Cogitações de verão

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 25/08/2025, Revisão da Estátua)

O galho está quase a cair… 🙂

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Hoje em dia e cada vez mais, tenho absolutamente menos tolerância para com aqueles que continuam a evidenciar e a derramar na internet a sua estupidez e ignorância. E, portanto, vou continuar a meter-me com esses tristes.

Mas, neste texto o tema não é, de todo, a ausência de neurónios de quem acredita nos disparates dos comentadores arregimentados pelo sistema. Prometi a alguém uma análise sobre o encontro dos dois “patrões” mundiais no Alasca, e vou tentar explicar (desde que os meus parcos méritos o permitam) quem, o quê, o como e o  porquê.

O que acontece é que os comuns mortais (sobretudo os que preferem que alguém raciocine por eles) pensaram o seguinte: – Se Putin e Trump se encontram – e se, automaticamente, concordam num acordo de paz, é porque afinal talvez já chegue de guerra na Ucrânia. A falta de informação (básica) desta gente, leva a que não entendam o que é um processo de paz – no fundo, um processo que se prolonga até que todas as partes no conflito concordem, mesmo nos mínimos detalhes.

Outro aspecto a ter em conta é o seguinte: vejamos quem estava a acompanhar os dois presidentes: principalmente os responsáveis pela economia e diplomacia que, nesta altura, são o mais importante. Nos últimos quatro anos não houve relações diplomáticas entre os dois países. Biden nunca falou com Putin, e para resolver qualquer problema é necessário um diálogo e isso é o começo.

Outra coisa é a economia – a verdade é que as sanções contra a Rússia não produziram os efeitos desejados, abalaram um pouco, mas logo as fileiras se ajustaram e consolidaram e novos mercados foram encontrados. A realidade é também que os russos estão fartos da América. Por exemplo: após “sanções à Rússia / sanções à América“, a ExxonMobil foi expulsa do projeto Sakhalin-1, onde constituía 30% dos participantes. Resultado: perdeu 4 mil milhões de dólares. Agora, e depois da reunião no Alasca, Putin assinou um decreto para que a Exxon pudesse voltar. Bom para uns e bom para outros.

Outro exemplo: há alguns anos atrás havia um plano (da Rússia) para ligar a Rússia ao Alasca através de um túnel submarino, e a Rússia até participaria com 2/3 das despesas. Não é preciso falar sobre os óbvios benefícios económicos deste empreendimento, mas vale a pena pensar apenas num. A introdução da IA em todo o lado “exige” quantidades enormes de eletricidade. A América não tem capacidade para a fornecer. A Rússia tem. (Não sou eu que digo isto, mas sim aqueles que conhecem bem estas áreas) Estão a ver qual a solução? Cabos elétricos que passariam através desse túnel e assim resolveriam o problema. Bom para uns e bom para outros.

Porque é que a América foi arrastada para este conflito? Por causa da venda de armas, claro. E Trump é um dos responsáveis por isso (como comerciante que é, claro), mas o facto é que ele diz que não era Presidente quando tudo começou – e eu acredito nele. E porquê? Porque sabemos que Biden estava logicamente a proteger a “propriedade” do seu filho Hunter.

Entretanto, os principais cúmplices são, claro, três pretensos “superiores” países europeus – a França, a Inglaterra e a Alemanha, por dois motivos simples: complexos e revanchismo. A França desde Napoleão, a Inglaterra desde a Guerra da Crimeia, a Alemanha… Bem, espero que toda a gente saiba porquê. São todos uns famosos derrotados.

E a mente que fomenta e agita tudo isto é a Inglaterra. Veja-se como, logo no final da Segunda Guerra Mundial, Churchill congeminou planos para destruir a (então) enfraquecida URSS – está tudo online na internet e pode ser verificado. Começando por tentar trazer 100 000 alemães capturados, de volta para a frente de batalha sob o comando de Patton. Na altura foi Zukhov quem frustrou esse plano, “Impensável“, como acabou por ficar conhecido.

Os EUA trabalham no seu próprio interesse – vendem energia e armas à Europa, “E vocês fazem o que quiserem com isso. É de certo modo uma chantagem, mas quem não gostar, não come…

E a UE trabalha no interesse da Inglaterra, mais precisamente da City em Londres, “Porque nós, na UE, somos uns cãezinhos obedientes e esperamos receber um osso como recompensa. Depois, felizes, vamos abanar com o rabo e pode ser que o dono perceba que também temos um pouco de fome… ” A Inglaterra continua a impingir a intenção russa de conquistar a Europa – uma treta em que os nossos comuns cidadãos (sobretudo os de parcos neurónios) acreditam.

