Em tempo de guerra, não se limpam as armas?

(Francisco Louçã, in Público, 22/12/2017)

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Os factos são muito teimosos. As eleições na Catalunha deram uma maioria confortável aos partidos cujos dirigentes estão presos ou fora do país, mesmo depois de uma vaga repressiva com a convocação de milhares de guardas civis para impedirem um referendo, a dissolução das autoridades eleitas, a prisão de responsáveis de associações e de governantes e a proibição de, sendo candidatos, participarem na campanha eleitoral. Esse resultado é impressionante e demonstra que o desafio catalão beneficiou de Rajoy.

Esperava Rajoy, que passou a campanha na Catalunha, que o medo destroçasse os independentistas e que o aumento de votação, para uns espantosos 82%, levantasse as cores espanholistas. O resultado não é só um desastre para o seu PP (de 19 deputados em 2012 para 3), mas para os partidos unionistas, que ficam só com 57 deputados contra os 70 independentistas. Arrimadas, coqueluche da nova direita, clama que os seus 25% demonstram que tem a maioria, mas o entusiasmo não substitui a realidade. O facto teimoso é que, mesmo que os deputados presos e exilados não sejam autorizados a vir votar ao parlamento, e mesmo que a CUP não chegue a acordo com os partidos independentistas de centro e de direita, Puidgemont pode ainda assim ser eleito presidente do governo.

O efeito Rajoy foi este: para ocultar a crise judicial do seu partido, acusado de corrupção, desencadeou uma tempestade cujo resultado foi reafirmar o independentismo catalão, que estava mal preparado, sem estratégia e sem plano, mas que passou a mobilizar o sentimento da revolta democrática. Além disso, conseguiu fazer crescer a solução republicana contra os partidos monárquicos.

Não é esse imbróglio, no entanto, o tema desta crónica. O que venho discutir é o princípio de que, em guerra, não se limpam as armas e, em particular, qual foi o papel da imprensa nesta guerriúncula. Veja o seguinte exemplo: o editorial do El Pais, um dos mais importantes jornais de Espanha, perante os resultados de ontem, afirma que “O PS, estável, e os Comunes (Podemos) muito em baixa, pagam o preço dos seus moderantismos e ambiguidades. E o PP de Rajoy recolhe o pior resultado: algo que sem dúvida terá consequências na política nacional”. Os leitores notarão a contradição: esta análise afirma que dois partidos caem porque eram ambíguos e o outro cai ainda mais, mas não era ambíguo. Vale tudo e o seu contrário.

Mas o mais importante é o que foi dizendo o próprio El Pais ao longo desta crise, porque nunca foi ambíguo. O jornal decidiu tomar a mesma atitude que a imprensa tomou em cada país durante a segunda guerra mundial: só interestitulossa a propaganda militar. Ou, já agora, durante a guerra civil espanhola: estar num campo é fazer a apologia dos seus chefes. O El Pais, como outra imprensa espanhola, tornou-se uma arma de guerra, com editoriais inflamados, apoio aos juízes que determinavam a prisão e suspeitas sobre os que hesitavam, pressão sobre o PSOE, cronistas desexpressoembestados como Vargas Llosa, defesa do discurso do rei, promoção das campanhas de Rajoy e de Arrimadas. Correu mal.

Mas o problema de fundo é a própria concepção da função da imprensa. E a questão é também portuguesa, na escala da escaramuçazinha. Lembre-se de que, quando o parlamento terminou os duodécimos que substituíam o subsídio de Natal, os títulos foram “Salário desce em janeiro” e “fim dos duodécimos encolhe salários até 90 euros”, quando o salário total pago é exactamente o mesmo. Imprensa de guerrilha. Ou a capa do Expresso na semana em que a Fitch retirou Portugal do “lixo”: “Metade das casas (em Pedrógão) está por construir” (a boa notícia é que metade já está pronta?). Imprensa de guerrilha. Só pode correr mal.

E agora, Rajoy? 

.(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 22/12/2017)

Daniel

Daniel Oliveira

As eleições catalãs realizaram-se perante um cenário que não pode ser aceite como normal. Não me refiro à polarização política que os resultados tão bem ilustram. Falo do facto dos líderes de dois dos três partidos mais votados estarem ou presos ou no exílio. Hoje ficámos a saber que é metade da Catalunha que está presa ou exilada.

