É para malhar, chamem o Augusto. Mas quem é que chamou o Sócrates?

(Anselmo Crespo, in TSF, 30/09/2019)

O PS chamou a cavalaria. O partido sente-se atacado pela direita, pela esquerda, pela justiça e pelas sondagens. Sim, a sondagem da Pitagórica para a TSF, JN e TVI voltou a encurtar a distância face ao PSD para 10 pontos A uma semana das eleições, os socialistas começam a ter dificuldade em ignorar a sensação de dejá vu. Carlos César já apareceu para dizer o que o Costa não pode verbalizar. Mas, agora, foi preciso chamar o Augusto, que ele gosta de malhar e costuma dar-lhes forte.

Augusto Santos Silva, o homem que ficou conhecido pelo prazer que tem em malhar na direita, desta vez trouxe um bastão maior e começou a varrer tudo . Assunção Cristas foi logo a primeira vítima. Depois deu umas valentes pancadas em Rui Rio e ainda teve tempo para se virar para a esquerda e arrumar com o BE e o PCP. O PAN safou-se, vá.

Com o terreno já desimpedido, António Costa só teve que aparecer e apelar ao voto. Alternativas há, claro, mas, pelo secretário-geral do PS, podem ir todas “rio abaixo”. Perceberam? Rio abaixo. Um novo trocadilho de António Costa, que é, no fundo, mais uma forma criativa de pedir maioria absoluta sem nunca a pedir. Aliás, o secretário-geral do Partido Socialista admitiu na RTP que “aprendeu a lição de há quatro anos”, quando andou a pedir ao eleitorado para governar sozinho e acabou a perder as eleições. Por isso, desta vez, Costa prefere baixar as expectativas.

Até porque, agora como há quatro anos, o PS volta a fazer uma campanha eleitoral ensombrada por processos judiciais. Em 2015 foi a detenção de José Sócrates. Agora é o caso das golas e o caso de Tancos. Sobre este último, Tiago Barbosa Ribeiro, o deputado que andou a trocar mensagens com Azeredo Lopes sobre assuntos de Estado, encheu-se de coragem e decidiu aparecer numa ação de campanha do PS . Não para explicar nada – o que seria! -,mas para fugir a todas as perguntas, até porque, diz o candidato, se a justiça nunca lhe perguntou nada, deve ser porque ele não tem nada a ver com isto.

Quem é que decidiu vir dar uma “mãozinha” a António Costa neste caso de Tancos? José Sócrates. O mesmo que, há umas semanas, escreveu um artigo de opinião a rasgar de alto a baixo o secretário-geral do PS por não pedir maioria absoluta, sai agora em defesa do camarada e atira-se ao Ministério Público por ter avançado com a acusação ao ex-ministro da defesa, Azeredo Lopes, em plena campanha eleitoral.

Isto está mesmo tudo do avesso. Não é que Rui Rio, político que já podia ter recebido um globo de ouro pelos ataques que tem feito ao Ministério Público, agora veio defendê-lo ? As campanhas eleitorais mexem mesmo com as pessoas. O presidente do PSD, que se gabava de só praticar política de elevado nível, pegou em Santos Silva e colou-o a José Sócrates . Só para o meter no lugar. E depois disse que não queria baixar o nível do debate.

Quem não tem medo do PS – quantos são? – é Assunção Cristas. A líder do CDS insiste que o partido tem sido alvo de ameaças e avisa os socialistas – e Santos Silva em particular – que os centristas não têm medo da verdade .

A caravana passa…

Entretanto, há toda uma campanha “paralela” a acontecer. À esquerda, o tema Tancos já caiu há muito. Ele queima e não dá muito jeito que se fale do assunto, não vão estar sempre a lembrar que o PCP e o BE aprovaram as conclusões da Comissão de Inquérito que ilibaram politicamente Azeredo Lopes.

Catarina Martins continua, pelo país, voto a voto, deputado a deputado, a fazer pela vida. E este fim de semana arriscou-se pelo antigo cavaquistão . O Afonso de Sousa testemunhou a experiência da líder bloquista e conta-lhe tudo.

Jerónimo de Sousa ficou-se pela grande Lisboa, apanhou um comboio e aproveitou para chamar à atenção para as dificuldades dos cidadãos com deficiência em aceder aos transportes públicos. A Liliana Costa tem a reportagem.

PAN andou a explicar porque é que comer também é um ato político.

