Aula de liberalismo dada às crianças da Iniciativa (I)liberal

(Eduardo Maltez Silva, in Facebook, 30/11/2025, Revisão da Estátua)


O que mais impressiona no discurso recente da Iniciativa Liberal é a forma como tentam convencer o país de que “regular” greves ou transformá-las em actos simbólicos é uma posição liberal.

É aqui que vale a pena recordar o que é, historicamente, o liberalismo — não o marketing político low-cost que a IL faz, mas a tradição intelectual séria, de Locke a Mill, passando por Tocqueville, Stuart Mill, T. H. Marshall, Beveridge, Hayek e até Friedman.

Porque nenhum liberal sério alguma vez defendeu que um trabalhador é obrigado a vender o seu trabalho em condições impostas unilateralmente. Nenhum.

A base do liberalismo é simples: ninguém deve ser forçado a trabalhar contra a sua vontade. Se eu trabalho numa padaria e não quero fazer pão naquele dia, naquela condição ou por aquele salário, tenho o direito de não o fazer. Não devo ser OBRIGADO a trabalhar só para satisfazer o patrão ou o cliente. Um sistema onde uma pessoa é forçada a trabalhar sem aceitar as condições — e onde a recusa é punida — não se chama trabalho.

Chama-se escravatura. E o liberalismo nasceu precisamente para impedir que um ser humano seja tratado como propriedade.

Para o liberalismo clássico, a liberdade de associação é tão fundamental como a liberdade de expressão — e dela decorre inevitavelmente o direito de se recusar a trabalhar.

Alexis de Tocqueville escreveu, em A Democracia na América, que a força das sociedades livres depende da capacidade dos indivíduos se unirem para equilibrar o poder dos mais fortes.

John Stuart Mill, em On Liberty, lembra que a liberdade individual nada vale quando existe “despotismo económico” e quando uma das partes numa relação contratual tem força esmagadora. Friedrich Hayek — sim, até Hayek! — admitia em The Constitution of Liberty que a negociação colectiva e a liberdade sindical são instrumentos necessários num mercado onde o poder não está distribuído de forma simétrica.

E Milton Friedman, na sua defesa extrema dos mercados, reconhecia que nada é mais liberal do que permitir que um trabalhador diga: “não vendo o meu trabalho nestas condições”.

A greve, na lógica económica liberal, não é mais do que isso: a expressão da liberdade contratual.

Não é socialismo. Não é marxismo.

É um corolário lógico do próprio mercado: se o capital pode retirar-se (desinvestir, deslocalizar), o trabalho também pode retirar-se. Quer lhe chamem “greve”, quer lhe chamem “liberdade de não aceitar o contrato”.

Agora compare-se esta tradição com a prática da Iniciativa Liberal.

Enquanto os liberais clássicos defendiam o direito dos trabalhadores a organizarem-se para equilibrar poder, a IL quer “serviços mínimos reais”, “limites à greve” e uma revisão constitucional para “não impedir o direito ao trabalho dos outros”.

Parece inofensivo, mas na realidade destrói a greve enquanto instrumento eficaz. Uma greve que não interrompe nada não é uma greve — é um desfile.

É o mesmo tipo de lógica que, no século XIX, levou a Lei Le Chapelier a proibir sindicatos e greves em nome da “livre iniciativa”: uma visão profundamente reaccionária, que usava a palavra “liberdade” para concentrar poder económico num só lado.

O que a IL defende hoje não é liberalismo: é uma direita económica autoritária, elegante no discurso mas brutal na prática. É a mesma lógica do Chega, só que com gravata, PowerPoint e vocabulário anglófilo.

Um finge que defende a “Pátria”; o outro finge que defende a “liberdade”. Mas ambos têm o mesmo objetivo: tirar poder a quem trabalha e entregá-lo a quem já o tem de sobra.