Tem sido sublinhada a vitória dos Ciudadanos. É verdade que o partido liberal de centro-direita cresceu de 25 para 37 deputados, de 18% para 25,4%. Mas o primeiro lugar resulta apenas de um facto: ERC e Juntos pela Catalunha foram separados às urnas, quando nas últimas eleições tinham concorrido juntos. Na realidade, os Juntos pelo Sim tinha conseguido 62 deputados (39,5%) em 2015 e subiram, em separado, para 66 deputados (cerca de 43%). Mesmo o campo independentista, contado com a CUP (que desceu de 10 para 4 deputados), mantém a percentagem quase inalterada. O primeiro lugar do Ciudadanos pode servir de consolação, mas ficou tudo na mesma. Mesmo que os independentistas tivessem perdido a maioria, só era possível governar com o Catalunya en Comú, o Podemos catalão. E estes, que têm sido erradamente colocados no mesmo bloco que Ciudadanos, PSC e PP, nunca se aliariam a estes partidos, já que defendem o direito à autodeterminação e se opuseram a toda a estratégia de Rajoy. Ou seja, um governo liderado pelo Ciudadanos e apoiado pelos espanholistas nunca chegou a ser uma possibilidade.

Estas eleições têm, antes de tudo, um derrotado: Mariano Rajoy. Tudo o que fez não teve qualquer resultado. Nem a repressão, nem as prisões, nem a antecipação das eleições. Os catalães mobilizaram-se para deixar tudo na mesma. E para tornar o PP ainda mais irrelevante na Catalunha: vale agora pouco mais de 4% (tinha 8,5%) e tem três deputados. Mas a derrota da Rajoy não é o PP ser um partido marginal na Catalunha, é o resultado da sua estratégia de força. Ela valeu-lhe apoios em Espanha e secundarizou o PSOE, é verdade. Mas, no dia seguinte às eleições, a sua posição é insustentável. Vai fazer o quê? Continuar a usar a força? Manter os líderes dos partidos que têm de formar governo presos e no exílio? Continuar a criminalizar a maioria democraticamente eleita? Retirar o poder ao parlamento acabado de ser escolhido numas eleições que ele próprio marcou?

É muito mais grave do que isto. Ao tentar transformar um problema político num problema judicial, Mariano Rajoy decretou que os legítimos representantes dos catalães – agora reforçados por novas eleições – não eram seus interlocutores. E ele próprio se colocou numa posição insustentável perante os catalães, tratando-os como criminosos. O que Mariano Rajoy fez, apenas pensando em vantagem de curto prazo, foi erguer um muro à volta da Catalunha. A sua irresponsável mão de ferro pode ter agradado a muitos espanhóis mas tornou muito mais difícil a resolução deste problema. Os resultados deixaram tudo na mesma, mas a renovação da maioria que Rajoy quis criminalizar muda tudo.

Os resultados têm um problema e uma oportunidade para os independentistas. O problema é a divisão a meio do seu eleitorado, impedindo uma liderança clara neste bloco. A oportunidade seria a de substituir a CUP pelo Catalunya En Comú, deixando de estar amarrado à declaração unilateral de independência e construindo uma ponte com a ponderação e a construção de consensos.

AS “RARÍSSIMAS” e as “FREQUENTÍSSIMAS”!

(Por Joaquim Vassalo Abreu, 13/12/2017)

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Cartoon in Facebook, Página Desenhos ao Calha

Estava fora, na Catalunha, onde estive até ontem, quando irrompeu este caso da “Raríssima”! Desconhecia de todo a sua existência, segui um pouco pelo Facebook apenas e logo imaginei o que terá sido a estridente e exaustiva cobertura televisiva. Mas a nada assisti porque televisão também não vi estes dias todos…

Eu de “Raríssimas” nada conheço e, desde logo, achei este nome para lá de surreal, embora saiba donde advém! E, desde que vim, não mais me importei pelo caso pois, só pela rama, logo o estereótipo fiquei a conhecer. É que eu, como creio que muitos outros, percebo mais de “Frequentíssimas”! E logo, de imediato pensando, dei por mim a exprimir um desejo e esperança: que a “Raríssima” não seja a parte visível de um “iceberg” e se transforme também ela em “Frequentíssima”.

Um desejo singular e simples, como observam, de uma pessoa que, na sua completa ignorância, da sua existência nada sabia, nem pretende fazer que sabia. Não sabia e ponto! Mas como todas as “Frequentíssimas”, e de muitas e muitas muitos sabemos, fiquei a saber que também esta tinha e tem um largo manto protector, feito de uns quantos nomes, nomes de gente muito bem, muito influente e emproada na vida.

