O Brasil não é uma herança de família

(José Pendão, in Facebook, 26/10/2026, Revisão da Estátua)


O programa eleitoral de Flávio Bolsonaro tinha uma particularidade enternecedora: antes de salvar o Brasil, convinha salvar o pai. A prioridade foi anunciada sem grandes pudores, com aquela desenvoltura tão característica de quem considera a separação de poderes uma formalidade burocrática destinada a complicar a vida das famílias respeitáveis. A anistia de Jair Bolsonaro, condenado por envolvimento numa tentativa de golpe de Estado, tornou-se uma das bandeiras do candidato, que prometia procurar a absolvição política do progenitor pelos mecanismos ao seu alcance, fosse através do Congresso ou de um eventual indulto presidencial. Uma curiosa conceção de serviço público, convenhamos, em que a Presidência da República funciona como extensão da sala de estar familiar e o interesse nacional começa, muito naturalmente, por resolver os problemas judiciais lá de casa.

Felizmente, os brasileiros tinham outros planos.

Luiz Inácio Lula da Silva acaba de ser reeleito Presidente do Brasil com 51,79% dos votos, contra os 48,21% de Flávio Bolsonaro, numa recuperação extraordinária depois de ter perdido a primeira volta. Aos oitenta anos, o antigo operário metalúrgico conquistou o seu quarto mandato, contrariando sondagens, expectativas e aquela numerosa congregação internacional de especialistas que há anos anuncia a morte definitiva da esquerda com a convicção de quem já encomendou as flores para o funeral.

O defunto, pelos vistos, continua a mexer-se. E, para grande inconveniência dos coveiros, ainda vota.

Seria, contudo, precipitado concluir que o resultado brasileiro representa o início de uma gloriosa reconquista progressista. Conheço suficientemente bem a História, e sobretudo a humanidade, para desconfiar de ressurreições políticas anunciadas antes de o entusiasmo eleitoral ter terminado a digestão. As revoluções que começam com champanhe e declarações solenes sobre o nascimento de uma nova era costumam acabar em reuniões de emergência para explicar por que razão a nova era se parece tanto com a anterior.

Mas seria igualmente absurdo ignorar o significado desta vitória.

Num mundo onde Donald Trump regressou à Casa Branca, onde Javier Milei transformou uma motosserra em manifesto ideológico e onde diferentes movimentos nacionalistas e populistas conseguiram apresentar-se como proprietários exclusivos do futuro, o Brasil acaba de introduzir um desagradável contratempo na narrativa da inevitabilidade histórica.

A extrema-direita descobriu que a História não é uma estrada de sentido único e que, por mais alto que se grite, continuam a existir cruzamentos onde os cidadãos podem escolher outra direção.

Convém, naturalmente, distinguir o conservadorismo democrático da direita populista e dos movimentos autoritários. Nem toda a direita é extrema-direita, nem todo o liberal é um bolsonarista de fato engomado. Mas uma parte significativa do novo populismo desenvolveu uma extraordinária técnica de exploração do descontentamento social: identificar problemas reais, encontrar culpados suficientemente convenientes e oferecer soluções que dispensam o incómodo exercício de compreender as causas.

A criminalidade? Falta de autoridade. A pobreza? Falta de esforço. A imigração? Culpa dos imigrantes, evidentemente. A degradação dos serviços públicos? Culpa dos burocratas, das elites, dos comunistas ou de uma conspiração internacional que, curiosamente, nunca parece encontrar dificuldades para reunir os seus membros.

É uma forma de pensamento económico de admirável eficiência. As causas são sempre simples, os culpados estão previamente identificados e as soluções cabem num autocolante para o para-choques de uma Brasilia amarela.

O bolsonarismo acrescentou a esta receita uma componente particularmente brasileira: uma espécie de monarquia republicana em que o poder circula pela família, a autoridade é venerada como virtude suprema e as instituições são respeitadas com uma condição bastante razoável, a de não contrariarem os interesses do patriarca.

A justiça deve ser implacável, sobretudo com os pobres, os suspeitos habituais e os adversários políticos. A polícia precisa de poderes reforçados, os criminosos merecem penas exemplares e a sociedade necessita de disciplina. Mas quando um tribunal condena o chefe da família por uma conspiração contra a ordem democrática, instala-se subitamente uma epidemia de sensibilidade garantista. Descobre-se a importância dos direitos individuais, denuncia-se a perseguição judicial e a palavra «anistia» começa a ser pronunciada com a ternura normalmente reservada às orações de Natal.