E, claro, campanha que é campanha tem os seus insólitos. António Costa decidiu disputar o eleitorado do PAN e andou a fazer festinhas aos cães . Rui Rio invejou um apoiante que decidiu pôr-se em tronco nu por já não aguentar o calor e ainda descobriu que tem uma candidata que sabe… ladrar . Ah, e Assunção Cristas andou de bicicleta . Um clichê de campanha.

Falta só dizer-lhe que o Fórum TSF regressa hoje à estrada. O Manuel Acácio vai estar, esta segunda-feira, a partir das 10h00, em frente à estação de Carcavelos, a ouvir os pequenos partidos e as perguntas dos ouvintes. Quem também regressa esta segunda-feira é o Pedro Marques Lopes e o Pedro Adão e Silva, para mais um diário do Bloco Central especial Legislativas 2019.

Tenha uma excelente semana!

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Quem vai escrever o guião à esquerda?

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 19/07/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Acabei o texto da edição semanal do Expresso, que dediquei às declarações de Augusto Santos Silva sobre uma possível reedição da geringonça, dizendo que não tinha razões para pensar que elas resultavam apenas de uma vontade de um ministro que nunca mostrou qualquer entusiasmo com os entendimentos à esquerda. Santos Silva não é apenas o número dois do Governo, é do núcleo duro de António Costa. E é evidente que as posições do primeiro-ministro se têm aproximado cada vez mais das suas e das de Mário Centeno. Usando os termos românticos do debate sobre o estado da Nação, quanto mais nos aproximamos das eleições menos o primeiro-ministro tem a geringonça no seu coração e na sua cabeça.

A minha tese é a de que estamos perante a velha rábula do polícia mau e do polícia bom. António Costa não veio desmentir Santos Silva, veio cumprir o seu papel. Esta minha convicção foi, aliás, confirmada pelo texto publicado aqui no Expresso, por Ângela Silva. Costa estará concentrado na aprovação do Orçamento do Estado de 2019, arrefecendo a conflitualidade na geringonça. Santos Silva, que o “Sol” dá como provável cabeça de lista às europeias (estranharia se se confirmasse), está a preparar o terreno para a estratégia eleitoral do PS pós-Orçamento: dramatização, para que se crie um ambiente em que a reedição das alianças à esquerda pareça cada vez mais improvável aos eleitores, tentando assim fazer renascer o voto útil para uma maioria absoluta.

Como escrevi no texto de sábado, não há nenhuma hipótese de PS chegar a acordo em matéria europeia com PCP e BE. E ainda bem. Se Bloco e PCP se rendessem ao euroconformismo do PS isso abriria espaço para o crescimento de forças eurocéticas à direita. Em vez da critica democrática à agenda antissocial e neoliberal que domina Bruxelas passaríamos a ter espaço para a crítica nacionalista de direita. O justificadíssimo euroceticismo da esquerda é o melhor antídoto contra o crescimento de movimentos antieuropeístas de contornos xenófobos.

Estamos perante a velha rábula do polícia mau e do polícia bom. Costa está concentrado na aprovação do Orçamento do Estado, Santos Silva está a preparar o terreno eleitoral: dramatização, para que se crie um ambiente em que a reedição das alianças à esquerda pareça cada vez mais improvável aos eleitores, tentando fazer renascer o voto útil para uma maioria absoluta

Sendo bastante relevantes para decisões estratégicas – o PS está totalmente limitado na sua agenda social-democrata pela ortodoxia monetarista da Comissão Europeia e do BCE – não me parece que tenham sido as divergências em matérias europeias a estar no centro das recentes crises políticas à esquerda. Os quatro grandes temas de confronto foram a violação pelo Governo dos acordos com Bloco sobre precariedade (o que levou a ser o PSD a viabilizar as leis de trabalho), o fim do adicional ao imposto sobre combustíveis, o descongelamento da carreira dos professores e a entrega da Lei de Bases da Saúde a Maria de Belém Roseira, que propõe uma maior privatização do sistema. Se no primeiro caso a pressão europeia poderia ter alguma relevância, em todos os restantes não há qualquer relação com ela. Não é por causa das profundas divergências quer têm sobre a Europa que PS, BE e PCP se têm desentendido. Santos Silva não foi, por isso, empurrado pelas circunstâncias para fazer esta declaração. Elas tinham o objetivo de sublinhar a impossibilidade de repetir esta experiência.

