BRING BACK OUR GIRLS

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 18/04/2015)

Clara Ferreira Alves

                       Clara Ferreira Alves

Somos capazes de tudo a que nos propomos ser capazes, exceto de resgatar 219 raparigas raptadas por um grupo terrorista islâmico em África.

Somos capazes de enviar robôs para planetas distantes, de espiar as estrelas, de acelerar partículas para descobrir a origem do Universo. Somos capazes de inventar armas que matam à distância com acuidade e de inventar um relógio de pulso que é um computador. Somos capazes de viajar na internet e de escrever códigos que nos obedeçam e nos controlem. Somos capazes de curar doenças e de praticar medicina com máquinas que analisam os recantos do corpo. Somos capazes de viajar a alta velocidade e de transportar mercadorias e pessoas para lugares remotos. Somos capazes de construir torres de centenas de metros que competem em altura. Somos capazes de matar sem ver o que matamos. Somos capazes de tratar sem ver o que tratamos. Somos capazes de navegar no cérebro humano e desenhar mapas da razão e da emoção. Somos capazes de estabelecer a geografia dos mares e dos continentes. Somos capazes de extrair matérias-primas de lugares onde ninguém penetrou durante séculos. Somos capazes de pensar e criar mundos abstratos. Somos capazes de multiplicar dinheiro e riqueza. Somos capazes de cálculos matemáticos complexos. Desvendamos o infinitamente grande, o cosmos, e o infinitamente pequeno, as nanopartículas.

Somos capazes de tudo a que nos propomos ser capazes, exceto de resgatar 219 raparigas raptadas por um grupo terrorista islâmico em África.

Há um ano, o Boko Haram entrou numa escola no nordeste da Nigéria e levou consigo 276 raparigas chibok, alunas da escola. O sequestro deixou um rasto de cadáveres. Algumas raparigas fugiram, entretanto. As raptadas foram mostradas num vídeo, e o grupo prometeu convertê-las ao Islão e providenciar educação islâmica. Boko Haram significa Educação Ocidental é Proibida na língua hausa.

Um ano depois, o mundo volta aos gestos simbólicos, à campanha do Facebook, aos cartazes empunhados por personagens famosas, às vigílias à luz da vela e às manifestações de indignação. Malala, a Prémio Nobel da Paz, escreveu e leu uma carta a rogar que libertem as “irmãs”.

O Presidente Goodluck Jonathan acaba de perder as eleições e de ser substituído por outro, um militar com reputação dura, mas o novo Presidente diz que não sabemos se as raparigas podem ser resgatadas. É uma manifestação de fraqueza e impotência que remata um problema que ninguém parece interessado em resolver. A Nigéria, um país rico em petróleo, tentou uma atabalhoada ofensiva militar e encetar negociações com o grupo islâmico. Prometeu libertar prisioneiros do Boko Haram. Rodeou-se de conselheiros e peritos da China, da França, de Israel, do Reino Unido e dos Estados Unidos. Numa única operação da ofensiva militar, o exército nigeriano fez 600 mortos e muitos danos colaterais. Os soldados não respeitam os direitos humanos e caracterizam-se pela indisciplina e corrupção. Os chefes militares dizem que necessitam de mais armas e de mais treino, e os países ocidentais estão proibidos de vender armas militares à Nigéria. Há quem pense que a Nigéria aproveitaria para destruir os inimigos políticos.

O Boko Haram nasceu em 2002 e prometeu estabelecer um Estado Islâmico na Nigéria em 2009. Durante anos esteve fora dos radares e ninguém se importou com os massacres, porque a Nigéria não fica no Médio Oriente. Em 2013, os Estados Unidos incluíram o Boko Haram na lista de grupos terroristas. Não deixa de ser irónico que tenha demorado tanto tempo e que esta semana o Presidente Obama tenha pedido ao Congresso para deixar de considerar Cuba um Estado terrorista. Os pobres e inofensivos cubanos constituem uma terrível ameaça para a integridade territorial e a segurança americanas e deve ser por essa razão que os republicanos se opõem.

