A fresta do Pontal, ou eu tinha umas asas brancas

(Estátua de Sal, 15/08/2015)

Passos Coelho, Anjo

             Passos Coelho, Anjo

Estive a ouvir Portas e Coelho na festa do Pontal, marcando a rentrée política pafiana e fiquei espantado com tanta desvergonha, desplante e mentira. É difícil batê-los no campo da pantominice e do cinismo. Autênticos carteiristas encartados, capazes de roubar o transeunte, ficar-lhe com todo o dinheiro e depois entregar a carteira ao espoliado fazendo-o desfazer-se em agradecimentos por, ao menos, ter escapado ao calvário de ser obrigado a renovar todos os documentos.

Portas mimou o papel do polícia mau. Atacou o PS, acenou com cenários de catástrofe, a bancarrota ao virar da esquina, e pasme-se, com a destruição da Segurança Social por parte do PS, devido à redução da TSU para os trabalhadores. Portas foi uma sobremesa meia indigesta que, mais que dizer que nós somos os melhores, foi dizendo que os outros são piores que nós.

Coelho fez o papel do polícia bom. Parecia um rapazinho vestido de anjinho na procissão do Senhor dos Passos. Parecia o Almeida Garret, em “As minhas asas”:

Eu tinha umas asas brancas,

Asas que um anjo me deu,

Que, em me eu cansando da terra,

Batia-as, voava ao céu.

Depois, tentou falar para os portugueses que não gostam do PAF. Que compreende o azedume dos portugueses que lhe fazem um manguito: “Se queres fiado, toma”. Ele até concorda que os portugueses estejam de costas voltadas para ele, diz o aldrabão. Mas diz também que agora é que é. Que quer uma oportunidade para governar, passadas que são as dificuldades, diz ele, – ó inaudita falta de vergonha -, que quer governar com maioria absoluta!

Não vou analisar em profundidade os efeitos de destruição e caos social que as políticas deste governo promoveram: aumento da pobreza, do desemprego, das desigualdades, destruição das classes médias, emigração em massa, diminuição do PIB, do investimento, aumento da dívida pública, dívida em nome da qual justificaram todas as tropelias e atentados aos trabalhadores, pensionistas, e todos os grupos sociais mais vulneráveis.

Quem tivesse o mínimo de vergonha não se dirigiria agora a esses mesmos grupos sociais pedindo-lhes o voto e a renovação de mais quatro anos de suplício. Mas não. Passos acha que pôr umas asas e falar com vozinha a tender para o embargado, qual menino de coro em dia de comunhão, é o suficiente para se fazer passar pelo cordeiro que não é, recuperando a confiança que não merece. E isto sem apresentar qualquer plano quantificado para a governação que quer renovar. Sobre o futuro nem uma palavra. Sobre como o país pode crescer e melhorar nem uma palavra. Sobre como poderemos pagar a dívida, dentro das constrições do Euro e do tratado orçamenta, nem uma palavra.

 Passos acha que a sua retórica mistificadora é suficiente para alterar a realidade que ele próprio criou e promoveu. Como se a realidade pudesse ser construída e a história reconstruída apenas com base num cardápio verbal soprado pelos seus conselheiros de marketing político.

O que o leva a acreditar nisso? Será o homem inimputável, uma espécie de esquizofrénico que ouve vozes a quem obedece, por muito esquisitas e irrealistas que sejam as tarefas de que é incumbido? Viverá num universo paralelo, numa realidade autista que é a sua e que só ele conhece?

 Decididamente não. O que leva Passos a tentar encenar este número de prestidigitação, e a tentar fazer passa-lo como verosímil, é essencialmente o terreno que a oposição, nomeadamente o Partido Socialista, lhe tem oferecido de mão beijada. É esse território, essa fresta, que Passos vai tentar preencher até ao dia das eleições. Porque a oposição que quer ser governo não lhe desmonta as mentiras sem dó nem piedade. Porque não traz para o topo do debate político de forma atempada e incisiva todas as trapalhadas, negociatas, e até ilegalidades, que vão sendo cometidas pelo Governo. A história dos cartazes é reveladora. Depois do ocorrido, até parece que o desemprego não existe, e que só estão desempregados figurantes irreais, tal como nos querem fazer acreditar Coelho e Portas. Assim, um dos trunfos eleitorais que o PS poderia usar com propriedade para desmistificar a retórica passista caiu por terra com estrondo e sem glória.

