Informações interessantes sobre a guerra na Ucrânia

(Major-General Raúl Cunha, in Facebook, 25/01/2024)

Curiosamente, à medida que a guerra na Ucrânia avança numa direção caracterizada por “alta tecnologia”, contraditoriamente está a retroceder noutras como resposta a isso mesmo. Veja-se que, porque o actual campo de batalha pós-moderno está tão preenchido com emissões de comunicações e se tornou num campo de batalha electromagneticamente saturado, as forças russas estão a ter de procurar alguns recursos em tecnologias mais antigas.

Já foi constatado que estão a coletar linhas telefónicas e de comunicações da Segunda Guerra Mundial, já fora de uso, porque provaram ser mais confiáveis e resistentes ao moderno ambiente de guerra eletrónica.

Além disso, essas linhas físicas terrestres de comunicação são especialmente adequadas para o atual tipo de guerra de posição, em que não não são feitos muitos avanços num curto período de tempo, permitindo assim estabelecer linhas directas entre vários quartéis-generais e unidades sem terem que se preocupar com o facto de tudo isso ter de ser repetido se e quando os comandos das unidades se deslocarem vários quilómetros durante o avanço.

Porém, lembremo-nos de que a comunicação por via física é o padrão normal, pois não há nada que supere a sua fiabilidade e a segurança, mas parece que agora está a ser usada ainda mais do que nunca. Isto deve-se particularmente ao facto de uma das maiores limitações do exército russo, que a guerra ajudou a revelar, serem os seus sistemas de comunicações.

Existem alguns bons sistemas e as suas comunicações são normalmente boas quando se trata dos escalões mais elevados, ou seja, as brigadas a comunicarem com os corpos de exército e superiores, mas quando se trata de formações e escalões menores comunicando entre si, muitas vezes é uma completa confusão. Os rádios padrão do exército russo – o equivalente aos sistemas Harris americanos – foram sendo abandonados desde o início por deficiente funcionamento, forçando muitas unidades russas a confiar em Baofengs chineses baratos de consumo, que são extremamente frágeis e interceptáveis.

Como regra, geralmente os Baofengs mais baratos e similares são usados apenas a curtas distâncias, como, por exemplo, um comandante de bateria de artilharia comunicando instruções de tiro às suas tropas a vários metros de distância. Isso é considerado relativamente seguro porque os rádios não têm um alcance muito grande e então seu sinal não pode ser interceptado de forma confiável. As comunicações com unidades distantes são normalmente feitas com sistemas encriptados e mais padronizados como o Azart – mas ainda há muitas questões que precisam de ser resolvidas e as tropas russas queixam-se frequentemente de problemas de comunicação entre unidades a distâncias médias de 5-15 km. Esta é uma área onde os EUA e a OTAN têm uma distinta vantagem. No entanto, deve dizer-se que esta vantagem é principalmente teórica e não foi comprovada num ambiente infestado de guerra eletrónica. Digo isto, porque há muitos relatórios que sugerem problemas importantes neste domínio, também da OTAN; por exemplo, problemas relatados em Marders/Leopards alemães nos campos de treino, citando especificamente que os seus sistemas de comunicação não funcionavam e que os comandantes eram forçados a abrir as escotilhas para “gritar” instruções para as unidades próximas.

Outras informações interessantes sobre a guerra na Ucrânia, no momento:

O “suposto” Instituto para os Estudos da Guerra “conseguiu” admitir não só que a Rússia tem toda a iniciativa, mas que tem as suas unidades com os efectivos a 95%, o que permite uma rotação e geração de forças atempada e profissional:

Dizem no seu relato o seguinte:

– A capacidade da Rússia de realizar rotações a nível operacional provavelmente permitirá que, no curto prazo, as forças russas mantenham o ritmo geral das suas operações ofensivas localizadas no leste da Ucrânia.

Resumindo: as unidades russas estão bem equipadas, compensam facilmente quaisquer perdas e têm todo o ritmo e iniciativa operacional. A Ucrânia, por outro lado, percebemos isso nas últimas actualizações, está a sofrer 30.000 baixas por mês e pela primeira vez – de acordo com alguns relatórios – não foi capaz de, recentemente, repor essas baixas mensais através da mobilização.

Na frente tática, a Ucrânia está-se a desempenhar extremamente bem. Em muitos casos, têm sido mesmo superiores às forças russas numa determinada frente, devido a ocuparem posições defensivas e à vantagem que estas conferem, bem como a uma utilização mais astuta da tecnologia UAV e das capacidades ISR da OTAN.

