A Europa tem medo

(Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 16/10/2023)

Há dias, em Lisboa, um grupo de turistas altos, brancos e de olhos azuis insultou vários entregadores imigrantes da Glovo que levavam bandeiras da Palestina nas suas bicicletas momentos depois da concentração em solidariedade com o povo palestiniano.

Uma amiga, chocada, testemunhou tudo e contou-me o episódio, ontem, durante o concerto de Omar Souleyman. O músico sírio que ganhou fama a cantar em casamentos gritou várias vezes Palestina para o público. Entre a multidão, havia bandeiras da Palestina e os aplausos subiam de tom, assim como os gritos a favor do povo palestiniano.

Em determinado momento, alguém, com um olhar de ódio, e sobretudo de derrota, atravessou o mar de gente com a bandeira de Israel no ecrã do telemóvel e abandonou o concerto. Tão só como a bandeira de Israel no castelo de São Jorge, tão só como os que se concentraram fechados num hotel para legitimar o genocídio de um povo.

No fim do espetáculo, foram muitos os que se juntaram aos donos das bandeiras palestinianas. Portugueses e imigrantes gritavam juntos. Não é estranho. Como afirmou Ghassan Kanafani, “a causa palestina não é apenas dos palestinos, é uma causa de todos os revolucionários, das massas oprimidas e exploradas da nossa era”. O escritor maior da causa da libertação da Palestina foi assassinado em 1972 por Israel em Beirute mas assim tem sido durante mais de meio século.

A Europa tem medo do que aí vem e de perder o seu lugar no mundo. Os Estados Unidos foram, desde a Segunda Guerra Mundial, a trave mestra de um poder que se dilui e para o qual não há substituto no Ocidente. A ideia de civilidade associada à Europa é tentadora mas é um tigre de papel.

Capaz dos mais insidiosos crimes ao longo de séculos, perde agora a sua influência nas ex-colónias para países do Sul Global e abandona definitivamente a ideia de autonomia face a Washington. A Europa tem medo. Mas a Europa que tem medo é a Europa política e económica. É o poder. Porque, na verdade, não existe uma Europa única. É um continente profundamente desigual, com enormes contradições, sobretudo na periferia, no qual as trabalhadoras e os trabalhadores têm mais a ganhar do que a perder com a derrota do atual sistema desumano que nos lança no precipício da exploração e da miséria.

Há anos, quando era adolescente, jogava Risco com amigos. Depois de muitas horas, quando um de nós estava prestes a ganhar, alguém atirou o tabuleiro ao chão. Depois de muitos protestos, cada um foi para sua casa. O tabuleiro moral da Europa funciona assim. Condenam a Rússia mas apertam a mão a Israel, atacam a Líbia mas fazem negócios com todo o tipo de ditaduras, desde que alinhadas com Washington e Bruxelas. A barbárie muda de nome consoante as circunstâncias. Israel só se comporta desta forma porque tem as costas quentes, porque é um aliado estratégico do Ocidente. O crime legitima-se quando os polícias do mundo são cúmplices dos criminosos. Como no Risco, as regras só importam quando servem para proteger os nossos interesses.

Certo dia, apresentaram-me Leila Khaled, histórica combatente e dirigente da Frente Popular de Libertação da Palestina. Com apenas quatro anos, como centenas de milhares, teve de fugir de Haifa com a família para o Líbano. Como a maioria das casas, a sua foi ocupada por colonos israelitas. Há quem até possa julgar a decisão que levou esta mulher a sequestrar dois aviões mas, se somos compreensivos com as lutas de libertação nacional que percorreram todo o século XX, se uma parte da liderança política europeia aceita o recurso da Ucrânia a atentados contra civis na Rússia, o que nos torna solidários com a Palestina apenas quando esta é atacada e nunca quando se defende?

