Catroga, Bento, Silva Lopes e quem levou o país ao charco

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 11/05/2015)

Nicolau Santos

     Nicolau Santos

Há uma ideia pisada e repisada que há de ser usada milhentas vezes durante a próxima campanha eleitoral: foram os socialistas que conduziram o país à bancarrota e ao pedido de ajuda internacional. Mas para lá da árvore, às vezes é preciso ver a floresta. Eduardo Catroga e Vítor Bento, economistas acima de qualquer suspeita de simpatia para com o PS, vêm colocar em causa esta visão redutora. E Silva Lopes, através da sua última entrevista, acrescenta alguma coisa a esse olhar.

Note-se que ninguém está a colocar em causa que o governo socialista cometeu erros, uns induzidos pela Comissão Europeia (meter dinheiro em força na economia, em áreas como a energia ou em investimentos de proximidade, como na recuperação do parque escolar, através de Parcerias Público-Privadas – os documentos estão disponíveis e esta lá tudo, assinado por Durão Barroso e avalizado por Bruxelas), outros da sua própria responsabilidade (apoiando empresas sem qualquer viabilidade e fomentando investimento público sem qualquer retorno).

No que toca à Comissão Europeia, é bom lembrar a enorme guinada que deu em matéria de orientação económica, quando após ter dito em 2008 para os governos meterem dinheiro em força na economia, porque o objetivo era evitar o colapso de bancos e empresas e não cometer os mesmos erros da Grande Recessão de 1929, deu o dito por não dito em 2010, quando colocou no topo da política económica a redução dos défices orçamentais e da dívida, deixando cair o objetivo do crescimento.

Mas para lá disso, a economia portuguesa tinha enormes fragilidades, que decorriam de uma aposta cada vez maior em setores não expostos à concorrência internacional, um endividamento crescente das empresas, famílias e Estado e um défice externo de 10%, que se vinha repetindo ano após ano. Claro que o resultado acabaria por não ser bom – e a crise financeira internacional, a par das mudanças de orientação política de Bruxelas, deixaram-nos naquela situação que Warren Buffet tão bem caracterizou: quando a maré baixa é que se vê quem está sem calções.

Os desequilíbrios estruturais que a economia portuguesa acumulou culminaram com o pedido de ajuda internacional. Mas o caminho começou a ser percorrido desde o início do século XXI, logo após a nossa adesão ao euro.

Ora a questão que se coloca é: outro Governo poderia ter evitado o pedido de ajuda internacional? Estamos obviamente no domínio das hipóteses. Mas ouçamos o que diz Catroga em entrevista ao Público: o país «tinha tido uma década de estagnação económica, de criação de desequilíbrios excessivos do défice público, nas contas externas, no stock da dívida pública, no endividamento público e privado…». Mais à frente, acrescenta: «deixámos criar excessos com políticas erradas durante 15 anos…».

Por seu turno, Vítor Bento, diz em entrevista ao Expresso: «temos um problema de elites. Precisamente porque as nossas elites se habituaram a ser rendistas», a viver «de rendas que querem proteger».

Finalmente, Silva Lopes, na última entrevista que concedeu, no caso ao Expresso, sublinhou: «Os donos das grandes empresas em Portugal distribuem muitos dividendos ou tiram dinheiro às empresas para o colocar no estrangeiro. Estou convencido que constituíram grandes dívidas cá para não pôr na empresa o dinheiro deles ou até para o tirar. Isto pode parecer agressivo, porque nós não temos provas para o dizer, mas é importante que o vamos dizendo. Eu não me importo de fazê-lo». E basta ver a enorme subcapitalização das empresas portuguesas e o seu grande endividamento para perceber quão verdade isto é.

Ou seja, os desequilíbrios estruturais que a economia portuguesa acumulou culminaram com o pedido de ajuda internacional. Mas o caminho começou a ser percorrido desde o início do século XXI, logo após a nossa adesão ao euro, a partir do qual perdemos a capacidade de fazer ajustamentos através da desvalorização cambial. Poderia ter sido diferente se Manuela Ferreira Leite tivesse ganho as eleições contra José Sócrates? Talvez, até porque Manuela Ferreira Leite estava muito consciente desse perigo. Mas a dinâmica, olhando para trás, parece ser imparável, com todos os agentes económicos a endividarem-se progressivamente. O choque acabaria inevitavelmente por acontecer – a não ser que a Europa nos deitasse a mão.