No entanto, onde muitos dos danos desproporcionais estão a ser causados é no campo dos totalmente imparáveis ataques russos na profundidade operacional. As defesas aéreas da Ucrânia estão agora mais diminuídas do que nunca e, inversamente, o arsenal aéreo da Rússia está mais forte porque todas as suas capacidades produtivas de MGP (munições guiadas de precisão) continuaram a aumentar exponencialmente. Estão a lançar mais mísseis e outros tipos de armas do que nunca, particularmente a crescente panóplia de bombas UMPK.

Verificámos a adaptação das munições RBK-500 pela Rússia, e agora tivemos a confirmação completa de que também estão a usar FABs de 1.500 kg, bem como até mesmo termobáricas ODAB-1500.

Tendo em conta estes factos, as posições da Ucrânia na retaguarda estão a ser atingidas sempre com grandes baixas. Por exemplo, houve um novo ataque a um hotel de mercenários em Kharkov que levou à eliminação de cerca de 60 franceses.

A guerra dos drones também continua a aquecer, com um artigo recente a admitir que os soldados ucranianos são forçados a abandonar completamente os seus veículos porque os drones russos os destroem a todos, impiedosamente:

– Os homens da 117ª Brigada, na região de Zaporizhzhia, enfrentaram uma desagradável caminhada de seis quilómetros na chuva e na lama, disse um comandante ucraniano ao Times. Se utilizassem os seus veículos para levar munições ou alimentos para a linha da frente, os drones russos poderiam atacar de cima.

Na verdade, há a confirmação real da integração de IA nos FPVs russos, mas, apesar destes avanços, as tropas russas não estão numa posição muito melhor. O domínio dos drones pela Ucrânia está a atingir novos patamares e as viaturas russas estão a ser visadas por eles em quase todas as frentes quando tentam atacar. As áreas de retaguarda da Rússia parecem bem protegidas, mas ninguém ainda consegue repelir por completo os ataques de drones, quando se afasta demais da proteção de GE.

LISTA DE ABREVIATURAS

UAV – Unmanned Aerial Vehicle

ISR – Intelligence, Surveillance, Reconnaissance

UMPK – Universal Planning and Correction Modules

RBK-500 – Multi purpose cluster bomb

FABs – Bombas Aéreas explosivas

ODAB – Air-Fuel explosive bomb

IA – Inteligência Artificial

FPVs – First Person View drones

GE – Guerra Electrónica


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O acordar tardio do sonâmbulo?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 24/01/2024)

Apesar de alguns alimentarem a ilusão da reversão dos acontecimentos na Ucrânia, os decisores sabem que a possibilidade de isso acontecer é extremamente remota.


A retirada das forças russas de Karkhiv e Kherston no verão de 2022 criou nas elites políticas e nalguns areópagos do comentário a ilusão de que a Rússia iria soçobrar. Os objetivos estavam a ser atingidos. Foram momentos de triunfalismo. No entanto, como podemos hoje comprovar, essas opiniões resultavam de uma avaliação errada da situação baseada em informação falsa e premissas enviesadas.

Senadores norte-americanos regozijavam-se de a guerra na Ucrânia estar a ser um grande investimento. Sem baixas americanas, Washington estava a conseguir destruir metade da capacidade militar russa apenas com 3% do seu orçamento de defesa. Nunca tinha sido tão elevada a crença na possibilidade de um levantamento contra Putin, um dos motivos desta guerra, se não o mais importante, e de uma operação de mudança de regime em Moscovo, várias vezes manifestada por Washington e Kiev. Era o sonho do grupo de neoconservadores que rodeia a Administração Biden.

Contudo, o anunciado e previsto insucesso da ofensiva ucraniana, no verão de 2023, trouxe à tona de água a falta de sustentabilidade das crenças alimentadas pela propaganda. As vozes otimistas e confiantes na derrota russa começaram a baixar o tom e a emudecer. Exceção feita à sempre irrepreensível Ursula von der Leyen, que com as sound bites fora de prazo, veio dizer em Davos que a Rússia tinha perdido 50% da sua capacidade militar.