Nesse mesmo dia, Fayez Badawi contava-me, ao lado de Leila Khaled, que quando era criança queria muito combater pelo seu povo. Leila Khaled explicou-me que pôs a kalashnikov de pé ao lado dele e disse-lhe: “Quando fores mais alto que o cano do fuzil, deixamos-te combater”. Anos mais tarde, Fayez Badawi combateu Israel nas trincheiras libanesas. Não é uma história que se entenda facilmente quando nunca se viveu num campo de refugiados sabendo que do outro lado da fronteira há uma casa da família que está ocupada por colonos.

É um facto: a morte de civis em qualquer contexto é um crime. Mas, como disse Frantz Fanon, é o colono e o seu Estado que ensinam ao colonizado a prática da violência. O oprimido exprime-se assim porque é a única linguagem que o opressor entende.

O monopólio da violência existe, no caso de Israel, porque Israel é um protetorado norte-americano. Se o Ocidente quisesse, Israel não teria outro remédio senão aceitar a existência de um Estado palestiniano. Sem o apoio estratégico de Washington e Bruxelas, o apartheid e a colonização cairiam como um baralho de cartas.

E a Europa tem medo. Tem medo porque sabe que, se o Sul Global ganhar protagonismo e ganhar força um mundo desalinhado com Washington, a Palestina terá, definitivamente, um Estado livre e soberano. É por isso que é higiénico, urgente e necessária uma Europa do mundo e não um mundo da Europa. Uma Europa plural e verdadeiramente democrática.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Animais

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 13/10/2023)

Miguel Sousa Tavares

“Eles são animais e vamos tratá-los como tal”, esta declaração do ministro da Defesa de Israel, Yoav Galant, referindo-se aos palestinianos do Hamas (ou a todos os de Gaza?), ficará para a história, mas está errada. Os animais não fazem aquilo, só os homens são capazes de matar a sangue-frio inocentes por ódio irracional, por simples prazer ou em nome de Deus. Neste caso, em nome de Alá, o Misericordioso. Por temor, chamamos bestas aos animais que nos assustam, mas é a bestialidade humana que caminha connosco desde sempre e que faz da História da Humanidade um relatório incompreensível de atrocidades sem fim. Mas se elas são inexplicáveis à luz daquilo que nos imaginamos ser, a sua classificação moral é tão mais simples quanto maior é o horror. O ataque do Hamas de 7 de Outubro, visando essencialmente civis indefesos, é o horror, a bestialidade em estado puro. Cada um daqueles atacantes, no seu prazer assassino, não tem perdão nem justificação alguma. E sobre este ponto não há mais nada a dizer. O que não significa que isto possa ser o início ou o fim da conversa.

Esta história dura há 78 anos e é uma interminável saga de conflitos, guerras e massacres, que talvez um dia acabem por pegar fogo a todo o planeta. Dura desde a criação do Estado de Israel por deliberação da ONU, em 1948, e ocupando 77% do território da Palestina, onde quase todos eram palestinianos. Hoje, 74% são judeus e 21% palestinianos e o Estado de Israel, à revelia das Resoluções da ONU, ocupa 90% do território, incluindo Jerusalém Este, tem 250 mil colonos ilegalmente instalados na Cisjordânia e fez de Gaza, onde vivem mais de 2 milhões de palestinianos cercados por um muro, “a maior prisão a céu aberto do mundo”, nas palavras do ex-Presidente francês Sarkozy. Nenhum povo, nenhuma nação do mundo, excepto a mais desprezível, deixaria de se revoltar, e pelas armas também, contra aquilo que necessariamente veria como uma ocupação da sua terra. O “nosso” lado da narrativa pode chamar terrorista ao outro lado, como outrora a Autoridade Inglesa na Palestina chamava terroristas aos comandos judeus — dos quais um viria a ser primeiro-ministro de Israel. Sem dúvida que podemos chamar terroristas aos militantes do Hamas que atacaram um festival de música, matando, mutilando e raptando inocentes: vimos as imagens do ataque, vimos os corpos dos mortos e a proximidade da violência não permite outra linguagem. Mas o que chamaremos aos pilotos dos F-16 israelitas que, em retaliação (e antes até, por várias vezes) atacam edifícios de habitação em Gaza, sabendo que lá dentro estão civis, velhos, mulheres, crianças? A única diferença é que aqui as vítimas não estão num festival de música mas em suas casas, e, embora morram às dezenas de cada vez e sob cada bomba, não os vemos a morrer nem temos imagens da proximidade dessa violência. Mas não ignoramos que há um piloto treinado para a guerra que deliberadamente ataca alvos onde sabe que pode causar mais mortes civis. E há um Estado ocupante que se reserva o direito de cortar a água, a alimentação, a electricidade e a energia a mais de 2 milhões de civis cercados por um muro que ele ergueu, e manifestamente empenhado em fazê-los desaparecer todos dali, de uma vez por todas. E onde estão agora as vozes daqueles que tanto se indignaram, acusando a Rússia, de usar “a arma da fome”, quando esta, invocando, e com razão, o incumprimento do acordo de exportação de cereais pelo Mar Negro, recusou a sua renovação?

