Afinal, onde é que lhes dói?

(Pedro Bacelar de Vasconcelos, in Jornal de Notícias, 07/05/2015)

Pedro Bacelar de Vasconcelos

  Pedro Bacelar de Vasconcelos

O mérito do conjunto de políticas públicas recentemente apresentadas pelo PS só poderá ser demonstrado perante os resultados da sua execução, da mesma forma que o fracasso das políticas públicas executadas pelo atual Governo apenas se demonstrou perante a evidência dos seus resultados catastróficos, apesar de inúmeros economistas lhes terem vaticinado tal desfecho.

Os cenários macroeconómicos que o principal partido da Oposição submeteu a debate público obtiveram para já um único sucesso indiscutível: abriram uma brecha irreparável nas muralhas da ortodoxia económica que nos tem governado. Diziam que não havia outro caminho e rejeitavam liminarmente qualquer objeção apondo-lhe o rótulo infamante de “despesismo”. Esse álibi acabou e tal como evidenciaram abundantemente, é mesmo aí que lhes dói.

Na sua edição de 25 de abril o jornal “Expresso” publicou um texto de feição inusitadamente emotiva e acintosa, inserto na secção de economia daquele semanário. Cuida sobretudo das contingências da luta política e das qualidades morais dos seus protagonistas. Assim, num registo sumário e anedótico, classifica as políticas de “um certo PS” como “inconsistentes”, denuncia os supostos indícios de uma “viragem à direita” e acusa o mesmo partido de “falta de coragem”!

Quem se permite fazer pronunciamentos públicos tão violentos não deveria estranhar que os ofendidos lhe queiram fazer sentir o seu desagrado, quer por canais públicos quer por meios privados. É por isso verdadeiramente espantoso o teor da crónica de João Vieira Pereira, publicada no mesmo jornal, na semana seguinte: um patético grito de revolta contra uma SMS (designação corrente para mensagens escritas por telemóvel) onde o próprio secretário-geral do PS lhe comunicava o seu descontentamento.

O que poderá levar um jornalista sério e competente, diretor-adjunto de um reputado semanário, a revelar correspondência privada sem prévia autorização do remetente e a reproduzi-la, na íntegra, no seu jornal? Para se vangloriar da atenção porventura excessiva que lhe teria dispensado um alto dirigente partidário? Para se defender, como insinua, de imaginárias ameaças à liberdade de imprensa? O assunto não mereceria passar daqui mas a temática das SMS parece que se tornou especialmente excitante para os partidos da coligação agora refundada, sobretudo depois da afirmação de Passos Coelho, logo desmentida por Paulo Portas, quanto ao modo de comunicação – alegadamente por SMS! – daquela “demissão irrevogável” que animou o verão de 2013. Talvez por isso, o inventor original do conceito de “claustrofobia democrática” sentiu-se impelido a terçar armas pela liberdade de imprensa contra o assédio das SMS! O que mais poderia distrair Paulo Rangel das lides parlamentares europeias para vir tomar as dores do sisudo jornalista e reconstruir arduamente nas páginas do “Público” de 5 de maio, as provas insofismáveis da tendência fatal dos socialistas para aniquilar a liberdade de expressão? E por isso deplora, apreensivo, que a SMS se “inscreva num padrão” e reitera que “não era a telecomunicação privada o meio adequado a responder a um artigo público”… dispensando-se contudo de justificar e de esclarecer se aprova ou não o procedimento inverso. Por fim, num arroubo de elaboração conceptual, concede não se tratar já de “claustrofobia democrática” mas sim de um novo conceito original: o “bullying democrático”. Afirma, literalmente: – “A SMS de António Costa é um ato de bullying contra a liberdade de expressão, contra João Vieira Pereira e contra o Expresso.”

Sinais inequívocos, enfim, do desespero que se apoderou da direita que nos desgoverna. Sem argumentos, obstina-se na convocação dos velhos medos, nos julgamentos de caráter, na tentativa de destruição moral dos adversários. Mais do mesmo! Por este caminho, não vai longe.

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