Uma coisa arrevesada para entretenimento dos tais «deploráveis»

(Por Jorge Rocha, in Blog Ventos Semeados, 06/01/2017)

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Razões várias têm-me impedido de, nos dias mais recentes, prestar grande atenção a quanto se passa à minha volta. Daí que anteontem à noite, quando me preparava para uma sessão de cinema, tenha  reagido com alguma estupefação à invetiva de pessoa amiga, também ali a comungar do mesmo prazer cinéfilo, mas a questionar-me porque não ficara a ver o debate dessa noite.

Estava tão a leste da sucessão de Passos Coelho no PSD, que julguei referir-se ela a um daqueles painéis de «inteligentes», que costumam esmiuçar todos os pormenores sobre os jogos de futebol dos dias anteriores, e que teriam no Benfica – Sporting muito sobre que parolar. Só depois percebi, que Santana e Rio estariam por essa altura a exibir os limitados dotes perante os masoquistas, que se dispusessem a assistir-lhes ao palavreado.

Pela manhã ainda espreitei nos telejornais a síntese do que se passara e a auscultar nos jornais o que ficava como saldo. Não foi difícil entender que a televisão e o semanário de Balsemão estão rendidos à «eloquência» de Santana e deram-no como vencedor da peleja. Mas, por seu lado David Dinis, no matutino da Sonae, deu como único vencedor o tranquilo António Costa, já que tudo lhe soara ao jeito da RTP Memória (no seu pior).

Por muito que as televisões, as rádios e os jornais torçam pelo que vier a vencer, nem Santana, nem Rio têm argumentos para beliscarem a superioridade intelectual, política e executiva do atual primeiro-ministro á frente dos destinos do país. Mas ambos ensaiam duas estratégias diversas, já gastas ou em vias disso, para tentarem forçar o destino.

Rui Rio busca apoiar-se naquele segmento da população portuguesa,  que nunca conseguiu livrar-se da canga salazarenta de dentro de si, e por isso deu ao ditador de Santa Comba a vitória num lamentável concurso sobre popularidade de personagens históricos e justificou vinte anos de cavaquismo a  azucrinar-nos as mentes … e os bolsos.

Santana olha para fora do país e procura reter os exemplos de Farage, Berlusconi ou Le Pen: insulta o 25 de abril e dirá tudo quanto possa sentir como «popular» para se enquadrar na vaga de demagogos, que tem ocupado espaço político excessivo na cena europeia dos últimos anos. Acaso seja ele o vencedor, Cristas estará em maus lençóis, porque também ela anda a testar esse mesmo tipo de demagogia, e aqueles que, neste cantinho, se adequam ao qualificativo empregue por Hillary Clinton para designar os  apoiantes de Trump – os deploráveis – não são assim tantos, que dêem para garantir público bastante para dois «artistas» desse jaez.

No fundo eu tinha razão em sequer me dar ao trabalho de saber quando seria esse debate. Ele acabou por se revelar tão pequenino na relevância, que hoje já ninguém se lembra do que nele sucedeu…


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O Orçamento é de esquerda. Mas deixa esquerda para o futuro? 

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 02/11/2017)

 

Daniel

Daniel Oliveira

A oposição começou por dizer que vinha aí a desgraça. Depois os resultados foram bons e, como eram bons, só podiam resultar do que ela própria defendia. O Governo estava a fazer o mesmo que o anterior. Era uma austeridade de esquerda. De centro, mesmo. E o PCP e o BE estavam no bolso. Com o novo orçamento começou a voltar o discurso da desgraça anunciada. Apenas os incêndios, mais apetecíveis, acabaram por dispensar a retórica.

O ziguezague entre o anúncio do Diabo porque Costa cedeu ao radicalismo de esquerda e a confirmação da austeridade porque Costa meteu esquerda no bolso não retrata uma realidade em permanente mudança. É apenas o retrato de uma oposição sem discurso e a tatear oportunidades. Este orçamento é apenas a continuação de um caminho que já foi feito, coerente com as prioridades definidas pelos acordos do PS com BE e PCP.

Como os anteriores, este é um orçamento de esquerda, com políticas redistributivas. Haverá um aumento dos escalões do IRS (o que significará um desagravamento fiscal para a classe média baixa, fazendo com que o nosso sistema volte a ser mais progressivo), a sobretaxa acabará definitivamente e a isenção de pagamento de IRS subirá para os 8850 euros de rendimento anual.

Apenas para os trabalhadores com recibos verdes não há boas notícias fiscais. Mantêm-se as taxas para bens importados, sobre a banca e sobre as empresas de energias e tudo indica que o PCP conseguirá o aumento da derrama para empresas com lucros superiores a 35 milhões. As carreiras na Função Pública serão descongeladas com efeitos salariais progressivos e sem efeitos retroativos que teriam um impacto orçamental arrasador. Haverá mais aumentos das pensões com um extra de 10 euros para as mais baixas, um aumento do salário mínimo nacional para 580 euros, o fim do corte de 10% no subsídio de desemprego e a reposição dos valores do Rendimento Social de Inserção, Complemento Extraordinário para Idosos e abono de família. Se isto não é um orçamento de esquerda não sei bem o que seja a esquerda.