Podemos sempre dizer que não há inocentes nesta longa e fatídica história. Será verdade no que diz respeito ao terror e às retaliações mútuas sucessivas, mas não o é no que diz respeito à História.

Só por má-fé é possível ignorar que há um lado que funciona à revelia do direito internacional e das Resoluções do Conselho da Segurança da ONU e que tudo tem feito e fará para evitar que jamais exista um Estado Palestiniano viável ao lado do Estado de Israel. E há outro lado que tem o direito de não se conformar com isso.

Israel tem direito à sua existência e à sua segurança, os seus cidadãos têm direito a uma vida normal na terra que escolheram. E o outro lado, os do outro lado, também. Há dias vi na televisão o presidente da Associação de Amizade Portugal-Israel, lastimando-se, compreensivelmente, que os seus familiares em Israel tivessem de estar a refugiar-se em bunkers para se protegerem dos rockets do Hamas. Gostaria de lhe ter perguntado se, apesar de tudo, preferia sabê-los ali, protegidos pelo Iron Dome israelita contra os pífios foguetes palestinianos, ou na Faixa de Gaza, ao alcance dos mísseis da Força Aérea e da artilharia de Israel.

E não vale a pena virem com o argumento da superioridade moral, política e constitucional do Estado de Israel comparativamente ao mundo árabe. Claro que todos nós — eu, pelo menos — me revejo incomparavelmente mais no que são os valores de Israel, sobretudo os seus valores fundadores, do que naquilo que são os valores das sociedades islâmicas. Mas não só esses valores têm regredido drasticamente em Israel sob a influência sinistra dos ortodoxos e a liderança política desse traste que é “Bibi”, ao ponto de hoje pouco distinguir o fanatismo religioso do poder israelita do dos islamistas, como foi Israel quem fomentou a emergência do Hamas, contra o laico e muito mais moderado OLP, segundo o velho princípio de dividir para reinar. E quanto à questão de fundo, mesmo sem discutir o fundamento moral do argumento, acho que a História já nos deu suficientes lições para não valer a pena insistir na tese da ressurreição do espírito das Cruzadas. Depois do Iraque e do Afeganistão, já era tempo de este clube de idiotas que governam o mundo aprenderem alguma coisa de útil sobre o passado.

Saiba mais aqui

 

Portanto, afinal de contas, não é assim tão complicado: olhar o mal nos olhos e não desviar o olhar; entender a raiz do mal, sem o desculpar; procurar a solução que sabemos justa; e aplicar a mesma lei a todos, amigos e inimigos. Houve 70 anos para fazer isto e nada foi feito. Agora, chegados a este ponto, é esperar que os animais à solta se transformem milagrosamente em seres humanos lúcidos.