Gente que tudo aceita, com elevado sentido de altruísmo e conforto moral certamente, como dar o seu nome, desde logo requisitado nome, para Órgãos Consultivos que nada consultam, para Órgãos não Executivos que, está bom de ver, nada executam, muito menos vigiam e que, fatalmente, de nada sabem quando algo corre mal e daí fogem como o diabo da cruz, mas que sempre aparecem quando há festas, inaugurações, nomeações e eventos vários onde compareçam os mais altos dignatários da nação e suas caridosas damas e onde, respirando naturalidade, têm que ser vistos. É da praxe!

Elas fazem parte de um agregado restrito de gente que se conhece bem e cujos currículos estão impregnados em assentos vários: em Órgãos Sociais de Empresas, nos tais conselhos consultivos quando elas têm dimensão, nos conselhos fiscais, como administradores delegados e mesmo nas administrações, mesmo que sem voto, mas recebendo! Mas também nas IPSS´s, nas Fundações, nas assembleias gerais e órgãos mais onde rodam, rodam, rodam sem parar, mas sempre os mesmos…políticos, ex-políticos, ex-ministros, deputados, advogados de renome, mas também anteriores e actuais governantes…vejam lá!

Tudo normal, tudo legal, até porque são eles mesmos que fazem, fizeram, interpretaram e interpretam as leis, leis à medida, e é sempre uma honra para as instituições que os seus nomes cooptam, pelo brilho e estatuto que lhes aportam. E assim vão levando a vidinha, num mundo deles, só deles e de mais ninguém, mas pondo a mão por cima, como se usa dizer, dessas instituições…compondo o tal “manto diáfano” que tudo cobre! Até que aparece um vilão ou vilã que, mais esperto ou esperta que eles, os usa…É da praxe também!

Mas estes são os chamados “tansos”, os que não sabem fazer a coisas, os que não “estudaram” naquelas organizações tidas por secretas, como a Maçonaria ou a Opus Dei, as mais conhecidas, onde aprendem a fazer “lobbies” e a saber que o poder tem que ser repartido: eu para aqui, tu para ali…assim mesmo, para que a distribuição de lugares obedeça a uma lógica: a da permanência e da supervivência de uma forma de estar na vida.

Que promove mas protege também, a menos que sejam desenquadrados pássaros de arribação. Aquilo que, em suma e resumindo, costumamos chamar de “tachos”! E, neste caso, vendo TV pela primeira vez desde que cheguei, jantando, só como é usual e na cozinha, não resisti a ligar a TV e dei por mim a ver uma constrangedora entrevista a um constrangedor personagem, o ex-Secretário de Estado da Saúde. Que, fatalmente, provou que não tinha o “curso”! E deu-se à imolação!

Mas estamos num mundo “livre” e eles exercem a “liberdade”! Assim como em Espanha e mais propriamente na Catalunha de onde, como disse, acabei de chegar. Não deve haver “liberdade” igual: Vai ocorrer um acto eleitoral no próximo dia 21. Um dia da semana, dia de trabalho para que conste e, só por isso, são eleições tão livres, tão livres, que só votará quem o puder fazer. Mas com uma singularidade: alguns dos propostos líderes e primeiros nomes das listas, aspirantes portanto à presidência da Generalitat, estão presos e outros até foragidos! Na Bélgica, como todos sabem, aonde se deslocaram neste fim de semana cerca de cinquenta mil pessoas para fazer um comício com esses tais…os foragidos! Mas em total liberdade…

Um amigo meu Catalão e acérrimo independentista diz que, se eles forem eleitos, irão governar por “Face Time”! Muito livremente também…

É a “Liberdade” no seu apogeu! Não no reino das “Raríssimas” mas no das “Frequentíssimas” e, animados pelo meio por umas Paulas temos, no caso Catalão, uma Arrimadas que, qual sereia, de tão esbelta e demagoga, consegue levar o populismo ao seu zénite. E, “livremente”, até pode ganhar. Pelo “Cidadanos”, da Direita, e com este livre slogan: “Ara Si Votarem”. Que é como quem diz: “Agora Sim Vamos Votar”! “Livremente”, está visto, porque o Referendo anterior não o foi!

Que se dane esta “liberdade”. A desta corja imunda…


Fonte aqui