E porque é que os europeus “anunciam” uma guerra com a Rússia em 2029/30? Porque é nessa altura que o mandato de Trump termina e eles têm esperança que quem chegue então ao poder seja alguém que eles possam gerir como quiserem.

E a Ucrânia? Alguém está preocupado com o que irá acontecer à Ucrânia? É um país despedaçado, já com poucos recursos humanos para manusear as “ótimas” armas ocidentais. Zelenski é tão útil quanto um preservativo usado, e o seu relógio já está a fazer tiquetaque para a contagem final…

O conflito só acabará quando a sua principal causa for resolvida, a arquitetura de segurança europeia for restabelecida e quando o nazismo na Ucrânia tiver o mesmo destino do seu líder.

Já antes escrevi que a solução definitiva para este conflito seria realizar referendos em todas as regiões ucranianas e que as pessoas dissessem o que preferem: – que a sua região fique na Ucrânia, ou que se junte à Rússia, à Polónia, à Hungria, à Roménia, à Eslováquia… a Democracia é assim, não é? E não me venham agora com a treta que as fronteiras não podem ser mudadas, porque isso já foi feito antes, de uma forma ou de outra, em vários outros lugares, inclusive na Europa e recentemente. Quanto ao que vai restar da Ucrânia, essa parte que sobrar vai ter que pagar todas as dívidas que o drogado gnomo verde fez – e penso que ninguém sabe quanto isso vai custar.

Para terminar, tenho que me referir aos “slava ukrainianos”. No início festejaram e também se acharam superiores, depois tentaram chacinar os seus compatriotas que desprezavam… Agora estão desesperados com o resultado. Bem que eu os avisei e aos seus apaniguados e investidores que o acordar seria doloroso…!

Reunião Trump-Europa-Ucrânia: A Divisão do Trabalho e o Sequenciamento Estratégico

(Brian Berletic, in Reseauinternational.net, 21/08/2025, Trad. Estátua de Sal)


Após o recente encontro entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente russo, Vladimir Putin, no Alasca, e depois do encontro dos líderes europeus, do presidente ucraniano e do presidente Trump, em Washington, uma política previsível dos EUA começou a tomar forma.


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Como afirmou o Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, em fevereiro passado, ao dirigir-se a líderes europeus no Grupo de Contato de Defesa da Ucrânia, a Europa foi encarregada de assumir o lugar de Washington na guerra por procuração contra a Rússia na Ucrânia, aumentando os gastos da NATO, a produção de armas e a transferência de equipamentos para a Ucrânia, permitindo assim que os Estados Unidos se concentrassem novamente na Ásia-Pacífico e priorizassem a contenção da China naquela região.

O secretário Hegseth deixou claro que o conflito seria congelado, não encerrado, e que tropas europeias e não europeias (não americanas) seriam transferidas para a Ucrânia para garantir esse congelamento, e então a Europa reorganizaria e reconstruiria as forças armadas ucranianas.

Como explicou o Secretário Hegseth, “a realidade da escasse ” impede que os Estados Unidos se envolvam direta e totalmente em dois conflitos de grande escala, com a Rússia e a China simultaneamente, exigindo o congelamento de um conflito enquanto os Estados Unidos se envolvem no outro.

O próprio facto de os Estados Unidos buscarem confrontar a China na região da Ásia-Pacífico, da mesma forma que confrontaram a Rússia na Ucrânia, demonstra um completo desinteresse numa paz real com qualquer um (ou todos) desses países. Os Estados Unidos acreditam que, se conseguirem conter a China mais cedo, poderão retornar mais tarde outras iniciativas para confrontar e conter a Rússia.

documento de 2024 da Iniciativa Maratona, “Sequenciamento estratégico revisitado“, escrito pelo ex-funcionário do governo Trump, Wess Mitchel, afirma explicitamente:

A ideia do sequenciamento é simplesmente concentrar recursos num adversário para enfraquecer a sua energia disruptiva antes de recorrer a outro, seja para o deter ou derrotá-lo“.