2 Se o Orçamento é, por natureza, uma gestão de expectativas futuras, o meu receio é que este Orçamento seja optimista demais. Continuar com um superavit nas contas públicas, manter apoios sociais, arrancar a sério com o investimento público e cessar as cativações, baixando para alguns os impostos directos e apostando numa descida da inflação, parece-me demasiado bom num ano que se anuncia com duas guerras no horizonte e instabilidade garantida nos mercados de combustíveis. Para quem paga impostos, a grande notícia é, finalmente, a actualização dos escalões do IRS, pondo fim à sua indecente subida sub-reptícia todos os anos, e a descida das taxas, mas só para quem ganha até €2 mil por mês — os outros são ‘ricos’. É que, tal como explicou esta semana Pedro Nuno Santos, os portugueses deviam deixar de pedir a descida do IRS, pois que se só 58% deles é que o pagam e, destes, só 17% pagam a sério, descê-lo para todos significaria ter de cortar na despesa pública ou ter de deixar de viver dos poucos pagadores esforçados.

Como sempre, o Orçamento tem coisas boas e coisas más, cuja análise não cabe agora aqui. E, como sempre, a oposição, toda ela, é contra o Orçamento — todo ele. Certamente terá ocasião de justificar melhor e mais detalhadamente porquê. E seguramente irá um pouco mais fundo do que a apreciação do líder da oposição, ao classificar o Orçamento como “pipi e betinho”. Francamente, Luís Montenegro é candidato a quê — a ser o mais engraçadinho do Café Central de Espinho?

P.S. — Sérgio Furtado, jornalista da TVI, que eu não conheço pessoalmente, acaba de receber o prémio Mário Mesquita de Jornalismo, da Sociedade Portuguesa de Autores, de que confesso desconhecia a existência. Fraco reconhecimento para quem tem feito na Ucrânia um longo e reiterado trabalho de reportagem de guerra — autêntico e não encenado, como alguns fazem, nomeadamente os repórteres-vedeta da CNN Internacional. Corajoso, objectivo, imparcial e despido de sensacionalismo: um verdadeiro exemplo daquilo que o jornalismo deve ser, mesmo nas mais difíceis circunstâncias. E neste país em que, a começar pelo Presidente da República, a mais banal das personagens é alcandorada ao estatuto de herói, este homem que diz não querer “estar apenas de passagem” por um país em guerra, para melhor o compreender, é digno de todo o respeito e admiração. Que a sorte o acompanhe sempre!

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

A geopolítica do Dilúvio de Al-Aqsa

(Pepe Escobar, in SakerLatam.org, 12/10/2023)

O foco global acabou de mudar da Ucrânia para a Palestina. Essa nova arena de confronto acenderá ainda mais a concorrência entre os blocos atlanticista e eurasiano. Essas lutas são cada vez mais de soma zero; como na Ucrânia, apenas um polo pode sair fortalecido e vitorioso.


A Operação “Diluvio de Al-Aqsa” [do inglês Al-Aqsa Flood – nota do tradutor] do Hamas foi meticulosamente planejada. A data de lançamento foi condicionada por dois fatores desencadeadores.

O primeiro foi o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu exibindo seu mapa do “Novo Oriente Médio” na Assembleia Geral da ONU em setembro, no qual ele apagou completamente a Palestina e zombou de todas as resoluções da ONU sobre o assunto.

Em segundo lugar, estão as provocações em série na sagrada Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, incluindo a gota d’água: dois dias antes do Dilúvio de Al-Aqsa, em 5 de outubro, pelo menos 800 colonos israelenses lançaram um ataque ao redor da mesquita, agredindo peregrinos e destruindo lojas palestinas, tudo sob a observação das forças de segurança israelenses.

Todos que têm um cérebro funcional sabem que Al-Aqsa é uma linha vermelha definitiva, não apenas para os palestinos, mas para todo o mundo árabe e muçulmano.