O que se conclui é que, quando os americanos não investem pessoas e recursos numa situação e enviam as suas armas e tropas especiais, o resto do mundo fica sentado. A operação deveria talvez ser confiada a mercenários chefiados por Sylvester Stallone, os únicos resgates que mobilizam a atenção global. Aliás, o Boko Haram foi repelido de territórios que ocupava no norte da Nigéria graças à ajuda de antigos mercenários sul-africanos desempregados de guerra, velhos gladiadores que sabem combater. Por causa deste empurrão, os nigerianos dizem que não sabem onde estão agora as raparigas. Num mundo vigiado por satélites, ninguém sabe como as encontrar. A operação de resgate seria complexa e colocaria a vida das reféns em perigo, sem dúvida, mas não seria mais complexa do que outras operações especiais. Trata-se de um problema que ninguém está interessado em resolver. A Amnistia Internacional alerta para as mais de 2000 raparigas raptadas que o Boko Haram usa como cozinheiras, criadas, escravas sexuais e soldados. Talvez uma mulher na Casa Branca ajude a tornar os problemas insolúveis com mulheres no meio em missões cumpridas por fim.

O pão para a boca de Passos

(Nicolau Santos, in Expresso, 18/04/2015)

Nicolau Santos

      Nicolau Santos

Pedro Passos Coelho foi esta semana ao Conselho Nacional do PSD defender a descida da Taxa Social Única (TSU), uma afirmação de que há várias ilações a tirar. A primeira é que o primeiro-ministro é coerente. Quer baixar os custos de trabalho para as empresas, diminuindo a sua contribuição para a Segurança Social. A primeira tentativa foi a 7 de setembro de 2012, quando Passos anunciou ao país numa comunicação televisiva uma descida de sete pontos na contribuição das empresas para a TSU, compensada por um aumento da mesma dimensão da contribuição dos trabalhadores. A estupefação, inclusive do líder do parceiro da coligação, Paulo Portas, foi geral, perante a medida gizada por Vítor Gaspar e Maria Luís Albuquerque, então ministro das Finanças e secretária de Estado do Tesouro.

A segunda ilação é que o primeiro-ministro é corajoso. A medida gerou uma recusa unânime por parte dos parceiros sociais e deu origem à maior manifestação desde abril de 1974, que juntou mais de um milhão de pessoas a 15 de setembro. Por isso, é preciso ter muita coragem para a revisitar a seis meses de eleições legislativas.

A terceira ilação é que a estratégia agora é diferente. Com efeito, o primeiro-ministro não pretende compensar a descida da TSU para as empresas com a subida das contribuições dos trabalhadores ou do IVA, mas recorrendo à flexibilidade que as novas regras europeias permitem, i.e., desvios orçamentais, desde que tenham a ver com reformas estruturais que potenciem a competitividade e o emprego. Ou seja, o défice aumentará por esta via mas não contará para Bruxelas. A quarta ilação é que esta medida é para patrões verem. É que ela só pode ser aplicada em países que não estejam com défices excessivos — e Portugal, se tudo correr bem este ano, só em 2016 poderá colocá-la em vigor. Mas entretanto há eleições legislativas pelo meio e desconhece-se se será Passos Coelho que sucede a Passos Coelho.

Passos diz que “precisamos como de pão para a boca de aumentar o investimento e criar emprego”, mas cortou 700 milhões de investimento em 2014.

A quinta ilação é que Passos ou não fez contas ou a medida não é “one shot”. É que uma descida de um ponto na TSU equivale, grosso modo, a €300 milhões. Sete pontos são portanto €2100 milhões. Não se vê que Bruxelas, mesmo acreditando que daqui vai resultar um aumento da competitividade e do emprego, permita uma tal derrapagem do défice num único ano. A sexta ilação é que o dr. Passos está a esconder-nos o mais importante. E o mais importante é que se a medida visava descer os custos unitários de trabalho em 7%, então isso já foi conseguido, porque eles já se reduziram 6,1% entre 2010 e 2012 (contas de Bagão Félix). Insistir nesta via é duplicar o bónus de que as empresas já beneficiaram.