Os desenvolvimentos políticos na Rússia e na Ucrânia vieram mostrar que o cálculo estratégico da Administração Biden, abraçado servilmente pelos europeus, falhou redondamente. Ao invés do desejado, a popularidade de Putin aumentou e a economia russa não desabou. Pelo contrário, prosperou como dão nota disso os relatórios de várias organizações internacionais insuspeitas. Recentemente, a “Newsweek” corroborou esses relatórios, removendo dúvidas que ainda pudessem subsistir.

A imposição de sanções resultou num fiasco, tendo a Rússia encontrado alternativas para escoar os seus hidrocarbonetos. A tentativa do G7 impor à Rússia um preço máximo de 60 dólares por barril de petróleo não funcionou. Hipocritamente, os EUA romperam as sanções que tanto advogaram comprando petróleo diretamente à Rússia, ao preço de $74 e $76 por barril, segundo a US Energy Administration. Associa-se a isso, o aumento da produção industrial. A Rússia teve, em 2023, um invejável aumento de 3,5% do PIB.

Foi com imensa perplexidade que ouvimos o mais alto dignitário da NATO Jans Stoltenberg vir reconhecer, na recente reunião do Fórum Económico Mundial, em Davos, aquilo que muito poucos vinham consistentemente afirmando há cerca de dois anos, e pelo facto foram agraciados com o epíteto de putinistas: o Ocidente subestimou a Rússia. Esta conclusão tardia é de uma imensa gravidade, uma vez que ilustra a realidade virtual em que ocupantes de altos cargos têm vivido e o desvalor com que as vidas ucranianas foram equacionadas.

As dificuldades da Administração Biden e dos europeus em suster o esforço de guerra ucraniano vieram agravar um ambiente que começava a não ser percebido como favorável, e em que se registava uma inversão de tendência.

Se para Kiev não se consegue ainda visualizar com precisão como irá terminar a guerra, para a Administração Biden começa a visualizar-se mais um fracasso estratégico. Uma vez mais, a Casa Branca foi vítima das alucinações de um grupo de neoconservadores que, de uma maneira ou de outra, continuam a causar perdas irreparáveis à imagem externa dos EUA.

Fizeram quase tudo errado. Para confrontar a China, Biden devia ter garantido a neutralidade de Moscovo, mas a obsessão ideológica neoconservadora foi mais forte do que o pragmatismo. Não só aproximaram Moscovo de Pequim, ao ponto de hoje Moscovo se preparar para cortar completamente os laços económicos com a Europa, como correm o risco de se verem envolvidos em duas crises estratégicas, em simultâneo, para as quais não estão preparados, comprometendo decisivamente as suas ambições hegemónicas globais. No Ocidente, nomeadamente em Portugal, não faltaram comentadores a aplaudir este disparate.

A situação no terreno e o aumento das dificuldades em apoiar o esforço de guerra ucraniano não só provocou uma enorme frustração e desespero no Ocidente, como contribuiu para aumentar a confiança de Moscovo. Como se torna cada vez mais óbvio, é irrealista pensar ser possível reunir condições para a realização de uma futura contraofensiva que possa superar a de 2023. Quem alimenta essa possibilidade está completamente desfasado da realidade. Nem os europeus têm capacidade para a apoiar, nem os ucranianos para a realizar.

Kiev procura lançar desesperadamente uma controversa e impopular campanha de mobilização de 500 mil soldados durante o ano de 2024. Ora, esse efetivo não visa atribuir capacidade ofensiva às forças armadas ucranianas, mas tão somente repor as cerca de 20 mil baixas mensais, isto é, recompletar. Ou seja, conferir-lhes apenas capacidade defensiva.

Por outro lado, o Ocidente não tem, aparentemente, um plano para impedir o insucesso ucraniano que se vislumbra no horizonte. Parece restar-lhe a incomodidade e o desespero. Em vez de enfrentar os factos, assistimos a uma fuga para a frente. Brande o papão de uma terceira guerra mundial. A Rússia vai atacar a NATO, e vão fazê-lo através dos Estados bálticos, que o presidente Biden confundiu com Balcãs. Estas declarações alarmistas visam criar o pânico entre a população e escamotear desonestamente o tremendo erro de análise feito.

Não há consenso quanto à data desse ataque. Uns falam num ano, outros três e outros ainda cinco a oito. De modo descontraído e ligeiro, o ministro da Defesa do Reino Unido Grant Shapps afirmou que nos encontramos num estado de “pré-guerra mundial”. Para tornar mais realista a ameaça, um jornal alemão veio divulgar um documento secreto a explicar como irá decorrer essa operação.

