Por muito mau que você pense que Israel seja, é ainda pior

(Caitlin Johnstone, in SakerLatam.org, 05/02/2024)

Acontece que as FDI têm administrado um canal no Telegram com filmes caseiros de assassinatos em que os habitantes de Gaza são brutalmente mortos pelas forças israelenses, legendados com celebrações da carnificina e da dor, como “Queimar a mãe deles… Você não vai acreditar no vídeo que temos! Você pode ouvir seus ossos sendo esmagados.” As FDI já haviam negado qualquer associação com o canal, mas o Haaretz agora relata que ele era administrado diretamente por uma unidade de guerra psicológica das FDI.

Esta é uma daquelas muitas, muitas vezes em que Israel é tão horrível que, a princípio, você não tem certeza do que está vendo. Você acha que deve estar interpretando mal o relatório. Então você lê de novo e diz: “Uau, isso é muito pior do que eu teria imaginado.” 

Por pior que você pense que Israel seja, você sempre pode ter a certeza de que informações virão mais tarde comprovando que é ainda pior.

Tucker Carlson foi visto em Moscou, gerando especulações de que ele está lá para entrevistar o presidente Vladimir Putin, e os comentaristas liberais estão perdendo a cabeça a respeito disso.

Não há base válida para os ocidentais se oporem a que Putin seja entrevistado por um especialista ocidental. Não há base moral porque as autoridades israelenses tiveram acesso irrestrito a uma imprensa ocidental extremamente simpática ao longo de quatro meses de administração de um genocídio ativo. Não há base no argumento de que isso prejudique os interesses de informação dos EUA, porque isso seria admitir que os interesses de informação dos EUA dependem de esconder informações do público sobre assuntos tão básicos quanto o que um líder estrangeiro pensa sobre suas próprias ações e, essencialmente, reconhecer que a mídia ocidental deve funcionar como serviço de propaganda para agências militares e de inteligência dos EUA. 

Toda objeção possível também é uma confissão sobre o que o império dos EUA e sua mídia realmente são.

Americanos: assistência médica, por favor.

Governo dos EUA: Desculpe, você disse bombardear a Síria, o Iraque e o Iêmen para facilitar um genocídio ativo?

Americanos: não, assistência médica.

Governo dos EUA: Tudo bem, você está a exigir bastante, mas vamos primeiro bombardear a Síria, o Iraque e o Iêmen para facilitar um genocídio ativo.

Biden não está mentindo tecnicamente quando diz que os EUA não buscam conflitos no Oriente Médio. Os EUA buscam a DOMINAÇÃO no Oriente Médio e prefeririam receber essa dominação voluntariamente de súbditos submissos. Somente quando o Oriente Médio se recusa a se submeter é que há conflito.

Os EUA nunca fizeram nada de bom para o Oriente Médio. Tudo o que trouxeram para a região foi um monte de operações militares assassinas e a operação militar assassina ininterrupta que é o estado de Israel.

Estabelecer inúmeras bases militares em países do outro lado do planeta e depois entrar em guerra com qualquer um que tente expulsá-las é praticamente o oposto de como um exército são e ético seria usado.

A política externa dos EUA é essencialmente uma grande e longa guerra contra a desobediência. Bombardeio, mudança de regimes, fome e desestabilização de qualquer população em qualquer lugar da terra que se atreva a insistir em sua própria soberania em vez de se deixar absorver pelas dobras do império global. 

Eles chamam a diferentes partes dessa política externa Guerra Israel-Hamas, Guerra do Iraque, Guerra ao Terror, mas na verdade é tudo a mesma guerra: a guerra à desobediência. Uma longa operação para brutalizar a população global em obediência e submissão, ano após ano, década após década.

Quando se trata de Israel, a principal diferença entre liberais e conservadores é que os conservadores apoiam Israel porque gostam quando os muçulmanos são assassinados, enquanto os liberais apoiam Israel porque murmuram algo, como o antissemitismo de Israel tem o direito de se defender, mas temos sérias preocupações sobre o humanitário HEY, OLHE LÁ, É TRUMP!

Se o genocídio de Gaza tivesse acontecido antes da internet, teria sido uma questão marginal, da qual quase ninguém saberia nada. A imprensa ocidental teria sido capaz de se safar com exponencialmente mais encobrimentos de crimes israelenses, os políticos ocidentais teriam sido capazes de se safar com muito mais mentiras sobre o que realmente está acontecendo, as autoridades israelenses teriam sido muito menos cuidadosas com suas declarações de intenção genocida em sua própria mídia, e as FDI teriam sido muito mais flagrantes e inequívocas sobre sua campanha de extermínio. 