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Ucrânia, esse poço sem fundo: FBI investiga para onde foram 48 mil milhões de dólares

(Fórum da Escolha, in Facebook, 29/11/2025, Revisão da Estátua)


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Há momentos em que o teatro político se transforma no grotesco absoluto. A investigação americana sobre o desaparecimento de 48 mil milhões de dólares na Ucrânia é precisamente deste calibre. Washington já não está a brincar: o FBI, a CIA e o Pentágono foram mobilizados para rastrear cada cêntimo. Quando os três acordam juntos, não é para organizar um churrasco, é para preparar o equivalente institucional de um ataque cirúrgico.

Os comunicados de imprensa oficiais mudaram repentinamente de tom. A Reuters lembrou desde 2024 que Washington exigia “rastreabilidade completa da ajuda à Ucrânia”. Um departamento do estado americano, o Government Accountability Office, (GAO) foi mais longe: “A ajuda externa pode estar sujeita a uma auditoria completa, independentemente dos destinatários finais”. Tradução: mesmo que estes beneficiários tenham um escritório em Bruxelas, uma residência em Paris ou um motorista em Berlim, terão de explicar os fluxos financeiros.

E aí tudo se complica: os beneficiários finais poderão muito bem ser europeus do mais alto nível. Altos funcionários, representantes eleitos, intermediários muito amigáveis, mas de repente muito nervosos. Porque o denominador comum de todas as transações obscuras é o mesmo nome, hoje reduzido a um código de barras político: Zelensky.

A Europa descobre com terror quase cómico que o seu “herói anti Putin” se tornou uma prova viva capaz de derrubar vários governos. Contanto que desempenhasse o seu papel de símbolo fluorescente, tudo estaria bem. Mas assim que Washington fala em “investigação de peculato”, o herói transforma-se numa carga instável – um barril político pronto a explodir nas mãos daqueles que o elogiaram até aos céus.

Estamos, portanto, a assistir a um bailado grotesco: as capitais europeias procuram freneticamente apagar Zelensky da narrativa, não fisicamente – isso seria demasiado evidente – mas política, mediática e institucionalmente. Este é o método tradicional europeu: não eliminamos os incómodos, desintegramo-los administrativamente.

Elementos da linguagem já estão a circular:

  • “Ciclo político natural”
  • “Transição democrática necessária”
  • “Fim simbólico do mandato”.

Em linguagem humana: “Obrigado, adeus e acima de tudo não fale com ninguém”.

A lógica é implacável: Se Zelensky falar, a cadeia de subornos vem à tona. Se for marginalizado, inaudível ou desacreditado, os europeus estarão a poupar tempo. E precisam desesperadamente de tempo para reescrever uma narrativa onde já não são cúmplices, mas sim vítimas da “má governação ucraniana”.

É fascinante observar como a UE transforma, a uma velocidade supersónica, o homem que descreveu em 2022 como um “defensor da liberdade” (palavras de Ursula von der Leyen) numa variável de eliminação, num ficheiro corrompido que deveria ser enviado para o lixo antes da chegada dos investigadores americanos.

Porque, lá no fundo, a Europa não teme a verdade. Ela teme, sim, quem a poderia contar. E hoje esse “quem” é um homem. Um homem que, apesar de tudo, se torna o cofre de segredos que valem mais de 48 biliões.

Por isso, sim, a UE fez a sua escolha: Zelensky não deve mais ser um ator. Ele deve tornar-se uma memória.

Catarina e o bêbedo

(Tiago Franco, in Facebook, 29/11/2025, Revisão da Estátua)


É incrível pensar no nível de burrice que um país precisou de semear para que 20% da população caia no conto do vigário.


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Aos poucos o cenário está a mudar. Os jornalistas já não parecem ter a mesma paixão, ou paciência, para o espectáculo que o André tem para oferecer. Os comentadores de serviço, até os da direita mais clássica, deitam conversa de imigrantes e corrupção pelos olhos. Até já lhe dizem que, agora, é dele a cassete que marca a espuma dos dias.