Mitchel também usou o termo “divisão de trabalho” em referência aos “aliados dos EUA na Europa e na região Indo-Pacífico“, um termo que o Secretário Hegseth repetiu literalmente em Bruxelas no início deste ano, revelando que “divisão de trabalho” e “sequenciamento estratégico” são duas políticas paralelas adotadas por Washington.

Princípios Fundamentais: A Busca dos Estados Unidos pela supremacia americana

No final da Guerra Fria, como o New York Times  (NYT)  relatou num artigo de 1992: “Plano estratégico dos EUA exige garantia de que nenhum rival se desenvolva“, Os Estados Unidos buscaram criar “um mundo dominado por uma superpotência cuja posição poderia ser perpetuada por comportamento construtivo e poder militar suficiente para impedir qualquer país ou grupo de países de desafiar a supremacia americana“.

O mesmo artigo destacou a rejeição de Washington do “internacionalismo coletivo“, agora designado como “multipolaridade”.

O que impulsiona as ambições americanas de conter a Rússia e a China, tanto na década de 1990 quanto hoje, não são preocupações legítimas de segurança nacional, mas sim a preservação dos “interesses” americanos no exterior, dentro e ao longo das fronteiras desses dois países, de uma forma que os próprios Estados Unidos jamais tolerariam a qualquer outro país.

O “sequenciamento estratégico” americano também não se limita à Rússia e à China. Combinado com várias implementações da “divisão do trabalho“, visa explorar e enfraquecer qualquer país que desafie a primazia americana.

Embora o foco atualmente esteja na Ásia-Pacífico, países do Médio Oriente, América Latina e África também estão sendo alvos estratégicos.

A desestabilização da Síria, a pressão persistente sobre o Irão e os esforços contínuos para isolar países com laços com a Rússia e a China (como a Tailândia e o Camboja, no Sudeste Asiático) do resto do mundo multipolar, fazem parte desse plano maior. O objetivo de Washington é impedir a formação de qualquer aliança multipolar coesa que possa efetivamente contrariar as suas ambições hegemônicas.

Ao eliminar países um por um ou alguns de cada vez, os Estados Unidos esperam manter o seu domínio e impedir a formação de uma frente unida.

Enquanto a primazia continuar sendo o princípio unificador da política externa americana, a “busca pela paz” será simplesmente um meio de ganhar tempo para corrigir contratempos numa região e, ao mesmo tempo, redobrar esforços noutra.

A Ucrânia é a guerra da América e somente da América

Em relação à guerra na Ucrânia em si, apesar das declarações recentes do governo Trump chamando-a de “guerra de Biden” ou afirmando que “O presidente ucraniano Zelensky pode acabar com a guerra contra a Rússia quase imediatamente”, esta guerra é, na verdade, o resultado da política externa dos EUA seguida por vários governos, incluindo o do presidente Trump durante seu primeiro mandato .

Os Estados Unidos atualmente comandam as Forças Armadas ucranianas, conforme foi revelado num artigo do New York Times publicado no início deste ano. Desde 2014, a CIA (Agência Central de Inteligência dos EUA) controla e dirige os serviços de inteligência ucranianos, informou também o New York Times.

Portanto, o conflito na Ucrânia só poderá terminar quando os Estados Unidos decidirem ou forem forçados pela Rússia a fazê-lo.

Entender esses princípios fundamentais da política externa dos EUA em relação ao conflito na Ucrânia é essencial para navegar com sucesso na propaganda usada pelos Estados Unidos e pelos seus estados clientes para tentar uma “divisão de trabalho” e “sequenciamento estratégico“.

Continuidade do programa com Trump

Desde que assumiu o cargo, o governo Trump deu continuidade a todos os conflitos e confrontos herdados do governo anterior de Biden, em busca da primazia global, incluindo a guerra por procuração liderada pelos EUA contra a Rússia na Ucrânia, o confronto com o Irão que se transformou em guerra aberta em junho passado e a expansão contínua da presença militar dos EUA na região da Ásia-Pacífico, na periferia da China e até mesmo dentro das suas fronteiras, na província insular de Taiwan.

A política dos EUA em relação à Rússia é analisada em detalhe  num artigo da RAND Corporation de 2019 intitulado “Ampliando a Rússia : competindo em terreno vantajoso“.