É uma conceção da justiça semelhante à daqueles cavalheiros que defendem entusiasticamente o cumprimento das regras de trânsito, desde que as multas sejam enviadas exclusivamente para a morada dos vizinhos.

O mais extraordinário é que ninguém se deu ao trabalho de esconder esta contradição. Flávio Bolsonaro fez da possibilidade de libertar o pai uma promessa política assumida. Não se tratava de uma suspeita maliciosa inventada pelos adversários, nem de uma interpretação abusiva de algum discurso obscuro. Era uma prioridade proclamada publicamente, como se um dos grandes problemas nacionais do Brasil fosse a dificuldade de um antigo Presidente condenado encontrar uma solução satisfatória para a sua situação penal.

E depois falam-nos de renovação política.

A dinastia apresentava-se como a grande alternativa às velhas elites, uma revolução contra o sistema conduzida pelo filho do anterior chefe do sistema, com o objetivo de reabilitar o pai e preservar a influência da família. Faltava apenas instituir o brasão oficial e estabelecer um regime de transmissão hereditária do ressentimento.

Naturalmente, quase sessenta milhões de brasileiros votaram em Flávio Bolsonaro, e seria intelectualmente preguiçoso concluir que todos o fizeram para libertar Jair Bolsonaro. Muitos manifestaram preocupações legítimas com a criminalidade, o endividamento, os impostos, o custo de vida e a condução económica do país. Outros identificam-se com valores conservadores ou discordam profundamente das políticas de Lula. Reduzir um eleitorado tão vasto a uma caricatura seria cometer precisamente o erro que tantas vezes atribuímos aos nossos adversários.

Mas não deixa de ser legítimo perguntar por que razão uma parte da população aceita tão facilmente que a defesa intransigente da autoridade conviva com projetos destinados a aliviar as consequências judiciais dos seus próprios dirigentes.

A resposta talvez esteja menos na ideologia do que numa velha tendência humana: a facilidade com que transformamos princípios universais em privilégios de grupo.

E, enquanto a direita populista aperfeiçoava esta arte, o que andava a fazer a esquerda?

Em demasiados países, dedicava-se a perder a ligação com as pessoas que historicamente afirmava representar. Continuava a falar de justiça social, mas nem sempre parecia capaz de explicar como é que essa justiça se traduzia numa renda suportável, num emprego estável, numa escola decente ou num hospital onde fosse possível marcar uma consulta sem consultar previamente a esperança média de vida.

Não se trata de desvalorizar os direitos das minorias, a igualdade de género ou a proteção ambiental. São conquistas fundamentais de sociedades democráticas e não luxos facultativos que se abandonam perante dificuldades económicas. Trata-se de reconhecer que uma política progressista incapaz de responder às condições materiais da população acabará por deixar a defesa desses direitos politicamente isolada.

Uma pessoa pode preocupar-se simultaneamente com a dignidade dos imigrantes e com o preço do supermercado. Aparentemente, esta descoberta ainda não chegou a todas as direções partidárias.

Lula percebeu, pelo menos durante a campanha, que não bastava apresentar Flávio Bolsonaro como uma ameaça à democracia. Era necessário convencer os brasileiros de que a alternativa poderia melhorar as suas vidas. Falou de rendimentos, trabalho, proteção social, endividamento das famílias e oportunidades económicas. Procurou recuperar eleitores desencantados e mobilizar aqueles que tinham ficado em casa na primeira volta.

Não sabemos ainda se conseguirá cumprir as expectativas, nem se as medidas anunciadas são economicamente sustentáveis a longo prazo. Algumas levantam legítimas dúvidas orçamentais. Mas a campanha trouxe novamente para o centro do debate uma questão que a esquerda não deveria alguma vez ter permitido que lhe escapasse: de que serve defender abstratamente o futuro se não conseguimos melhorar concretamente o presente?

E talvez seja esta a lição mais importante para os movimentos progressistas europeus, incluindo os portugueses, tão frequentemente ocupados a discutir a pureza doutrinária das suas propostas enquanto os seus antigos eleitores procuram respostas noutros quadrantes políticos.