É apenas porque as pessoas normais estão de olho no que realmente está acontecendo que essa questão está sujeita a protestos e condenações em todo o mundo que colocaram o império em desvantagem. A classe política/mídia nunca faz a coisa certa porque quer, faz a coisa certa quando é forçada por seres humanos normais com consciências saudáveis. O destino da humanidade depende da capacidade das pessoas comuns fazerem circular livremente a verdade.

Fonte aqui.


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O que se passa nas polícias?

(Carmo Afonso, in Público, 05/02/2024)

As reivindicações das polícias extravasam o que pode ser decidido por um Governo de gestão. Mas António Costa, se quiser, sabe puxar aqui o travão de mão. A indiferença do Governo é gasolina.


Este sábado, dezenas de agentes da polícia apresentaram baixa médica para não se apresentarem ao serviço. A ausência destes homens acabou por determinar o cancelamento de um jogo de futebol, o Famalicão–Sporting.

Nessa noite, o presidente do Sindicato Nacional da Polícia, Armando Ferreira, em declarações na SIC Notícias, ameaçou que a situação se pode alastrar a todo o país. Nem uma palavra acerca da veracidade das baixas médicas. Tratou-as como sendo uma forma de luta legítima. Também equacionou o cancelamento de mais jogos de futebol e chegou a ameaçar a realização das eleições legislativas a 10 de março.

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Foram declarações desastrosas e que provocaram alarme. Armando Ferreira apresentou as polícias como sendo um perigo para a ordem pública sem noção do efeito dessa imagem. E mostrou de que lado está o seu sindicato. Estamos conscientes da infiltração da extrema-direita nas polícias, mas ficamos sempre paralisados quando o fenómeno se nota.

E reparem que o Movimento Zero reanimou e que tenta cavalgar a onda. Voltou às publicações nas redes sociais. Na verdade, são verdadeiros apelos à guerra. Depois do cancelamento do jogo entre o Famalicão e o Sporting, o Movimento Zero, que tinha apelado ao cancelamento dos jogos dos três grandes, lamentou a inação no Estádio do Dragão. “Cada momento de hesitação é uma traição à nossa causa. Braga mostrou o caminho – coragem e união – mas no Dragão falhámos.” Isto porque os agentes de segurança não aderiram ao apelo para se juntarem na porta 18 do Estádio do Dragão. No fundo, foi um apelo para não acatarem as ordens e instruções que tinham para garantir a segurança do jogo. É assim a atuação do Movimento Zero.

Na mesma noite, também Paulo Santos, presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP), foi entrevistado numa estação de televisão. Falou no silêncio do Governo e na possibilidade de os agentes de segurança enveredarem por outro tipo de contestação. Paulo Santos foi interpretado como estando, à semelhança do que fez Armando Ferreira, a ameaçar o funcionamento do sistema democrático. Mas digo-vos que tal interpretação é injusta.

Paulo Santos é um dos dirigentes sindicais que tentam proteger as forças de segurança da influência da extrema-direita. Não é farinha do mesmo saco. Temo pensar no que seria das forças de segurança se não existissem homens como Paulo Santos, homens que, na verdade, estão numa posição muito difícil.

Porquê?

Por um lado, estão na luta por melhores condições de vida e de trabalho como todos os restantes. Mas fazem essa luta sem perder de vista valores como a solidariedade e a fraternidade, esses são os princípios fundadores da ASPP. Acontece que, por mais que se organizem e que façam manifestações com milhares de homens, nada acontece. Ao não reagir às formas de luta convencionais, o Governo dá razão aos agentes das forças de segurança que estão minados pelo Chega e que só acreditam em ações de guerrilha. Os sindicalistas como Paulo Santos perdem força negocial e perdem terreno perante os seus homens; começam a ser substituídos por novos atores. Isto está a passar-se. Se Paulo Santos assumir um discurso frontalmente crítico em relação, por exemplo, aos agentes que apresentaram baixas médicas fraudulentas vai perder a mão e a autoridade no sindicato mais representativo das polícias. Volto a dizer que homens como Paulo Santos estão numa posição difícil.

A especial permeabilidade ao ideário de extrema-direita por parte das forças de segurança não resulta apenas da sua situação remuneratória ou da recente injustiça que viveram ao terem sido satisfeitas as reivindicações da Polícia Judiciária mas não as suas. Não, esta permeabilidade tem outras causas profundas.

Quem vai para as forças de segurança quer ter autoridade. Este desejo de ter e exercer autoridade sobre o outro é uma fraqueza. É também por aqui que se deixam contaminar. Ventura fala-lhes do reforço dessa autoridade e de inimigos que é preciso combater. Os agentes e guardas que caíram no embuste de Ventura estão amotinados e prontos para a guerra. São, neste momento, homens perigosos.