Passaram apenas 6 anos mas já há saturação de um discurso que é sempre uma cópia de um sucesso estrangeiro qualquer. Ontem até os cristãos da Nigéria foram para o barulho, repetindo uma narrativa da Casa Branca. O rapaz de Mem Martins é o Tony da Carreira da política. Se ouve algo que lhe agrada, troca um Sol por um Fá e segue para bingo.

Poderá ainda enrolar mais uns aspirantes a bots mas dificilmente passará deste registo do tio bêbedo. Repete, repete, repete. Grita, grita, grita. É indiferente o que lhe perguntam porque responde o que quer. E diz, continuamente, coisas que são mentira sem sequer se dar ao trabalho de justificar.

Passou 10 minutos de dedo em riste a culpar a geringonça pelas leis que conduziram à imigração ilegal. Catarina Martins, pelo menos 3 vezes, explicou-lhe que se é ilegal, então vai contra as leis que foram aprovadas. Ventura é jurista, percebe a incongruência, mas quer dizer…qual é o eleitor do Chega que vai sequer perder tempo a perceber a lógica de um raciocínio?

Poucas horas depois do debate já a ChegaTV tinha milhares de visualizações exactamente sobre um vídeo onde se acusava Catarina Martins de ser responsável pela imigração ilegal. E assim se faz política, assim se moldam as mentes.

Quando José Alberto de Carvalho falou sobre o Cardeal Patriarca e as suas declarações, a propósito do discurso de ódio reinante na sociedade, Ventura insurgiu-se dizendo que a comunicação social só focava no discurso de ódio quando este apontava ao Chega. Ora…o jornalista de serviço não disse que as palavras eram dirigidas ao Chega. A pergunta foi “a quem acha que o Cardeal Patriarca se referia?”. Obviamente Ventura enfiou o barrete sem sequer compreender que o estava a fazer.

Catarina Martins foi de uma elegância e inteligência à prova de bala. Em tempos achei que a sua presidência era prejudicial para o BE mas ontem foi magistral.

O Andrezito foi reduzido a uma banalidade incrível de histérico sem norte que, ao que parece, vai sendo cada vez mais frequente. Finalmente os adversários percebem como lidar com uma máquina de propaganda que enche a boca de merda a cada 2 minutos.

Sobrará a Ventura sempre um Calafate, um Moita de Deus, um João Marques (acho que é esse o nome do gajo com voz de cana rachada da CNN) e mais dois ou três comentadores para lhe tentarem limpar a imagem. Mas está mais difícil, o cheiro é insuportável e já há analistas que vão mudando de bancada, como quem não quer a coisa. Cada um tem o Bugalho que merece.

É absolutamente irrelevante que o Ventura tenha muito mais votos do que a Catarina Martins. Ele usa esse argumento quando não lhe sobra mais nada. Se 10 pessoas te tentarem convencer a beber água da sanita, mesmo que fiques sozinho com a tua Luso, em princípio não és tu que estás errado. O Ventura ter 1 milhão de votos diz pouco sobre ele, até porque as convicções dependem da semana e do tema das redes. Mas diz quase tudo sobre o país em que vivemos.

Todo o discurso de André Ventura tem uma duração máxima de 20 minutos. Ou é desmontado em direto ou é apanhado nos “fact checking” que se fazem a seguir. É incrível pensar no nível de burrice que um país precisou de semear para que 20% da população caia no conto do vigário.

Um povo onde 40% das pessoas estão no limiar da pobreza antes das transferências sociais mas que, acreditam piamente que essa condição se iniciou há 3 ou 4 anos, quando um paquistanês lhes entregou uma pizza.

Catarina Martins e o BE cometeram vários erros nos últimos anos. Ontem corrigiram alguns e sem misericórdia encostaram o bully à parede.

Quem ainda não percebe onde está o Ventura, quem o inspira e para onde ele quer ir, quase que merece que o destino do pastor se cumpra.