O clube dos cínicos

(António Guerreiro, in Público, 06/10/2017) 
Guerreiro

António Guerreiro

Os comentadores e analistas políticos são uma categoria profissional que tem como missão esvaziar e despolitizar a esfera política.


 

Se o mundo fosse justo e as regras da reversibilidade não estivessem muitas vezes bloqueadas, teria já chegado o tempo de avaliar os avaliadores, de analisar os analisadores, de comentar os comentadores. Estes dois últimos, que na verdade são só uma classe (neste campo, não há diferenças metodológicas entre analisar e comentar), expõem-se de maneira tão conspícua mal são revelados os primeiros resultados das eleições, como pudemos ver no passado domingo, que bem merecem ser “objectivados” e classificados nas listas dos que perdem e dos que ganham. De um modo geral (e é de uma tipologia que falo, não de ninguém em particular), são eles os grandes derrotados da noite e a alguns é concedido o dia seguinte para a consumação da derrota. Não é que digam ou escrevam coisas erradas, até porque não se trata de um tipo de discurso que se inscreva na ordem da verdade e da mentira. E, tendo em conta a situação, também não saem desqualificados quando são só inócuos e, cheios de bom senso, permanecem rente aos factos e aos dados. Mas eles não estão lá para serem relatores ou arquivistas. Só cumprem a missão de que estão encarregados quando respondem à injunção: analisa, comenta, interpreta, dá a tua opinião. Então, o resultado é aquele que todos nós já verificámos, sem precisarmos de mais instrumentos do que os de uma análise empírica.

O que se revela com evidência na análise dos analistas é que eles concebem a política como um jogo de tácticas, manhas, habilidades e às vezes alguma estratégia (não raro confundida com a táctica). Um político perde ou ganha conforme o grau de eficácia da sua táctica. Há uma coisa, porém, que escapa a esta lógica e faz com que o jogo perca a racionalidade e triunfe a força mágica, mimético-afectiva: são os “populismos”, apontam categóricos os analistas do púlpito onde exercem o mais descarado tecno-populismo.

Não há uma única ideia política — na melhor das hipótese há apenas lógica gestionária — que perpasse no discurso dos analistas É como se o cinismo fizesse parte das leis naturais e das deformações profissionais dos analistas e comentadores.

E como desempenham com gáudio o papel do “sujeito suposto saber”, encontraram um método infalível para parecer inteligentes e desvelar o que o vulgo não consegue ver. Este método, usado na análise dos resultados das últimas eleições, é aquele que vislumbra derrotas nas vitórias e vitórias nas derrotas. O que é preciso é que as coisas não pareçam aquilo que são e toda a análise seja projectada no futuro. Procura-se adivinhar o “cenário” que se segue e produzir  uma ficção. A análise imanente é desconhecida dos comentadores. Lacan, o famoso psicanalista  francês, avisou um dia que um dos maiores perigos da psicanálise consiste em assumir que ela permite ao indivíduo alcançar uma posição acima de todos aqueles que se deixam enganar facilmente, os incautos, ou, para utilizarmos a palavra francesa usada por Lacan os “dupes”. Ele faz então um trocadilho com a frase “les non-dupes errent”, jogando com uma homofonia, já que nesta frase ouvimos também “les noms du père”. Ou seja, os espertos, os “non-dupes” erram precisamente ao querer sê-lo. Assim são os comentadores e analistas políticos: espertos como só eles. Submetida aos seus instrumentos de análise, a política fica reduzida a uma espécie de torso, a um corpo informe sem pés nem cabeça: Eles desconhecem absolutamente que o medium da política não são as táticas, é a linguagem. E se na verdade os políticos também tendem a esquecê-lo e assim esvaziam a política de sentido é porque foi firmada uma terrível aliança político-mediática.

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O sublime a que temos direito

(António Guerreiro, in Público, 22/09/2017)

Guerreiro

António Guerreiro

As catástrofes naturais anunciadas com hora marcada, como é o caso dos furacões, provocando o êxodo temporário de populações urbanas, são sempre uma “decepção”. O mundo inteiro prepara-se para o espectáculo da destruição radical, actualizam-se as narrativas e representações do Dilúvio, o tom milenarista e teológico sobe a um elevado nível de amplitude, abrem-se instruções ao processo da teodiceia, como fez Voltaire, no século XVIII, depois do terramoto de Lisboa de 1755, mas tudo acaba mais ou menos em cálculos para as seguradoras, nos países ricos, e em prolongamentos da catástrofe regular e permanente, nos países pobres.

Já as catástrofes não anunciadas, contra as quais não foi possível activar os sistemas de imunização e segurança, são geralmente muito mais incalculáveis. A palavra “decepção”, na primeira frase, foi colocada ente aspas para significar que as coisas geralmente não sucedem conforme são anunciadas (ainda na semana passada fomos avisados de que iríamos ficar sob a influência de uma massa de ar polar, mas afinal a temperatura não desceu, durante o dia, abaixo dos 20 graus). Previstas por quem? Pelos sistemas mediáticos de amplificação, que se preparam sempre para o grande espectáculo do Dilúvio e do sopro colossal (mas nunca para a morte lenta e silenciosa provocada pela seca, que é certamente a catástrofe mais comum do nosso tempo). Há “decepção” no sentido em que fomos instigados a sentir aquele “prazer negativo” que retoma a história moderna do sublime kantiano, um delicioso frisson que já antes Burke, na sua ideia do sublime, definiu como um “delight of horror”.