O documento lista medidas económicas – como “obstruir as exportações de petróleo“, “reduzir as exportações de gás natural e dificultar a expansão de oleodutos” e “impor sanções” -, medidas que foram tomadas pelos Estados Unidos na época da publicação do documento e continuam desde então, inclusive durante o primeiro governo Trump, o governo Biden e agora no segundo mandato do presidente Trump.

As medidas geopolíticas listadas no documento da RAND incluíam “fornecer ajuda militar à Ucrânia“, que começou durante o primeiro governo Trump; “aumentar o apoio aos rebeldes sírios“, que resultou no final do ano passado no derrube bem-sucedido do governo sírio pelos Estados Unidos; “promover a mudança de regime na Bielorrússia”, que a Rússia neutralizou com sucesso até agora; e “explorar as tensões no Cáucaso do Sul“, que estão atualmente a desenrolar-se no governo Trump sob a forma de um arrendamento de 99 anos de um território que provavelmente hospedará tropas americanas ao longo das fronteiras da Rússia e do Irão.

Juntas, essas políticas representam uma tentativa contínua dos Estados Unidos de cercar, conter, minar e expandir excessivamente a Federação Russa, com o objetivo final de precipitar um colapso ao estilo soviético, mesmo que os Estados Unidos finjam ter interesse na “paz” com a Rússia na Ucrânia.

Assim como no passado, assim também no futuro

Quaisquer que sejam os contratempos e as limitações, enquanto os Estados Unidos continuarem a procurar ter a primazia sobre todos os países do mundo, em vez de pactuarem com uma cooperação construtiva com eles, qualquer abertura americana em direção à “paz” com países que foram rotulados como “adversários” e “ameaças” representa um padrão bem estabelecido de pausa, reorganização, rearmamento e retomada das hostilidades, não uma mudança genuína na política.

O exemplo mais recente é a guerra liderada pelos EUA para derrubar o regime sírio. Após a intervenção da Rússia em 2015, a guerra foi suspensa. Os EUA aproveitaram a pausa para rearmar e reorganizar os seus aliados dentro e ao redor da Síria, enquanto os aliados da Síria, Rússia e Irão, foram arrastados para uma série de conflitos custosos noutros lugares. Assim que a Rússia e o Irão ficaram suficientemente enfraquecidos, os EUA retomaram os combates no final de 2024, derrubando o governo sírio de forma rápida e bem-sucedida.

O colapso da Síria foi seguido por operações militares dos EUA e de Israel contra o próprio Irão, combinadas com uma ofensiva em andamento com o objetivo de eliminar o que restava dos aliados do Irão no Líbano, Iraque e Iémen.

Uma pausa na guerra por procuração de Washington contra a Rússia na Ucrânia só desviará os esforços dos EUA para outros lugares.

Como o Secretário Hegseth indicou em fevereiro, qualquer pausa seria acompanhada por uma ocupação da Ucrânia por tropas europeias, assim como os Estados Unidos e a Turquia ocuparam a Síria. Isso incluiria o rearmamento e a reorganização das Forças Armadas ucranianas — como mencionado especificamente na recente reunião EUA-Europa-Ucrânia em Washington — e a retoma das hostilidades posteriormente, quando os fatores forem novamente favoráveis ​​a Washington.

Não é apenas isso que as declarações do Secretário Hegseth sobre uma “divisão de trabalho” e “sequenciamento estratégico” implicam, mas é também o que os Estados Unidos têm feito durante a Guerra Fria e que continuam a fazer atualmente.

Durante o governo Bush Jr., é sabido que os Estados Unidos procuraram derrubar os regimes de vários países do Leste Europeu, bem como da Geórgia, na região do Cáucaso. Em 2003, os Estados Unidos derrubaram com sucesso o governo georgiano, assim como o governo ucraniano em 2014. Tal como na Ucrânia, os Estados Unidos começaram a reorganizar e a fortalecer as forças armadas georgianas e, em 2008, após a conclusão de uma investigação da UE , a Geórgia lançou uma guerra curta e malsucedida contra as forças russas.

No ano seguinte, já no governo Obama, os Estados Unidos buscaram “reiniciar” as relações EUA-Rússia, com a ex-secretária de Estado americana Hillary Clinton, literalmente entregando ao ministro das Relações Exteriores russo Sergei Lavrov um botão físico de “reinicialização” simbolizando o novo relacionamento.