A situação fica ainda pior. Os israelenses agora invocaram a retórica de uma “Pearl Harbor”. Isso é o mais ameaçador possível. A Pearl Harbor original foi a desculpa americana para entrar em uma guerra mundial e bombardear o Japão, e esse “Pearl Harbor” pode ser a justificativa de Tel Aviv para lançar um genocídio em Gaza.

Setores do Ocidente que aplaudem a próxima limpeza étnica – incluindo sionistas que se fazem passar por “analistas” e dizem em voz alta que as “transferências de população” que começaram em 1948 “devem ser concluídas” – acreditam que, com armamento maciço e cobertura massiva da mídia, eles podem reverter a situação em pouco tempo, aniquilar a resistência palestina e deixar os aliados do Hamas, como o Hezbollah e o Irã, enfraquecidos.

Seu “Projeto Ucrânia” fracassou, deixando não apenas ovos em rostos poderosos, mas também economias europeias inteiras em ruínas. No entanto, quando uma porta se fecha, outra se abre: salte da aliada Ucrânia para a aliada Israel e concentre sua atenção no adversário Irã em vez da adversária Rússia.

Há outros bons motivos para partir com tudo para cima. Uma Ásia Ocidental pacífica significa a reconstrução da Síria – na qual a China agora está oficialmente envolvida; o redesenvolvimento ativo do Iraque e do Líbano; o Irã e a Arábia Saudita como parte do BRICS 11; a parceria estratégica Rússia-China totalmente respeitada e a interação com todos os participantes regionais, incluindo os principais aliados dos EUA no Golfo Pérsico.

Incompetência. Estratégia intencional. Ou ambos.

Isso nos leva ao custo do lançamento dessa nova “guerra ao terror”. A propaganda está em pleno andamento. Para Netanyahu, em Tel Aviv, o Hamas é o ISIS. Para Volodymyr Zelensky, em Kiev, o Hamas é a Rússia. Em um fim de semana de outubro, a guerra na Ucrânia foi completamente esquecida pela grande mídia ocidental. O Portão de Brandemburgo, a Torre Eiffel e o Senado brasileiro agora são todos israelenses.

A inteligência egípcia alega ter avisado Tel Aviv sobre um ataque iminente do Hamas. Os israelenses decidiram ignorá-lo, assim como fizeram com os exercícios de treinamento do Hamas que observaram nas semanas anteriores, convencidos de que os palestinos jamais teriam a audácia de lançar uma operação de libertação.

Aconteça o que acontecer, a [operação] Dilúvio de Al-Aqsa já destruiu irremediavelmente a grande mitologia popular em torno da invencibilidade do Tsahal, do Mossad, do Shin Bet, do tanque Merkava, do Iron Dome e das Forças de Defesa de Israel.

Mesmo quando abandonou as comunicações eletrônicas, o Hamas lucrou com o colapso evidente dos sistemas eletrônicos multibilionários de Israel que monitoram a fronteira mais vigiada do planeta.

Os drones palestinos baratos atingiram várias torres de sensores, facilitaram o avanço de uma infantaria de parapente e abriram caminho para que equipes de assalto com camisetas e AK-47 infligissem rupturas no muro e cruzassem uma fronteira que nem mesmo gatos vadios ousavam.

Israel, inevitavelmente, passou a atacar a Faixa de Gaza, uma gaiola cercada de 365 quilômetros quadrados com 2,3 milhões de pessoas. Começou o bombardeio indiscriminado de campos de refugiados, escolas, blocos de apartamentos civis, mesquitas e favelas. Os palestinos não têm marinha, força aérea, unidades de artilharia, veículos blindados de combate nem exército profissional. Eles têm pouco ou nenhum acesso à vigilância de alta tecnologia, enquanto Israel pode acessar os dados da OTAN se quiser.

O ministro da Defesa israelense, Yoav Gallant, proclamou “um cerco completo à Faixa de Gaza. Não haverá eletricidade, nem alimentos, nem combustível, tudo está fechado. Estamos lutando contra animais humanos e agiremos de acordo”[enfase do tradutor].