As reivindicações das polícias extravasam o que pode ser decidido por um Governo de gestão. Mas, mesmo nessas circunstâncias, António Costa, se quiser, sabe puxar aqui o travão de mão. E é a pessoa certa para o fazer. A indiferença do Governo é gasolina para o fogo que consome quem pode salvar as polícias.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico


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Mas o racismo não nos deixa ver, por isso, é lidar.

(Whale project, in Estátua de Sal, 04/02/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos sobre o fracasso do Ocidente na guerra da Ucrânia (ver aqui), e a outro sobre os 50 000 milhões de euros aprovados pela UE para a Ucrânia, ver aqui. Pela pertinência, neste momento, resolvi dar-lhe o destaque que, julgo, merece.

Estátua de Sal, 04/02/2024)


Isto não deixa de me fazer lembrar os tempos da troika. Quando foi negociado o primeiro grande pacote de “ajuda” à Grécia, um jornal noticiava que o presidente da Câmara de Atenas tinha ido jantar com uns amigos e, da ementa, teria constado lagosta. A coisa era denunciada como sendo um exemplo de desrespeito atroz pelos cidadãos trabalhadores do Norte da Europa, que iam emprestar dinheiro à nação perdulária. Eu presumo que o ordenado de presidente da Câmara desse para comer uma lagosta de quando em vez. Pelos vistos, o homem não fazia aquilo todos os dias, ou também teria sido noticiado. Mas, parecia que todos tínhamos de fazer uma espécie de penitência, sem poder comer o que nos dava na gana – mesmo que o nosso ordenado desse para, isso -, porque os nossos países tinham vivido acima das suas possibilidades e éramos todos um bando de chulos a explorar os pobres trabalhadores do Norte da Europa.

Tivemos ainda o Passos Coelho a sentir-se envergonhado porque na Madeira, após um jantar envolvendo responsáveis políticos, um turista finlandês bêbado, lhe perguntou se seria ele a pagar aquilo. Qualquer pessoa com a espinha direita teria o dever de mandar o nórdico fascista beber outro copo e apagar a luz. Mas o Passos ouviu calado e veio depois insultar-nos a todos.

Sobre a especulação financeira em torno das dívidas ninguém deu um pio. A dívida da Grécia chegou a ter juros de 100%. Claro que subiu, e muito. Aliás, quem questionasse os “mercados” só podia ser um malandro esquerdista radical. Mas, o certo é que em troca do dinheiro que nos emprestaram fomos obrigados a cortar no nível de vida. Na Grécia o ordenado mínimo desceu, as condições laborais se eram terríveis mais terríveis se tornaram: houve trabalhadores da hotelaria a morrer de pura exaustão. A Grécia tornou-se o pior país para trabalhar, de toda a União Europeia. Portugal era o quarto.

Em troca destes empréstimos fomos obrigados a desarticular os sistemas de saúde; com os cortes impostos, milhares de pessoas morreram por falta de assistência e por infeções hospitalares, porque nem lixivia havia. Voltaram a existir caldeirões da sopa dos pobres em plena rua, muita gente não aguentou e pôs termo à vida. Mas, tudo era visto como um castigo merecido pelos povos corruptos, que não queriam trabalhar.

O problema dos gregos, tal como o nosso, foi sermos poucos. Mesmo que viéssemos para a rua fazer barulho, o que são 20 milhões num império de 500 milhões? Por isso, fomos o laboratório na Europa de tudo quanto eram politicas neoliberais, à Pinochet, enquanto os dirigentes do Norte da Europa nos despejavam para cima todas as atoardas racistas que levavam, pelo menos no caso português, a população a autoflagelar-se e a achar que éramos mesmo todos uns malandros. Eu, cá por mim, só perguntava se esses malandros do Norte da Europa – quando para cá vinham beber que nem uns porcos e lavar-se no mar -, se serviam a eles próprios nos hotéis e restaurantes, e se eram eles que variam as ruas, recolhiam o lixo que faziam, e assim por diante. E, um dia, tive mesmo de fugir para não ter que ir às trombas a uma criatura que – a propósito do último balde de miséria lançado sobre a Grécia quando o Tsipras “rachou” -, disse o seguinte: “não vamos viver mal para eles viverem bem”. Eu tinha engolido uma reportagem, conduzida em 25 de Janeiro desse ano pelo José Rodrigues dos Santos, em que não faltaram fake news. Eu tinha enterrado, uma semana antes, um amigo meu que morreu, na última das misérias, por os cuidados de saúde estarem à míngua, como estavam. Por isso, foi levantar-me e literalmente fugir, porque vi vermelho.