É que não basta apresentar um programa macroeconómico e uma estratégia para o País, se não se consegue passar a mensagem ao eleitorado de que a aplicação de tal programa pode conduzir a uma melhoria das condições de vida dos cidadãos. Poucos entendem as minudências técnicas de um cenário macroeconómico, por muito coerente que seja, mas mais depressa muitos poderão ser capturados pelos chorrilhos declamativos de Passos e pelas mentiras a que reiteradamente recorre. É pois, aí, no campo do slogan, que o PS tem que deixar de ser uma espécie de grupo de amadores que se reúne no Largo do Rato para tomar café.

Como é espantosa tanta moleza e tanta complacência com a vigarice “pafiana”, pode perguntar-se porquê tanta inoperância, tanta tibieza, não combatendo Passos no seu próprio terreno.

Em primeiro lugar, o PS parece estar refém do seu próprio passado. O lastro do anterior governo ainda pesa, e muito. Sócrates é uma espécie de urubu negro que paira no ar. A apresentação do programa macroeconómico teve como objetivo chancelar como credível um conjunto de alternativas às atuais políticas de austeridade emanadas de Bruxelas, sem contudo colocar em causa as constrições do Euro, do pagamento da dívida e do Tratado Orçamental. A questão é que Passos Coelho sabe, e António Costa também sabe, que a margem, a fresta para fazer diferente, em termos de política económica, é muito estreita. Isto leva a que as propostas do PS surjam como que inquinadas à partida porque devedoras da má consciência que advém do facto de não ter havido, pelo menos até ao momento, a coragem de dizer isso mesmo aos eleitores. Ou seja, Coelho sabe que Costa não pode dizer aos eleitores que fazer diferente, em termos de política económica, no atual quadro de inserção do país na Europa e no Euro, é quase tão difícil como fazer passar um camelo pelo buraco de uma agulha. Se o dissesse, seria desculpabilizar todos os dislates que o governo atual foi praticando nos últimos quatro anos.

Ora, como o PS não ousa sequer discutir tal inserção (“a Europa é indiscutível”, como disse recentemente António Costa), por muito bem-intencionados que sejam os seus desígnios e as suas preocupações sociais, elas são facilmente postas em causa pelas campanhas de intoxicação pafianas.

Restam os eleitores e os cidadãos, a quem não são deixadas alternativas, e que, ao que parece, só podem almejar, como resultado final de governação das próximas eleições, a escolha entre o péssimo e o sofrível. Mas entre o péssimo e o sofrível, não direi, ainda assim, que venha o diabo e escolha. Apesar de tudo, que venha o sofrível.

A narrativa e as propostas

(Pedro Adão e Silva, Expresso, 23/05/2015)

Pedro Adão e Silva

                   Pedro Adão e Silva

Depois de meses sob a acusação de que não tinha uma alternativa, o PS de António Costa encontra-se numa posição singular: já apresentou compromissos de tal forma detalhados que, agora, o problema é outro — tornou-se difícil processar a sua linha programática.

Estamos perante uma daquelas singularidades em que a política portuguesa é pródiga. Se as campanhas eleitorais são, por natureza, momentos de escolha baseados numa avaliação do que se passou na legislatura que termina e na apreciação dos programas apresentados para o próximo ciclo, as legislativas deste ano arriscam transformar-se num referendo às propostas do PS.

Claro está que o facto de o PS já ter apresentado a “Agenda para a Década”; o “Cenário Macroeconómico” e o “Programa Eleitoral”, enquanto a coligação se limitou a comprometer-se, através do Governo, com um “Programa de Estabilidade” vago e irrealista dá, à primeira vista, uma vantagem comparativa aos socialistas. Não apenas porque centra o debate em torno do que o PS propõe, como inverte as posições relativas — a oposição torna-se Governo, com o Governo a assumir o lugar de oposição.

Mas a ideia de que o PS está a conseguir definir os termos do debate pode ser ilusória. Por um lado, a apresentação de muitas propostas abre espaço ao ruído, permitindo que se apontem baterias críticas seletivamente; por outro, liberta a coligação face ao que foi a governação dos últimos quatro anos e, paradoxalmente, em relação aos compromissos para a próxima legislatura. Passos Coelho e Paulo Portas quase que aparecem isentos de culpas no falhanço colossal deste Governo e desobrigados de apresentar um programa para a próxima legislatura.

Não por acaso, Passos Coelho tem tido, nos últimos tempos, espaço para se concentrar na sua narrativa, que, tendo lógica interna, tem tanto de simplista como de falsa. Começa por afirmar que o Governo herdou uma situação catastrófica, que, com muito sacrifício dos portugueses, o país está melhor e libertou-se da troika, para agora acrescentar que merece uma oportunidade para governar num contexto mais favorável. Pouco importa que a resposta às circunstâncias em que o país continua precise de uma interpretação mais complexa da natureza da crise ou que o ajustamento tenha fracassado, de acordo com todas metas definidas no Memorando ou, pior, que tenha sido uma catástrofe económica e social.

