A Fitch e o rating

(João Galamba, in Expresso Diário, 06/02/2017)

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Vale a pena consultar o que a Fitch foi dizendo ao longo dos últimos dois anos sobre Portugal e os bancos portugueses para perceber a razão pela qual o rating da dívida pública portuguesa não seguiu a trajectória que, durante o ano de 2015, se esperava que viesse a ocorrer em 2016 e 2017. Não é porque este Governo existe, como Maria Luís Albuquerque afirmou num evento da JSD, é porque a verdadeira dimensão dos problemas e desafios no sector financeiro só se tornou conhecida após as eleições. A 25 de Setembro de 2015, a poucos dias das eleições, a Fitch dava um rating BB+ com outlook positivo à dívida pública portuguesa. Portugal, dizia a Fitch em comunicado, tinha a economia a crescer em linha com a média da zona euro, ia ter um défice abaixo dos 3%, o que permitiria sair do procedimento por défices excessivos, e apresentava um sector financeiro estável. O único risco era o adiamento da operação de venda do Novo Banco que criava “um risco elevado do Novo Banco ser vendido por menos do que o valor da sua capitalização (4,9 mil milhões de euros)”. Até na Caixa Geral de Depósitos o discurso do então Primeiro-Ministro era sobre o reembolso do dinheiro injectado pelo Estado, e não de qualquer necessidade adicional de capital. Ou seja, até às eleições, o que se discutia era quanto é que o Estado ia reaver do dinheiro injectado no sector financeiro, não quão mais é que teria de injectar no futuro. Desde então, tudo mudou.

O Banif, que a Fitch considerava estável, foi resolvido a 20 de Dezembro, menos de um mês após a tomada de posse do actual Governo.
Também em Dezembro, no dia 29, por determinação do Fundo de Resolução, o Novo Banco foi recapitalizado em mais 2 mil milhões de euros. Em menos de uma semana um banco tido como estável desapareceu e um banco tido como sólido e uma resolução tida como irrepreensível resultaram em algo que a Fitch classifica de “restricted default”. 6900 milhões de euros de capital depois, a melhor oferta pelo Novo Banco implica que o Estado tenha de pagar para vender. A estabilidade de Setembro de 2015 revelava-se, assim, uma ilusão. Isto teve impacto na credibilidade do país, levou a um ajustamento (em alta) da trajectória da dívida pública e, em março, a uma degradação do outlook do rating, que passou de positivo a estável. Desde então, e até ao presente, a Fitch diz que a situação melhorou. Sim, melhorou. É certo que a realidade é pior do que se esperava, mas, depois de desfeita a ilusão da saída limpa alimentada até às eleicões, os problemas têm sido enfrentados e estão resolvidos ou em via de resolução: o problema da recapitalização da Caixa foi resolvido, o BCP foi recapitalizado e as dúvidas em torno da estrutura accionista do BPI desapareceram. O maior problema, que vem de trás, e que a oposição não parece considerar ser um problema, muito menos uma prioridade, é a questão do crédito mal-parado, que a Fitch reconhece ser uma prioridade política do actual Governo. Uma solução sistémica para este problema parece ser, para a Fitch, um evento que melhoraria as perspectivas para a evolução do rating Português. Se tal vier a acontecer, será seguramente por causa de medidas do actual Governo, medidas que deviam ter sido tomadas no passado e cujo adiamento prejudicou o financiamento da economia portuguesa.

Ao contrário do que afirmou Maria Luís Albuquerque, a situação não se deteriorou face a 2015, deteriorou-se face previsto (e anunciado) até às eleições, mas está agora melhor face ao que a Fitch previa quando, em Março, já sem a ilusão da saída limpa, baixou o outlook da dívida portuguesa de positivo para estável. O sector financeiro está estabilizado ou em vias de estabilização. O défice, com ou sem medidas extraordinárias, vai ficar bastante abaixo do que a Fitch previa em Março, permitindo – finalmente – a saída do procedimento por défices excessivos.

O emprego e as contribuições sociais crescem acima do que cresceram em 2015 e bastante acima do que a Fitch achava possível. A economia está melhor do que estava quando o actual Governo assumiu funções: estava a desacelerar, baixando para 1.4% no segundo semestre de 2015, e agora está (em termos homólogos) a crescer acima do que cresceu em 2015 e a acelerar, terminando o ano a crescer mais do que os 1,6% do terceiro trimestre. A Fitch prevê que a economia cresça 1,5% em 2017, exactamente o mesmo que previa para este ano, em 2015, quando o outlook era positivo.