O populismo não se combate eficazmente tratando todos os seus eleitores como uma multidão de ignorantes manipulados. Combate-se compreendendo as razões do seu descontentamento e apresentando soluções mais credíveis do que a promessa de encontrar um bode expiatório para cada problema nacional.

Mas não confundamos esperança com ingenuidade. Lula venceu, mas o bolsonarismo não desapareceu. Quarenta e oito por cento dos votos representam uma força política extraordinariamente relevante, e o novo Congresso brasileiro terá uma presença conservadora ainda mais robusta. O Presidente enfrentará dificuldades económicas, enormes tensões institucionais e uma sociedade profundamente dividida. A vitória eleitoral não concede poderes sobrenaturais, embora alguns governantes, de diferentes quadrantes, pareçam continuar à espera de que essa disposição seja incluída nas respetivas constituições.

E o comportamento de Flávio Bolsonaro depois da derrota oferece-nos uma recordação pouco tranquilizadora do que continua em jogo. O candidato recusou reconhecer o resultado e anunciou que pretende pedir a anulação da eleição, contestando a decisão judicial que prolongou o horário de votação. A decisão foi controversa e pode naturalmente ser sujeita a escrutínio. Mas contestar judicialmente uma eleição exige fundamentos e provas, não apenas a convicção íntima de que perder é uma injustiça incompatível com a própria importância histórica.

O pai também recusara aceitar a derrota de 2022. É reconfortante descobrir que, num mundo de valores familiares em erosão, certas tradições continuam a ser transmitidas de geração em geração.

A democracia, para esta conceção de política, parece funcionar segundo um princípio bastante simples: quando ganhamos, o povo pronunciou-se soberanamente; quando perdemos, o povo foi evidentemente enganado, o sistema encontra-se corrompido e torna-se urgente reconsiderar as regras do jogo. É uma espécie de democracia com cláusula de devolução, reservada exclusivamente aos membros do clube.

Mas as consequências desta eleição não se esgotam no Brasil. O país é a maior economia da América Latina, possui recursos estratégicos essenciais, uma dimensão territorial e demográfica que lhe confere influência internacional e uma importância ambiental que ultrapassa largamente as suas fronteiras. A continuidade de Lula representa também a continuidade de uma diplomacia que procura preservar autonomia perante Washington, manter relações com a China e desempenhar um papel relevante entre as economias emergentes.

Num contexto internacional em que Trump procura reforçar a influência norte-americana no continente, esta vitória constitui um limite político à expansão de um bloco regional alinhado com a sua administração. Não significa que Lula se transforme num adversário permanente dos Estados Unidos, nem que o Brasil possa ignorar as suas relações comerciais. Significa apenas que continua a existir uma grande potência sul-americana cuja orientação externa não se confunde automaticamente com as preferências da Casa Branca.

Um pormenor aparentemente modesto, mas que possui alguma importância num tempo em que a autonomia diplomática começa, em determinados círculos, a ser considerada uma manifestação de falta de educação.

Também a proteção da Amazónia poderá beneficiar desta continuidade. Os resultados de redução da desflorestação durante o mandato de Lula representam progressos reais, ainda que acompanhados por contradições ambientais e económicas que não podem ser ignoradas. O Brasil continua a enfrentar pressões poderosas sobre o território, conflitos relacionados com a exploração de recursos naturais e desafios de desenvolvimento que nenhuma fotografia de um Presidente abraçado a uma árvore consegue resolver.

E não será Lula quem resolverá sozinho as contradições geopolíticas de um mundo dominado por interesses económicos, nacionalismos e rivalidades estratégicas. Mas talvez não seja necessário exigir-lhe semelhante prodígio.

A importância desta vitória reside também na demonstração de que o avanço da direita populista não constitui uma inevitabilidade. Os seus movimentos podem ganhar eleições, conquistar governos e influenciar profundamente o debate público, mas podem igualmente ser contrariados por alternativas políticas capazes de mobilizar maiorias.

Uma derrota eleitoral não destrói uma ideologia, tal como uma vitória não representa necessariamente a consagração moral dos vencedores. Convém recordar isto aos dois lados, sobretudo àqueles que desenvolvem uma tendência preocupante para confundir a vontade popular com a vontade divina sempre que os resultados lhes são favoráveis. E seria particularmente saudável que a esquerda não cometesse agora o erro de transformar Lula num santo padroeiro da democracia.