O mais sintomático é que, tal como aconteceu há quatro anos, o PSD/CDS podem esconder a sua agenda. Enquanto Passos Coelho vai com eficácia repetindo uma narrativa, passa para segundo plano o corte previsto de 600 milhões nas pensões ou as declarações de figuras proeminentes da maioria que defendem (ainda) mais cortes em salários e pensões. Este efeito de ocultação é, também, consequência de o PS já ter apresentado uma “agenda”, um “cenário” e um “programa”, aliviando o combate político.

O Programa Eleitoral do PS

António Costa

                        António Costa

Acho que o Programa eleitoral do PS só peca por defeito relativamente às medidas que seriam necessárias para o País mudar de rumo. E por uma razão: se fosse mais além o PS teria que pôr em causa o Tratado Orçamental e renegociar a dívida, e sobre estas questões, o PS assobia para o ar e nada diz, a não ser que vai cumprir tudo o que a UE determinar.

A Direita, não tem nada para apresentar, a não ser mais do mesmo. Mais cortes, mais austeridade, mais miséria, mais desigualdade social, mais privatizações ao desbarato para apaniguados e companheiros de estrada.

A Direita já que nada tem para dizer, não anda a discutir o Programa do PS, em termos da valia de cada medida tomada de per si. Ou seja, não diz que as medidas sejam más, a maioria delas. Aquilo que imediatamente pergunta, sobre cada medida, é quanto custa, e questiona se a União Europeia nos vai deixar implementar as mesmas. O PSD não tem programa, a não ser o programa que a troika lhe deixou e impõe.  Quando vê qualquer coisa de novo, mesmo que seja tímido, olha para a troika e pergunta: “Será que isto vai ser possível de implementar? Nunca tínhamos pensado nisto.”

Só que há um problema. É um problema de contas e de macroeconomia. O programa do PS é um exercício de macroeconomia, com objetivos, e restrições que assume e pretende cumprir, mormente as restrições do Euro, da dívida e dos Tratados. Ora, a maioria, que nunca teve programa político que fosse além do governar à vista, gerindo o País como se fosse uma mercearia com um livro de fiados, fica aterrada.

Não percebe, que toda a ação económica se desenrola no tempo, sendo a resultante final um saldo que advém das interações variadas de múltiplos agentes. E, decorrendo no tempo, e fazendo uma aposta sobre o futuro, existem sempre riscos de falha na antecipação de cenários futuros, e a necessidade de ajustamentos.
Mas estes riscos, são os que derivam de qualquer cenário de investimento. Se as empresas privadas que o Governo tanto elogia tiverem tanto receio dos riscos do futuro, como o Governo, já que propagandeia o pavor desses riscos para destruir a valia do Programa do PS, nunca mais o País sairá do estado miserável em que se encontra.

A questão toda, portanto, é esta. Ao PS exigem-se contas. Quando as apresenta, não as entendem, nem as percebem, por incompetência, má-fé ou enviesamento ideológico. O PSD não tem, nem programa, nem contas, porque quem lhe faz o programa é a troika e o FMI.

A tristeza final, ainda assim, é que o PS precisou de justificar a sua “austeridade amenizada” com um modelo macroeconómico que lhe pretende sustentar a plausibilidade. Ou seja, teve que justificar as suas opções políticas com o tecnicismo dos modelos. Não para convencer os cidadãos, mas para convencer as instâncias europeias, obtendo assim luz verde para as propor e levar à prática.

Quanto ao PSD/CDS não precisa de dizer nada e nada tem a dizer. Basta-lhe olhar para a troika e para o FMI e pedir instruções. Não tem que apresentar contas. O seu único programa é acenar com o medo e o pavor de dias piores, dias que, em verdade, vai querer continuar a impor se os portugueses se assustarem e lhes confiarem o seu voto.

A falha do PS, é que julga que a Europa está de boa fé e vai ser sensível aos seus argumentos técnicos, permitindo-lhe, caso ganhe as eleições, levar avante o seu programa, por muitas limitações que possa ter no sentido de corrigir o atual quadro económico.

Eu até queria estar enganado mas duvido. O programa do PS, volta o enfoque da economia e da governação para os rendimentos do trabalho e para a procura. O enfoque da União Europeia sempre foi inverso e continua ainda a ser. É um enfoque que privilegia os rendimentos do capital e a oferta, pelo que, e ainda que o PS não seja Syriza, o choque será inevitável.

Estátua de Sal, 21/05/2015