O sucesso desta perigosa estratégia depende, acima de tudo, dos partidos mais à esquerda. Se seguirem esta coreografia do desentendimento crescente (como parece ser o caso do PCP), o PS poderá tentar capitalizar para reeditar o voto útil. Não será fácil, porque Rui Rio não é Passos Coelho, mas pode ter, em eleitorado que não quer ver o PS dependente do PSD, algum resultado. Se responder o que respondeu o Bloco, deixando sempre claro que a não reedição da geringonça terá de ser uma escolha expressa do PS, apenas dará razões aos eleitores que gostaram desta solução para garantirem que o PS não tem maioria absoluta e é de novo obrigado a conversar com os partidos mais à esquerda.

Antes das legislativas vêm as europeias e é de prever que o PS aproveite esse momento para explorar as diferenças quando elas serão mais evidentes. BE e PCP podem usá-las para refrear o excesso de autoconfiança dos socialistas. Tudo depende de quem conseguir escrever o guião.

A quinta coluna

(Daniel Oliveira, in Expresso, 13/07/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

Augusto Santos Silva nunca apreciou a atual solução governativa. Ela é contraditória com a clivagem política fundamental que acredita existir na Europa e em Portugal: em vez de esquerda contra direita, europeístas contra eurocéticos e moderados contra populistas. Uma visão coerente com o enorme entusiasmo que mostrou com a vitória de Emmanuel Macron, o homem que traiu e enterrou o Partido Socialista Francês. Assim sendo, PCP e BE estão, do seu ponto de vista, no espaço político oposto ao do PS. E PSD e CDS, podendo ser concorrentes, são aliados estratégicos. A ‘geringonça’ é e sempre foi, para Santos Silva, uma fase tática que aceitou por razões igualmente táticas. Mas um solução contranatura.

Numa entrevista à Rádio Renascença, Santos Silva defendeu que a ‘geringonça’ deveria ser reeditada depois das próximas eleições. Mas o compromisso deveria ser maior: entre outras áreas, teria de haver um entendimento sobre a União Europeia. Recordo que, em dezembro do ano passado, Santos Silva disse ao jornal “Die Zeit” que não era “fundamentalmente contra medidas de austeridade”, apenas achava que tinha sido necessário dar “um sinal de recuperação à população”. Ao contrário de Costa, Santos Silva acredita na solução austeritária imposta durante a crise. Não é por isso credível que esteja a defender que o PS faça qualquer tipo de cedências ao PCP e ao BE em política europeia. O que Santos Silva está a dizer é que, para haver um novo entendimento, comunistas e bloquistas têm de passar a defender as vantagens do dogmatismo monetário, a cegueira dos limites orçamentais, e que o combate à inflação tem prioridade face à promoção do emprego, como expressamente exige o dogma do BCE. BE e PCP teriam de se transformar no oposto do que são.

Tem razão Manuel Alegre quando sublinha a contradição entre a defesa da reedição da ‘geringonça’ e a exigência de que os partidos se entendam naquilo em que estão irremediavelmente distantes. Mas o que Santos Silva pretendeu defender na Renascença não foi a renovação da ‘geringonça’, foi uma negociação que a leve a um beco sem saída e assim a enterre. Santos Silva não quer uma clarificação do PCP e do BE, quer uma clarificação do PS.

Isto é apenas a continuação do debate iniciado no último congresso. Quer provar por dentro o que Assis não conseguiu provar de fora. É, sempre foi, uma espécie de quinta coluna dentro da ‘geringonça’. Só que, enquanto Assis e Sousa Pinto tiveram a coragem de assumir a divergência e por isso ficaram longe da esfera de influência da direção do PS, Santos Silva preferiu agarrar o lugar de ministro, que também deve ao PCP e ao BE. A forma enviesada como combate a ‘geringonça’ é coerente com a forma pouco clara como se comprometeu com esta solução de Governo. Uma e outra, mais do que um perfil político, traçam um perfil de personalidade. António Costa veio desautorizar a tese de que a ‘geringonça’ só se repetirá com um acordo em torno da Europa — que é o mesmo que dizer que não se repetirá.

Não é a primeira vez que Santos Silva se substitui a Costa na definição estratégica do PS. A questão é saber se o faz por autorecriação ou com autorização do primeiro-ministro, que depois tempera a coisa, deixando que fique o recado. Como não tenho qualquer razão para pensar que Santos Silva deixou de estar no núcleo duro do líder, continuo a achar que Costa está a jogar um jogo duplo e perigoso, que tem tudo para correr mal nas próximas eleições.