O Partido dos Trabalhadores tem uma história que inclui realizações sociais significativas, mas também escândalos, erros económicos, compromissos discutíveis e promessas por cumprir. A própria dependência de uma liderança octogenária levanta dúvidas legítimas sobre a capacidade de renovação do progressismo brasileiro.

O homem que simboliza a esperança de rejuvenescimento da esquerda mundial tem oitenta anos. A ironia é tão generosa que quase dispensa comentário.

Talvez o verdadeiro desafio não seja encontrar novos Lulas, mas construir movimentos políticos suficientemente fortes para não dependerem eternamente da longevidade de um único dirigente. Uma esquerda que pretende representar o futuro deveria conseguir imaginar esse futuro sem precisar de consultar primeiro o boletim clínico dos seus fundadores. Ainda assim, seria mesquinho negar o significado do que aconteceu no domingo.

Durante anos habituámo-nos a ouvir que os valores progressistas estavam condenados, que os cidadãos tinham deixado de acreditar na solidariedade e que o futuro pertencia inevitavelmente aos novos profetas da autoridade, da identidade nacional e da motosserra libertadora. O Brasil veio recordar que a História não é uma escritura de propriedade e que os seus presumíveis herdeiros podem descobrir, no momento da partilha, que os restantes familiares não concordam com o testamento.

Talvez esta eleição inspire movimentos progressistas noutros países. Talvez fique como uma exceção num ciclo internacional dominado por forças conservadoras. Talvez o próximo mandato de Lula produza avanços importantes ou uma nova coleção de desilusões. A política tem esta inconveniente característica de não oferecer garantias de satisfação.

Mas uma coisa mudou. A narrativa da inevitabilidade sofreu uma pequena, embora considerável, indisposição.

E, sobretudo, milhões de brasileiros demonstraram que a democracia continua a oferecer a possibilidade de escolher entre projetos diferentes, mesmo depois de anos de polarização, desconfiança e discursos sobre a suposta inutilidade das instituições.

Não significa que o povo tenha finalmente acordado de um longo sono político. Os povos não adormecem nem despertam em conjunto, como passageiros obedientes de uma excursão organizada. Dividem-se, contradizem-se, mudam de opinião e, frequentemente, voltam a cometer erros que julgavam ter deixado para trás. É precisamente essa imprevisibilidade que torna a democracia tão irritante para quem prefere governar sem interrupções.

A esperança, por seu lado, continua a ser uma criatura de hábitos pouco recomendáveis. Insiste em reaparecer quando tudo parecia definitivamente perdido, perturba o conforto intelectual dos pessimistas e obriga-nos a considerar a possibilidade desagradável de que os nossos destinos não estejam inteiramente decididos.

Confesso que mantenho alguma desconfiança perante tanto otimismo. A humanidade já me proporcionou demasiadas ocasiões para apreciar a robustez das minhas piores expectativas.

Mas talvez, desta vez, mereça conceder-lhe o benefício da dúvida.

O Brasil não salvou o mundo. Não derrotou definitivamente o populismo, não resolveu as desigualdades sociais e não inaugurou uma era de esclarecimento universal. O bolsonarismo continuará a existir, Trump continuará na Casa Branca, as forças nacionalistas continuarão a disputar o poder e os problemas económicos e sociais não desaparecerão por decreto presidencial.

Mas, no domingo, os brasileiros recusaram entregar a Presidência a um candidato que incluía entre as suas promessas a resolução dos problemas judiciais do pai.

E fizeram-no através do instrumento mais banal e simultaneamente mais extraordinário que uma democracia possui: uma urna de voto.

Pode parecer pouco, sobretudo para quem esperava assistir ao nascimento de uma revolução mundial. Mas, numa época em que tantos autoproclamados salvadores da pátria tratam as instituições democráticas como obstáculos administrativos às suas ambições pessoais, talvez seja uma recordação suficientemente importante.

A esperança não conquistou o mundo. Limitou-se a ganhar umas eleições.

E a família Bolsonaro descobriu, uma vez mais, que uma república não é uma herança de família.

Pelo menos enquanto os eleitores continuarem a ter alguma coisa a dizer sobre o assunto.

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