O mundo ao contrário

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 09/05/2015)

Miguel Sousa Tavares

                                   Miguel Sousa Tavares

1 Criou-se a ideia de que o programa do PS para a década contém um incentivo ao crescimento económico através da descida dos impostos. Seria bom se fosse verdade, mas não é assim tanto. A única descida efectiva que o documento propõe é a do IVA da restauração, que regressará aos 13% anteriores ao blitz fiscal do actual Governo. Desce a TSU para os empregadores e para os trabalhadores (para estes apenas temporariamente), mas compensa com a reintrodução do imposto sucessório — o qual, sendo o mais justificável dos impostos, não deixa de ser um a mais, numa situação em que só o acto de respirar ainda escapa ao fisco: tudo o resto paga imposto. É certo também que propõe restituir a “provisória” sobrecarga de 3,5% no IRS em dois anos, em vez dos quatro que propõe a maioria, mas, por outro lado, anuncia o aumento progressivo dos escalões — o que se traduzirá em nova sobrecarga fiscal sobre “os mesmos de sempre”, aqueles que suportam o grosso do imposto que todos os anos é o que mais aumento de receita gera. E, numa proposta aparentemente ignorada por todos, quer aumentar o IMI sobre a segunda habitação (mas só para portugueses…) até 300% — o que, além de mais, representa uma deslealdade e uma demonstração de má fé unilateral do Estado, aplicando uma sobrecarga fiscal nova a situações vigentes e a investimentos feitos num quadro fiscal substancialmente diferente, que, de outro modo, talvez não tivessem sido feitos. Trata-se, pois, de uma fama imerecida, esta de que o PS quereria reactivar a economia por meio da libertação de meios para as famílias, com origem em algum alívio fiscal.

Mas o curioso disto é que, tendo criado essa ideia, o PS viu-se atacado, não à esquerda… mas à direita! O partido aparentemente liberal (PSD) e o partido autoproclamado dos contribuintes (CDS) juntaram vozes e argumentos para gritar aos quatro ventos que o PS, se fosse governo, regressaria às políticas “que conduziram o pais à ruína”. Sim, o mesmo Passos Coelho, que chumbou o PEC 4 e derrubou o governo socialista porque não podia aceitar uma subida parcelar do IVA, e que depois subiu esse e todos os outros impostos de forma que o próprio Vítor Gaspar classificou de “enorme”, está agora escandalizado com a ideia de que o PS queira descer alguns dos impostos que ele aumentou, fazendo tábua rasa das suas promessas eleitorais. E Paulo Portas, que queria que as “gorduras do Estado” deixassem de chular a riqueza criada fora dele, e tantas vezes contra ele, que se demitiu às tantas porque viu, e bem, na nomeação de Maria Luís Albuquerque a continuação de uma política rigorosamente oposta, e que há quatro anos assim assiste resignado ao aumento constante da despesa pública, sustentado por um aumento corresponde da carga fiscal, agora “teme” novo resgate, se se inverter a política que, para compensar a falta de coragem na realização das tão faladas “reformas”, gerou 300.000 desempregados, 250.000 novos emigrantes, inúmeras falências de empresas e uma perda de 12% da riqueza do país nestes quatro fatídicos anos para a economia portuguesa.

Estará o mundo de pernas para o ar? Em Inglaterra (onde nada de semelhante sucedeu), um Governo semelhante, de centro-direita, fez campanha eleitoral com a promessa de Cameron de não aumentar qualquer imposto nos próximos cinco anos, pois que “chegou a altura de ser o Estado a cortar nos seus gastos e não os cidadãos a cortar nos seus rendimentos” — o credo conservador-liberal, tal como se aprende nos bancos de escola.