Finalmente, é com uma lágrima ao canto do olho que ouvimos o dr. Passos dizer que a descida da TSU é necessária porque “precisamos como de pão para a boca de aumentar o investimento e criar emprego”. Para um Governo que só ano passado cortou €700 milhões de investimento público para compor o défice e que já tinha feito o mesmo em anos anteriores; para um Governo que assistiu a uma quebra de 40% do investimento durante o período de ajustamento, sem nada ter feito para a contrariar, como não nos comovermos com esta descoberta do dr. Passos?


Sobrinho Simões

         Sobrinho Simões

Sobrinho Simões e a ciência

Como deve ser avaliada a produtividade e a competência dos centros de investigação? Através da produção científica, número de citações em revistas reputadas e na repercussão internacional das descobertas? Ou através do valor acrescentado, da aplicação real das investigações, como pretende o Governo e a Fundação para a Ciência e Tecnologia? O dilema não é fácil porque, usualmente, estas atividades são altamente subsidiadas. É verdade que há países onde a filantropia tem um peso muito relevante no financiamento. Não é o nosso caso. E por isso o modelo que existia (Estado, institutos e filantropia, cada um com um terço) parecia o mais adaptado a Portugal. Porque, como diz Manuel Sobrinho Simões, presidente do Ipatimup, embora a Universidade do Porto seja aquela que, a nível mundial, mais citações tem em investigação em cancro da tiroide e do estômago, “não consigo vender isto a ninguém. Nem ao Governo nem aos filantropos potenciais”. Mas talvez seja isso que se pretende. Que fiquem apenas dois ou três centros de investigação de excelência. Privados, de preferência, embora apoiados por dinheiros públicos.


A TAP não vai ser vendida

A greve dos pilotos da TAP, anunciada para o período entre 1 e 10 de maio, e podendo vir a custar €70 milhões à companhia, terá surpreendido o Governo e a administração, mas não é inesperada. E não é porque o acordo assinado no final de dezembro entre o Governo e a administração e nove sindicatos teve como objetivo óbvio comprar a paz social na empresa. Ao mesmo tempo, contudo, as condições que o Executivo aceitou tornam quase impossível que qualquer interessado na TAP avance para a compra da companhia. Foi aliás isso que fez desistir o grupo espanhol Globalia: a elevada dívida da transportadora (mais de mil milhões de euros) e a impossibilidade de a gerir com “critérios privados”. Esta greve anunciada é pois o passo que faltava para não haver privatização da TAP. Porque quando chegar o momento, o Governo só terá do outro lado da mesa o mesmo interessado a quem não quis vender antes a TAP: Germán Efromovich.


Volta não volta, saio de casa sem certeza de voltar.

Olho para as paredes, para o sofá,

para todas as fotografias espalhadas ordenadamente,

para o feixe de luz branca que entra pela janela

há quase uma hora.

Pergunta-me a minha filha onde vou,

respondo que vou trabalhar

e ela “volta, não volta?”

e eu olho para ela, para as paredes, para o sofá,

para todas as fotografias e para o feixe de luz,

e “claro que volto”.

E volto a dar-lhe um beijo.

Volto a entrar no comboio,

volto a abrir o livro de capa amarela,

volto a fechar os olhos que mal dormi.

Volto a sonhar meios-sonhos,

e sair à pressa que estou sempre atrasado,

a ser uma ovelha de rebanho,

a subir num elevador pequeno,

volto a cara para o espelho, volto a não me reconhecer

e a sentar-me à secretária cinzenta voltada para o armário.

Volta não volta, saio de casa sem certeza de voltar.

Olho para a dona Antónia que fica,

para a máquina das fotocópias,

para um letreiro antigo

de quando o escritório era na baixa que ainda existia,

para a minha cadeira vazia e gasta.