Na realidade, os EUA estavam simplesmente a tentar ganhar tempo e espaço para se prepararem para a próxima rodada de provocações, o que fizeram a partir de 2011, dividindo e destruindo grande parte do mundo árabe, incluindo ataques contra os aliados da Rússia, Líbia e Síria, e derrubando com sucesso o governo ucraniano em 2014, juntamente com o “pivô para a Ásia” dos EUA, que começou durante o governo Obama e continua até hoje.

Não apenas as políticas atuais dos EUA parecem ser unicamente o episódio mais recente de um ciclo de apresentação como um ator de paz enquanto se preparam para a próxima etapa do confronto, mas os EUA praticamente declararam que congelar o conflito na Ucrânia tem a intenção de ganhar tempo e espaço para dar prioridade à contenção da China, o que implica que, após isso, retornarão para se oporem à Rússia na Ucrânia.

Só o tempo dirá até que ponto a Rússia aceitará ou interromperá as tentativas dos EUA implementarem uma “divisão de trabalho” em relação à Ucrânia, a fim de executarem um processo de “sequenciamento estratégico” visando derrotar a Rússia, a China e os seus aliados, e se o resto do mundo multipolar se unirá o suficiente para ajudar a Rússia ou se se deixará dividir e distrair por esforços semelhantes dos EUA para interromper e desestabilizar os seus respectivos países.

O cálculo da Rússia será baseado na sua confiança em continuar a Operação Militar Especial (OME) até à sua conclusão, no colapso do exército ucraniano e no derrube do regime fantoche instalado pelos EUA em Kiev desde 2014, ou na necessidade de aceitar uma pausa que Moscovo acredita que pode aproveitar melhor do que o Ocidente coletivo e confrontar os EUA e seus representantes no futuro a partir de uma posição ainda mais forte.

A Rússia pode estar a procurar libertar recursos para o seu próprio “pivô” a fim de auxiliar aliados como Irão e a China, enquanto os Estados Unidos voltam a sua atenção para o leste. Ao contrário dos Estados Unidos, porém, a Rússia não possui uma longa lista de Estados-clientes que possa recrutar para gerir um conflito enquanto se desloca para outro, como Washington pode e já faz.

O futuro do mundo multipolar pode depender tanto de ajudar os países a impedir a sua captura e exploração política pelos Estados Unidos quanto da cooperação entre os países multipolares para se defenderem contra a invasão, coerção e captura pelos EUA.

O teste definitivo para a Rússia e o mundo multipolar emergente reside não apenas na capacidade de resistir aos desígnios dos EUA contra eles, mas também na capacidade de voltar essa estratégia contra\ Washington. Se a Rússia conseguir realizar com sucesso a sua operação militar especial na Ucrânia, ao mesmo tempo em que fortalece as suas alianças com países como a China e Irão, poderá tornar a “divisão do trabalho” desnecessária.

Da mesma forma, se a China usar esse período para consolidar a sua influência regional e aprofundar os seus laços com países fora do bloco ocidental, os Estados Unidos verão a mudança do seu foco para a Ásia-Pacífico perder muita da sua eficácia.

O cenário geopolítico atual é um jogo de xadrez geopolítico de alto risco, e se os Estados Unidos acreditam que podem encurralar os seus rivais um por um, um xeque-mate coordenado ao mundo multipolar que pode encerrar o jogo para sempre.

Sucesso significa um mundo definido pela paz, estabilidade e prosperidade num equilíbrio global de poder. Fracasso significa entregar o nosso futuro coletivo a um punhado de interesses particulares dos Estados Unidos que já demonstraram, ao longo de um século, ter os meios e a vontade de o destruir.

Fonte aqui.

O que realmente aconteceu no Alasca

(Pepe Escobar, in The Cradle, 18/08/2025, Trad. Estátua de Sal)


O encontro entre Putin e Trump revelou alguns segredos importantes. Revelou que Washington vê a Rússia como uma potência em pé de igualdade e que a Europa é pouco mais do que uma ferramenta americana útil.


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O Alasca não tinha a ver apenas com a Ucrânia. O Alasca tratava-se principalmente das duas maiores potências nucleares do mundo tentarem reconstruir a confiança e travar um comboio desgovernado numa corrida ferroviária de alta velocidade rumo ao confronto nuclear. 

