Sobre o Estado da Nação

(Por Estátua de Sal, 12/07/2017)

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Depois de assistir, atentamente ao debate do Estado da Nação, fiquei com a ideia que não houve debate e que o Estado da Nação não foi discutido, e esta é a pergunta que urge fazer: para que servem os deputados da Nação? Eu explico.

  1. Discutiu-se o que fazer no emprego, na produção, no investimento, na economia e a forma de tudo isso melhorar? Não.
  2. Discutiu-se como aumentar a qualidade dos serviços públicos e a necessidade das pessoas a eles acederem e terem uma resposta à altura? Não.
  3. Discutiram-se as dificuldades da vida das pessoas que todos os dias lutam com afã para sobreviver? Não.
  4. Discutiu-se a angústia dos velhos e o desencanto dos mais novos que perdem todos os dias a esperança por não terem presente e não vislumbrarem futuro? Não.

Então, mas afinal o que é que se discutiu, e o que é que o Governo e a oposição trouxeram para o palco do debate? Comecemos pelo governo.

António Costa começou a sua intervenção pelo incêndio de Pedrogão. Assumiu o compromisso de restaurar a região na sua capacidade produtiva, de investigar até ao fim o apuramento de responsabilidades, e de promover a reformulação da legislação de forma a permitir a o desenvolvimento do interior e o reordenamento da floresta. Depois listou os sucessos económicos da actual conjuntura, no emprego, no investimento, nas exportações, na confiança, e no deficit público. E apontou como causa de tais sucessos a mudança na política económica que este governo levou a cabo, em oposição ao governo anterior, concluindo, numa síntese feliz, dizendo que “não, não é necessário empobrecer”.

E que trouxe a oposição? A oposição tentou resumir o Estado da Nação aos acontecimentos da agenda mediática dos últimos dias. Os incêndios, Tancos, a fuga do enunciado do exame de português, os bilhetes para a bola e a demissão dos secretários de Estado, o inquérito à CGD. Neste particular ouvi a intervenção mais oportunista que alguma vez me foi dado ver produzida pelo deputado Montenegro. Acusou Costa e o governo de tudo e mais alguma coisa: de fraqueza, de falta de norte, de falta de legitimidade. E não podendo deixar de reconhecer os sucessos do governo na área económica veio dizer – veja-se lá o ridículo -, que tais sucessos são devidos à herança deixada pelo governo da direita e pela favorável conjuntura internacional, concluindo que se a PAF fosse governo os sucessos seriam ainda maiores.  Passos Coelho deve ter entregue este papel de avançado-centro no ataque ao governo a Montenegro porque, tendo sido a intervenção tão virulenta, se fosse Passos a fazê-la, a ser coerente só lhe restaria apresentar uma moção de censura ao governo que seria seguramente rejeitada pelos votos da esquerda e só reforçaria a actual solução governativa.

Passos guardou-se para o fim e quis fazer um discurso de estadista. Extraordinário. Baseou-se em vários tópicos: que o sucesso do governo na frente económica se deve às reformas do governo da direita; que se ele, Passos, ainda fosse governo os sucessos seriam ainda maiores; que afinal só há sucesso porque o Governo mudou de programa e faz agora tanta austeridade quanto ele teria feito.

O ridículo é que Passos, agora, quer reverter a austeridade e acusa o governo de a fazer!! Quer mais dinheiro para a saúde, mais dinheiro para as escolas, mais dinheiro para a tropa. O que ele não diz é que quer menos dinheiro para os salários dos trabalhadores, e para as pensões dos pensionistas. Se a falta de vergonha queimasse Passos teria também ardido no fogo do Pedrogão.

Depois veio a D. Cristas. Também montou o cavalo do fogo e surfou pelos paióis de Tancos. E continua a querer as cabeças da ministra da Administração Interna e do ministro da Defesa, ameaçando que, caso não sejam demitidos e errem de novo, a responsabilidade será então de António Costa a quem pedirá contas. Costa foi rápido na resposta. Não há demissões de ministros, ponto.

PCP e BE vinham preparados para não criarem grandes problemas a António Costa. Foram até úteis ao governo e sovaram a direita em vários momentos do debate. Reafirmaram as suas posições quanto à Europa e ao deficit e devem estar a guardar os cartuchos para fazerem valer as suas posições por ocasião das negociações próximas do orçamento de Estado para 2018. Nesse aspecto, o discurso final de Catarina Martins foi uma listagem das áreas em que se exige uma intervenção imediata do Estado, mesmo que seja necessário bater o pé a Bruxelas no que toca aos objectivos do deficit, e no que concerne a uma imperativa revisão da legislação laboral herdada do governo da direita e ainda não revertida.