Desacreditada a tese da derrota russa, há que ocultá-la criando outra tese. A histeria alarga-se. O chairman do comité militar, Almirante Rob Bauer, veio desajeitadamente assustar os europeus sugerindo-lhes que se preparassem para o conflito, como se fosse amanhã: “é preciso água, um rádio e uma lanterna a pilhas para garantir que sobreviverá nas primeiras 36 horas. Coisas assim, simples, mas temos de perceber que a paz não é um dado adquirido.”

Na Suécia, por exemplo, sucedem-se as notícias alarmistas, com declarações do mais alto dignitário militar do país, o general Micael Bydén, a alertar que “todos os suecos deviam estar a preparar-se para a guerra.”

A ampliação desta campanha de medo, em que participam alguns diligentes comentadores, baseada num argumento falso – temos de parar a Rússia agora porque no futuro será mais difícil – visa pressionar também a obtenção dos recursos financeiros para apoiar a Ucrânia.

Apesar dos recentes apelos, os indícios de preparação para a guerra já têm alguns anos. A criação de uma infraestrutura logística na Europa não é de agora, como o prova, por exemplo, a criação da “Mobilidade Militar” inserida nos programas da Cooperação Estruturada Permanente da UE, em 2018.

Mais recentemente, a Finlândia disponibilizou 15 instalações militares no seu território para os EUA aí instalarem unidades militares e pré-posicionarem equipamento militar. Por seu lado, a Polónia disponibilizou o seu território para a instalação de bases militares alemãs, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, à semelhança do que já tinham anunciado fazer na Lituânia.

Nos países bálticos, a linha de caminho de ferro com a bitola utilizada na antiga União Soviética está a ser transformada na bitola europeia, um projeto que poderá estar terminado apenas em 2030. Entretanto, a NATO criou um programa que designou por Schengen militar, permitindo que as tropas da Aliança se movam rapidamente e sem obstáculos dentro da União Europeia.

Por seu turno, a Roménia acelera rapidamente a construção de uma nova autoestrada até à fronteira com a Ucrânia, que poderá ser utilizada para facilitar a movimentação de forças militares em caso de conflito. Importa mencionar que este projeto, pensado há muitos anos, ganhou um carácter de urgência a seguir à invasão russa da Ucrânia.

Sempre nos interrogámos qual poderia ser a resposta do Ocidente caso se viesse a verificar uma débâcle da Ucrânia. Os desenvolvimentos recentes começam a apontar para uma resposta. Apesar de alguns alimentarem a ilusão da reversão dos acontecimentos na Ucrânia, os decisores sabem que a possibilidade de isso acontecer é extremamente remota, como também sabem que os próximos 5/7 anos serão de grande agitação geoestratégica, em que as potências emergentes vão procurar tirar partido do vazio de poder criado pelo desmoronamento em curso da Ordem Mundial.

Como tem sido sublinhado por vários académicos, a possibilidade de a transição de poderes na Ordem internacional envolver o uso da força pelos principais atores é extremamente elevada. Acresce que o teatro de operações ucraniano reúne as condições para esse embate. Lamentavelmente, assistimos na praça pública a atiçadores da fornalha, uns manifestamente impreparados, outros escandalosamente industriados.

O objetivo de ambos os grupos é claro, incutir na opinião pública a inevitabilidade de um conflito armado de larga escala, escamoteando conscientemente as consequências que um confronto dessa natureza poderia ter, nomeadamente o arrastamento de toda a Europa.

Esperemos que o exercício Steadfast Defender organizado pela NATO, envolvendo cerca de 90 mil soldados, o maior exercício desde o fim da guerra fria, cujo tema genérico é repelir uma invasão de forças terrestres, fique por um exercício, e não haja a tentação de se intrometer nos desenvolvimentos em curso na Ucrânia.


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Porque é que o Ocidente tem de ganhar na Ucrânia

(Por Thomas Roper, in Geopol.pt, 24/01/2024)

Se o Ocidente liderado pelos EUA perder perante a Rússia na Ucrânia, o papel dos EUA como potência mundial líder passará à história. Para os EUA, a Ucrânia é a sobrevivência do seu sistema, que se baseia na dominação e exploração do mundo.


Nos últimos dias, houve algumas declarações interessantes que vale a pena analisar mais de perto, pois explicam porque é que o Ocidente liderado pelos EUA não pode, do seu ponto de vista, dar-se ao luxo de perder na Ucrânia.

