A ver o déficit por um canudo

(Por Estátua de Sal, 24/11/2016)

canudo

“O défice baixou 357 milhões de euros em outubro, comparativamente com o valor registado no mesmo mês do ano passado. Dados da execução orçamental revelados esta tarde pelo Ministério das Finanças adiantam que os 4430 milhões de défice correspondem a 80,7% do valor previsto para todo o ano. ” Ver artgo sobre a descida do déficit aqui


Mais um prego no caixão da na narrativa de Passos Coelho. Sempre que ele fala em desgraça a assistência desata à gargalhada. Menos os masoquistas que ainda o seguem e querem expiar os seus pecados, para o que precisam de fazer jejum e abstinência.

O deficit está cada vez mais baixo e toda a gente recebeu o aumento de salários e pensões que o Governo do PS  decidiu apoiado na maioria parlamentar que o suporta. A narrativa da direita é um drama de faca e alguidar, daqueles de chorar baba e ranho. Ninguém, em são juízo, o pode subscrever.

Passos continua à procura da vocação para o martírio dos portugueses e ainda não percebeu que Salazar e a retórica do corporativismo musculado – uma sardinha e um pãozinho e seremos felizes para sempre – já lá vão há décadas.

Um tipo que diz que é contra o aumento do salário mínimo qual o apoio que espera ter dos portugueses? Provavelmente terá o apoio dos empresários somíticos e nem sequer terá o apoio dos mais esclarecidos, porque esses já pagam salários acima do mínimo.

Um tipo que diz que é contra as medidas que o Governo se propõe tomar para lutar contra a precaridade que apoio espera ter dos portugueses? Provavelmente terá, mais uma vez o apoio dos empresários somíticos que tem usado as alterações que a direita promoveu na legislação do trabalho para melhor explorarem os trabalhadores, mas nem sequer terá o apoio dos empresários mais esclarecidos, os que sabem fazer contas, e que não ignoram que o que ganham com a precaridade é, em grande parte, contrabalançado pelas perdas que tem na produtividade e nos custos de adaptação que decorrem da rotatividade dos trabalhadores.

Um tipo que não diz, mas se opõe à recapitalização da Caixa Geral de Depósitos, levando à prática todas as manobras e mais algumas para dificultar o processo, cavalgando factos mediáticos que mais não pretendem do que enfraquecer a solução que o governo tirou da cartola, conseguindo manter sob mãos nacionais a última grande empresa que o país possui, que apoio espera ter dos portugueses? Talvez tenha o apoio dos grandes interesses económicos que se preparavam para tomar de assalto a CGD que, se privatizada, seria vendida por dez reis de mel coado, tal como foi vendida a EDP, a REN, a ANA, a Cimpor e tudo o que Passos, o grande comissionista, conseguiu espoliar de mãos nacionais.

Todas as malfeitorias foram levadas a cabo em nome do sacrossanto déficit. Ora como o déficit – digo eu, devido às boas graças do diabo que Passos invocou -, não para de cair, não se percebe a razão da direita continuar a acenar com espantalhos e com o fim do mundo. A não ser que o déficit não tenha passado de um pretexto para justificar as políticas de saque impostas ao país e sobretudo aos mais carenciados.

A narrativa da direita esvai-se. Passos está cada vez mais isolado e parece um eremita a pregar no deserto. Só a Albuquerque, o Montenegro e o Rangel é que ainda o ouvem já que o Marco António já está a fazer as malas, o Moedas em Bruxelas bate palmas ao governo e o Frasquilho no AICEP diz que os investidores já viram que o vento mudou.

Passos não ficou a ver Braga por um canudo. Mas está, isso sim, cada vez mais a ver o déficit por um canudo.


Que esperem pela recapitalização e se vão

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 15/11/2016)

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                        Daniel Oliveira

Já toda a gente falou. O Governo desobrigou-se do compromisso dos administradores não terem de entregar a declaração de rendimentos. Um compromisso que nunca deveria ter existido. E mesmo que tenha sido essa a sua vontade, nenhum governo podia comprometer-se para lá de decisão do Tribunal Constitucional. O Presidente da República apoiou este ponto de vista. Todos os partidos que suportam o Governo e todos os partidos da oposição defenderam o mesmo. E o Tribunal Constitucional já notificou os administradores para cumprirem o seu dever legal. Isto deveria ser um ponto final: entregavam a declaração e o assunto estava resolvido.

