No estado da campanha, foi dia de polícia bom

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário. 11/07/2019)

Daniel Oliveira

Em vésperas de eleições, os debates sobre o estado da nação só podem ser ouvidos tendo em conta os objetivos eleitorais de cada interveniente. Lamentá-lo não é apenas ingenuidade, é sonsice. Com a margem de dúvida a que a democracia nos obriga e a possibilidade de haver incêndios durante a campanha, há uma coisa que sabemos: que António Costa vai ser o próximo primeiro-ministro. O que quer dizer que o debate desta quarta-feira não era, para quase nenhum dos intervenientes, uma guerra por tudo ou nada. Era uma escaramuça para saber quanto fica do pouco ou do muito que há para cada um.

Para o PSD, trata-se de segurar a queda. Rui Rio apenas está a lutar pela possibilidade de ficar no seu posto depois das eleições. Uma probabilidade baixa, mas que um resultado honroso poderia permitir. Até porque os candidatos que se perfilam não têm força para serem vistos como saída para a crise do partido. Mas um resultado claramente mau – que é o que as sondagens indicam – tornará a queda inevitável. E, se for mesmo muito mau, abrirá portas para o regresso de Pedro Passos Coelho, o adversário que António Costa mais deseja. Quanto ao CDS, o inchaço de Assunção Cristas com o resultado nas autárquicas já desapareceu. Tem dois meses para aproveitar o vazio de liderança de Rui Rio e refazer-se do desaire nas europeias. Veremos se consegue.

Neste momentos, a direita bate-se por restos, não se bate pela liderança do país. E isso explica porque vemos milhares de cartazes subvencionados pelos nossos impostos a defender a redução dos impostos. Não vou aqui debater a inexequibilidade de baixar impostos, chegar ao défice zero, aumentar o investimento público e recuperar os serviços públicos. Ela é óbvia. Nem voltar a explicar que o debate em torno da “carga fiscal” é um jogo de palavras que ignora que isso resulta da entrada de mais gente no mercado de trabalho, começando a descontar para a segurança social e fisco. Apenas discuto a tática: fazer dos impostos o centro de uma estratégia eleitoral, num país onde metade ganha tão pouco que nem sequer paga IRS, é uma opção arriscada. Diz-nos que a direita está a disputar o seu próprio eleitorado num momento em que é obrigada a reconhecer que o país está “um poucochinho melhor”. No debate do estado da nação, PSD e CDS picaram o ponto da oposição, regressando a casos antigos, ataques antigos, discursos antigos. Com Mário Centeno no leme das finanças e um grupo parlamentar do PSD com as malas aviadas, é pouca a capacidade de oposição. Resta exigir que os contribuintes paguem menos e o Estado gaste mais.

O Bloco e ao PCP estão em situações diferentes. Os bloquistas disputam eleitores ao PS e dosear o ataque é a parte difícil: como avisar para o risco de ter o PS sozinho, sublinhando os seus defeitos, sem fechar as portas a uma nova geringonça, de que depende a utilidade do voto não convicto no BE? Com o PCP as coisas são muito mais complicadas. Os resultados das eleições europeias foram de tal forma trágicos que é provável que, pela primeira vez em muitos anos, a direção comunista esteja perdida quanto à tática que deve seguir. Em tons diferentes, conforme o grau de crispação que resulta da disputa maior ou menor de eleitores com o PS, BE e PCP disseram a mesma coisa: a geringonça só foi boa porque foi geringonça. Se fosse PS seria outra coisa. Explicar que a maioria absoluta é oposto da geringonça não é difícil. É isso, propondo-se pelo menos limitar os movimentos do PS nos próximos quatro anos, que dirão na campanha.

O PS é, de todos, o que está a fazer o jogo mais perigoso. É para mim evidente que António Costa preferia não reeditar a geringonça. Essa decisão ficou clara quando Pedro Nuno Santos foi retirado do lugar de pivô parlamentar; quando o PS fez cair a negociação da Lei de Bases de Saúde para entrar num ziguezague estonteante; quando ameaçou sem aviso dos parceiros uma demissão por causa dos professores; e quando, através de Carlos César, passou a ter um discurso hostil à geringonça.

Costa tem tentado fazer a espargata, pondo uns a arriscar o corte com os parceiros para tentar passar a ideia de que a governabilidade futura depende de um PS sem amarras à esquerda e fazendo ele elogios rasgados a esta solução. Em política, dois discursos contrários costumam anular-se. Até às eleições, António Costa terá de decidir qual deles fará. Esta quarta-feira, com um ou outro momento mais agreste, foi dia de polícia bom.