A questão é a (nova) ordem mundial

George Robertson, secretário-geral da NATO de 1999 a 2003 e atualmente membro da Câmara dos Lordes do Parlamento britânico, deu uma entrevista ao Daily Telegraph na qual afirmou que Moscovo, Pequim e Teerão determinarão a ordem mundial se o Ocidente permitir que a Ucrânia perca o conflito com a Rússia:

“Se eles perderem, nós perdemos, porque então os chineses, os russos, os iranianos e os norte-coreanos vão escrever a ordem mundial. E será extremamente desagradável para os meus netos viverem num mundo assim.”

Numa perspetiva transatlântica, é uma ideia terrível que outros países, para além dos EUA, possam ter influência na ordem mundial. No entanto, também mostra porque é que o Ocidente está a ficar cada vez mais isolado internacionalmente, porque o resto do mundo há muito que está farto de ter de viver segundo as regras estabelecidas pelo Ocidente liderado pelos EUA.

Podemos pensar que a Rússia, a China, o Irão, etc., são regimes maléficos, mas todos eles têm uma coisa em comum: não ditam aos outros países e povos como devem viver, que “valores” devem considerar óptimos ou que sistema político ou económico devem seguir. Por isso, a perspetiva de a Rússia, a China e outros opositores do Ocidente determinarem a futura ordem mundial é uma boa notícia para a maioria dos países do mundo não ocidental.

Robertson também disse na entrevista que a situação atual é “quase um confronto de alianças”, confirmando de facto a tese russa de que a Rússia não está em guerra com a Ucrânia mas com o Ocidente coletivo, acrescentando:

“Os países do Sul Global decidem de que lado estão, mas não parecem perceber que o que está a acontecer também afeta os seus interesses.”

Sim, estes países reconheceram-no muito bem e as suas simpatias estão claramente do lado da Rússia, mesmo que muitos ainda não o declarem publicamente por receio de medidas punitivas ocidentais, como sanções. Mas isso é bem visível se nos lembrarmos, por exemplo, da cimeira do G20, que foi um enorme fracasso para o Ocidente.

Antes o fim do mundo do que o fim do domínio dos EUA?

Robertson mostrou-se preocupado com a falta de vontade política dos actuais líderes ocidentais para combater eficazmente a Rússia, a China e os seus aliados. Segundo ele, o Reino Unido, a UE e os EUA deveriam adotar planos de ajuda plurianual à Ucrânia. Só essa determinação poderia influenciar Putin, afirmou. Para tal, é necessário ultrapassar o medo de uma escalada:

“Há uma certa timidez na Casa Branca, bem como em Downing Street e noutras capitais europeias, que não querem uma escalada. Não se pode dar-lhes armas de longo alcance, porque poderiam utilizá-las em território russo e então teríamos a Terceira Guerra Mundial. Portanto, o medo de uma escalada reduz o objetivo que a Ucrânia tem de vencer.”

Robertson tem 77 anos, talvez tenha vivido a sua vida e não tenha medo de uma terceira guerra mundial. Os seus netos acima mencionados, que supostamente viveriam mal num mundo não dominado pelos EUA, não parecem significar muito para Robertson, porque manter o domínio ocidental no mundo é obviamente tão importante para ele que está preparado para arriscar a Terceira Guerra Mundial. Ou de que outra forma podemos entender esta declaração:

“Na minha opinião, mais uma vez de um ponto de vista psicológico, precisamos de incutir no alto comando russo a ideia de que pode haver uma escalada e provocar este conflito. Porque um conflito com a NATO levaria a uma derrota russa.”

Um conflito entre a Rússia e a NATO levaria ao fim da humanidade, não a uma derrota russa. Mas, aparentemente, para alguns falcões ocidentais, o fim do mundo é o mal menor do que o fim do domínio mundial dos EUA.

O poder das corporações está em perigo

O ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Stephane Sejournet, deu uma entrevista ao jornal Le Parisien, na qual afirmou que, se a Rússia derrotar a Ucrânia, passará a controlar 30% das exportações mundiais de cereais:

Se a Ucrânia perder, 30% das exportações mundiais de trigo ficarão sob o controlo da Rússia e os cereais franceses ficarão ameaçados nos mercados mundiais. Uma vitória russa seria um drama para os nossos agricultores e teria como consequência a inflação e, possivelmente, um problema alimentar muito grave.