Em suma, a direita fala de um país que não existe. Insegurança, dizem eles. Mas alguém se sente menos seguro hoje do que há um mês, por terem desaparecido 34000€ de armamento, ainda por cima, e ao que parece, obsoleto?  A direita fala de desagregação do Estado e da fragilidade do governo. Mas será que o Estado está desagregado por 3 generais se terem demitido num universo de 250? Por 3 secretários de estado se terem demitido devido a um processo mais que inócuo e ridículo que a Justiça retirou da gaveta, um ano depois de terem ocorrido os supostos ilícitos que pretende punir?

E a prova de que tal país não existe é o clima de confiança que demonstram os últimos indicadores relativos aos consumidores e aos investidores quer nacionais quer internacionais. Bem como as últimas sondagens em que o discurso desta oposição derrotista e tremendista se acha cada vez mais arredado das escolhas dos portugueses.

QUE SURREAL OPOSIÇÃO!

(Joaquim Vassalo Abreu, 10/05/2017)

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O “Surreal”, neste caso, corresponde a algo que se sente ser estranho, da ordem do absurdo e que dificilmente poderemos, mesmo com toda a nossa boa vontade, classificar como realidade.

Vem isto a propósito do debate quinzenal hoje ocorrido na Assembleia da República. O tema central era o “Emprego” e a sua evolução.

O Primeiro Ministro lá falou dos últimos números, da evolução recente, do impacto que isso tem na Economia real e coisas mais e, como é norma, segue-se a interpelação do líder da Oposição, para rebater, para contestar, para concordar ou então para dizer “mas”…

Estava eu a seguir em directo (agora tenho algum tempo pois sou reformado!) e quem apareceu a liderar a oposição? O Montenegro! E pensei logo (e escrevo como penso), “cadê” o outro? Sim, o que é suposto ser? Não o via ou a TV não mo mostrava…Estaria lá? Mas, afinal, estava! Delegou, portanto! Ou “encolheu-se”, para não dizer coisa melhor!

Em seu lugar, enquanto ele estava afundado na sua toca, pois não o via, surgiu aquela “sirigaita”, de pé, como elas se põem para observar em redor, de nariz empinado e orelhas encolhidas, com um espaço sobre labial pronunciado que lhe ofusca a boca, a perorar sobre as virtualidades do anterior governo (sem o qual não haveria este, é claro) que, pasme-se, criou as condições para que o emprego neste cresça e mais, que no seu a criação de emprego foi ainda maior…

Daí o “surreal”! Quer dizer: quando entraram para o governo, em  2011, o desemprego estava na ordem dos 8%, por exemplo, nos primeiros anos do seu governo subiu para 17% e, depois, com os dados que sempre soubemos (emigração, fuga, cortes nos subsídios e implemento de “emprego” fictício através de programas sazonais de cursos subsidiados pelo IEFP), conseguiram descê-lo para os cerca de 12%, para ser benévolo! Criação líquida de emprego? Próximo do zero…

E, perante a anunciada, e confirmada pelo INE, baixa do Desemprego para a volta dos 10%, em apenas um ano, perante a criação líquida, neste mesmo período, de 153 mil postos de trabalho, perante o evidente aumento da confiança dos agentes económicos e perante todos os dados disponíveis, de quem vem falar o “sirigaita”? Da estabilidade da Segurança Social! E porquê? Porque o Ministro Vieira da Silva, o autor da anterior reforma, afirmou que, perante a factualidade, o quadro social em que se vive e o que se adivinha, de um ponto de vista de normal antecipação, nos devemos precaver para um futuro que, daqui a doze ou quinze anos, a não se fazer nada, será complicado…

E então foi aí que eu descortinei (por que a TV mo mostrou) que, afinal, o “laparoto” estava lá! E mais, vi-o a rir-se! Donde pensei com os meus botões: só pode ser do “serigaita”, aquele Monte de Negro, que mandou para a liça!

Agora faço aqui um parêntesis para explicar o “laparoto”! “Láparo” já sabemos o que é, e não é invenção minha pois há aí um Blog que se farta de, com propriedade, o apelidar por aquilo que realmente ele é: um láparo! Eu, até agora, o máximo onde consegui chegar foi chamar-lhe  de “Rabbit”,  num texto que publiquei. Mas é um “láparo”, disso não tenhamos dúvidas…

Mas eu, que durante vários anos vivi no Alto Minho, mais propriamente em Paredes de Coura, sei que lá o termo “laparoto” era bem comum! E que queria tal palavra significar? Nada mais que “ espertalhão”, “palerma”, “tonto”, “pobre diabo”…etc! “Lapin”, em Francês!