O futuro da geringonça não dependerá dos discursos e promessas de cada um. Dependerá, como aconteceu há quatro anos, da aritmética dos votos. Essa é a grande lição destes quatro anos: as alianças que podem mudar o rumo de um país (ou pelo menos ganhar tempo) dependem mais da correlação de forças do que da boa-vontade dos políticos. Com o resultado das últimas europeias, o sonho de governar só com os comunistas caiu por terra. Nunca o PCP aceitaria manter uma aventura a dois com um Bloco de Esquerda à solta. Com o PSD a preparar uma derrota e o regresso da linha dura ao partido, os acordos com a direita serão improváveis. Sobra o PAN, uma espécie de maioria absoluta com animal de companhia. Só é possível se o PS ficar muito próximo da maioria absoluta. Apostaria mais num Governo de minoria, à espera do momento certo para uma dramatização que leve a uma queda. Uma jogada à Cavaco (correu bem) ou à Sócrates (correu mal). Com Passos Coelho a liderar o PSD, a chantagem sobre os partidos de esquerda seria ainda mais eficaz. Até lá, Costa tenta o plano A: aproveitar os últimos cartuxos para ganhar votos à direita e aproximar-se da maioria absoluta. Não está fácil.

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Ó Negrão, o que é que andas a fumar?

(Por Estátua de Sal, 10/07/2019)

Estive a ver o demorado e longo debate do Estado da Nação na Assembleia da República.

Costa apresentou e repisou os trunfos do governo da Geringonça: mais rendimento, mais emprego, menor déficit, menor dívida pública em percentagem do PIB, todos os orçamentos aprovados sem medidas inconstitucionais. Congratulou-se com todo esse percurso e saudou os parceiros de esquerda que o viabilizaram.

A direita, tentou desconstruir os benefícios de tal trajecto, de forma esquizofrénica e aberrante, já que o fez sempre em nome daquilo que ela própria denega:

1º O governo falhou no investimento público, que baixou, dizem eles. Mas a direita não defende menos Estado, logo menos investimento público? Então como pode criticar o governo por fazer aquilo que o seu ideário prossegue?

2º O governo falhou porque os serviços públicos estão depauperados, mormente a saúde. Mas a direita não é contra o reforço do SNS? Não votou contra a sua criação? Então como pode criticar o governo por fazer aquilo que o seu ideário prossegue?

3º O governo falhou porque a carga fiscal está elevadíssima. Mas a direita não impulsionou um “brutal aumento de impostos”, como reconheceu e dizia o ministro Gaspar? Então como pode criticar o governo por este fazer aquilo que sempre fizeram e defenderam?

4º O governo falhou porque o crescimento é anémico, dizem eles. Mas o PIB não caiu à volta de 10% durante a governação do Passos? Como pode a direita vir agora falar de crescimento reduzido?

O problema da direita portuguesa é que mantém com o PS uma “relação de dor de corno”, de ciúmes encapotados. A direita tem ciúmes do PS por este, em muitos domínios, lhe ter roubado a agenda política, levando avante grande parte das medidas do seu programa político, e fazendo-o até de uma forma mais eficaz e com menos atrito social devido ao apoio dos seus parceiros de esquerda.

Assim, como as críticas da direita ao PS são feitas em nome de uma agenda política que não é a dela, o discurso da direita é tudo menos convincente. Era mais credível dizerem apenas que querem governar para evitarem as medidas de reforço dos rendimentos do trabalho e outras medidas de carácter social que o PS aprovou para cumprir os acordos base da Geringonça. Mas não dizem. São melífluos e dissimulados para não perderem o apoio dos eleitores mais pobres.

E foi este o tom das intervenções ao longo de várias horas, não havendo novidades de monta até que na sua intervenção de fundo, Fernando Negrão, do PSD, produziu a maior anedota da sessão. Depois de, com grande veemência, ter repisado todo o libelo argumentativo contra o governo acima elencado, Negrão – demonstrando um estado de alucinação preocupante -, anunciou aos quatro ventos que “o PSD vai ganhar as próximas eleições”!

Ó santa ingenuidade, ó Negrão. Bem se vê o estado de negação em que os direitolas navegam. O Passos bem invocou o diabo para afastar a Geringonça do poder, mas já lá vão quatro anos e o diabo não respondeu. Não sei com que santo ou força do mal está, desta vez, o Negrão, a contar. Mais fogos catastróficos? A mão invisível de São Marcelo? Mais uma manobra de São Ventinhas e quejandos justiceiros contra o PS? Não sei.

Apenas sei que, por muitas desgraças que a direita invoque, por muitos casos de falhas na saúde e nos serviços públicos que a comunicação social anuncie e amplifique, o país está melhor e – contrariamente ao que dizia o Montenegro -, para o país estar melhor não foi necessário que os portugueses ficassem pior.

Por isso, ó Negrão, como não consegues perceber isso, e como não és burro de todo, só me resta perguntar-te o que é que andas a fumar quando lanças essa atoarda de vitória eleitoral em Outubro. É que os portugueses sofrem e o país ainda está cheio de carências. Mas os portugueses também sabem que, com o teu PSD na governação, estariam ainda a sofrer muito mais, e que tal sofrimento seria imposto de forma sádica e deliberada como fez o Passos Coelho de má memória.

Ao menos o PS, quando implementa a austeridade, ainda faz mea culpa e pede desculpa aos portugueses, enquanto que, com o Passos, os portugueses tiveram que sofrer e calar, dizendo o biltre que era para expiarem os seus excessos e por terem pecado, vivendo acima das suas possibilidades.