Trata-se de um argumento interessante, tendo em conta que o Ocidente está a dificultar a vida dos pequenos agricultores e a obrigá-los a abandonar as suas explorações. Não se trata de uma formulação exagerada, pois nos Países Baixos isso está a ser oficialmente dito e posto em prática. Os beneficiários serão algumas empresas alimentares ocidentais. Acabei de escrever um artigo sobre este assunto e a Oxfam publicou um relatório que mostra a rapidez com que algumas empresas ocidentais estão a tomar conta e a monopolizar este e outros mercados mundiais.

Portanto, é óbvio que o ministro dos Negócios Estrangeiros francês não está preocupado com os agricultores, mas sim com as empresas ocidentais. E a afirmação de que poderia haver um grave problema alimentar se a Rússia controlasse 30% das exportações mundiais de trigo também não faz sentido, porque a Rússia exporta o seu trigo, pelo que este está disponível nos mercados. Estas afirmações são uma forma de pânico, não sobre a segurança alimentar, mas sobre o poder e os lucros das empresas alimentares ocidentais, que a Rússia iria impedir.

A (nova) ordem mundial

Na Ucrânia, o Ocidente está preocupado com a tão apregoada nova ordem mundial, que deverá ser dominada pelas empresas ocidentais, se o Ocidente levar a sua avante. Países como a Rússia e a China, mas também o Irão, a Venezuela e outros, estão a impedir que isso aconteça. Não permitem que as ONG e as empresas ocidentais dirijam os seus países, mas querem que sejam os governos nacionais a determinar a política e não as grandes empresas (ocidentais).

O socialismo chinês permite que toda a gente fique rica, mas os novos ricos têm de se manter afastados da política. A Rússia está a seguir a mesma linha, porque o que o Ocidente não consegue perdoar a Putin é o facto de, depois de ter tomado posse como presidente russo, ter quebrado o poder dos oligarcas russos (que são leais ao Ocidente).

Foi por isso que o Ocidente, liderado pelos EUA, provocou a guerra na Ucrânia (ver a cronologia do conflito no final deste artigo). O plano era encurralar a Rússia de tal forma que esta se visse forçada a intervir na Ucrânia. A economia russa seria então destruída com a ajuda das sanções que já tinham sido planeadas antecipadamente, o que, por sua vez, levaria à agitação e à queda do governo russo. Na melhor das hipóteses para o Ocidente, a própria Rússia teria entrado em colapso enquanto Estado, de modo a que os novos e pobres pequenos Estados que dela emergissem pudessem ser excelentemente controlados.

Esse teria sido o primeiro passo, seguido pela China, que também se teria tornado vulnerável sem o seu aliado, a Rússia. Desta forma, o Ocidente liderado pelos EUA queria tirar do caminho os países que se opunham às ambições de poder global dos EUA, ou seja, as corporações americanas.

No entanto, o plano não funcionou. A economia russa está a crescer apesar das sanções e a Rússia também está em vantagem militar na Ucrânia. E, para piorar a situação, o Sul global está a simpatizar cada vez mais abertamente com a Rússia.

Por conseguinte, a Ucrânia tem realmente a ver com a (nova) ordem mundial, porque se os EUA quiserem manter o seu papel de governante mundial, cujos ditames o resto do mundo tem de seguir por medo dos EUA, não podem perder para a Rússia. No entanto, isto também significa que a Rússia tem razão em ver-se em guerra com o Ocidente coletivo.

No entanto, a Ucrânia não pode vencer, independentemente da quantidade de dinheiro e armas que o Ocidente injetar no país. E o Ocidente não quer enviar os seus próprios soldados regulares porque isso significaria uma guerra com a Rússia, ou seja, uma guerra nuclear que ninguém pode vencer.

Os EUA estão, portanto, a incendiar muitos países ao longo das fronteiras da Rússia, como a Geórgia, o Quirguistão e o Cazaquistão, bem como a Arménia e a Moldávia, que não partilham uma fronteira com a Rússia, mas que são de importância estratégica.

É difícil dizer o que vai acontecer a seguir, mas uma coisa é certa: é provável que os tempos que se avizinham se tornem ainda mais imprevisíveis, pois há demasiado em jogo para todos os envolvidos. A Rússia está literalmente a lutar pela sua sobrevivência, os EUA estão a lutar pela sobrevivência do seu papel de governante mundial, sobre o qual assenta todo o seu sistema político e económico. Nesta perspetiva, os EUA também estão a lutar pela sobrevivência.