O sublime é uma categoria estética. Mas são as catástrofes, pelas suas faculdades videogénicas, telegénicas e fotogénicas, que proporcionam actualmente a experiência do sublime ou a figura ambígua de um absoluto. Mal nos colocamos na posição de espectadores, ficamos logo reféns dessa incitação perversa.

E é por saberem que ela funciona e é difícil oferecer-lhe resistência – o mesmo acontece com essa “dura cicatriz” a que chamamos estupidez – que os media anunciam as catástrofes naturais com júbilo e demagogia. Nesse momento, eles jogam aos dados com os cidadãos, tal como Deus com as suas criaturas. São os grandes encenadores e anunciam que vamos assistir a um espectáculo transcendente. É o sublime a que temos direito, aquele sentimento que dantes era experimentado durante a representação da tragédia clássica, onde a emoção sentida pelo espectador se transformava em capacidade de resistência moral. Tal como na tragédia, a catástrofe exprime o conflito entre a vontade e a lei, entre o homem e a natureza. Estas perigosas afinidades com a esfera da arte deram muitas vezes origem a deslizes fatais. Os aviões de passageiros desviados pelos terroristas no 11 de Setembro para provocar a derrocada das Twin Towers (mas aí não se tratava de uma catástrofe natural, foi obra de humanos demiurgos) provocaram no músico alemão Stockhausen uma afirmação que lhe iria sair muito cara: “Foi uma realização da obra de arte total”. Ou seja: uma obra metafísica que se dá sob a forma da reunião e da síntese de todas as artes particulares.

No tempo das vanguardas, os artistas podiam cometer e dizer coisas monstruosas ou, pelo menos, com os limites morais muito mais alargados. Mas nem é seguro que a arte tenha ganhado muito com isso. Quanto aos artistas, esses, perderam os privilégios do sadismo e submeteram-se à condição de masoquistas como nos explica Boris Groys num pequeno livro sobre a condição do artista contemporâneo, chamado Retrato do artista enquanto masoquista.

A tirania da luz

(António Guerreiro, in Público, 08/09/2017)

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António Guerreiro

Um longo e interessante artigo do astrofísico Raul Cerveira Lima, Deixar a Noite Ser Noite, publicado neste jornal no domingo passado, faz-nos perceber, com eloquência analítica, um tipo de poluição que se esconde no seu excesso de visibilidade: a poluição luminosa. É hoje difícil, mesmo em zonas do Alentejo interior, diz Raul Cerveira Lima, encontrar condições para contemplar o esplendor da noite porque a luz artificial das cidades e das vilas propaga-se a todo o lado. Até nos campos, onde quer que exista uma casa, foram disseminados postos públicos de luz. Estamos submetidos a uma tirania da luz, mas essa tirania não começou no nosso tempo nem é explicável apenas como um resultado da urbanização generalizada e da colonização tecnológica: ela tem atrás de si uma longa história filosófica, cultural e política. Goethe, ao morrer, pediu mais luz, “mehr Licht”. E essa exigência, que poderia ser apenas a resistência de um homem de muita idade à extinção, ganhou uma outra dimensão. No pensamento ocidental, um traço fundamental é a relação entre a luz e a razão, e entre a sombras e o irracional. Daí que se tenha considerado a luz, enquanto metáfora da verdade, uma “metáfora absoluta”, instrumento de organização do nosso mundo, como se pode perceber nas palavras e expressões que serviram para designar certas épocas: a Idade Média foi designada durante séculos como Idade das Trevas por se entender que não procurava a claridade racional. E o Iluminismo, ou Idade das Luzes, foi a designação metafórica para uma época que inaugura a razão crítica moderna, com a sua ideia de secularização, de progresso histórico e de emancipação através do saber. Na base da tirania da luz, de que sofremos hoje, está evidentemente o “ocularcentrismo”, um conceito que designa o privilégio epistemológico concedido à visão: ver é o fim — o objectivo — e o critério do pensamento.

Impedir que a noite seja noite tem sido o desígnio alcançado com grande eficiência pelo capitalismo contemporâneo. Dessa conquista, tratou um ensaísta e crítico de arte americano, chamado Jonathan Crary, num livro de 2013 intitulado 24/7. Late Capitalism and the Ends of Sleep. Crary descreve e analisa este mundo que permanece em funcionamento vinte e quatro horas durante os sete dias da semana, para que a produção e o consumo não tenham interrupções. Para conquistar o tempo inútil do sono, para erradicar o shabbath e impor um tempo homogéneo sem feriados nem dias festivos, impôs à noite luzes cada vez mais fortes.

A extinção da noite é um fenómeno das grandes metrópoles, como Nova Iorque, difundido como uma tendência universal. Quem primeiro intuiu o que se estava a passar foi Pasolini, que num célebre texto de Fevereiro de 1975, publicado no Corriere della Sera, atribuiu um significado apocalíptico ao desaparecimento dos pirilampos por causa da poluição química e da poluição luminosa (a claridade dos “ferozes projectores”): tratava-se, nas palavras de Pasolini, da consumação de um “genocídio cultural”. Hoje podemos perceber que a tirania da luz é uma necessidade básica da sociedade da atenção e da mobilização permanentes.

O estado de vigilância (fomentado e garantido por um Estado vigilante e pela governamentalidade que lhe corresponde) e a exigência securitária impuseram-se como imperativos aos indivíduos e às instituições. E isso requer luz, cada vez mais luz. É preciso que todos estejamos acordados e, além disso, não nos ponhamos a olhar para as estrelas, perdendo o pé na superfície acidentada da terra, como aconteceu ao distraído astrónomo e protofilósofo Tales de Mileto.