(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 08/09/2015)
Sempre que um jornalista se aproxima de um político e lhe faz uma pergunta sobre a saída de José Sócrates da prisão ele põe o ar mais sóbrio que consegue e responde: “o tempo da justiça não é o tempo da política.” A resposta é, seja verdadeira ou falsa, a que deve ser dada. Porque quem pisar esta mina não se limita a perder as pernas. Vai seguramente causar vítimas inocentes. Paulo Rangel tentou fazer essa habilidade, passando a ideia de que era graças ao PSD que a impunidade tinha terminado e acabou a insinuar que esta investigação tinha sido feita a mando do Governo, pondo todo o seu partido a criar um perímetro de segurança à volta das suas declarações.
Não vou aqui analisar a decisão de não deixar José Sócrates ir para casa sem pulseira eletrónica há três meses e agora, a poucos dias das eleições, encontrar novas razões para que afinal possa ir. Em que é que a pulseira eletrónica impedia a perturbação do processo é coisa que um dia irei descobrir. Repito a frase feita dos políticos: “o tempo da justiça é o tempo da justiça, o tempo da política é o tempo da política.” E mesmo quando o tempo da justiça teima e coincidir quase milimetricamente com o temos da política devemos, apesar de tudo o que nos empurra para duvidar, repetir isto. Porque seria demasiado assustador que não fosse apenas uma coincidência. Interessa-me mais discutir os efeitos de mais este episódio na nossa vida política.
Ao contrário de muitos comentadores, não acho que António Costa esteja mais refém de Sócrates do que qualquer outra pessoa. Acho, aliás, que a repetição permanente desta afirmação tem o objetivo de tornar refém Costa. Gerisse António Costa a sua desastrada campanha tão bem como tem gerido o caso Sócrates e tudo lhe estaria a correr melhor. Há, aliás, uma perversidade na forma como isto é tratado. Assume-se que o tempo das decisões tomadas pelo juiz Carlos Alexandre ignora o tempo da política, porque é isso que é suposto acontecer. Mas, quando a coisa é ao contrário, assume-se que os políticos devem falar sobre as decisões da justiça. A justiça é pura, feita de homens e mulheres bem intencionados, que podem e devem pairar no vazio e ignorar a contexto em que tomam decisões. A política, pelo contrário, deve estar disponível para dançar ao ritmo da sua música.
Quem está refém do julgamento Sócrates é o país. De tal forma refém que pode vir a escolher o seu futuro com base neste caso. Que se arrisca, agora que o juiz Carlos Alexandre meteu Sócrates na campanha, a ir a votos fingindo que debate política enquanto todos estão a pensar em Sócrates.
O PSD e o CDS precisam que as pessoas se lembrem de Sócrates para se esquecerem da tragédia destes 4 anos. António Costa precisa que as pessoas se esqueçam de Sócrates para se lembrarem destes 4 anos. Os restantes partidos precisam que as pessoas se lembrem de Sócrates para não cederem ao voto útil e que se esqueçam de Sócrates para chegarem a ouvir as suas propostas. E os portugueses precisam de Sócrates para continuarem a acreditar que o impasse em que estamos resulta do mau caráter de uns quantos e assim não discutirem as dificílimas escolhas que temos pela frente.