A cronologia da escalada

Como prometido, vou mostrar-vos mais uma vez como surgiu a escalada na Ucrânia. Se preferirem ver isto em vídeo, também podem encontrar esta informação neste programa da Anti-Spiegel-TV.

A última cimeira da Normandia teve lugar em Paris, no início de dezembro de 2019. Depois disso, Zelensky regressou a Kiev e anunciou ao seu povo, à porta fechada, que não iria implementar o acordo de Minsk. Todos os envolvidos na Ucrânia perceberam que a guerra com a Rússia se tinha tornado inevitável e Kiev começou a preparar-se concretamente para a guerra. O chefe do Conselho de Segurança ucraniano, Alexei Danilov, declarou-o abertamente numa entrevista em agosto de 2022 e Zelensky confirmou-o agora também na entrevista à Spiegel.

Joe Biden tornou-se presidente dos EUA em janeiro de 2021. Ao contrário do seu antecessor Trump, que não queria uma escalada na Ucrânia, Biden deu luz verde a Zelensky. Em fevereiro de 2021, Zelensky começou a reprimir a oposição, tendo o líder do maior partido da oposição sido colocado em prisão domiciliária e todos os meios de comunicação social da oposição foram proibidos.

Em março de 2021, Zelensky promulgou a nova doutrina militar da Ucrânia, que previa uma guerra com a Rússia com o objetivo de recapturar a Crimeia pela força e resolver o conflito no Donbass pela força.

Em meados de abril de 2021, o governo Biden anunciou a retirada do Afeganistão até 11 de setembro.

Em abril e maio de 2021, a Ucrânia esteve à beira da guerra com a Rússia, mas foi mais uma vez cancelada pelos EUA. A razão foi o facto de as tropas americanas ainda se encontrarem no Afeganistão e, por conseguinte, serem vulneráveis, ou o facto de os EUA não poderem apoiar a Ucrânia de forma tão extensiva enquanto estivessem no Afeganistão?

Em meados de junho de 2021, teve lugar uma cimeira entre os presidentes Putin e Biden, mas não houve qualquer aproximação.

Em agosto de 2021, assistiu-se à retirada precipitada das tropas da NATO e dos EUA do Afeganistão.

Enquanto Kiev voltou a agravar a situação no Donbass a partir do final de 2021 e a NATO aumentou a sua presença de tropas na Ucrânia sob o pretexto de manobras e missões de treino, a Alemanha e a França enterraram oficialmente o Acordo de Minsk em novembro de 2021, embora não tenha havido qualquer notícia sobre este facto nos meios de comunicação social ocidentais.

Tal como a Politico noticiou em outubro de 2022, as sanções contra a Rússia já estavam a ser preparadas em conversações entre Washington e Bruxelas desde, pelo menos, novembro de 2021. Isto foi três meses antes do início da intervenção da Rússia na Ucrânia e precisamente quando Berlim e Paris estavam a enterrar o Acordo de Minsk. Os decisores em Washington e Bruxelas (e provavelmente também em Berlim e Paris) aperceberam-se obviamente de que o abandono do Acordo de Minsk conduziria à guerra na Ucrânia, razão pela qual prepararam paralelamente as sanções correspondentes. O Afeganistão era uma coisa do passado, deixando as mãos dos EUA livres para um novo conflito.

Em dezembro de 2021, a Rússia acabou por exigir aos EUA e à NATO garantias mútuas de segurança e a retirada das tropas da NATO da Ucrânia e declarou que seria forçada a responder “militarmente” se as garantias mútuas de segurança fossem recusadas. Isto tornou claro que a Rússia responderia militarmente a quaisquer outros esforços para atrair a Ucrânia para a NATO. Foi nesse momento que todos os políticos responsáveis se aperceberam de que a recusa de negociar com a Rússia conduziria à guerra na Ucrânia. A guerra e toda a miséria poderiam ter sido evitadas se os EUA estivessem preparados para aceitar e garantir um estatuto de neutralidade para a Ucrânia numa base permanente.

