De Bruxelas, o desespero

(António Guerreiro, in Público, 03/07/2015)

António Guerreiro

António Guerreiro

Na segunda-feira passada, o semanário alemão Die Zeit publicou na sua edição online um artigo sobre “a salada de metáforas da crise”. Fazendo uma análise das mais recorrentes (exactamente as mesmas que circulam por cá, sinal de que os estereótipos são o bem mais partilhado do mundo), o autor do artigo afirma que a linguagem da actual crise europeia diz muito menos sobre a Grécia do que sobre o estado de espírito da política alemã. Transpondo esta verificação para Portugal, poderíamos dizer com a mesma propriedade: sobre um fundo grego onde mal se viam os contornos da Praça Sintagma, quanto mais o território helénico, montou-se um palco onde se debitou mais ideologia nas últimas semanas do que as metáforas produzidas num dia de mercado. Se nos limitarmos a esta torrente imparável da “opinião”, enchemo-nos de convicção de que sabemos tudo; se começarmos a atravessá-la como quem navega num mar de escolhos, embora não cheguemos a nenhum lugar seguro, percebemos pelo menos como é ilusório o tudo que julgávamos saber. Se ao menos Cavaco Silva estivesse pura e simplesmente a fazer uma conta de diminuir quando disse: “Espero que a Grécia não saia, mas se sair ficam 18 países”, o nosso Mr. Chance teria a possibilidade de ser interpretado como a voz mais sábia e esotérica do coro. Mas, analisada de trás para a frente e vice-versa, a frase é do mais fanérico que há e podia muito bem ser reduzida a um título singelo e presidencial: “Eu e a Grécia”. Desta linguagem metafórica, emerge com frequência a ideia de culpa, associada aos conceitos de absolvição/pena, responsabilidade/irresponsabilidade, mostrando uma sobreposição de categorias éticas e jurídicas, de categorias jurídicas e teológicas. Seria esta uma boa ocasião para ler Carl Schmitt, um texto sobre “culpa e modos de culpa”, onde o jurista alemão expôs as dificuldades em definir a culpa em termos jurídicos: “O problema da culpa é, de todos os pontos de vista, um problema metalegal, no sentido em que não diz respeito ao direito penal positivo”.

Perante o que se está a passar, todos, à direita e à esquerda, parecem temer a “catástrofe” e preferir soluções de compromisso, mesmo sabendo que isso significa a continuação de uma paz podre numa Europa que todos criticam. A verdadeira catástrofe, disse um conhecido filósofo que foi apanhado pela mais forte tragédia da história europeia do século XX, é que as coisas continuem a ser como sempre foram. A opção salvífica: em vez da continuidade, a cesura; em vez da satisfação com esperanças ocas, a coragem de um desespero; em vez do medo dos escombros, a alegria por surgir um caminho que os atravessa.

O cúmulo do desespero é quando se desiste de explorar possibilidades radicalmente novas. É dessa tradição catastrófica, da eterna repetição do mesmo, que vêm os apelos aos “grandes homens” e aos “grandes povos” que faltam, dizem-nos, como se não tivesse sido sempre um desastre a vinda de “heróis” em falta. Enquanto toda a atenção estava concentrada nas cimeiras europeias, Obama fazia um discurso em louvor do reverendo Pinckney, uma das nove pessoas atingidas mortalmente pelo jovem racista que entrou numa igreja metodista em Charleston. É um discurso notável, improvisado ao longo de mais de trinta minutos, em que o Presidente dos Estados Unidos acaba por cantar, inesperadamente, o Amazing Grace.

Se um só dirigente europeu fosse capaz de recitar, numa cimeira, a “Ode à Alegria”, Schiller erguia-se do túmulo e toda a Europa, de Weimar para leste e para Oeste, retomava a sua “tarefa infinita”.

Fábula política para principiantes

(António Guerreiro, in Público, 15/05/2015)

António Guerreiro

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Numa sociedade ideal, cujas leis fossem a delicadeza, a cortesia e a afabilidade, num mundo sem constrangimentos nem fricções que fosse a combinação de todas as possibilidades compatíveis, de tal modo que o resultado fosse a bondade máxima, nesse mundo descrito por Leibniz, na suaMonadologia, como o melhor dos mundos possíveis, Daniel Oliveira reuniria as suas crónicas num volume intitulado A Década dos Psicopatas e teria Marcelo Rebelo de Sousa a fazer a apresentação do livro.

 Nos convites e nos comunicados à imprensa haveria de ler-se: “Deus calcula e o mundo faz-se”. Mas essa luz fina que emana do sistema leibniziano, onde tudo concorre para uma ordem hierarquizada e harmoniosa, não penetra onde há política, nem sequer ilumina os doces costumes da democracia.

Ainda assim, sem ser preciso supor a existência desse mundo — onde tudo se faz e se desfaz por correspondências, harmonias e concordâncias — vamos ter na mesma Marcelo Rebelo de Sousa a apresentar os Psicopatasde Daniel Oliveira. Sob tais condições, o acontecimento não é propriamente uma mónada, um mundo fechado sem portas nem janelas, mas uma escancarada fábula política do nosso tempo.

Ou melhor, uma parábola, como é — por exemplo e para regozijo de quem gosta de fábulas para metafísicos — O Silêncio das Sereias, de Kafka. Não é que a convocatória feita a Marcelo Rebelo de Sousa, para o lançamento do livro, seja obrigatoriamente um sinal de partilha, com o autor, de opiniões e escolhas políticas. Devemos, aliás, presumir o contrário.