Aqui, desgraçadamente, temos o pior de dois mundos: são liberais para privatizar ao desbarato empresas públicas, gerando monopólios privados em sectores essenciais da economia, ou para, em nome da “competitividade”, reduzirem salários a um nível indigno (mais 5% de trabalhadores a ganharem menos de 310 euros do ano passado para este ano). Mas praticam o pior do socialismo a gastar dinheiros públicos e a aumentar a dívida do Estado, a entregarem-se à voragem fiscal sem freio ou a nomear amigos e correligionários para lugares públicos, muitos dos quais deveriam ter extinto se tivessem ou memória ou pudor.

2 Já se disse tudo sobre a greve de alguns pilotos da TAP e, caso absolutamente único entre nós, não houve ninguém, uma só voz, que mostrasse uma sombra de compreensão para com eles. Até porque agora, com a ameaça de mais greves no horizonte, já todos percebemos até onde estão dispostos a ir estes pilotos: até ao fim, até à liquidação da empresa — coisa que, aliás, já devem ter conseguido. Depois, receberão as indemnizações por cessação dos postos de trabalho, que os contribuintes pagarão, e, conforme esperam, voarão para outras paragens — onde, obviamente, jamais se atreverão a fazer um minuto de greve, porque nem a Constituição os protegerá nem os contribuintes os sustentarão. A cega obstinação do Governo na privatização da empresa e o umbiguismo insano de alguns pilotos, puseram fim a uma longa e honrosa história. A TAP, tal como a conhecemos, já não existe e não voltará a existir. Provavelmente, nunca tão poucos causaram tantos danos ao país.

O curioso disto é que, tendo criado a ideia de que iria baixar impostos, o PS viu-se atacado, não à esquerda… mas à direita!

3 Propus aqui há semanas que um dos critérios de cálculo das pensões de reforma, a par dos já existentes, fosse o número de filhos que se fez e se teve a cargo até à vida adulta. Tal como esperava, recebi algumas manifestações de desagrado de leitores, queixando-se da injustiça que isso representaria para aqueles que só não tiveram filhos porque a natureza não lho permitiu. Obviamente, eu tinha antecipado a objecção e contra-argumentei que, sendo evidente a diferença entre os que não tiveram filhos porque não puderam e os que não tiveram porque não quiseram, a verdade é que tantos uns como outros ficaram aliviados, ao longo da vida, de elevados custos financeiros a criar, a educar, a assistir, uma geração de filhos cujas contribuições para a Segurança Social são depois determinantes para que a geração anterior possa ter pensões de reforma. Mas, independentemente desse argumento, a verdade é que os indivíduos ou casais inférteis são uma minoria face aos que, por razões próprias e inteiramente legítimas, não quiseram ter filhos. E o problema com estes últimos é que não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. A organização “Save The Children”, acaba agora de divulgar a sua classificação anual das condições de natalidade de cada país, incluindo factores médicos, clínicos, económicos, de legislação laboral, etc.: entre 178 países analisados, Portugal foi classificado como o 16º melhor para se ter filhos (era 14º, antes de a crise fazer efeitos). Se cruzarmos este dado com o da taxa de natalidade, em que Portugal está entre os cinco países do mundo com uma taxa mais baixa, há qualquer coisa que não bate certo. As explicações económicas, sociológicas e politicamente correctas dão muito jeito. Mas não servem, manifestamente, para explicar o que está a acontecer.

4 Também já se disse tudo sobre a Grécia e já toda a gente percebeu o que está em jogo: a troika (e, em particular a hipócrita senhora Lagarde, do FMI) não descansará enquanto não tiver a Grécia ajoelhada e a pedir perdão por ter votado num partido que contesta a sua receita de miséria forçada. Há quem ache bem, que é bem feito para os gregos, e há quem ache que esta atitude é, não só aviltante, como ainda um suicídio europeu. Mas não pode haver quem diga ainda que não percebeu do que se trata. Se e quando a capitulação grega for levada a Bruxelas numa bandeja e abrir uma caixa de Pandora de consequências imprevisíveis, ninguém poderá dizer que não adivinhava a sequência catastrófica. Obama anda há meses a tentar explicá-lo à Europa.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Afinal, onde é que lhes dói?