Em 8 de janeiro de 2022, Scott Miller foi nomeado embaixador dos EUA na Suíça. Numa entrevista em novembro de 2022, declarou abertamente que os EUA tinham “informações dos serviços secretos sobre a invasão” e que as tinha mostrado ao governo suíço imediatamente, no início de janeiro de 2022. Como as conversações entre a Rússia e os EUA sobre a questão de saber se haveria negociações sobre as garantias de segurança mútua exigidas pela Rússia ainda estavam em curso nessa altura, a declaração de Miller prova que os EUA já tinham decidido não entrar em negociações e estavam plenamente conscientes das consequências, nomeadamente a intervenção russa na Ucrânia. Miller também confirmou indiretamente o relatório da Politico de que as sanções tinham sido elaboradas com meses de antecedência, o que o chanceler Scholz e outros políticos ocidentais confirmaram mais tarde quando disseram que as sanções contra a Rússia tinham sido “preparadas com muita antecedência”.

No final de janeiro de 2022, foi introduzida nos EUA a Lei Lend-Lease para a Ucrânia, sobre a qual se escreveu quando foi apresentada ao Congresso:

“Este projeto de lei dispensa temporariamente certos requisitos relacionados com a autoridade do presidente para emprestar ou alugar equipamento de defesa se o equipamento de defesa se destinar ao Governo da Ucrânia e for necessário para proteger a população civil na Ucrânia da invasão militar russa.”

Isto confirma, mais uma vez, que os EUA já estavam a preparar-se para a guerra enquanto ainda falavam oficialmente com a Rússia sobre possíveis negociações sobre garantias de segurança mútuas, uma vez que o projeto de lei para apoiar a Ucrânia contra a “invasão militar russa” foi apresentado no Congresso um mês antes da intervenção russa.

Quase em simultâneo com a apresentação do projeto de lei, os EUA e a NATO rejeitaram as negociações sobre garantias de segurança mútuas propostas pela Rússia no final de janeiro de 2022.

Em 19 de fevereiro de 2022, Zelensky ameaçou armar a Ucrânia com armas nucleares na Conferência de Segurança de Munique, sob os aplausos da audiência de altos funcionários ocidentais. Isto significava que a intervenção russa já não podia ser evitada, pois o facto de a Ucrânia, que se tinha preparado abertamente para a guerra contra a Rússia na sua doutrina militar, poder também armar-se com armas nucleares com o apoio do Ocidente era uma ameaça inaceitável para a segurança da própria Rússia.

Em 21 de fevereiro de 2022, Putin reconheceu as repúblicas do Donbass e celebrou acordos de assistência mútua com elas. No seu discurso, Putin avisou claramente Kiev das consequências de uma nova escalada. No entanto, Kiev voltou a aumentar de forma demonstrativa o bombardeamento de alvos civis no Donbass.

Em 24 de fevereiro de 2022, Putin anunciou, noutro discurso, o início da operação militar russa na Ucrânia.

Em 29 de março de 2022, houve negociações entre Kiev e Moscovo sobre um cessar-fogo. A própria Kiev propôs reconhecer a Crimeia como russa e encontrar uma solução negociada para o Donbass. Além disso, Kiev prometeu não colocar mais tropas estrangeiras no seu país e não se tornar membro da NATO. No entanto, a adesão da Ucrânia à UE era possível. Além disso, a Rússia declarou que iria retirar as suas tropas da região de Kiev como sinal de boa vontade, o que os meios de comunicação social ocidentais reinterpretaram imediatamente como uma derrota militar para a Rússia, embora a retirada russa tenha ocorrido sem hostilidades.

Em 3 de abril de 2022, surgiram notícias de alegados massacres pelo exército russo em Bucha, que rapidamente se revelaram ser uma operação de falsa bandeira. No entanto, Butsha foi rotulada como um “crime” russo e amplamente coberta pelos meios de comunicação social, enquanto a possível solução negociada que tinha sido alcançada apenas alguns dias antes não foi um tema nos meios de comunicação social.

O Reino Unido também não respondeu à solução negociada, mas, em vez disso, prometeu à Ucrânia 100 milhões de libras em ajuda militar em 8 de abril de 2022 para continuar a luta contra a Rússia, o que, na altura, ainda era um dos maiores pacotes de ajuda até à data.

Um dia depois, em 9 de abril de 2022, o primeiro-ministro britânico Johnson deslocou-se a Kiev e falou com Zelensky, que retirou a oferta ucraniana na sequência destas conversações e anunciou que a decisão teria de ser tomada no campo de batalha.

Em 30 de setembro de 2022, o presidente ucraniano Zelensky promulgou um decreto que punia as negociações com uma Rússia liderada por Putin.


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