Não houve garantias, dado o caráter volátil do presidente dos EUA, Donald Trump, que concebeu o encontro de alta visibilidade com seu homólogo russo, Vladimir Putin. Mas um novo paradigma pode estar em andamento. A Rússia foi essencialmente reconhecida, de facto, pelos EUA como uma potência em pé de igualdade. Isso implica, no mínimo, o retorno da diplomacia de alto nível aonde ela é mais necessária. 

Enquanto isso, a Europa envia uma fila de líderes impotentes a Washington para se prostrarem diante do Imperador. O destino da UE está selado: a lata de lixo da irrelevância geopolítica.

O que foi decidido em conjunto por Trump, pessoalmente, e Putin, mesmo antes de Moscovo propor o Alasca como sede da cimeira – proposta carregada de significado -, permanece em segredo. Não haverá vazamentos sobre o seu conteúdo completo. Mas é bastante significativo que o próprio Trump tenha avaliado o Alasca com nota 10 em 10. 

As principais conclusões, transmitidas por fontes de Moscovo com acesso direto à delegação russa, até o formato 3-3 (inicialmente projetado para ser um 5-5, mas outros membros importantes, como o Ministro das Finanças Anton Siluanov, deram suas contribuições), enfatizam que:

“[Putin] decidiu firmemente interromper todos os envios diretos de armas dos EUA para a Ucrânia como um passo vital para a solução. Os americanos aceitaram o fato de que é necessário reduzir drasticamente os envios letais.”

Depois disso, a bola fica do lado da Europa. As nossas fontes especificam, em detalhes: 

“Do orçamento ucraniano de US$ 80 biliões, a Ucrânia fornece à volta de US$ 20 biliões a menos. O Banco Nacional da Ucrânia afirma que arrecada US$ 62 biliões apenas em impostos, o que é uma farsa; com uma população de cerca de 20 milhões, muito mais de um milhão de perdas irreversíveis no campo de batalha, uma indústria dizimada e menos de 70% do território pré-Maidan sob controlo, isso é simplesmente impossível.” 

Assim, a Europa – no conjunto NATO/UE – enfrenta um sério dilema:

“Ou apoiar a Ucrânia financeiramente, ou militarmente. Mas não ambas as opções em simultâneo. Caso contrário, a própria UE entrará em colapso ainda mais rápidamente.” 

Agora compare tudo o que foi expresso acima com a passagem, que pode ser considerada a principal, num post de Trump na sua rede social Truth Social:

 “Foi determinado por todos que a melhor maneira de acabar com a terrível guerra entre a Rússia e a Ucrânia é avançar diretamente para um Acordo de Paz, que encerre a guerra, e não para um mero Acordo de Cessar-fogo, que muitas vezes não se sustenta.” 

Adicione a isso o molho essencial fornecido pelo ex-presidente russo Dmitri Medvedev:  

“O Presidente da Rússia apresentou pessoalmente e em detalhes ao Presidente dos EUA as nossas condições para encerrar o conflito na Ucrânia (…) Mais importante: ambos os lados atribuíram diretamente a Kiev e à Europa a responsabilidade de alcançar resultados futuros nas negociações para encerrar as hostilidades.”

Falando em convergência de superpotências, o problema, claro, está nos detalhes. 

BRICS à mesa no Alasca

No Alasca, Vladimir Putin representava não apenas a Federação Russa, mas os BRICS como um todo. Antes mesmo do encontro com o seu homólogo americano ser anunciado ao mundo, Putin conversou por telefone com o presidente chinês, Xi Jinping. Afinal, é a parceria Rússia-China que está a escrever o roteiro geoestratégico deste capítulo do Novo Grande Jogo.     

Além disso, os principais líderes dos BRICS têm mantido uma série de ligações telefónicas interligadas, o que levou à formação – na avaliação  do presidente Luiz Inácio Lula da Silva -, de uma frente coordenada dos BRICS  para neutralizar as Guerras Tarifárias de Trump. O Império do Caos, a versão Trump 2.0, está a prosseguir uma Guerra Híbrida contra os BRICS, especialmente contra os Cinco Maiores: Rússia, China, Índia, Brasil e Irão. 

Então Putin conseguiu uma pequena vitória no Alasca. Disse Trump:  

“Tarifas sobre compradores de petróleo russo não são necessárias por enquanto (…) Talvez eu tenha que pensar nisso daqui a duas ou três semanas.” 