Mas há, logo à partida, um dado com base no qual se institui um consenso fundamental: ambos aceitam entrar no jogo de encenações e papéis completamente estereotipados que empesta todo o debate político e desencoraja a simples ideia de entrar nele. A questão é esta: Marcelo Rebelo de Sousa representa, ao mais alto nível, um discurso que quer passar por análise ou comentário políticos, mas de onde a política foi evacuada.

Ele assimilou completamente a política quer à luta pelo poder, quer ao exercício e ao objecto desse poder. Para ele, toda a política é uma questão de tácticas e estratégias, de fintas e simulações. E ganha o que for mais cretino. É desta matéria que são feitas as suas prelecções, enquanto animador do crochet televisivo.

E, nesse posto, ele é “ o professor”, isto é, aquele que ocupa o lugar da verdade e detém o saber do expert. Esta ideia de uma inteligência que sabe da coisa política e se dirige às pessoas que não sabem, e que por isso lhe fazem perguntas para obter a resposta oracular, é uma negação da política.

Na melhor das hipóteses, aquilo de que Marcelo Rebelo de Sousa fala pertence à ordem da polícia (ele próprio transformou-se num cartoon de polícia sinaleiro) e não à ordem da política, para nos referirmos a uma oposição já clássica. Esta noção de polícia deve ser entendida não no sentido da repressão, mas da lógica puramente gestionária que ordena a sociedade por funções, lugares e títulos a ocupar.

Ora, um cartoon pode chegar até a Presidente da República (não seria, aliás, o primeiro), mas não serve para iniciar qualquer conversa ou diálogo que tenha como tarefa repolitizar o espaço político. Em relação ao que Marcelo Rebelo de Sousa diz e opina não importa discordar, estar mais à direita ou mais à esquerda, ou convidá-lo para o espectáculo pluralista do conflito das opiniões. É outra coisa que se exige, se a tarefa é também a de impedir a cretinização comunicativa e opinativa. Essa coisa chama-se “diferendo” e significa um desentendimento de base.

Ontem esquerdistas, hoje notários

(António Guerreiro, in Público, 08/05/2015)

António Guerreiro

    António Guerreiro

Reconhecemo-los à distância, mal aparecem no pequeno ecrã a comentar, nos jornais como escritores subalternos e nos postos oficiais onde o culto do arrivismo passa por razão de Estado: são os eternos ex-, os renegados da extrema-esquerda que renunciaram à utopia, os arrependidos de ideias, agora tão realistas por princípio que o seu realismo é uma nova ideologia, tão autoritária como a anterior. Eles constituem uma categoria, uma classe intelectual. Que tenham mudado, é normal, e nem se imagina que pudessem hoje estar no mesmo sítio, imobilizados nas mesmas ideias, indiferentes ao andamento do mundo. Não é a apostasia que deve ser criticada. Espantoso e criticável é que se tenham conformado aos mesmos estereótipos e repitam a disposição mental de notários que o escritor Marcel Jouhandeau (figura merecedora de muitas reservas, mas neste aspecto tão certeira) previu que seria a evolução dos manifestantes de Maio de 68: “Voltem para casa! Daqui a dez anos serão todos notários”. Eles, sim, constituem uma “geração”, palavra horrível para designar um coágulo de ideias colectivas, de gestos gregários e de camaradagens. Na verdade, uma geração só se sente e representa enquanto tal quando chega ao momento em que começa a fazer o balanço das derrotas e das vitórias, das fidelidades e das traições, das mudanças e das permanências; e quando passa a nomear os outros, os que vieram depois, como geração. Os membros desta classe conhecem-se muito bem uns aos outros e continuam a cultivar a mesma camaradagem de outrora, talvez um pouco menos marialva, mas solidificada por um comum desejo de conformismo, fundamental ao culto do realismo, da política das coisas. Eles podem ser arrependidos quanto às ideias, mas não quanto às pretensões e à vontade de poder e de auto-celebração. Esse conformismo é responsável por pensamentos curtos e cultos vulgares. Esta classe é na verdade composta por filisteus, orgulhosos de o ser, que desprezam todas as ideias e todos os discursos que não participam da feição moralista, do discurso chão e dos conceitos sumários desses eternos arrependidos. “Ética” é geralmente o nome que estes novos teólogos dão à sua ideologia. E é instalados nessa “ética” que ministram as suas lições. Tendo feitos acentuadas viragens à direita, eles não se confundem no entanto com a velha direita: acumulam o que há de pior de um lado e de outro. Podem ter renegado tudo, podem ter feito um enorme esforço de reciclagem, podem estar treinados para triunfar no novo ambiente, mas há uma coisa de que não se libertam: as suas estruturas mentais e os seus métodos. Por isso é que são eternos ex-. Nos casos mais caricatos, o único reflexo mental que têm é o reflexo condicionado: perante uma determinada situação, respondem sempre da mesma maneira e em uníssono. Falam todos a mesma linguagem e caracterizam-se por um espírito reactivo. Têm um estilo. É, aliás, aquilo que neles emerge em primeiro lugar, o que mais se nota: o estilo, um conjunto de traços estereotipados e levados ao estado de exasperação, uma repetição monótona dos mesmos argumentos e dispositivos retóricos (vejam-se dois casos extremos: Helena Matos e João Carlos Espada).

A personalidade destes ex-esquerditas convertidos com devoção à nova ordem (não apenas política, também social, familiar e moral) é também uma estética e confirma-se num gosto por todos os valores seguros: pelo neo-classicismo kitsch; pelos escritores que “escrevem bem”; pelos cineastas que sabem contar histórias; pelos artistas que exibem o savoir-faire da tradição.