Os israelenses podem se envolver alegremente em punições coletivas porque, com três vetos garantidos do Conselho de Segurança da ONU no bolso de trás, eles sabem que podem se safar.

Não importa que o Haaretz, o jornal mais respeitado de Israel, admita sem rodeios que “na verdade, o governo israelense é o único responsável pelo que aconteceu (Dilúvio de Al-Aqsa) por negar os direitos dos palestinos”.

Os israelenses são consistentes. Em 2007, o então chefe da inteligência de defesa israelense, Amos Yadlin, disse: “Israel ficaria feliz se o Hamas assumisse o controle de Gaza porque as FDI poderiam lidar com Gaza como um estado hostil”

Ucrânia envia armas para palestinos

Há apenas um ano, o comediante de moletom em Kiev estava falando sobre transformar a Ucrânia em uma “grande Israel” e foi devidamente aplaudido por um grupo de automatos do Atlantic Council.

Bem, o resultado foi bem diferente. Como uma fonte da velha guarda do Deep State acabou de me informar:

“Armas com a marca da Ucrânia estão indo parar nas mãos dos palestinos. A questão é qual país está pagando por elas. O Irã acabou de fazer um acordo com os EUA no valor de seis bilhões de dólares e é improvável que o Irã coloque isso em risco. Tenho uma fonte que me deu o nome do país, mas não posso revelá-lo. O fato é que as armas ucranianas estão indo para a Faixa de Gaza e estão sendo pagas, mas não pelo Irã.”

Depois de seu impressionante ataque no último fim de semana, um Hamas experiente já garantiu mais poder de negociação do que os palestinos tiveram em décadas. É importante ressaltar que, embora as negociações de paz sejam apoiadas pela China, Rússia, Turquia, Arábia Saudita e Egito, Tel Aviv se recusa. Netanyahu está obcecado em arrasar Gaza, mas se isso acontecer, uma guerra regional mais ampla será quase inevitável.

O Hezbollah do Líbano – um firme aliado do Eixo da Resistência para a resistência palestina – prefere não ser arrastado para uma guerra que pode ser devastadora em seu lado da fronteira, mas isso pode mudar se Israel perpetrar um genocídio de fato em Gaza.

O Hezbollah possui pelo menos 100.000 mísseis balísticos e foguetes, desde Katyusha (alcance: 40 km) até Fajr-5 (75 km), Khaibar-1 (100 km), Zelzal 2 (210 km), Fateh-110 (300 km) e Scud B-C (500 km). Tel Aviv sabe o que isso significa e estremece com os frequentes avisos do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, de que sua próxima guerra com Israel será conduzida dentro daquele país.

O que nos leva ao Irã.

Negação plausível geopolítica

A principal consequência imediata do Dilúvio de Al-Aqsa é que o sonho neocon de Washington de “normalização” entre Israel e o mundo árabe simplesmente desaparecerá se isso se transformar em uma longa guerra.

Na verdade, grande parte do mundo árabe já está normalizando seus laços com Teerã – e não apenas dentro do recém-expandido BRICS 11.

No caminho para um mundo multipolar, representado pelo BRICS 11, pela Organização de Cooperação de Xangai (SCO), pela União Econômica Eurasiática (EAEU) e pela Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) da China, entre outras instituições inovadoras da Eurásia e do Sul Global, simplesmente não há lugar para um Estado de Apartheid etnocêntrico que gosta de punição coletiva.

Neste ano, Israel não foi convidado para a cúpula da União Africana. Uma delegação israelense compareceu mesmo assim e foi expulsa sem cerimônia do grande salão, uma imagem que se tornou viral. Nas sessões plenárias da ONU no mês passado, um único diplomata israelense tentou interromper o discurso do presidente iraniano Ibrahim Raisi. Nenhum aliado ocidental ficou ao seu lado, e ele também foi expulso do local.

