã” é o jornal mais lido nas classes mais instruídas.

Num país assim, José Rodrigues dos Santos faz escola. Não são os nossos intelectuais que são muito democratas ao escolher com quem debatem. É a nossa elite que é tão frágil que até os disparates de José Rodrigues dos Santos têm de ser rebatidos para não ganharem o estatuto público de verdade científica.

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15 pensamentos sobre “Descer a Rodrigues dos Santos

  1. Quem quer que tenha e expresse uma opinião, que contrarie a ortodoxia comunista, em particular a do PCP,, terá que suportar o maior opróbrio vindo dos capos e guarda-espaldas do partido. Em cima disso, JRdosS tem êxito, de que alguns modestos comentadores têm uma inveja surda.

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  2. Os romances ” A Filha do Capitão” e ” O Anjo Branco”-os únicos que li de Rodrigues dos Santos, não me parecem nada maus como aqui se quer dizer.São romances com bastante fundamento histórico e, sobretudo o “Anjo Branco”, fala de uma biografia (do seu próprio pai) que foi uma figura importante -enquanto médico com muita coragem- que enfrentou o “status quo” político adverso a qualquer mudança da História!

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  3. Habilidosos há muitos a escrever. E a malta adora malabarismos, sejam os de ideias e conceitos, sejam de jogos de palavras. Por isso não só o Rodrigues dos Santos é tão vendido, mas também Mia Couto e Saramago.
    Disse – agora, linchem-me!

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  4. Eu sinto em si um crítico com bases suficientes para ludibriar, defender-se,e desvalorizar o trabalho de um autor qur em nenhuma das suas obras contêm o cenário qur acabou descrever. Pode-se perceber é um desabafo de um crítico que nutre inveja,uma capacidade enorme para desrespeitar e até não ter noção das ofensas que escreve e com risco de ser processado judicialmente. Leia e faça crítica das suas mas não ofenda a quem no mínimo faz o seu trabalho.

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  5. Se só tivesse lido os 2 últimos livros de JRS talvez concordasse com o Sr. Daniel Oliveira. Se ele leu mais livros sobre o marxismo que JRS, então que eu nem se fala. Pelo que oiço nos seus comentários televisivos, duvido é que tenha entendido.
    Em relação aos livros que li de JRS, e foram bastantes, talvez não tenha aprendido muito. Mas despertaram-me o interesse por muitos temas que, depois, acabei por aprofundar através da leitura de livros mais sérios. E isso também é um mérito do escritor.
    Concordo que JRS tem a preocupação de vender. Isso está bem visível nos seus livros e nas “CONVERSAS COM ESCRITORES” que a RTP transmitiu. Só que não considero isso um demérito. O escritor deve escrever para ser lido, não para se masturbar com a escrita.
    De qualquer forma, obrigado ao Daniel pelo seu texto. Não discordo de tudo, e até na discordância se aprende.

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  6. E descer a Daniel Oliveira, que não tem “capacidade de encaixe”, quando alguém lhe apresenta argumentos contrários à sua ideologia? Como reage? Parece-me um recalcado do sistema…!

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  7. Pois é Daniel, trevas, só trevas, nada mais se vislumbra ou vislumbrou cá na terriacha, e, você, a pôr luz no sujeitito que, estúpidamente, macaqueia ler notícias a metro, na televisão deste pobre auditório! E, já agora, ignore os comentários que os imcompetentes e invejosos fizeram ao seu escorreito texto. São negros da côr do carvão.
    Alèm disso, nunca esqueça: até o Salazarzito manganão ganhou a medalha…palavras para quê?

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  8. Há muitas maneiras de criticar, positiva ou negativamente, mas esta não é definitivamente isenta, elegante e muito menos útil. E seja lá o que JRS escreva ou diga, ainda há que respeitar a liberdade de expressão e opinião ainda há que respeitar nem que seja a liberdade de sermos ignorantes: Porque quem sabe tudo não existe e quem julga que sabe tudo é quem mais erra.

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  9. Este sr. Oliveira tanto escreveu afinal para dizer, sem o dizer, que ficou contente com a substituição do pivô JRS, pela nova cara laroca mais do seu agrado.
    Um camaleão este Oliveira.
    Mais valia ser directo, dispensando o ódio.

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  10. Como nos tem habituado mais um texto incrivelmente bem escrito e eruditamente estruturado. Quanto a JRS não sou seu leitor pelo simples facto de que não embarco em historietas de treta nem alimento usurpações de romances bem idealizados como os de Don Brown . Prefiro indubitavelmente Herberto Hélder.

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  11. Pois. Gosto muito dos textos do Oliveira e detesto a posição fanaticamente neoliberal do Rodrigues. Bronca e tacanha mesmo.
    Posto isto, o Rodrigues mete um publicuzinho que habitualmente só fala de futebol, a falar de questões históricas. É mau ? Eu acho que lhe devemos agradecer de mãos postas. Um escritor é bom também por isso, por despertar o leitor para outros mundos, neste caso para além do futebol – insista ou não em fartas tetas e olhos de mel.
    Passemos a outro ponto. O Oliveira está ciente das correntes fascistas que se identificam com o socialismo ? Porque raio manteve Hitler a designação de socialista ao seu partido e o Mussolini ia chamando socialista á sua república que acabou por se chamar social ? E da corrente do socialismo prussiano ? E a do socialismo alemão ? E o nacional bolchevismo ? Sabe o que significam todas estas designações em concreto ?
    Será que as suas leituras de juventude foram demasiado orientadas numa direção e deixou passar outras sem se aperceber ?
    Eu sei a resposta, por experiência de vida. É que eu dei-lhe a entender que estou próximo das suas ideias políticas, o que hoje é verdade. Mas na juventude estive nos seus antípodas. Mas sabe ? Eram antípodas mais próximos do que possa pensar. Eu era dirigente de um grupo pura e simplesmente nazi. E sabe ? Tinha orgulho no meu socialismo. Desprezava o PS por ser um partido de direita disfarçado de socialista, considerando-me mil vezes mais socialista que um Soares, para mim um vendido ao neoliberalismo. A nível social o meu padrão era uma Noruega. Plus repressão e raça pura, claro, mas não é disso que estamos a falar. Em resumo, o Rodrigues chamou a atenção para uma realidade do extremismo fascista que o extremismo comunista tenta esconder, por vergonha do seu parentesco…

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