Vivemos uma era da brutalidade

(Joseph Praetorius, in Facebook, 06/08/2017)

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Joseph Praetorius

Vivemos uma era da brutalidade. Inútil ignorá-lo. A coisa choca por se seguir a décadas de esperanças assim traídas, mas muitas das traições não têm sequer utilidade.

Portugal afunda-se num regime de usura quotidiana, onde uma pobre população – cujo salário mínimo mal chega aos €500 e à qual se propõem 800 euros para a remuneração mensal de um médico – tem que haver-se, por exemplo, com a voracidade da corja nacional-católica, empregada pelo Partido Comunista da China na EDP, que arbitrariamente faz “ajustes” de facturas de molde a fazer evaporar parte importante do subsídio de Natal e de férias de quem os receba. Os cortes são um negócio em si mesmo. Concertaram o preço das religações. Valem três vezes o preço da conta da água, e duas vezes no caso do gás e metade da conta da luz. Um belo filão de negócio, este.

Um bilhete de autocarro custa quase dois euros – num sistema péssimo, feito para isolar e perder tempo, com os tempos de espera a chegarem aos 40 minutos – e onde a própria classe média, nos seus fatinhos de gimbrinhas e acreditando-se bem engravatada embora, procura uns tascos subsistentes onde possa almoçar por uns cinco euros… ao ponto de uma cadeia de supermercados ter organizado o negócio de vender refeições a esse preço, numa espécie bitoque dos pobres. Como se o bitoque alguma vez tivesse sido de ricos.

A questão dos transportes merece melhor focagem. Em Lisboa, as zonas de Alcântara, Belém, Algés, Benfica, Campolide e Campo de Ourique, Estrela e Lapa, não têm Metro. Onde há Metro, o tempo de espera entre combóios pode chegar aos dez minutos (se houver transbordo, vinte minutos). Em estações mais movimentadas, como o Colégio Militar, não há elevador nem escada rolante. Para os velhos não irem. E não vão. Quanto aos autocarros, falta um sublinhado: quarenta minutos de espera, mais vinte ou trinta de percurso, dá uma hora para percorrer quatro ou cinco km. Mais vale ir a pé. Mas os velhos não vão a pé. As crianças também não. E os adultos em idade activa têm mais que fazer ao tempo. Serve isto para sacar o imposto sobre os combustíveis a quem não pode dispensar o carro – e assim ninguém pode – e para alimentar os estacionamentos de preço usurário, mais as vendas de automóveis (sobretudo em segunda mão). Nisto se não garantindo que as deslocações sejam mais rápidas, porque os engarrafamentos são infernais e os parqueamentos frequentemente impossíveis. É pouco melhor: vinte ou trinta minutos de deslocação engarrafada e vinte ou trinta minutos para parquear, mas a gastar combustível e, portanto, a pagar imposto. Uma loucura.

No desemprego frequente, desalojam-se famílias inteiras e largam-se matilhas de cães de fila (solicitadores de execução) a perseguirem os devedores a quem se reserva pior tratamento que aos delinquentes, expondo-os, por exemplo. Há listas de devedores cuja existência ninguém discute, embora se discuta, claro, a publicidade das listas de pederastas condenados… O devedor, como o delinquente, mais do que o delinquente, até, foi animalizado. Ultraja-se. Caça-se. Expõe-se. E o desempregado subsidiado é um suspeito. Tem medidas de segurança que são as apresentações periódicas, como um suspeito de infracção criminal grave cujo processo esteja em curso.

A taxa de suicídios ultrapassou a da Suécia. A judicatura expõe-se, pela inépcia, a suspeitas públicas que lhe retiram toda credibilidade e quarenta por cento da população consome habitualmente psico-fármacos. Como supremo insulto, a pasta da justiça chegou a ser sobraçada por uma evidente doente mental.

Uma frente de esquerda congelou a situação para não piorar; melhor dizendo, a fim de que a rebelião não estale… Mas talvez fosse bem melhor construir a rebelião. Toda a usura continua a exercer-se.

Coisas asim, não. Assim o pensaram os húngaros. Os russos. Assim o pensam os polacos. E os turcos. Com metade dos franceses. E dos holandeses. Dos austríacos. Os portugueses não têm pensado em nada e portanto não se pode dizer que estejam a pensar seja no que for. Servis até ao desespero.

Assim têm sido as coisas. E fala-se então em retrocesso da democracia…

Deitem o centrismo que permitiu tais extremismos no lixo, se acaso estiverem interessados na democracia. Isto não é evidentemente democracia nenhuma. E removam o enriquecimeno sem causa a que a usura generalizada deu lugar. Nacionalizem a EDP e as empresas de sectores estratégicos. Metam na cadeia a corja cavaquista, com os sucedâneos e os émulos respectivos.

Vai este apontamento dedicado à Ligia Portovedo que escreveu ontem uma coisa que me impressionou e a quem não posso deixar de prestar homenagem.