Cantar de galo

(Sandro Mendonça, in Expresso Diário, 02/02/2017)

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      Sandro Mendonça

São dias de algum sobressalto quando o Galo, o símbolo do ano novo chinês, se empoleira. As tradições chinesas têm sempre interessantes ensinamentos. A própria Bloomberg alerta: algo que implica o maior movimento simultâneo e localizado da humanidade, três mil milhões de pessoas, merece atenção. Para perceber um pouco mais vale pena: ouvir o que acaba de dizer o perito em interculturalidade Fernando Sales Lopes numa entrevista à TdM – Teledifusão de Macau e olhar para a Revista Macau que escolheu este tema para capa (note-se que tem o valor adicional da entrevista de Fernanda Ilhéu, Professora do ISEG, sobre o que acontece à globalização quando os EUA se fecham e a China se abre).

1. DOUTRINA ECONÓMICA DA PRESIDÊNCIA TRUMP

De facto outro galo canta quando alguém aponta para a Alemanha e diz: o euro é um “marco alemão implícito”, parem com a desvalorização. Por acaso até é injusto: os capitães da indústria alemães são os únicos que alguma vez vi a desejar uma moeda mais forte (com receio do excesso de sucesso) e as autoridades monetárias alemãs têm continuamente feito oposição à política expansionista do BCE (entre outras coisas, para manter os incentivos à poupança interna). É injusto mas os fins justificam os meios, e estamos a falar de Real Politik aplicada à economia internacional. Como explica Pedro Pratas no Jornal Económico, o sistema monetário europeu subjugou uma economia como a portuguesa ao estatuto de uma colónia económica; mas agora que os EUA acenam com o uso dessa grande arma que é o dólar é Alemanha que cabe desta vez receber um sinal de aviso. Duas coisas se percebem, não só em Washington se ignora ostensivamente a “União Europeia” como o bombo da festa são as relações económicas Atlânticas. No entanto, uma valorização do euro, ou qualquer coisa que faça aumentar as taxas de juro na zona euro, é um risco gigante para uma pequena economia como a portuguesa. A economia portuguesa continua por fio, e esse fio está ligado ao dedo de Mario Draghi.

2. A ECONOMIA PORTUGUESA E AS BOAS NOTÍCIAS COM MÁS DENTRO

Nesta aparentemente bipolaridade que é a vida económica portuguesa muitos consumidores já embandeiram em arco. INE mostrou que em 2016 houve picos de deslocações turísticas ao estrangeiro. Isto, em combinação com a agitação do mercado imobiliário e a febre de aquisição de carros, mostra bem como uma recuperação de ciclo económico traz consigo as sementes da sua própria reversão. A auto-confiança do consumidor português bate recordes, mas como vimos no ponto acima há razões para manter a cabeça fria. A memória curta e as vistas, infelizmente, também. Um consumidor que dá sinais de não planear nem de suavizar o seu ciclo de consumo é uma garantia da instabilidade. Quanto às expectativas negativas já se virou a página, sim senhor. Mas é preciso ultrapassar este malfadado padrão consumo desequilibrado e que sai a cantar de galo ao mínimo alívio. Vai começando a ser altura de dar um sinal claro que nem sempre consumir mais é melhor. É que as coisas não estão tão bem assim…. Mesmo no índice de produção industrial que acelerou substancialmente nos últimos tempos não é difícil descortinar problemas: entre as empresas portuguesas as componentes que menos melhoram, ou as que efectivamente pioram, são as relacionadas com investimento e com a aquisição de matérias, ou seja, indicadores de re-apetrechamento produtivo e as variáveis mais preditoras da sustentabilidade de uma retoma.

3. OCIOSIDADE, RÉDEA SOLTA, BANCA ARDENTE

– João Salgueiro diz que o melhor seria mesmo nacionalizar o Novo Banco. Mas diz que “o problema é que a experiência que temos com bancos nacionalizados não tem sido boa.” Desculpe, … e a experiência com a gestão privada tem sido boa?!

– Ana Botin, a mão que segura o Santander, elogia a gestão macroeconómica do governo português. Na inauguração das novas instalações do banco um autêntico desfile de personalidades associadas à decadência do capitalismo-zinho lusitano, que belo contraste.