Não tenho qualquer interesse em ver as declarações de rendimentos dos novos administradores da Caixa – não tenho qualquer tendência voyeurista – e só acho que merecem análise quando tivermos de comparar o que tinham e o que têm no fim do mandato. Ou seja: no fim. Mas se a lei determina que é para entregar agora e que fica imediatamente pública e se é este o entendimento do TC, já não há grande coisa para discutir.

Para António Domingues e os seus administradores isto não é um ponto final. Ao que parece, aliás, consideram que os seus desejos valem mais do que tudo o que referi no primeiro parágrafo. E se assim é, não tenho já qualquer dúvida que estas pessoas não são as indicadas para gerir um banco público. Aliás, tenho a certeza que não se dariam a estas frescuras se fossem administradores de um banco privado e os acionistas lhe fizessem exigências semelhantes. Parece evidente que estes senhores, ainda antes de estarem no total exercício do seu mandato, já se comportam como se estivessem acima da lei.

Ao que parece, há vários administradores que estão irredutíveis e ameaçam com demissões. A primeira reação que tenho é esta: que se demitam. Estão no lugar errado e não compreendem a que tipo de escrutínio um gestor público está obrigatoriamente exposto. E quem não compreende isto não pode trabalhar para o Estado. Ninguém está a devassar a sua vida privada ou a pedir-lhes o impensável. Está a pedir-lhes o mesmo a que foram sujeitos todos os deputados, o primeiro-ministro e o ministro das finanças que os nomearam, todos os gestores públicos que trabalham nas muitas empresas do Estado, incluindo na Caixa. Se acham que estão acima de todas estas pessoas temos, parece-me evidente, um problema de megalomania. Se acham que o Tribunal Constitucional não tem autoridade sobre eles é ainda mais grave do que isso.

Mas se vão demitir-se do cargo – e pelo que me está a ser dado a ver começo a desejar que o façam –, têm um dever patriótico: esperar pela recapitalização pública da Caixa Geral de Depósitos. Esse é um dever que têm como portugueses, não dando à Comissão Europeia a oportunidade de travar o processo e aos que conspiram pela privatização da CGD de aproveitarem o caos para conseguir o que desejam.

Se não estão à altura dos seus deveres enquanto gestores públicos, que ao menos estejam à altura dos seus deveres como portugueses. Porque quanto ao resto, esta novela já cansa. Os caprichos destes senhores não valem a tinta que já gastámos com eles e o dinheiro que ainda vamos gastar.

Paulo Macedo na CGD?

(In Blog O Jumento, 13/11/2016)

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Não sejam idiotas, na DGCI o seu sucesso foi mais ao nível da publicidade do que na gestão, não fez uma única mexida, não mudou nada na cultura de gestão, limitou-se a gerir a divulgação do trabalho alheio. Do seu mandato não ficou um serviço novo, um novo modelo de gestão, uma nova cultura de gestão, em suma, não ficou nada, para além de alguns afilhados e afilhadas que designou para altos cargos. A verdade é que o seu sucessor, de quem já ninguém se lembra, fez muito mais do que ele.

Ao que parece na gestão bancária o currículo também não é grande coisa, passou pela MEDIS e pouco mais, não presidiu, não teve as mais altas responsabilidades no banco e não se disse muito do seu desempenho enquanto foi administrador.

Uma coisa é conseguir aumentar as receitas fiscais vendendo casas de habitação, publicando listas negras e lançando o receio com vagas de notícias nos jornais sobre penhoras, outra é gerir a Caixa Geral de Depósitos.

É óbvio que Paulo Macedo deseja a CGD, é por isso que sempre que aparece haver uma vaga surgem as notícias na comunicação social amiga.

Quando Paulo Macedo saiu da DGCI o BCP ainda era gerido pelo eng. Jardim Gonçalves. Se era assim tão bom porque motivo não foi premiado por quem o conhecia tão bem para um lugar na administração?

Os que agora o sugerem para a CGD porque não o sugeriram para presidir ao BCP quando a antiga administração caiu e o Paulo Macedo ainda estava na administração, de onde saiu para o governo. Porque se ouviu falar tanto dele quando estava na DGCI e ninguém deu pela sua passagem pela administração do BCP? Se era tão bom porque não foi o escolhido para presidir ao BCP?