Como disse diplomaticamente o presidente chinês Xi Jinping em dezembro de 2022, Pequim “apoia firmemente o estabelecimento de um Estado independente da Palestina que goze de plena soberania com base nas fronteiras de 1967 e com Jerusalém Oriental como sua capital. A China apoia que a Palestina se torne um membro pleno das Nações Unidas”.

A estratégia de Teerã é muito mais ambiciosa: oferecer consultoria estratégica aos movimentos de resistência da Ásia Ocidental, do Levante ao Golfo Pérsico: Hezbollah, Ansarallah, Hashd al-Shaabi, Kataib Hezbollah, Hamas, Jihad Islâmica Palestina e inúmeros outros. É como se todos eles fizessem parte de um novo Grande Tabuleiro de Xadrez supervisionado de fato pelo Grande Mestre Irã.

As peças do tabuleiro de xadrez foram cuidadosamente posicionadas por ninguém menos que o falecido Comandante da Força Quds do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, General Qassem Soleimani, um gênio militar único na vida. Ele foi fundamental na criação das bases para os sucessos cumulativos dos aliados iranianos no Líbano, na Síria, no Iraque, no Iêmen e na Palestina, além de criar as condições para uma operação complexa como a Dilúvio de Al-Aqsa.

Em outras partes da região, a iniciativa atlanticista de abrir corredores estratégicos nos Cinco Mares – Cáspio, Mar Negro, Mar Vermelho, Golfo Pérsico e Mediterrâneo Oriental – está fracassando gravemente.

A Rússia e o Irã já estão destruindo os projetos dos EUA no Mar Cáspio – por meio do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC) – e no Mar Negro, que está a caminho de se tornar um lago russo. Teerã está prestando muita atenção à estratégia de Moscou na Ucrânia, ao mesmo tempo em que refina sua própria estratégia sobre como debilitar o Hegemon sem envolvimento direto: chamemos isso de negação plausível geopolítica.

Bye bye corredor UE-Israel- Arábia Saudita-Índia

A aliança Rússia-China-Irã foi demonizada como o novo “eixo do mal” pelos neoconservadores ocidentais. Essa raiva infantil revela a impotência cósmica. Esses são Soberanos Reais com os quais não se pode mexer e, se o fizerem, o preço a pagar será inimaginável.

Um exemplo importante: se o Irã, sob ataque do eixo EUA-Israel, decidisse bloquear o Estreito de Ormuz, a crise energética global dispararia e o colapso da economia ocidental sob o peso de quatrilhões de derivativos seria inevitável.

O que isso significa, em um futuro imediato, é que o sonho americano de interferir nos Cinco Mares não se qualifica nem mesmo como uma miragem. O Diluvio Al-Aqsa também acabou de enterrar o recém-anunciado e muito alardeado corredor de transporte UE-Israel-Arábia Saudita-Índia.

A China está bem ciente que toda essa incandescência que está ocorrendo apenas uma semana antes de seu 3o Fórum do Cinturão e Rota em Pequim. O que está em jogo são os corredores de conectividade da BRI que importam – através do Heartland, através da Rússia, além da Rota da Seda Marítima e da Rota da Seda Ártica.

Além disso, há o INSTC que liga a Rússia, o Irã e a Índia e, por extensão auxiliar, as monarquias do Golfo.

As repercussões geopolíticas do Dilúvio de Al-Aqsa acelerarão as conexões geoeconômicas e logísticas interconectadas da Rússia, da China e do Irã, contornando o Hegemon e seu Império de Bases. O aumento do comércio e a movimentação ininterrupta de cargas têm tudo a ver com (bons) negócios. Em termos iguais, com respeito mútuo – não é exatamente o cenário do Partido da Guerra para uma Ásia Ocidental desestabilizada.

Ah, as coisas que uma infantaria de parapente em movimento lento sobrevoando uma parede podem acelerar.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.