– Por falar em bancos, já cá faltava o Banco. Não só temos um regulador que não regula como temos um dos Bancos Centrais mais inflacionado em termos de número e de custo dos seus funcionários. E que anda a maior parte deles a fazer? Uns andam a circular entre o Banco e a banca: veja-se o caso do director de supervisão que foi recrutado à banca, pouco aqueceu o lugar, e agora tudo indica que vai voltar de novo à banca.

Também é instrutivo perceber o que faz o resto dos funcionários, os quais aparentemente andam com demasiado tempo nas mãos e (pasme-se) cada vez empregam mais tempo em puro trabalho académico sem QUALQUER relação com as funções do Banco: aqui se revela como há disponibilidade para tudo, até para se andarem a entreter aos argumentos contra a tributação da riqueza (!).

– já agora … A Associação Batoto Yetu Portugal, que desenvolve trabalho real, com jovens e crianças desfavorecidos mas interessados em cultura africana, também irá inaugurar instalações! Mas contrário de outras entidades que nadam em dinheiro enquanto deixam o país afundar aqui passa-se algo de diferente: está em marcha um movimento de apoio completamente voluntário, eis o link para a campanha de crowdfunding. Também contrariamente a outros casos (vem à ideia a banca portuguesa, porque será?!), o retorno positivo é mesmo garantido.

Paulo Macedo, o BCP e a DGCI

(In Blog O Jumento, 27/01/2017)

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Parece que o BCE veio dizer aquilo que era mais do que óbvio, Paulo Macedo não pode ter um vínculo ao BCP se quer ser presidente da CGD. Apenas se lamenta que em Portugal, o país onde o parlamento se une para exigir declarações de rendimentos, ninguém tenha reparado que é inaceitável que um empregado de um banco possa ser presidente de outro banco. Pior ainda, aqueles que tentaram provar que António Domingues acedia a informação da CGD quando ainda era administrador do BPI, tenham feito vista grossa à situação de Paulo Macedo, para uns por ser um dos seus, para outros porque depois de numa jogada infantil derrubarem António Domingues tiveram de engolir a Opus Dei.
Só num país com tantos hipócritas por metro quadrado é que se fez tantos debates sobre vínculos a organizações secretas (vide Opus Dei e Maçonaria), fazem-se tantas exigências de transparência a quem ganhe mais do que o salário mínimo e depois mete-se um assalariado do BCP à frente da CGD.
Alguém imagina um quadro do BCP a fazer concorrência a este banco enquanto presidente do maior banco português? É óbvio que não, a qualquer momento, por um qualquer incidente, Paulo Macedo pode ter de abandonar a CGD e não gostaria de voltar ao BCP e darem-lhe um gabinete no sótão, com vista para o depósito do papel higiénico.
Só é uma pena que uma boa parte da nossa ilustre classe política, do Coelhone à Manuela Ferreira Leite, nunca tenham reparado que igual incompatibilidade existia quando Paulo Macedo era director-geral dos Impostos. Já nessa altura havia departamentos do BCP que nomeavam mais chefias do fisco do que os seus directores-gerais, eram verdadeiras mega centrais de influências. Hoje sabemos do que se passava no BCP e nos outros bancos em matéria de negócios duvidosos e de fuga ao fisco.
Mas nesse tempo o dinheiro dos bancos tinha um perfume especial, os orçamentos publicitários davam de comer a muitos jornalistas, os bancos eram excelentes lugares de recuo para políticos de baixa, nele se dava emprego aos filhos inúteis de uma boa parte dos políticos e altos dirigentes do Estado. Até aos escândalos que ficaram a nu com a crise financeira de 2008 os bancos portugueses eram as virgens da economia, era o sector económico modelo do cavaquismo, está acima de qualquer suspeita.
Hoje sabemos uma verdade muito diferente, os bancos comportaram-se como organizações criminosas, dedicaram-se a negócios duvidosos, eram centrais de evasão fiscal, a sua gestão conduziu a uma boa parte da ruína em que o país se encontra, na hora de se salvarem ajudaram a eleger um governo que promoveu a maior transferência de riqueza do trabalho para a banca. Hoje sabemos para quê os bancos tinham tantos políticos e familiares destes a viver à sua conta.
Mas foi preciso vir o BCE para dizer o óbvio, aquilo que o país não quis ver, que a promiscuidade entre interesses contraditórios é inaceitável e perigosa.