Portanto, o “laparoto”, espertalhão, passou a bola e mandou avançar o “serigaita”! Que afirmou esta coisa extraordinária: “Agora há mais pessoas a receber o salário mínimo”! Música para os ouvidos do Costa, está-se mesmo a ver, que lhe ripostou: Pois bem, há mais pessoas a receber um Salário Mínimo que já aumentou duas vezes e ainda, até ao fim da legislatura, vai aumentar mais duas. E há mais emprego com os empregados, apesar de tudo, a receberem mais do que V.Exªs queriam e diziam ser fatal para a Economia….

Música celestial, portanto, como a questão da Segurança Social! Primeiro Costa disse-lhe aquela fatal frase que foi: “ Não podemos fazer num dia o que vocês destruíram em quatro anos!”. E quando a “serigaita”, agora já com o “laparote” ao lado rindo-se, não consigo saber do quê, mas continuo a presumir ser da figurinha do Monte Negro ao seu lado, disso falou, levou com o inevitável: “ Então quem é que dizia que ia cortar 600 milhões nas Reformas?”

Ficção, disse o “serigaita”, com a “laparoto” ao lado, agora visível, com os seus pronunciados lábios cerrados.

Até que se deu a apoteose final, qual girândola, as “Reservas” e “Provisões” do Banco de Portugal… “Francamente” disse Costa: pensava-o mais preparado! E a Catarina, feita especialista, aproveitou e fez-lhe um desenho!

Mas, entretanto, a Cristas apareceu com uns quadros dizendo, prometendo ou exigindo mais Vinte (20!) estações do Metro para Lisboa! O Costa mostrou-lhe uma fotografia, no seu telemóvel, de há um ano e… ela, o “serigaita” e o “laparoto” ficaram para segundo plano…

Se fosse eu onde é que me meteria? Na toca! E não mais de lá sairia!

Que pobreza, My God!


Fonte aqui

O Montijo aqui tão perto

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 19/04/2017)

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João Cravinho veio, e bem, criticar a forma como está a ser conduzido o processo de escolha do Montijo como solução para expansão da capacidade aeroportuária da zona de Lisboa. Também é justo, como o próprio assume, dizer que essa é uma oposição de um acérrimo defensor de outras soluções.

A verdade é que o que sabemos sobre os méritos da solução Montijo é que é uma solução que a TAP quer. Que é uma solução que a Ryanair quer. Que é uma solução que a ANA quer. Mas daí a ser liquido que o que aquelas empresas querem é o que devemos querer para nós, vai uma certa distância. E importa encurtá-la.

Eu, se fosse aquelas empresas, quase totalmente privadas, também queria um novo Aeroporto. Especialmente porque nenhuma delas faz tenção de o pagar. E, estou certo, esta também é uma decisão que vai engordar e muito os lucros que a Lusoponte vem acumulando na exploração das ligações rodoviárias sobre o Rio Tejo.

A nós, que o pagamos, devia ser dada mais informação. São as questões ambientais. São as interrogações em torno de saber como se articulariam as duas pistas de um lado e de outro do rio, sabendo, como sabe qualquer passageiro que olhe pela janela na aproximação sul à Portela, que as rotas de aproximação de uma e outra são tudo menos independentes. É o problema de saber como se gerem acessibilidades, novas zonas de ruído em meio urbano, o facto de ser uma solução sempre a prazo, entre tantas outras.

E mais uma, menos falada, mas não menos importante. O Montijo é, actualmente, a mais importante base da Força Aérea na zona de Lisboa, e o coração da componente aérea do nosso sistema de busca e salvamento. As suas características, desde logo de localização geográfica central ao País e contígua à nossa gigantesca zona de responsabilidade marítima, são dificilmente replicáveis numa qualquer localização alternativa. Quanto custará ao País isso é um aspeto que tem de ser esclarecido. E se não se garantir a operacionalidade pelo menos nos parâmetros existentes, esse custo vai incluir vidas humanas.

Fazer coexistir esse dispositivo que, por definição, tem de ser de reação rápida, com um aeroporto civil será sempre uma solução também cheia de inconvenientes. Aliás, destinar, como tem sido avançado, a pista principal do Montijo ao tráfego militar e a pista secundária ao tráfego civil coloca toda uma nova série de questões: são pistas que se cruzam, a pista menor não foi concebida para aviões com o peso dos aviões civis e, por fim, a mesma pode ser demasiado curta para certas configurações de descolagem. Questões que deveriam ser bem explicadas. E em público.

É certo que o País anda a discutir o assunto Aeroporto de Lisboa há décadas. Mas também é verdade que a solução Montijo nunca teve este protagonismo. Estudámos a Ota, Rio Frio, Alcochete. Estudámos tudo menos o que vamos fazer? Isso não tem ponta por onde se lhe pegue. Podemos, seguramente, esperar mais uns meses e fazer as coisas bem feitas. É uma decisão demasiado importante para o País para sobre ela se ouvirem, quase só, as vozes das empresas interessadas em aumentar os seus lucros privados com os nossos investimentos públicos.