Volto a descer a rua,

volto a olhar para o relógio,

volto os olhos para o céu que hoje ainda não voltei,

volto a ouvir as buzinas,

volto a deixar de fumar,

volto a cara a um velho, volto a não me reconhecer,

e volto a voltar para casa.

Pergunta-me a minha filha onde fui,

respondo que fui trabalhar,

e ela à volta da boneca, e eu à volta do jantar.

Volta não volta, quase consigo parar.

Pergunto-me a mim onde vou, e onde penso chegar.

E a cada “volta, não volta?”,

penso que só sei voltar!


Frederico Ferreira,

‘Em voltas’, in “Anuário de poesia de autores não publicados 2015, Assírio & Alvim

Duas transferências

(Daniel Oliveira, in Expresso, 18/04/2015)

         Daniel Oliveira

                         Daniel Oliveira

Há quem não tenha percebido porque é que as alterações na Taxa Social Única causaram, em 2012, tamanha indignação. Foi porque sintetizavam a frase dita, um ano antes, pelo primeiro-ministro: “Só vamos sair da crise empobrecendo.” A estratégia corresponde a dois ajustamentos simultâneos: na redução dos custos de trabalho, para diminuir os custos de produção e aumentar as exportações; e na redução do poder de compra, para diminuir o consumo interno e as importações. Mas ao tirar ao trabalhador para dar ao patrão, a alteração da TSU proposta em 2012 deixava também evidente uma das duas grandes transferências de recursos a que estamos a assistir: do trabalho para o capital. É uma transferência que começou, no mundo ocidental, no final dos anos 70 — contrariando o movimento inverso desde o pós-guerra — e que contribuiu de forma decisiva para o excessivo endividamento das famílias. Com a crise, que este endividamento ajuda a explicar, essa transferência acentuou-se de forma dramática.

A proposta que agora é apresentada parece menos maligna. Os descontos dos patrões são reduzidos, os dos trabalhadores ficam na mesma. Mas esta alteração aumenta, no conjunto dos descontos, a proporção que está a cargo do trabalhador. E põe em causa a sustentabilidade da segurança social, levando inevitavelmente a novos cortes nas pensões, que também são rendimento do trabalhador. O que não tiram agora vão tirar depois. Fica evidente, nesta proposta, a segunda das duas grandes transferências de recursos a que temos assistido: do Estado para o capital. Ela não acontece apenas de forma direta, com as rendas públicas às grandes empresas ou os resgates aos bancos. Faz-se quando se baixa o IRC ou se reduzem os descontos das empresas para a segurança social, sem que a isso correspondam reduções de encargos fiscais e parafiscais para os trabalhadores.

Aquilo a que eufemisticamente chamamos de ajustamento, e que corresponde a estas duas transferências, tem sido feito à custa de cortes brutais em serviços públicos. Cerca de mil milhões de euros no Serviço Nacional de Saúde.

O resultado foi o desinvestimento nos cuidados de saúde primários, o bloqueio na contratação de médicos e enfermeiros, a perda de centenas de camas e a dificuldade em ter cuidados continuados com capacidade de resposta, o que deixa muitas pessoas a ocupar lugares nas urgências. O que vimos na reportagem da TVI — que também se explica pela degradação da saúde dos mais pobres — resulta do tão celebrado emagrecimento do Estado. E houve quem ganhasse com esta escolha: o atendimento nas urgências dos hospitais privados duplicou na última década. O subfinanciamento e a debandada da classe média que ainda seja remediada transforma os serviços públicos no refugo para quem não tenha outro remédio que não seja esperar pela morte num corredor de um hospital sobrelotado. Ou seja, a perda de qualidade que resulta dos cortes orçamentais, que por sua vez resultam de uma transferência sem precedentes de recursos do Estado para as empresas, acabam por garantir um aumento do mercado potencial aos privados. As imagens que vimos esta semana são a crua ilustração da engenharia social e financeira a que assistimos. Não é apenas porque não há dinheiro. É porque o dinheiro foi para outros bolsos.