Mesmo considerando a volatilidade previsível, a busca por um diálogo de alto nível com os EUA abre aos russos uma janela para promover diretamente os interesses dos parceiros dos BRICS — incluindo, por exemplo, Egito e Emirados Árabes Unidos, impedidos de maior integração económica na Eurásia pelas sanções/ataques tarifários e pela russofobia desenfreada que os acompanha. 

Infelizmente, nada do que foi dito acima se aplica ao Irão: o eixo sionista tem um controlo férreo sobre cada canto e recanto das políticas de Washington em relação à República Islâmica.      

É evidente que tanto Trump quanto Putin estão jogando um jogo longo. Trump quer livrar-se do atorzinho chato de Kiev – mas sem aplicar as táticas tradicionais de golpe/mudança de regime dos EUA. Na sua cabeça, a única coisa que realmente importa são futuros e possíveis mega-acordos comerciais sobre a riqueza mineral russa e o desenvolvimento do Ártico. 

Putin também precisa lidar com os seus críticos internos que não perdoam nenhuma concessão. A desesperada propaganda da comunicação social ocidental de que ele ofereceria o congelamento da frente de batalha em Zaporozhye e Kherson em troca de toda a República de Donetsk é um absurdo. Isso seria contrário à constituição da Federação Russa. 

Além disso, Putin precisa de decidir como é que as empresas americanas poderão entrar em duas áreas que estão no centro das prioridades federais e são uma questão de segurança nacional: o desenvolvimento do Ártico e do Extremo Oriente russo. Tudo isso será discutido em detalhe daqui a duas semanas, no Fórum Econômico do Leste, em Vladivostok.

Mais uma vez, deve seguir-se o dinheiro: ambas as oligarquias – nos EUA e na Rússia – querem voltar aos negócios lucrativos, o mais rápidamente possível.

Batom nos lábios de um porco derrotado 

Putin, apoiado pelo Ministro das Relações Exteriores Sergey Lavrov — o indiscutível Homem do Jogo, com a sua  declaração de estilo CCCP  — finalmente teve tempo de sobra, 150 minutos, para explicar, em detalhe, as causas subjacentes à Operação Militar Especial (OME) da Rússia e expor as justificações para uma paz de longo prazo: neutralidade da Ucrânia; milícias e partidos neonazis banidos e desmantelados; fim da expansão da NATO. 

Geopoliticamente, o que quer que evolua do Alasca não invalida o facto de que Moscovo e Washington pelo menos conseguiram adquirir algum espaço estratégico para respirar. Isso pode até mesmo gerar um novo impulso rumo ao respeito pelas esferas de influência de ambas as potências. 

Portanto, não é de se admirar que a frente atlantista, desde os ricos e abastados da Europa até aos novatos bling-bling, esteja em pânico porque a Ucrânia é um gigantesco mecanismo de lavagem de dinheiro para os políticos europeus. A máquina kafkiana da UE já levou à falência os Estados-membros e os contribuintes da UE – mas, de qualquer forma, isso não é o problema de Trump.   

Em todas as latitudes da Maioria Global, o Alasca demonstrou o desgaste do atlantismo em termos inequívocos, revelando que os EUA buscam uma Europa dócil, subjugada à estratégia de tensão; caso contrário, não haveria aumento dos investimentos militares da UE, comprando biliões em armas americanas superfacturadas com dinheiro que não tem.

Ao mesmo tempo, apesar dos gananciosos desígnios privados dos oligarcas dos EUA sobre os negócios russos, o que os maestros de Washington realmente querem é acabar com a integração da Eurásia e, por implicação, com todas as organizações multilaterais — BRICS, SCO (Organização de Cooperação de Xanga) — levadas a projetar uma nova  ordem mundial multimodal

É claro que uma rendição da NATO – mesmo que esta esteja sendo estrategicamente derrotada em todo o espectro – continua a ser um anátema. Trump, na melhor das hipóteses, está a tentar embelezar uma situação inalterável, tentando criar, com o seu habitual alarde, o que poderia ser vendido como uma estratégia de saída do Deep State, rumo à próxima Guerra Eterna.

Putin, o Conselho de Segurança Russo, os BRICS e a Maioria Global, aliás, não alimentam ilusões.  

Fonte aqui

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