(Pedro Bacelar de Vasconcelos, in Jornal de Notícias, 07/05/2015)

Pedro Bacelar de Vasconcelos

  Pedro Bacelar de Vasconcelos

O mérito do conjunto de políticas públicas recentemente apresentadas pelo PS só poderá ser demonstrado perante os resultados da sua execução, da mesma forma que o fracasso das políticas públicas executadas pelo atual Governo apenas se demonstrou perante a evidência dos seus resultados catastróficos, apesar de inúmeros economistas lhes terem vaticinado tal desfecho.

Os cenários macroeconómicos que o principal partido da Oposição submeteu a debate público obtiveram para já um único sucesso indiscutível: abriram uma brecha irreparável nas muralhas da ortodoxia económica que nos tem governado. Diziam que não havia outro caminho e rejeitavam liminarmente qualquer objeção apondo-lhe o rótulo infamante de “despesismo”. Esse álibi acabou e tal como evidenciaram abundantemente, é mesmo aí que lhes dói.

Na sua edição de 25 de abril o jornal “Expresso” publicou um texto de feição inusitadamente emotiva e acintosa, inserto na secção de economia daquele semanário. Cuida sobretudo das contingências da luta política e das qualidades morais dos seus protagonistas. Assim, num registo sumário e anedótico, classifica as políticas de “um certo PS” como “inconsistentes”, denuncia os supostos indícios de uma “viragem à direita” e acusa o mesmo partido de “falta de coragem”!

Quem se permite fazer pronunciamentos públicos tão violentos não deveria estranhar que os ofendidos lhe queiram fazer sentir o seu desagrado, quer por canais públicos quer por meios privados. É por isso verdadeiramente espantoso o teor da crónica de João Vieira Pereira, publicada no mesmo jornal, na semana seguinte: um patético grito de revolta contra uma SMS (designação corrente para mensagens escritas por telemóvel) onde o próprio secretário-geral do PS lhe comunicava o seu descontentamento.

O que poderá levar um jornalista sério e competente, diretor-adjunto de um reputado semanário, a revelar correspondência privada sem prévia autorização do remetente e a reproduzi-la, na íntegra, no seu jornal? Para se vangloriar da atenção porventura excessiva que lhe teria dispensado um alto dirigente partidário? Para se defender, como insinua, de imaginárias ameaças à liberdade de imprensa? O assunto não mereceria passar daqui mas a temática das SMS parece que se tornou especialmente excitante para os partidos da coligação agora refundada, sobretudo depois da afirmação de Passos Coelho, logo desmentida por Paulo Portas, quanto ao modo de comunicação – alegadamente por SMS! – daquela “demissão irrevogável” que animou o verão de 2013. Talvez por isso, o inventor original do conceito de “claustrofobia democrática” sentiu-se impelido a terçar armas pela liberdade de imprensa contra o assédio das SMS! O que mais poderia distrair Paulo Rangel das lides parlamentares europeias para vir tomar as dores do sisudo jornalista e reconstruir arduamente nas páginas do “Público” de 5 de maio, as provas insofismáveis da tendência fatal dos socialistas para aniquilar a liberdade de expressão? E por isso deplora, apreensivo, que a SMS se “inscreva num padrão” e reitera que “não era a telecomunicação privada o meio adequado a responder a um artigo público”… dispensando-se contudo de justificar e de esclarecer se aprova ou não o procedimento inverso. Por fim, num arroubo de elaboração conceptual, concede não se tratar já de “claustrofobia democrática” mas sim de um novo conceito original: o “bullying democrático”. Afirma, literalmente: – “A SMS de António Costa é um ato de bullying contra a liberdade de expressão, contra João Vieira Pereira e contra o Expresso.”

Sinais inequívocos, enfim, do desespero que se apoderou da direita que nos desgoverna. Sem argumentos, obstina-se na convocação dos velhos medos, nos julgamentos de caráter, na tentativa de destruição moral dos adversários. Mais do mesmo! Por este caminho, não vai longe.