Não nego que, tenha havido corrupção, tanto na Grécia como aqui. Pelo menos na Grécia, o artista que comprou quatro submarinos à mesma empresa alemã a que o Paulinho das Feiras comprou dois, malhou com os ossos na cadeia. O Paulinho das Feiras, esse, continua a dar-nos, até hoje, lições de moral.

O problema é que fomos alvo de um castigo coletivo. Gente que se levantava cedo para trabalhar teve a vida virada do avesso. Na Grécia recuperaram-se “receitas” do tempo da ocupação nazi. Sofremos um castigo coletivo, cruel e desumano, ministrado por uma cambada de racistas.

Mas agora, como a União Europeia continua a acalentar o sonho do Hitler de destruir a Rússia, enterramos rios de dinheiro num estado nazi, e ninguém faz perguntas. A mesma cambada de racistas, que quase nos matou à fome e à falta de tudo, desperdiça agora o nosso dinheiro numa cambada de racistas e nazis, que glorificam assassinos de outros tempos, como Stepan Bandera, e chamam aos vizinhos “pretos da neve”.

Tudo porque queremos os recursos da Rússia, porque sonhamos com a sua destruição – como sucedeu com a Jugoslávia -, e porque queremos pilhar os seus recursos. Se, no caso de Portugal e da Grécia, o que se pretendeu era vir a banhos bem mais barato, agora, com o apoio a nazis, o que se quer é a destruição da Rússia.

Isso já não pode ser escondido. Em 2022, a Ucrânia estava armada até aos dentes com tudo quanto era equipamento ofensivo, e o palhaço de Kiev prometeu – dias antes da invasão russa -, que no Verão teria armas nucleares. E para quê? Para enfeitar? Logo se arranjaria um pretexto para que as hordas nazis avançassem pela estepe e chegassem a Moscovo, que até fica ali bem perto. O sonho de Hitler, o sonho que os dirigentes alemães nunca deixaram de ter, o sonho de Napoleão seria finalmente cumprido. Teríamos todos os recursos daquele povo bárbaro – que nunca vimos como igual, desde que os andávamos a caçar com a ajuda dos tártaros.

A verdade é que o nosso racismo sempre transformou os russos em pretos. Por isso ameaçámos um país europeu com a destruição económica dizendo, com todas as letras, que se a Hungria tinha a pistola nós tínhamos a bazuca.

Isto vai durar até ao dia em que irá correr mal. Uma das razões, que fez muita gente na Grã-Bretanha votar Brexit, foi o conhecimento das atrocidades cometidas contra a Grécia. É que, se em Portugal somos uns tesos, mas muitas vezes vamos às Caraíbas porque lá é barato, os ingleses iam à Grécia. Viam e não podiam ignorar. Sem contar com as reportagens que mostravam a miséria negra que por lá se vivia. Uma colega de trabalho, num segundo emprego que tive por essa altura, contava que uma amiga que estava em Inglaterra lhe ligara, lavada em lágrimas, porque tinha visto uma reportagem sobre a Grécia, e perguntava se, em Portugal, também iríamos chegar áquilo. Isso fez muita gente ver que, se as coisas dessem alguma vez para o torto, não seria a União Europeia que iria ajudar. Por isso, antes só que mal acompanhado.

Ora, quando a teta secar – porque tem de secar -, também a Hungria, e provavelmente outros, vão fazer um manguito a esta mafia.

E, o que faz com que ainda aguentemos isto, é que a propaganda funciona em pleno. Tão em pleno, que ninguém se lembrou de perguntar ainda para que raio quereria a Rússia mais espaço e, ainda por cima, quase sem recursos nenhuns. Agora eles até têm a Crimeia e nem precisam de vir a banhos ao Sul. Mas lá andamos nós a dar dinheiro a fascistas corruptos. E, ai de quem diga que eles são corruptos: só pode ser putinista

Foi de racismo que se tratou, aquando do castigo coletivo que sofremos e é de racismo que se trata agora. E, se não está a correr como se esperava, talvez seja porque a Rússia é capaz de ter acordado para o perigo do racismo com o castigo que foi infligido a povos que pertenciam à Europa Ocidental. Não se tratou de árabes, ou gente do Leste como os jugoslavos.

Por isso os que sonhavam com o empalamento de Putin num par de semanas – vi muitos histéricos darem saltos que nem macacos -, veem agora que a coisa está para durar.

Porque a estação de serviço acordou para o racismo e tratou se de armar. Porque, sofrer a miséria da Grécia – num país onde as temperaturas no Inverno se contam por dezenas de graus abaixo de zero -, não era opção.

Mas o racismo não nos deixa ver, por isso, é lidar.


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