Mas todas estas mudanças são sobre o presente. Agora, que estamos a ultrapassar a fase de reposição da normalidade, depois de Passos e da troika, preocupa-me a marca que este governo queira deixar para o futuro. Se quer deixar a marca da esquerda de que se reclama. E não há certeza disso. Está de fora da agenda deste governo a contratação coletiva e da dos seus aliados as prioridades para o investimento público.

Assistimos, nos últimos anos, a um enorme recuo nas leis do trabalho. Sem reverter algumas das mudanças feitas o Governo não mexe em nada de estrutural. Mexe nos rendimentos dos funcionários públicos, mexe nos rendimentos dos reformados, mexe nos rendimentos dos trabalhadores mais pobres através do aumento do salário mínimo, até mexe nos rendimentos finais de todos através do sistema fiscal e dos apoios públicos. Mas a desigualdade, maior doença deste país, fica intocada. Porque é na negociação no privado que grande parte da distribuição da riqueza é determinada. De nada vale dizer que o nosso caminho não são os salários baixos e deixar a maioria dos trabalhadores entregues à sua sorte, sem nenhuma proteção legal para não serem obrigados a aceitar tudo o que lhes é imposto.

É grave a indisponibilidade do Governo em mexer na caducidade da contratação coletiva, que tem bloqueado a capacidade de negociação dos trabalhadores e dos seus sindicatos. E falta tudo o resto no sector do trabalho. Pouco mudou no combate à precariedade fora do sector público. Não foi, ao contrário do que se prometera, revogada a imposição do banco de horas individual. A Autoridade para as Condições de Trabalho continua a funcionar com pouquíssimos meios, tratada como parente pobre da fiscalização.

Quanto ao investimento público, ele finalmente virá. A questão, neste caso, é a aparente ausência dos aliados do Governo neste debate. BE e PCP têm de decidir se apenas estão presentes para saber quem consegue sacar mais ao Governo, como se de sindicatos se tratasse, ou se têm qualquer coisa a dizer sobre as grandes opções para o investimento público. Não chega falar da devolução de rendimento e de direitos, apesar do país dever aos dois partidos à esquerda muita da pressão política para que ela esteja a acontecer tão depressa. É preciso defender prioridades para o investimento, fazer propostas, contribuir para a definição de escolhas. Não dá muitos votos, mas conta muito para o futuro.

Portugal colapsou e então vai de férias

(Francisco Louçã, in Público, 12/07/2017)

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Tudo era previsível.

António Costa respondeu à crise do incêndio e prometeu uma ambiciosa reforma da floresta, anunciou que a saúde seria o seu novo tema e, num momento pouco notado, lançou a campanha eleitoral com a Carris e os STCP. Lembrou a conversa de ontem com os generais e garantiu à esquerda que negociaria. Ministros todos na formatura e continuidade para 2018.

No PSD, espreitou o velho PPD. Montenegro tentou levantar as hostes insinuando-se contra Passos Coelho, temos candidato e vai ser mais depressa do que se previa, e para isso radicalizou o discurso da catástrofe: em poucos minutos, o Estado colapsou seis vezes, se bem contei, e até a democracia colapsou de caminho. O SIRESP, contrabandeado para o banco do PSD por um governo PSD-CDS, os créditos mal contados da CGD, idem, o falhanço da videovigilância em Tancos, idem, tudo veio à baila como “colapso do Estado”.

Quanto a Cristas, tentou a pose Portas: vivemos o “falhanço mais básico” da autoridade do Estado e a insegurança é aterradora, “a confiança quebrou-se”. Telmo Correia repetiu o seu número dos oito séculos que caíram na vergonha desta plebe ter tomado o lugar de sua majestade.

Nesta escolha do PSD e CDS está a boa notícia para o governo. Os partidos da direita escolheram desprezar o Presidente (o cuidador do Estado) e abandonar o debate económico. Vão pagar pelas duas opções. Pelo caminho, ensaiam uma curiosa efabulação: o governo não cuidava das contas públicas porque gastava demais e logo com as gorduras, as pensões e salários; agora criticam o governo por gastar de menos. Em resumo, “é verdade que economia cresceu e desemprego baixou” (Montenegro) e “a economia melhorou” (Passos) e fica tudo dito, é o que importa a quem se importa com a vida da gente.

Também à esquerda tudo previsível. Catarina e Jerónimo de Sousa negociaram condições e pediram garantias, a que Costa mostrou querer aceder. Nas entrelinhas, nota-se que o desacordo sobre as leis das florestas é profundo, mas o Primeiro Ministro deu voz aos critérios da esquerda, que aparentemente desagradam ao seu ministro. Têm poucos dias para se entender, ou é melhor adiar a votação das leis para setembro, o que seria um recuo para o governo.

No mais, houve algum desplante. Cristas acha que Costa “deserta” quando vai de férias mas prefere que não lhe lembrem o que ela própria assinou quando era ministra e andava de férias. Passos ainda está zangado por não ser primeiro ministro. Tricas e ninguém se importa com isso.

Tudo resumido, depois de o Estado ter colapsado e sabermos que vivemos em estado de pânico, esperava-se uma ou duas valentes moções de censura para salvar Portugal. Mas, no fim do debate, Passos e Cristas arrumaram as pastas e só pensam em ir de férias, como aliás boa parte da população.